MEDITERRÂNEO



44 poemas
(Leça da Palmeira, Venade e Torre da Medronheira, 2012-2015)

Quetzal, Lisboa, 2016
direcção literária de Francisco José Viegas

encomendar na Wook


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CARLOS VAZ MARQUES, O Livro do Dia, TSF, 8.4.16
MEDITERRÂNEO


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JOSÉ MÁRIO SILVA, Expresso, 19.3.16
ONDE A OLIVEIRA SE DETEM
«No livro anterior de João Luís Barreto Guimarães, “Você Está Aqui” (o primeiro a surgir depois da “Poesia Reunida”, publicada em 2011), a estrutura assentava numa dupla epígrafe de Miroslav Holub. Agora estabelece-se igualmente um percurso entre duas epígrafes, desta vez de Predrag Matvejevitch, autor do “Breviário Mediterrânico”. Diz a primeira: “Não sabemos ao certo até onde vai o Mediterrâneo.” E a segunda: “Os sábios da Antiguidade ensinavam que os confins do Mediterrâneo se situam onde a oliveira se detém.” 
As duas frases parecem contraditórias, mas não são. Porque o Mediterrâneo de que fala Matvejevitch, e que é a matéria deste livro, vai muito além da geografia. É um estado civilizacional e uma arte de viver, sem fronteiras definidas. É uma paisagem afectiva, um modo de inscrição no mundo. A cada pessoa, o seu Mediterrâneo. E JLBG mostra-nos o dele, depois de muitas viagens, derivas e observações, transfiguradas por uma arte poética de elegância elíptica.
O principal instrumento do poeta é a atenção extrema ao que o rodeia. Pode ser a múmia de um gato num museu de antiguidades egípcias em Turim, a “cúpula celeste” em Rodes, ou o “silêncio dentro do silêncio”. Mas também podem ser coisas mais subtis, em que pouca gente repara: nomes de amantes escritos nas folhas de um cacto; a “dança” de um barco à vela nas vagas de Míconos; o rasto deixado por um gesto; a pose de um imperador romano que desenhou os confins do império mas soçobra no anverso de um denário, “afagado pela merca”. Coisas inefáveis como a última luz na praia (“se eu não guardar num poema esta hora atravessada / nem ela nem esta tarde alguma / vez existirão”) ou a epifania de que é preciso estar à espera, “esse instante indivisível (insondável / fotográfico) que / dissolve carne e tempo numa / alegria química”.
Sobre este canto de amor à cultura mediterrânica não paira o espectro da solenidade, e menos ainda quaisquer sombras de grandiloquência, porque o poeta nunca se põe em bicos de pés nem alardeia erudição. Muito ao seu jeito, desmonta essa ameaça com o recurso ao humor, à ironia, e a um espírito lúdico, um gosto pela brincadeira e pela experimentação. Quando se fala da presença paleolítica no vale do Côa, por exemplo, o discurso interrompe-se porque o poeta está a beber vinho ao mesmo tempo – um Douro (“Reserva 2009 14% vol.”) – e o torpor etílico intromete-se. Há um poema sobre uma viagem de TGV, entre Málaga e Córdoba, apresentado como um problema de Física. Outro, sobre Malta, está alinhado à direita em vez de à esquerda, porque por lá se conduz à esquerda em vez de à direita (questão de simetria). Tão depressa se fala de estátuas “a que faltam bocados”, ou de uma “ruína em ruínas”, como de objectos banais e quotidianos: as perucas das senhoras em quimioterapia, com direito a ida ao cabeleireiro para “se sentirem refeitas”; ou a chávena por onde passa tanto café durante um dia que “logo mais (tenho a certeza) não / vai conseguir adormecer”.
O Mediterrâneo de JLBG é um território mental, que vai de Jerusalém a Marraquexe, do deslumbramento dos “turistas pagãos” diante da “beleza agnóstica da pedra” à consciência de que as coisas essenciais, de alguma maneira, permanecem sempre: “Este é o mar de Ulisses (o / que Xerxes vergastou) um mar que / não é passado / (porque o passado é presente) onde o / tempo passa lento porque avança parado”
 
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BERNARDO PINTO DE ALMEIDA, texto de apresentação de "Mediterrâneo", Porto, 15.04.16
O POEMA DAS PEQUENAS FORMAS
«Aludir ao Mediterrâneo — como desassombradamente o fazem tanto o título quanto muitos dos belos poemas que se juntam no último livro de João Luís Barreto Guimarães — é, muito mais, e também muito menos, do que simplesmente referir um conceito e um espaço, seja este geográfico, estratégico, cultural ou económico.
Muito mais porque, no fundo, este termo recobre todo um significado histórico e civilizacional antiquíssimos, e muito ricos de significações e de memórias, a que os demais se ajustam, e que se desenrolaram em torno desse mar que banha, ao mesmo tempo, o sul da velha Europa e o norte de África. Um mar que une e desune, fere, opõe ou concilia vários modelos de vida e pensamento, diversas religiões e formas de agir e, bem assim, economias e modelos de organização humana e social que se desenvolveam por mais de três milhares de anos.
Pois o Mediterrâneo — talvez o único dos grandes mares cuja dimensão não chegou para ser chamado oceano, e cada um tratou como um lago, mas todavia foi fonte e elemento fundador de civilizações — tanto foi o mar de Aquiles, Hércules, Vénus ou Neptuno, como o de Augusto e Adriano; dos Filipes como dos Persas, do desembarque Aliado contra o império do mal Nazi, como dos trágicos migrantes que diariamente ali se sujeitam ao naufrágio inglório, para fugir a destinos ainda mais cruéis, que a loucura humana lhes traçou, contra toda a decência e contra toda a bondade. Que tanto serviu a mitologia grega e romana, como banhou cenas bíblicas, encenando muito do seu lastro histórico.
Muito menos, porque hoje ele serve também, na confusão babélica do mundo global, de argumento histérico à promoção turística de sentido cultural menor; ao nome de uma dieta que ninguém realmente identifica ou, pior ainda, de pretexto vão para umas quantas canções românticas, a bordo de frágeis barcos do amor que o tempo imediatamente afundará no mais turvo esquecimento.
E de tudo isso este livro (se) dá subtilmente conta, mas sem jamais pretender à erudição, que nos permite nas entrelinhas avistar, mas que não o tolhe, sem querer descrever lições de história, mas profundamente as acolhendo, até como parte do seu corpo mais íntimo e secreto, e seu lastro de memória densa.
Breviário do Mediterrâneo chamara Predrag Matvejevitch a um belo, complexo livro, que alude a toda esta riqueza — de que tão pouco o nosso poeta desdenha, e que jamais esquece — o que não surpreende vindo de um bósnio e que, não por acaso, aqui aparece chamado em epígrafe, e depois de novo no final, já a encerrar o livro, para lembrar que os sábios antigos ensinavam “que os confins do Mediterrâneo se situam onde a oliveira se detém”. Abrindo, pois, os limites geográficos dessa região mítica, à contingência leve, fortuita diria Lautréamont, da presença incerta de uma árvore milenar que, também por isso, pode encontrar terreno fértil em quase todo o lado, já que vem desde a orla do deserto e depois se estende para longe, até às portas dos mares do norte, muito afastada já de toda essa paisagem que uma luz doirada parece separar do restante mundo.
Qual nome mágico, Mediterrâneo opera pois, aqui, como metáfora alargada, expandida, da própria poesia, ou do espaço de criação poética e poemática. Já que, também esse, é um espaço de confins difusos, abrindo-se, e como já o mostrou Pound, tanto à grande tradição das vozes do passado — dos cantos de Orpheu às litanias berberes, da Odisseia de Homero ao cante jondo que Lorca melhor que ninguém celebrou — quanto às formas mais inovadoras que ainda hoje procuram aprofundar esse acto transformativo que Julia Kristeva designou, em tempo já distante, como da “revolução da linguagem poética”, e que inscreve todavia as funções simbólicas que se esperam do poema desde a modernidade.
Trata-se pois de definir o que é propriamente da ordem da invenção de um espaço geopoético — e lembremos, muito de passagem, a insistência de Gilles Deleuze em fazer corresponder o espaço literário mais à geografia do que à história — e que se constitui como esse, apenas adivinhado, ou sugerido, que se estende no tempo (histórico, cultural, civilizacional), mas também no espaço e  comporta muitas e variadas tradições, crenças, falas e vozes actuais e arcaicas.
É assim que se pode ler, num poema como o que ficou chamado “Ainda ontem no Pocinho”, uma alusão, inesperada mas coerente, a essa vasta geografia que, para o Poeta, parece chegar a estender o ‘seu’ Mediterrâneo até ao nordeste interior, mais celta. E onde, numa toada que evoca a de uma velha canção de Brian Eno, escreve: “E/aqui estamos (tu e eu) nómadas/neste rio sagrado onde um primo nosso afastado/(alguns 30/mil anos) deixou picotado em pedra/num mágico altar de xisto este/casal/de cervídeos (se não em/pose ousada para o que deve um santuário/pelo menos dando a ideia de estarem ali naquilo/já desde o/Paleolítico)”. Uma dupla alusão ao tempo — o de chronos e o de kairós (aqui figurados como o de ontem e o de há trinta mil anos) — e às suas teias múltiplas, no interior das quais se assiste ao que descreve uma banal troca erótica, em feliz sucessão de imagens que associam as duas instâncias, temporal e física, numa lógica do efémero (e no entanto eterno) abraço amoroso, seja este humano ou animal. Mas que, por produzirem esse sentido de movimento, espacio-temporal, abrem para uma espécie de forma cinemática, que a poesia vem requerendo desde o início do século passado com crescente urgência.
Funda-se então nisso outro sentido do tempo, visto do lado da continuidade, e mesmo da ancestralidade, do mundo como das espécies, que nos é mais verdadeiro e profundo, em si mesmo, do que todo o entendimento racional. E como se, poeticamente ao menos — e mesmo se este é, como muitos do autor, um poema filosófico — o sentido do mundo fosse muito mais esse, afinal, do que qualquer outro. Nega-se também assim, nele, qualquer metafísica do amor, já que tudo nos aparece reduzido, agora, ao simples jogo antiquíssimo de um tu e de um eu, que espelha o dos dois pobres cervídeos gravados na pedra por um primo, antepassado, remoto. Uma imagem que descreve o mundo numa acepção de modéstia de uma escala humaníssima, em que se rejeita de vez todo o ímpeto declamatório de grandeza, ligado à forma clássica, e mesmo à modernista. Para que, através desse sentido deceptivo, capaz de aeeitar a banalidade do mundo, se possa chegar a encontrar espaço para o que é próprio do contemporâneo, essa medida rasa do mundo que vamos aprendendo a aqui se professa.
Mas estas “navegações” — e o termo, que evoca uma longa tradição da poesia portuguesa, e mesmo europeia, que vai de Camões a Pessoa, de Sophia a Sena, ou também de Eliot a Kavafis, é também um dos sentidos mais fortes que toma aqui essa alusão ao mar — podem ver-se como a forma de procura de um limite geográfico que se pode deslocar até ao lugar em que vamos visitar, pela mão do experimentado viajante, feito Ulisses, uma improvável múmia egípcia. E que repousa, entre outras, ao menos desde Schiaparelli, nos acervos riquíssimos do belo Museu das Antiguidades de Torino. Que nos mostra como, “Envolta em metros de linho numa urna/de madeira/(dentro de um sarcófago de pedra dentro/de uma tumba cerrada) uma/múmia/não torna fácil o regresso ao corpo/da alma.”. Trata-se, na verdade, de uma subtil meditação sobre a vida e a morte, disfarçada embora na simplicidade daquilo que o título designa como A vida quotidiana da alma. Um poema em que, com a ironia e distância próprias desta poética, Barreto Guimarães mostra como, mesmo sem se atar na teia ecfrástica, o poema se pode reconstruir como forma cinematográfica, que dialoga com essa outra fonte — bastaria recordar, em socorro desta ideia, a comovente Viagem a Itália de Rossellini, e a cena passada no Museu Arqueológco de Nápoles, para o evidenciar — já que toda a imagem poética actual exige tal correspondência.
Mas quando, em “O esquema das coisas”, o Poeta diz: “navegamos o dia inteiro pelo estreito/de Messina (longe de guerras antigas onde/as pedras voavam)” ou quando adiante refere, numa breve canção mediterrânica, que “Já/tudo vimos, tudo provámos, tudo escutámos/(odes à vitória por Píndaro/vinho e azeite extraordinários) nas/encostas onde Zéfiro traz às velas desde oeste/um cheiro húmido e/gelado. (…) Agora é a vez de deixar/que seja o mar a tocar-nos (o/mar interior primitivo/o caldo primacial)/ontem rasgado por remos da Fenícia até/cartago…”, é de facto ao desfazer da matriz clássica, e mesmo modernista, para sempre perdidas, que ele alude. Todos os seus poemas nos falam afinal dessa dimensão ruinosa, em que se demonstra como o tempo actual, e mais em geral o contemporâneo, quando abriu os olhos, foi para contemplar um mundo em que toda a forma fora já devastada para sempre pelos ventos da ruína.
Esta “meditação sobre ruínas” — para retomar um belo e recente título de Nuno Júdice, poeta que antecede de uma geração a de Barreto Guimarães mas que inevitavelmente a marcou — faz-se em torno do mais arruinado dos mares, mas também daquele que melhor sintetiza uma imagem da grandeza passada da Europa e das suas vicissitudes, desde a ascenção e queda dos seus impérios até á forma desfeita dos seus sonhos e quimeras. E como poética, então, não só contém como sobretudo exprime, no seu forro mais recôndito, uma dimensão de funda meditação política e mesmo antropológica.
Política, desde logo, porque nela se esboça o sentido e a procura de uma nova forma de relação entre os homens neste mundo (que o homem ainda pode habitar como poeta, mesmo que sem grandeza, e para evocar Holderlin), isto é neste mundo que herdámos, e que dia após dia enfrentamos. E antropológica, porque essas novas formas de relação e de hábito são, justamente, aquelas que servem para acolher a identidade, doravante sempre provisória e sem grandeza, desta qualqueridade que é própria do homem contemporâneo e a que nos vamos rapidamente habituando. Do refugiado ao migrante, daquele que chega dos subúrbios à senhora num coma hospitalar que, ainda assim, um qualquer sistema de saúde há-de socorrer se não restar qualquer outra forma, mais alta, de humanismo. Um mundo, portanto, de que desapareceu de vez o traço do heroicismo humanista que a matriz clássica e modernista ainda autenticavam.
Nos sucessivos poemas, o Poeta alude a um tempo que foi, e que desaparceu para sempre. E, quando se centra sob o seu próprio tempo, ainda presente, fá-lo sempre a partir da consciência da sua edificação sobre um tempo anterior que já não é, que está reduzido a ruínas. Essa consciência ou sentimento montaleano do tempo, porém, é matricial a toda a sua poética em que, como se sobre um tabuleiro de espectros vemos surgir, a par, figuras que emergiram de sucessivos incêndios, formas que ruiram e de que já só restam sombras, ou fantasmagóricas aparições. Essa é, porventura, a dimensão maior desta poesia que, sem pretender fugir à memória da sua própria tradição, brande corajosamente uma capacidade notável para lidar com as formas desse mundo em ruínas.
Como quando, no poema chamado “Êxtase de Santa Teresa”, em alusão despudorada à escultura do Bernini que se guarda em Santa Maria della Vittoria, em Roma, se permite, em desabafo quase demasiado humano — diria Nietzsche — invejar “o tempo que ela já leva naquilo” numa meditação desdenhosa.Ou como também, no breve poema “Judeus errantes”, se apercebe de haver uma continuidade, que é ao mesmo tempo paradoxalmente trágica e histórica, no destino daqueles, e que os transporta afinal semelhantes em destino desde o antigo Egipto, conduzidos por Moisés através do Mar Vermelho, até à viagem para Auschwitz, agora sob o jugo do holocausto e da barbárie moderna.
Na sua economia irónica, estes poemas assinalam pois a emergência de uma forma típica da contemporaneidade, que é a nossa verdadeira condição, numa visão do mundo que se apreende erguido sobre as ruínas. Em que se acolhem tão serenamente quanto é possível as diferenças e as descontinuidades que a história foi gerando, e de que Auschwitz justamente se constituiu como a mais poderosa e cruel metáfora. Sem o julgar demasiado, nem lhe procurar perdão.
E uma vez que esse acontecimento trágico parece justamente ter destruído — graças à violência da sua funda inumanidade — o que era a bondosa e doce herança mediterrânica do humanismo europeu, civilizada até nos hábitos do mais humilde povo, e diluída nos seus ancestrais costumes, e que estes poemas ainda procuram salvar numa arqueologia afectuosa, para dar antes lugar à crispação contemporânea, baseada no medo e na urgência.
Aquela que para tudo encontra equivalência na linguagem exausta, prosaica, neurótica, da finança, do poder e da usura. Um mundo no qual se desvaneceu todo o prestígio da lírica e da épica antigas, para dar lugar a outros, porventura mais ruidosos, menos exemplares, diante dos quais apenas podem emergir as pequenas formas. E os poemas de pequenas formas que as dizem e repercutem. Mas, também, um mundo onde a poesia ainda se pode reinventar sob o sal, ou sob as areias, mesmo no meio do deserto.»


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SOUSA DIAS, texto de apresentação de "Mediterrâneo", Porto, 15.04.16
CHAMAM-LHE EPIFANIA MAS É MUITO MAIS DO QUE ISSO
«Mediterrâneo é o nono livro de poesia de João Luís Barreto Guimarães, depois dos sete primeiros reeditados em Poesia Reunida (2011) e do recente Você Está Aqui (2013). E diga-se de imediato. Não se trata apenas de mais um livro – o que mesmo assim não seria pouco – de um dos poetas maiores da actual literatura portuguesa. Trata-se da melhor obra do autor, culminância da sua forma sempre mais depurada ou abreviada de expressão poética e sistemática afirmação de uma tendência já legível no livro anterior mas que aqui transparece, e não por acaso, logo no título. Da tendência desta poesia de instantes, de súbitos momentos de revelação do inefável no mais irrelevante do vivido, a extrair agora esses instantes de «alegria química» (poema «Linhas sobre a duração») não tanto da melancólica rotina dos dias, ou de «uma réstia de tarde por resolver» (poema «História de uma tarde»), mas de impressões soltas de viagens, de vivências espalhadas por múltiplos lugares de passagem, de toda uma geografia, sobretudo europeia, agora interior a esta poesia.
Desde o sexto livro, Rés-do-chão (2003) que JLBG parece ter encontrado a sua forma, o seu estilo, o seu tom original: poemas breves em que a centelha poética se acende, por magia das palavras, de uma discursividade dir-se-ia não poética, rente à prosa, centelha essa que transforma uma linguagem noutra linguagem, uma realidade (prosaica) noutra realidade (poética). Cada um desses breves poemas propõe-se como uma espécie de captura, nas palavras, da contraface inefável de vulgares situações quotidianas, como fixação, num dizer, do indizível de um instante «insondável / fotográfico», de um instante poético intuído «à revelia do dia», como se diz num poema atrás citado deste novo livro («Linhas sobre a duração»). O que se explicita com toda a clareza num verso do outro poema já citado: «procuro o inefável na espessura da tarde» («História de uma tarde»). Retenhamos entretanto o adjectivo «fotográfico». Porque tal é a característica mais manifesta, mais evidente, desta poesia: flashes poéticos homeofotográficos, poemas escritos por analogia com os instantâneos da fotografia, e que são o traço literário singular, a assinatura única, de JLBG. O que significa que esta poesia, avessa a formalismos poéticos auto-suficientes, a exuberâncias pirotécnicas da linguagem e à confusão da alquimia poética da língua com essa pirotecnia, exibe uma pulsão realista, uma vocação congénita para o real e, mais ainda, para o real mais comum, mais prosaico, para o raso real quotidiano. É, repita-se, uma poesia de instantes, da brusca transcendência poética intuitiva, só visível ou sensível para o poeta, de uma realidade concreta ou de uma circunstância vivida banais, da parte inexplicável ou de «mistério» (cf. poema «O telhado do mundo») de tudo, até das coisas mais simples, da sua parte sensível mas ininteligível. Uma poesia, em suma, como fotografia por palavras de um excesso a si mesmo do real, como restituição pela linguagem de um suplemento enigmático do real irrestituível, infotografável, pela fotografia propriamente dita. Essa característica «fotográfica» insiste, poema a poema, e até por vezes auto-enunciada, auto-reflectida, nos poemas deste livro.
Até aqui o lado de continuidade do livro com a obra precedente do autor. Mas, por outro lado, em Mediterrâneo os poemas, sempre breves, sempre cristalizações de instantes na câmara escura, necessariamente inobjectiva (intransparência do sentido), da poesia, apresentam-se como photomatons poéticos de um poeta «turista», de um poeta viajante, viajando por locais históricos mediterrânicos numa viagem que o é tanto no espaço como no tempo. Os locais aqui nomeados, ruínas, templos, igrejas, museus, peças de arte, etc., não remetem para óbvias referências turísticas circum-mediterrâneas sem remeterem também para folhas ou estratos do tempo. Não de um tempo qualquer, mas do tempo geneticamente e heterogeneamente folhado, estratificado, da nossa espiritualidade europeia, do espírito colectivo europeu. De facto o mar mediterrâneo invocado no título, e horizonte do itinerário poético do livro, não é tão-só o mar geográfico mas o espaço civilizacional euro-asiático e norte-africano envolvente do qual decorre, como determinidade espiritual, aquilo a que chamamos Europa. A Europa não como mera geografia, ou como comunidade económica e monetária, mas, precisamente, como espírito, como a «linfa comum» dos rios europeus, na feliz expressão do poema «As ruas estão acesas». Mediterrâneo organiza-se aliás de uma forma menos geográfica do que geológica, estratigráfica. Há o estrato mediterrânico pagão, mas também hebraico e islâmico, da antiguidade clássica (partes I e II), o estrato cristão da Europa medieval e científico da Europa moderna (parte III), o estrato contemporâneo do extravio da Europa do seu espírito, extravio simbolizado nos campos de concentração da Alemanha nazi (poema «Judeus errantes») e, em termos actuais, pelo Deutsche Bank (poema «As ruas estão acesas») e pela transformação do Mediterrâneo num cemitério de refugiados (poema «Pode ser Pepsi?») (parte IV). Mas não estamos a falar de um livro de história, ou de teoria, mas de um livro de poesia. E é este o lado inovador, a original sobredeterminação destes poemas «fotográficos»: trata-se ainda e sempre, em cada um deles, de reter a «densidade» ou o «lume», como aqui se diz, de certos instantes, só que agora a maioria desses instantes epifânicos não se destaca apenas do fluxo do tempo quotidiano mas simultaneamente do fundo de um outro tempo para lá desse tempo líquido, de um tempo de pedra, petrificado, preservado quer nos testemunhos arquitectónicos, artísticos, museológicos, etc., visitados pelo poeta, quer na matriz mediterrânica, na mediterranidade abstracta, da alma europeia. É o peso da História, da sua presença, dos seus vestígios gloriosos sobreviventes do seu «lodo» de esquecimento (poema «O lodo da História»), sobre o qual vem agora pousar o peso próprio do instante presente arrancado por condensação poética da liquidez do tempo. Condensação essa que um poema formula em versos esplêndidos: «(…) é necessário um peso de / mágoa acumulada para / que uma gota de chuva se disponha / a ser lágrima (…)» («Segunda parte da vida»).
Não obstante a arrumação geológica da maioria dos poemas do livro, outros há, em cada uma das partes, exteriores a essa geologia, à lógica dos estratos. São ainda fotopoemas de instantes desprendidos da irrelevância dos momentos mais quotidianos, da dissipação sem rasto desses momentos, pequenas histórias sem História algumas das quais ao nível das melhores poesias do livro. Caso, por exemplo, de «Em segunda mão», do comovente poema à memória de Paulo Cunha e Silva «Aquilo que é infinito» e, talvez o mais belo de todos, de «O gato não quer movimento», que lembra, até pela excelência, os poemas de Manuel António Pina sobre gatos: «Longas tardes passa o gato espojado / a meditar (de quem é o gato o espectro / cabe ao gato / revelar). A manhã inteira ocupado a / anular movimentos / (uma folhinha pelo chão / a teimosia do vento) coisas / que façam barulhos ou se movam insistentes: / no seu território / não. / Ruínas a toda a volta. Silêncio / dentro do silêncio. O / próprio tempo parado para / dar o exemplo».
Por outro lado, transversal à generalidade dos poemas do livro, e traço desde sempre essencial desta poética, o humor. O sentido de humor mas, mais ainda, o humor como sentido, produção de sentidos poéticos paradoxais. E já esta expressão é equívoca, um verdadeiro truísmo, porquanto o sentido, em qualquer ordem discursiva, é necessariamente paradoxo, sentido produzido contra a doxa, contra o «sentido» aparente das coisas ou senso comum, e a fortiori na poesia, em que se trata de aceder a sentidos não prosaicos das coisas prosaicas, a uma «poeticidade» das coisas como sua dimensão ontológica obscura, inexplicável, irreconhecível pela sensibilidade profana. Formidável humor recorrente destes poemas de JLBG, o humor, também ele, como paradoxo, revelação de um extra-sentido propriamente poético das coisas e do vivido para lá do seu sentido banal. Mas uma revelação que há que produzir, que condensar como atrás se afirmou, que só se revela, só se «oferece», na medida em que a linguagem a revela, que só existe nessa exacta medida das palavras reveladoras, ou «entre» elas (pois que a genuína poesia consiste sempre em dizer algo que por natureza excede o dizível, todo o poder da linguagem, e que apenas se deixa dizer nos interstícios das palavras, como um silêncio aberto nelas ou um além delas). Não há revelação poética sem essa prova linguística do impossível, da impossibilidade de dizer o que todavia há que dizer e que sem esse dizer não chegará a existir: «se eu não guardar num poema esta hora atravessada / nem ela nem esta tarde alguma / vez existirão» («História de uma tarde»).
Ou seja, não há poesia sem a consciência do conflito absolutamente aporético entre a sensação a exprimir pela linguagem e a sua indizibilidade, entre a língua e ela mesmo, sem o poeta, palavra a palavra, «lutar contra o poema» («Segunda parte da vida»). Poesia, ofício de paciência na imagem de Eugénio de Andrade, criação operária, tudo menos inspiração. «(…) chamam-lhe epifania mas / é muito mais do que isso», nos termos do próprio JLBG num dos poemas deste livro («Linhas sobre a duração»). Certo que, conforme o mesmo poema, o instante da sensação poética é «uma oferta da tarde». Mas uma oferta que acontece nas palavras, que é sobretudo o instante em que a sensação se faz palavra, e esse fazer requer uma sensibilidade excepcional, tanto à realidade como à linguagem, uma atenção ou expectativa «para o caso / de» (ibidem) (desse acontecimento), uma espera mas não passiva, uma espera activa: «é / preciso estar à espera para o poder perceber / (esse instante provisório não se faz anunciar) / (…) / É preciso estar à espera para o poder intuir» (ibidem). Dessa intuição, e da sua restituição numas poucas palavras «fotográficas», da experiência do inefável escavada na linguagem, são tecidos os mais belos textos deste Mediterrâneo.
Um grande poeta é, entre nós como lá fora, um ser muito mais raro do que se pensa. JLBG mostra aqui, se dúvidas ainda houvesse, que é um grande poeta.»


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