A PARTE PELO TODO

27 poemas

1ª edição, Quasi Edições, V. N. Famalicão, 2009
capa de [K] fábrica mutante a partir de estudo para «A Ilha dos Mortos» de Arnold Böcklin
direcção literária de Jorge Reis-Sá

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§



PÁSCOA BAIXA


Durante a manhã inteira a barba
ainda cresceu. O vórtice que me picava
ao fim de um dia de trabalho
já o posso adivinhar
neste círculo de flores.
O seu torso é imóvel. Nada
diviso a mover-se (um relâmpago das pálpebras?
o pensamento de um dedo?)
velo a hesitação da barba qual
néscio agarrando tempo.
Durante a manhã de março a
barba ainda cresceu
qualquer coisa dentro dele ainda
não queria morrer.



§



O SR. PIO


O sr. Pio engajou um emigrante de leste
para ajustar a relva alta do jardim
de verão. Era um efebo esguio (albino
meio calado) portanto chamava-se
Igor. Igor
estava sempre com fome. Pudera: o
Pio não pagava. Nem pão d’ontem
lhe estendia. Certa vez sai de mim e
zás!
um pão com chouriço. Foi então que aconteceu
esta coisa extraordinária (pelo menos para mim
que estou a escrever o poema:)
Stanisláv olha para mim e só me diz isto:
«spaciba». Ora o que é que isto quer dizer? Por exemplo:
que Andrei ficou tão agradecido
como quem foge da guerra. Quando ao comrad Pio:
nada!
(o poema não é sobre ele). Falta dizer que
Andrei Igor Stanisláv
fora enfermeiro na Rússia. Quando se aleijava a sério
na tesoura de podar
zás!
urdia seu próprio curativo.



§



POEMA


Quem vai do Porto para Leça ao
longo da auto-estrada (avistando
os navios sobre o porto de Leixões)
no fim da ponte à direita vira
para o centro hípico
(serpenteando a avenida tendo
por bombordo o cais)
adiante vê o forte da Senhora das Neves
alguns metros à frente começa
a marginal. Daí já se vê o farol
para lá dos prédios brancos
não é difícil achar lugar para estacionar.
Toca no sexto direito. Estou
sempre por aqui. Ou senão
não venhas hoje.
Faz como te apetecer.


§



MANUEL ANTÓNIO PINA
, apresentação na Feira do Livro do Porto, 06.06.09
«Quem me conhece sabe que não gosto de "apresentar" livros e que penso que os livros não precisam de "apresentação" e se apresentam a si mesmos. Pior, no meu caso, é que os livros apresentam sobretudo o apresentador. Por isso, muito raramente tenho a dizer o que quer que seja sobre um livro, e o meu embaraço (que é quase sempre uma forma de impaciência) quando tenho que falar acerca de um livro refugia-se regularmente numa distância o mais amável possível. Mas hoje é um dia especial para mim, porque este, o livro que aqui me cabe, digamos assim, "apresentar", é algo sobre que sinto que poderia falar – sobretudo comigo mesmo e com ele, livro – durante horas seguidas. Fui literariamente educado na suspeita dos adjectivos. Hoje julgo que é insensato menosprezá-los, e quem leu, por exemplo, Borges há-de decerto ser da mesma opinião. Permita-se-me, pois, que me comprometa desde já – eu que, por pudor, tanto procuro evitar comprometer-me – com um adjectivo: o livro que venho aqui "apresentar" é, na minha opinião, um livro admirável. [Nesta altura, um desses gestores ou académicos – que nem sempre são coisa diferente – que participam em congressos diria: "Passo a explicar porquê". Não irei explicar coisa alguma, nem saberia como fazê-lo. Sou apenas um leitor de livros de poesia, e um leitor de poesia ambiciona permanentemente encontrar livros admiráveis e, quando os encontra, reconhece-os, ou julga reconhecê-los. O que é o mesmo que dizer que se reconhece a si mesmo neles, sem precisar de saber porquê]. Eu sou um leitor feliz de poesia. Ao longo da vida, muitas vezes por acaso, encontrei muitos livros admiráveis de poesia, ou encontraram-me eles a mim, ou – desculpe-se-me se insisto na minha relação especular com a poesia – encontrou-se o meu rosto diante de si mesmo neles. Foram, como disse, quase sempre encontros inesperados. Aconteceu-me com Emily Dickinson, Anna Akhmátova, Marina Tsvétaieva, Wislawa Szymborska, Sylvia Plath, Daniel Faria, até com um poeta marroquino praticamente desconhecido chamado Abdullah Zrika, com cuja poesia esbarrei um dia de repente numa pequena biblioteca de Périgueux. Foi com esses e com outros que eu constituí a minha própria família poética, usando a expressão no mesmo sentido em que se diz que um filho se autonomiza da família paterna em cujo seio foi gerado – no meu caso a de Cesário, Pessanha, Pessoa, Ruy Belo, Rilke, Eliot, tantos que, como Dante, "nunca pensei que a morte tivesse levado tantos" – e gera os seus próprios filhos. "A parte pelo todo", de João Luís Barreto Guimarães – cuja poesia, no entanto, há muito conhecia e estimava – apanhou-me também como uma espécie de "coup de foudre". E talvez depois desta deambulação sobre a minha família poética se perceba, e possa percebê-lo eu próprio, do que falo quando falo de um livro admirável. Porque se trata de um livro que, simultaneamente, me confronta e onde me reconheço, o que quer dizer nele me reconheço como outro e como mesmo. Não acredito (não é uma questão de fé, é uma verificação da experiência) na sinceridade em poesia, acredito na memória. A má poesia, diz cinicamente Óscar Wilde, é normalmente sincera; o que não quer dizer que toda a poesia sincera seja necessariamente má, e constitui apenas uma verificação estatística. A literatura é, como diz Blanchot, ilusão. Eu diria o mesmo de outro modo: é memória, construção, fingimento. A poesia não exprime, como ensina Valéry, os estados ou sentimentos poéticos de quem escreve, mas – pelo menos a melhor – gera, provoca, estados poéticos em quem lê, independentemente do que terá ou não sentido o poeta. "Sentir, sinta quem lê", proclama Pessoa. Para os românticos (e românticos, ou seus herdeiros, todos nós somos, ou ainda menos) a dor é a mãe de toda a verdadeira poesia. Mas a dor e o sofrimento sinceros, são a mãe, o pai e a família toda da maior parte da má poesia que se escreve. Muita da grande poesia pode ter nascido da dor, mas o que a autonomiza da dor e a diferencia do mero espasmo doloroso é o fingimento, a capacidade de o poeta fingir "a dor que deveras sente" tornando-a poeticamente verdadeira. A poesia é forma, e essa é a sua verdade. Se a dor do poeta que eventualmente terá gerado o poema é "verdadeira" ou "falsa", a sua verdade por assim dizer "vivida", é assunto do foro íntimo dele, com interesse apenas para a sua biografia, ou, como diz Jacobson, para a Medicina Legal. Algo semelhante se passa com os sonhos. Temos medo e, à maneira de Borges, sonhamos com a Esfinge. A verdade primeira, inicial, biologicamente e psicologicamente vivida, é o nosso medo. A Esfinge é a forma que, no sonho, o nosso medo toma. Também ela é assustadora, mas de diferente e incoincidente modo, de um modo, digamos assim, segundo. O poema é que tem que ser "verdadeiro", não o que o poeta sente. "Je poetischer je whãrer", diz Novalis; ou seja, "quanto mais poético mais verdadeiro". Não decerto "quanto mais verdadeiro mais poético"… Por tudo isso, abri desconfiado este "A Parte pelo Todo", um livro assumidamente "sobre" (poesia "sobre", raio de palavra!; mas não me ocorre outra agora) a morte do pai, por mais vastas que sejam as conotações simbólicas em torno de conceitos como este. Um livro assim afrontava (melhor: afronta) uma das raras convicções que tenho acerca da poesia e, em geral, da literatura. Como é então possível que, nele, como acho que já antes disse, tenha reconhecido o meu próprio rosto poético? E porque é que há por aí tantos livros que se oferecem inteiramente àquela minha imprecisa convicção e não tenho, nem quero ter, nada com eles? Ninguém gostaria de saber isso mais do que eu. Talvez, mas como posso sabê-lo?, porque este seja um livro que, ao mesmo tempo, se me oferece e se me furta; talvez porque seja tão sofrido nas palavras e na sua construção poética como nos vividos sentimentos que sobre ele, como uma sombra, permanentemente pairam; talvez porque, como nos grandes e desrazoáveis amores, eu pressinta que há nele algo, como explicar-me?, uma forma, uma "maneira de dizer", uma música interior, onde não posso alcançar. Estou certo de que muita gente lerá este "A parte pelo todo" e não escutará essa música, essa forma. Julgo saber que houve até um editor de poesia de quem se esperaria que fosse um pouco menos duro de ouvido (e tenho que felicitar o Jorge Reis-Sá por patentemente o não ser; que diabo!, ouvido é o mínimo que é suposto que um editor de poesia tenha!).
Referi-me há pouco a Akhmátova a propósito de coisa nenhuma, e de certeza que não a propósito de João Luís Barreto Guimarães ou de "
A parte pelo todo". Mas, de repente, ocorre-me a dor de Akhmátova urrando pelo filho sob as muralhas do Kremlin. O poema de Akhmátova não nos diz que sofre; a sua dor é terrível de mais para ser dita, é coisa impartilhável. Não é a sua dor o que escutamos, é a dor das suas palavras, e só quem não sabe nada de palavras julga que as palavras não sofrem. Ocorre-me, dizia, a dor das palavras de Akhmátova. A dor das palavras de João Luís Barreto Guimarães é de outro tipo, mais recolhida, mais interior, quase silenciosa, ressentidamente, como dizer?, mansa, respirada, às vezes impenetravelmente lúcida, feita de palavras de memória mais do que de revolta, e forçando por isso mais por dentro do que por fora a boa ordem da linguagem poética hoje dominante. Esse ressentimento vê-se na ironia culpada de poemas como "Introdução ao niilismo", em que o poeta tenta ligar – expressão por assim dizer telefónica, mas que invoca a própria ideia literal de religião, de re-ligação – a um Deus "sempre ocupado", em títulos como "Vasilhame" ou o equívoco "D.N.A.", ou em versos como "quando descia aos arrumos era o que acontecia", "Deus e o / meu pai morreram no mesmo dia", ou ainda "enquanto a Mãe aturdida à pergunta das gavetas / por uma que vá camisa com a gravata / que entretanto", dos mais magoados versos da poesia portuguesa nossa contemporânea e não vou explicar porquê, basta ler os poemas em causa. Embora estruturando o livro de acordo com os passos ("passos da Cruz", ou da sua Cruz, diria eu, servindo-me ainda de expressões religiosas) da igualmente terrível epígrafe de Emily Dickinson que abre o volume: "Chill", "Stupor", "The letting go", o poeta omitiu, provavelmente por pudor, o óbvio, presente em todo o livro e na sua própria existência poética e não visível em parte nenhuma dele (a não ser aqui e ali, numa súbita rima, numa aliteração, na construção de um verso inesperadamente deixada à vista e, sobretudo, na preocupação – poética por excelência – de fugir como o Diabo da Cruz de palavras "poéticas"): que "depois de uma grande dor, vem um sentimento de forma", o segundo verso do poema de Emily Dickinson, como se, à segunda estrofe, como no poema de Ted Hughes, a própria morte se tivesse tornado já uma questão de estilo. Quem – a não ser alguns editores de poesia – não sente um arrepio ao abrir um livro de poemas e deparar de chofre poemas como "Calafrio"? Quem pode evitar suspender a respiração lendo poemas como "Pascoa baixa"? (eu li os dois últimos versos e estremeci por dentro, fechando por um momento a página, dolorosamente feliz). E, depois, quem não regressa também, como o poeta, à vida de todos os dias, à indiferença do trabalho no hospital (o poeta é médico), aos doentes, aos colegas, aos vizinhos, ao conforto da própria poesia, às epígrafes de Szymborska, Camilo Pessanha, Valéry, até de Boris Vian, mesmo que a morte e a sua vivida memória, que é como quem diz o coração, não deixe de irromper entre as palavras e o sentido que as palavras fazem? "A Parte pelo Todo" é uma das obras poeticamente mais fortes (gosto da expressão, que o idiolecto do xadrez) de poesia portuguesa que li dos últimos anos. E receio bem que também dos próximos, porque nenhuma poesia saberia como resistir a muitos livros destes. É, por isso, preciso que continuem a publicar-se livros de poesia como a maior parte dos que por aí se publicam e os jornais festejam, para podermos respirar fundo de livros como "A Parte pelo Todo". De outro modo, nós, leitores de poesia, entraríamos em hiper-ventilação e sufocaríamos.»


FRANCISCO JOSÉ VIEGAS, Correio da Manhã, 28.04.09
«João Luís Barreto Guimarães é um dos nossos grandes poetas – o novo livro, "A Parte pelo Todo" (Quasi): "Um dia / depois de tombar plantámo-lo / num metro de terra talhado à terra dura / da terra onde nasceu. Ainda não cresceu nada.


Jornal de Letras
, 20.05.09
«Vinte anos após se estrear com "Há Violinos na Tribo", João Luís Barreto Guimarães, [41] anos, publica a sua [oitava] recolha. Os seus 27 poemas, confirmam uma das "vozes" reveladas no final da década de 80, desde o início assinalada nestas colunas, onde aliás o autor já manteve uma crónica regular. Leia-se este poema, "Botox", onde se pode adivinhar o médico que o autor também é: "Procura as minhas mãos uma mulher / nos quarenta / pedindo que lhe atrase o outono dos olhos / cansados: «Só queria [perder] dez anos». E / tento o que de amargo possa ter acontecido / para a ter a desejar punir / um [decénio] da idade – / dou comigo a lamentar não saber delir / memórias somente / rugas e rídulas (ruínas / pouco marcadas). Na armadilha do tempo / ninguém tomba por engano: / não se expurga a pele por décadas quanto muito / dano a / dano".»


JOSÉ MÁRIO SILVA, LER – Livros & Leitores, Junho 2009 e no blogue Bibliotecário de Babel
«"First – Chill – then Stupor – then the letting go" ("Primeiro – Calafrio – depois Torpor – depois o deixar ir"). A partir deste verso de Emily Dickinson, escrito "após uma grande dor", João Luís Barreto Guimarães (n. 1967) construiu o seu mais recente livro de poemas, o primeiro editado com a chancela das Quasi Edições. No caso de JLBG, a "grande dor" foi a perda do pai, morte que instaurou um vazio que é antes do mais uma cesura (termo clínico particularmente adequado, já que o poeta também pratica medicina e traz amiúde a sua experiência profissional para dentro dos poemas). Estamos então no território da mais extrema vulnerabilidade, seguindo a voz de quem começa por se revoltar contra a evidência dos factos mas, aos poucos, vai aceitando uma ausência que será para sempre. "Calafrio", "torpor", "deixar ir", escreveu Dickinson. Choque, indiferença e aceitação, explicam os manuais. São as fases do luto, as etapas necessárias para admitir o inadmissível. O principal mérito de JLBG, na arriscada deambulação por uma paisagem emocional instável, é não ceder um milímetro que seja ao sentimentalismo. Em vez de pathos, um desalento que nos chega através de elipses bem trabalhadas e da sintaxe precária, sempre à beira de esboroar-se. A atenção concentra-se nos pormenores: o fato "para levar no esquife" pousado sobre a cama; a barba que continuou a crescer depois da morte; recordações felizes da intimidade (o filho, de joelhos, cortando as unhas dos pés ao pai); a SMS enviada para um telemóvel agora sem préstimo (porque nem sequer vale a pena ligar para Deus); o antidepressivo que se toma como uma "hóstia alegre", uma "unidose de euforia". A lenta saída do labirinto passa também por um reencontro com o lado luminoso da vida. Ter coragem de pedir a uma paciente polaca que recite Wisława Szymborska, em voz alta, no hospital. Molhar o pão no azeite da Grécia. Reencontrar o sabor "perene" de uma maçã assada. Explicar ao leitor, como se explica a um amigo, o caminho para a casa do poeta, em Leça da Palmeira. A morte, como tudo o resto, é uma coisa que se ultrapassa, que é preciso ultrapassar ("tens que o fazer pelos vivos"), às vezes até literalmente, como quando o carro funerário de súbito barra o caminho e só o "pedal a fundo desperta da letargia"


FERNANDO SOBRAL, Jornal de Negócios, 05.06.09
«Costuma dizer-se que Portugal é um país de poetas mas, muitas vezes, esquecemo-nos de os ler. É por isso que devemos dar toda a atenção a este livro de João Luís Barreto Guimarães. Desde há duas décadas que ele nos propõe ambientes envolventes com as suas palavras, onde a figura do pai ausente acaba por moldar algumas das imagens fortes que nos transmite. É o tempo que guia as palavras e os actos: "Na armadilha do tempo / ninguém tomba por engano: / não se expurga a pele por décadas quanto muito / dano a / dano". É este o universo que percorre a poesia de João Luís Barreto Guimarães, que apetece ler ao fim da tarde, quando os últimos raios de sol dizem adeus no horizonte. A preparar-nos para um novo ciclo da vida.»


MANUEL A. DOMINGOS, blogue Meia-Noite Todo O Dia, 15.06.09
«A Morte sempre foi um dos temas mais recorrentes em literatura. Na poesia portuguesa mais recente ele é recorrente. João Luís Barreto Guimarães (1967) não consegui[u] escapar-lhe. Se em "
Luz Última" (Cotovia, 2006) o tema povoou grande parte dos poemas, em "A Parte pelo Todo" (Quasi, 2009) o tema encontra-se em quase todos os poemas – de uma ou outra maneira, mas sempre associado à ideia de perda. Assim, entende-se o verso de Emily Dick[in]son que abre o livro: "First – Chill – then Stupor – then the letting go". E é este o verso que dita a divisão do livro: três partes com nove poemas cada, dando a ideia de que a Morte está sempre presente, qualquer que seja a distância a que estamos do acontecimento (neste caso a morte do Pai). Mas como escrever sobre a Morte sem cair nos costumeiros clichés, lugares-comuns? Se tivermos em conta que a Morte é, por excelência, o supremo lugar-comum, a tarefa torna-se mais fácil e genuína. Contudo, isso não significa facilidade em falar na/sobre a Morte; não significa uma poesia não-rebuscada. João Luís Barreto Guimarães está consciente desta questão. E tenta contorná-la. Um bom exemplo disso é o poema "Introdução ao Niilismo", onde a Morte coabita com a ironia (ou será cinismo?): "A noite passada enviei um SMS [a] meu Pai / mas ele não respondeu. Já kontava kom issu." (p.19). É claro que o resultado nem sempre é o mais conseguido. No mesmo poema, uns versos mais à frente, o autor remata: "Já tenho ligado para Deus / parece dar sempre ocupado." (p.19). Tal como de Deus, da Morte, esse segredo que se leva para a sepultura (Wislawa Szymbroska), nunca se obtém resposta, nada dela advém: "Um dia / depois de tombar plantámo-lo / num metro de terra talhado à terra dura / da terra onde nasceu. /Ainda não cresceu nada." (p.25). Novamente, é a ironia/cinismo que tenta salvar o poema. Todavia, o tema mais presente, na poesia de João Luís Barreto Guimarães, não é a Morte: é o quotidiano: o quotidiano real e não transfigurado (é claro que est[a] afirmação é arriscada), isto é, o dia-a-dia mais comum possível: "Quando Barbara entrou na Pequena Cirurgia / para resolver a lesão da hemiface esquerda / ninguém contava que eu lhe pedisse para dizer / Wislawa Szymborska. Era / uma mancha disforme de / tantos por tantos centímetros / cuja exérese resultou / (graças a Deus?) / completa." (p.27). É claro que a validade poética – se é que tal coisa é ainda possível nos dias de hoje – pode ser aqui, como noutros poemas, questionada. Mas não é isso que a poesia deve fazer? Questionar? Colocar o homem frente a frente consigo mesmo? Haverá algo mais incerto e inquietante que o quotidiano? Haverá maneira mais simples ou bela de dizer, jogando com as palavras, aquilo que é evidente : "Na armadilha do tempo / ninguém tomba por engano: / não se expurga a pele por décadas quanto muito / dano a /dano." (p.42). Não sendo o livro mais conseguido de João Luís Barreto Guimarães, "A Parte pelo Todo" vale pelo confronto do Homem com o irrecuperável, pela denuncia (que nunca é suficiente) do absurdo que é a Morte, pela validade da poética do quotidiano.»


FERNANDO GUIMARÃES, Jornal de Letras, 17.06.09
«(...) o tema da morte ganha um relevo especial no livro de João Luís Barreto Guimarães, até pela circunstância de na cala se reproduzir um estudo para o embelemático quadro "A Ilha da Morte", do pintor simbolista Arnold Bocklin. (...) É esse poder da morte [o poder desintegrador de Thanatos] ou, melhor, o seu conhecimento, que logo se revela no limiar do livro de João Luís Barreto Guimarães atrás referido. Trata-se do poema intitulado "Calafrio": "Foi ele quem me a apresentou. Pétrea / nívea / exangue. Meus lábios: à face da morte. / Nunca a / tinha beijado antes.". Nos poemas seguintes faz-se sentir um tom disfórico que, muitas vezes, deriva para uma nota de humor ou sarcasmo. Barreto Guimarães afasta-se agora um pouco do tom que era predominante na sua poesia anterior, muito marcada pelo subjectrivismo, dado que, neste livro, as referidas notas de sarcasmo ou humor o póem em questão. será esta uma forma de "ultrapassar a morte", como se lê no título de um dos poemas? Ora tal poema principia assim: "Quando menos estás à espera (ao / desfazer de uma curva) ela / surge-te pela frente subitamente concreta".»


JOÃO MORALES, Os Meus Livros, Junho 2009
«Começemos por "A Parte pelo Todo" (Quasi Edições), de João Luís Barreto Guimarães. Das palavras destes poemas solta-se uma calma aparente que se adivinha um manto, uma espécie de calor húmido, sufocante e pertinente. Não será alheio a tudo isso as iniciais alusões ao desaparecimento do pai, na sua inevitabilidade ("enquanto estiver vazio aquele / fato da morte / ninguém sequer admite que esteja morto / de facto"). A sua evocação faz-se pela reflexão de cenas intransmissíveis: "Durante a manhã inteira a barba / ainda cresceu. O vórtice que me picava / ao fim de um dia de trabalho / já o posso adivinhar / neste círculo de flores"). Também pelas imagens, naturalmente, impregnadas de um péssimismo e um sentido de finitude que teima em demonstrar aos humanos a sua dimensão, mais etérea do que se pensa, pois só na memória se erguem os mais sólidos bustos, memória essa que, em círculo vicioso, depende de quem a albergue: (e assim se nomeia "um cipreste esguio que / anuncia um jardim / onde eles lançam os corpos - a tara perdida da alma"). Há tempo para olhares em volta, com a paisagem habitual a demarcar o território conhecido face a referências à emigração, cavaleiros de um certo desconhecido. Ainda pode haver esperança, portanto, numa voz que recita poemas em polaco ou na entrega do espólio automóvel. Mas não é por isso que os fantasmas, perante nós ou em nós, desaparecem: "procuro alguém frente ao espelho / sei / que alguém está / sempre lá".»


JOÃO PAULO SOUSA, blogue Da Literatura, 22.07.09
«Assumida desde o título como processo estruturante do seu mais recente livro, a metonímia não é, na obra de João Luís Barreto Guimarães, uma novidade. De certo modo, o café que atraía o sujeito poético de Lugares Comuns (Mariposa Azual, 2000) condensava já o mundo inteiro, tal como em Luz Última (Cotovia, 2006) se podia ler: «O nome que tu transportas é o nome / onde és tudo» (p. 23). Em A Parte pelo Todo, volume acabado de publicar pela Quasi, o título foi herdado do quarto poema da primeira secção, que é um poema em branco. Não se entenda este gesto como uma ruptura vanguardista; ele é antes a concretização de uma hipótese que o experimentalismo abriu, mas que surge agora com a serenidade própria dos processos que já foram assimilados. O silêncio da página 14 é a estupefacção perante a evidência da morte, é a constatação de que, como escreveu Jorge de Sena, é «uma injustiça a morte». Assim, todos os poemas da primeira parte, que têm na página em branco o seu vórtice, se organizam à volta desse estado de perplexidade que o autor nomeou a partir de um verso de Emily Dickinson. Nesta obra, o luto compreende chill, depois stupor e, finalmente, the letting go (não traduzo por respeito pela opção do poeta e porque a vibração destas palavras em inglês se torna naturalmente diferente da de qualquer uma das escolhas que poderiam ser assumidas na língua portuguesa). Ora, com um elemento nuclear, a que se poderá atribuir mesmo uma força gravitacional, situado quase no início da primeira de três partes, João Luís Barreto Guimarães organizou a sua obra segundo um princípio de descentramento que parece devedor da estrutura barroca. Falo aqui de barroco no sentido tipológico, aliás reiterado nas antíteses que sustentam, por exemplo, um poema como «Torpor», com os seixos colhidos na praia pelo sujeito poético e por uma figura feminina a distinguirem­‑se nitidamente, com os «dela (vermelhos sépia brancos / ocre) de cores claras» a tecerem um acentuado contraste com os dele, «cinzentos (mais / pequenos) / nunca claros»: «tenho os seus como tijolos para começar castelos / os meus (quase que) nem pedra / ossos / pó de cremação» (p. 23). Esta poesia incita o leitor a percorrer um caminho de relativo apaziguamento, quase de aceitação. A carrinha funerária nomeada na página 36 torna­‑se também numa metonímia do que incumbe superar, e ultrapassá­‑la fisicamente (no espaço) significa criar distância em relação à própria morte (no tempo), o que tem de ser feito «pelos vivos». Não se pense, porém, que esta aparente superação representa um esquecimento ou a anulação da dor; ela é antes outra forma de compor uma ligação com a figura ausente, de preservar um lugar distante do ruído mundano onde a relação se possa prolongar. Por isso, é precisamente «Poema» o título da composição que fecha o livro, dado que, em registo atravessado por uma subtil melancolia, se afirma aí, de um modo discreto, que a poesia pode muito bem ser o lugar onde o diálogo com um ser amado não cessa com a morte: «Toca no sexto direito. Estou / sempre por aqui. Ou senão / não venhas hoje. / Faz como te apetecer» (p. 43).


LUZ ÚLTIMA

30 poemas

1ª edição, Cotovia, Lisboa, 2006
capa de João Botelho
direcção literária de André Fernandes Jorge

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§



A VIOLA DE MADEIRA


A viola de madeira no silêncio
do seu canto. Desafinou-a o olvido. Dias
há em que padece que a toque
como usei tocar mas
os dons daquela caixa são presente
de um passado (boémio
idealista) a que
não sei regressar. Côncava
(depois
conversa) quase cedo a pegar nela
não pelo rigor das cordas
mais
pelo cursar do madeiro.



§



PONTE MÓVEL SOBRE O RIO L
EÇA


Imóvel
na ponte aberta sobre este porto de mar
queria não ter que esperar que o petroleiro passasse
a vomitar ouro preto nos depósitos da Cepsa.
Olho as margens da tarde em informe ebulição:
o navio japonês veio dar à luz Toyota’s
alinhados sobre o cais qual parada militar
(os turistas do cruzeiro aguardam pelo autocarro
que lembrará em sueco memórias do Porto antigo).
Do cargueiro africano rolam troncos gigantescos
houve um que caiu à água e ninguém o foi salvar
(decerto não irá longe nestas águas estagnadas
nem poderá ir mais ao fundo).
Corre um vento de norte. Novembro
está dentro do outono. Alguém reuniu o manto
de folhas cerca da ponte mas pelo final do dia
já é outono outra vez. E
distraí-me do cais. Espera. Lá está a marinha.
A fragata da Defesa devolveu homens a terra
meio-dia de licença na casa da luz vermelha
(este Natal as meninas vão-lhes dar a provar sonhos
e o porteiro: rabanadas). Se faltavam
desrazões para me obrigar a parar
aqui me têm parado
(só reparando se vê)
qualquer amurada é perfeita para resumir um país
qualquer ponte é ideal para se matar
os tempos.



§



ACTO DE CONTRIÇÃO


Pela luz rara da garagem dois vultos
vão pôr o lixo. São velhos desconhecidos. Um
ao outro dão passagem (a
máscara de um cumprimento) esquivos na
escatológica arqueologia das misérias.
Homens de lixo na mão: exímios
a ocultar
versos da vida doméstica (quando
o gesto liso cabe ao avental abundante que os
devolve a casa). Há
em todo esse agravo uma redenção ferida
(um juízo resolvido) como que um
indulto lento.



§



PEDRO MEXIA, Diário de Notícias, 10.03.06
«João Luís Barreto Guimarães escreveu muitos poemas lúdicos de tão formalistas. O volume "3 (Poesia 1987-1994)", publicado em 2001 na Gótica, inclui nomeadamente sonetos experimentais (mas acessíveis) com diversos jogos de palavras e de disposição em página. Nada disso escondia o cunho essencialmente emocional dos poemas (que evocavam os amigos, as despedidas, a idade adulta), que em livros posteriores se prolongou em anotações algo melancólicas sobre a domesticidade e o quotidiano. Talvez a inquietude formal de alguns desses poemas escondesse o seu pathos, sempre cuidadosamente sabotado. "Luz Última", construído em torno da morte do pai, deixa que esse pathos tenha maior preponderância, mas ainda assim não lhe confere nenhum monopólio. "Luz Última" é um lamento mas não é exactamente um requiem. Ou seja: não cultiva um tom lamentoso ou pungente centrado na memória e nas virtudes de quem morreu (como acontecia no "Requiem" de Jorge Gomes Miranda), mesmo porque muitos poemas são anteriores a esse facto. Existem no entanto muitos reflexos desse acontecimento e da fatal comparação entre passado e presente: objectos, gestos, ecos, uma continuidade que sobrevive com a consciência de que algo se quebrou. O que quase não existe (talvez por pudor) é o elogio ou a reconstituição demasiado precisa. Em vez disso, Barreto Guimarães considera o tempo actual (sem o pai) como de certa maneira um tempo novo, onde mais que a extinção da luz antiga se inaugura uma nova luz. A grande lição da morte é essa: vermos tudo à sua luz. E se a luz (luz última) é uma das circunstâncias destes poemas, o acto de ver é a sua ética. Logo nas epigrafes esse mandamento é mencionado: ver, anotar, deixar escrito o que acontece. O que acontece aqui não é tanto o momento escuro (a morte) mas a luz que essa morte deixou e com a qual o filho interpreta o mundo. É por isso que Barreto Guimarães regressa aos episódios insignificantes do quotidiano (uma conversa numa cantina, atravessar uma ponte, renovar o bilhete de identidade). Esses episódios têm mais sentido à luz última da morte porque é precisamente a morte que os despoja da sua trivialidade. As observações comezinhas ou domésticas, em tudo semelhantes às que encontrávamos em livros anteriores, são agora contextualizadas em termos de tom e significado. Um exemplo: "Sentar-me e / ver os outros passar é o / meu exercício favorito. Entretém. / Não esgota. / É gratuito. Neste meu jogo-do-não / são os outros que passam / (é aos outros que reservo a tarefa / de passar). Lavo daí os pés. / Escrevo de dentro da vida. / Pode até parecer que assim não / chego a lugar algum mas também quem / é que quer ir / ao sítio dos outros?" (pág. 24). Há aqui, naturalmente, uma tristeza mais funda e menos esporádica. E há, sobretudo, a noção de que a vidinha nunca é apenas vidinha por causa dos outros, a noção de que os poemas de circunstância são de certo modo os únicos possíveis, porque essa circunstância inclui a nossa vida mas também a presença (e depois ausência) das pessoas que amamos: "À partida do inverno o domingo traz de volta / o passeio dos mortos. Pálidos / frios / esgotados avançam luva na luva e sobretudo / amortalhados. O muro da estrada ruiu / à entrada do estio são / os domingos do ano / (domingos de céu ímpio) / dia de irmos aos teus familiares / ou aos meus. Nas tardes de à beira-mar / há rádios em desafio (ele há / sábados cheios daquilo que esvazia / os domingos)" (pág. 41). A isso acresce uma segurança formal renovada. Barreto Guimarães ainda se compraz em trocadilhos e outros jogos (como esse justo "vestido injusto"), mas já não é essa dimensão lúdica que mais o interessa. O trabalho de luto está aqui mais ligado a um trabalho oficinal, quase sempre minucioso, feito verso a verso, com parêntesis que comentam e modulam e com fórmulas inesperadas. E ainda com uma sucessão de nada ostentatórias artes poéticas, que aliás no final do volume se assumem como estudos e versões aprefeiçoadas. "Luz Última", sendo um livro biografista e subjectivista, é paradoxalmente um conjunto de poemas que não fecham o poeta em si mesmo mas que o deixam receptivo ao mundo. A luz (trágica) da nossa intimidade serve como chave definitiva para o mundo das coisas concretas e sem importância. Que afinal são também aquilo que mais importa: "Pela luz rara da garagem dois vultos / vão pôr o lixo. São velhos desconhecidos. Um / ao outro dão passagem (a / máscara de um cumprimento) esquivos na / escatológica arqueologia das misérias. / Homens de lixo na mão: exímios / a ocultar / versos da vida doméstica (quando / o gesto liso cabe ao avental abundante que os / devolve a casa). Há / em todo esse agravo uma redenção ferida / (um juízo resolvido) como que um / indulto lento" (pág. 49).»


FERNANDO GUIMARÃES, Jornal de Letras, 10.05.06
«João Luís Barreto Guimarães publicou agora "Luz Última", um livro de poesia; (...) Ora [este livro não anda] longe de uma sensibilidade e de uma poética que poderiam ser as de uma pós-modernidade. Recurso a um micro-realismo, a procura de um tom subjectivo, uma linguagem ocasionalmente diferida ironicamente, transgressiva, surrealizante. (...) A poesia de João Luís Barreto Guimarães prende-se geralmente ao quotidiano, ao dia-a-dia, às circunstâncias que quase não têm história. Por vezes há uma ironia que fica apenas insinuada: "É o último fim-de-semana para ir / aos dinossauros / (a cidade pôs-se em faixas para / os primos da Mongólia) os / ninhos de Oviraptor os / dentes do Tarbossauro. / A cultura vai deixar a urbe petrificada / prometemos às crianças levá-las a ver as ossadas / (ah, domingos citadinos de coprólitos e / pegadas). Todos os outros já foram ver por / ver os dinossáurios / (migrações imanadas de gerações adiadas) / na fila da bilheteira chegámos a atingir / trinta metros".»


CARLOS BESSA, Expresso, 20.05.06
«A poesia entendida como "o transbordar espontâneo de poderosos sentimentos" (Wordsworth) foi caminhando até à experimentação radical. Passado o furor desta, os modelos deram lugar aos múltiplos, com o sentido na dependência de tantas falhas, sejam as da fantasia, sejam as das aparas do quotidiano, ambas com a mesma ambição de sempre, a da partilha, a do brilho, a do mito, mas agora no terreno de uma instabilidade que deixou os polícias das letras assaz nervosos, senão mesmo à beira da mais malsã histeria. Assim, de cada vez que alguém publica livro que não projecta os ditames segundo os quais, dizem os doutos inquisidores, a poesia deve ser escrita, assistimos à verve ressentida deles e dos acólitos. Indiferentes ao ruído de fundo, uns quantos indivíduos continuam a escrever como querem, dando voz a emoções, anseios, memórias, pensamentos ou ficções particulares. Entre esses poetas têm-se distinguido os que fazem dos versos um reflexo político do que acontece à sua volta, escolham ou não o papel de protagonistas ou de personagens secundárias, o de cronistas da época ou o de "flâneurs". Mais do que uma épica do mínimo, optam quase sempre pela elegia ou por um lirismo desencantado. E à pirotecnia verbal dizem "passo". Nota-se, isso sim, um convívio mais ou menos assíduo com poéticas doutras latitudes, que por vezes adaptam para a nossa língua e de que incluem um ou outro exemplar nos seus livros, no que tem sido uma constante do melhor da nossa tradição (lembremo-nos de Camões ou de Pessoa). João Luís Barreto Guimarães, quiçá o mais barroco dos poetas que desdenham da novidade pela novidade e das babugens meta-qualquer-coisa, que reescreve, neste livro, um poema de William Carlos Williams, tem revelado um gosto particular pelo carácter lúdico dos versos e pela recriação das formas poéticas, sendo sobremaneira sensível aos jogos de palavras, às elisões, aos parêntesis e à focalização no detalhe, em situações e em objectos correntes. Processos que, juntamente com o modo breve, elíptico e metonímico com que o autor procede à enunciação de um quadro familiar, doméstico ou outro (de que "Moeda sobre o cacifo" é exemplo e que nos mostra o quão contaminada está a sua escrita pelas artes plásticas, pela fotografia, pelo cinema), contribuem para toda uma arquitectura de estranheza, mostrando que o mais insólito continua a porvir da trivialidade. De facto, o "Leitmotiv" de "Luz Última" parece ser a carência, senão mesmo a frieza e o absurdo que rege as relações e a existência humanas, algo tanto mais significativo quanto cada poema parece estar construído sob a apertada malha de uma vigilância que filtrou a impureza das emoções para fazer sobressair "a poesia que está nas coisas". Substantivação apurada aqui e ali sob os auspícios da ironia, como acontece em "Os Talentos do Sr. Lopes". "Luz Última", na sua condição de exercícios de estilo de naturezas mortas, mostra-nos que são muitos e distintos os caminhos que se trilham na poesia portuguesa mais recente, a qual é indiscutivelmente melhor quando aposta na "escatológica arqueologia das misérias" ou quando canta "qualquer coisa/ em carne viva", para grande tristeza dos inquisidores.»


HENRIQUE M. B. FIALHO, blogue INSÓNIA, 02.06.06
«"Há Violinos na Tribo", publicado em edição de autor decorria o ano de 1989, foi o primeiro livro de João Luís Barreto Guimarães (3 de Junho de 1967). Seguiram-se dois livros, todos posteriormente reeditados (e rasurados) em conjunto sob o título "3" (Gótica, Maio de 2001), onde se propunha, entre outras coisas, uma (des)construção lúdica do soneto. Essa inclinação para o jogo, marcada nos primeiros livros por uma componente formal mais precisa, nunca se perdeu na poesia de João Luís Barreto Guimarães. Ainda assim, desde o excelente "Lugares Comuns" (2000) que têm sido operadas algumas transformações (plásticas) nesta poesia. Eu diria que o essencial permanece, embora assumindo soluções formais diversas. O essencial, neste caso, resulta daquilo que quotidianamente se vai arrancando ao mundo e se pode constituir sob a forma de poesia: "a poesia está nas coisas / (pão quente) / destapa-a." (p. 27). É esse trabalho de ver, o que consubstancia o labor poético. Não de ver para além do que está, mas de conseguir ver no que está algo mais do que aquilo que nos permite um olhar distraído. Neste sentido, esta é uma poesia de olhos bem abertos. É uma poesia que busca no comezinho a luz que a insensibilidade apaga, a mesma insensibilidade que lança sobre as coisas de todos os dias uma indiferente banalidade. Epígrafes de Luís Quintais - "Diz o que vês." - e de Jorge Gomes Miranda - "Vê. Atenta. Anota." -, logo a abrir, indicam-nos o caminho. Outros autores aparecem citados (O’Neill, Luiza Neto Jorge, Philip Larkin, António Nobre), evocados (William Carlos Williams, Al-Mu’ tamid), brindados (Pedro Mexia, Adilia Lopes, João Miguel Fernandes Jorge). Há ainda Pollock, Gracinda Candeias, Dvorák, Marc Tardue, numa confluência amena de vivências culturais com outras mais domésticas. Esse tom culto e, por vezes, desnecessariamente adornado é, talvez, o aspecto menos interessante destes poemas. Mas tudo se salva por uma ironia bem condimentada e por uma invejável habilidade formal, onde o biográfico serve de contorno aos quadros do olhar. Note-se, a título de exemplo, como o poema que dá nome à primeira parte – "A pura verdade" -, subintitulado "óleo sobre cimento, 534 x 261 cm", pode ser entendido como uma autêntica lição acerca da grandiloquência do trivial: "O motor do automóvel anda a trabalhar / num óleo no / seu lugar de garagem. Expressionista abstracto. / Sobre bagos de óleo escuro (de / mais uma noite em claro) dobro / os pneus do carro ao sair pela manhã apondo / ao seu Pollock gestos de um / Gracinda Candeias. Nessa tela abstracta / (que é o concreto do chão) os / olhos teimam em crer um archote um / fuzil / unindo as manchas mais cruas. Também assim / esta poesia." (p. 17). Uma arte poética a lembrar-nos Agnès Varda, no magnífico "Os Respigadores e a Respigadora" (2000), vendo telas de Antoni Tàpies nas manchas de humidade das paredes da sua casa. "Luz Última", que o poeta dedica a seu pai falecido, não é mais um livro de lamentações marcadas pela perda. É, como bem notou Pedro Mexia, um livro sobre "a grande lição da morte". E essa lição é a lição do olhar, de passarmos a olhar as coisas de uma outra maneira, talvez mais simplificadora ou, como queria O’Neill, desinchada de importanticidade. Buscando em tudo estes "versos da vida doméstica" (p. 49). Mesmo que o tudo sejam cheiros a fuel, óleos de automóvel, moedas esquecidas sobre um cacifo, "um pneu descasado / um assento / meia matrícula", "no caule da torrente" (p. 43). Ser poeta é isto mesmo: estar atento às coisas do mundo, não nos deixarmos distrair. Já que a única lição que podemos esperar da morte (dos outros) se resume à constatação de quão doloroso pode ser sentirmos a perda dos gestos que nos escaparam.»


PEDRO DIAS DE ALMEIDA e SÍLVIA SOUTO CUNHA, Visão, 22.06.06
«Médico de profissão, este autor mantém a atenção e a pena coerente e permanentemente ligadas à vida, essa coisa que vai acontecendo a todos - até aos poetas. A melancolia e o quotidiano ganharam pontos à sua vitalidade inicial. Nada se perdeu com esse rito de passagem. Assim o comprova este livrinho, dedicado ao pai do poeta, que compila uma série de poemas dispersos por várias publicações, muitos com dedicatórias e endereço certo. Como "Outro Dia", da série "A Pura Verdade", que começa assim: "Deixo agora que o dia me torne / um pouco mais dele. /Saio / até à varanda e as chaminés dos telhados / devolvem de todas as vezes seu / pretérito fascínio".»


ANDRÉ DOMINGUES, site EDIT ON WEB, 12.07.06
«O poder do insólito no quotidiano, a valência e a ambivalência, a vida e a morte, estão presentes na última obra de João Luís Barreto Guimarães (Porto, 1967), "como um cheiro a fuel / vindo das docas", de uma forma leve e impregnada. O livro é dedicado à vida, obra e morte do pai, a maioria dos poemas foram escritos em Leça da Palmeira, a envolvência é fértil em idealismos, memórias irreversíveis, objectos e pulsões. "A pura verdade", primeiro dos três livros que compõem "Luz Última" e título de um dos poemas pode ser considerada uma arte poética. A pintura mecânica, com irradiações futuristas, "os pneus do carro ao sair pela manhã apondo / ao seu Pollock gestos de um / Gracinda Candeias", aproximam o leitor da sua expressão poética, suja por vezes, demasiadamente lúcida porque sincera, ora abstracta, ora concreta. O quotidiano, o regime das rotinas, a circularidade do tempo, a parcimónia do "Segundo café da manhã", as miniaturas das conversas, negócios e tarefas, tudo isso prejudica a "dieta" mas promove a poética. Exemplo máximo do homem pequeno e médio é o Sr. Lopes: homem profundamente social, ardiloso, vencedor e obsceno: o elogio irónico dos indigentes. João Luís Barreto Guimarães acredita na significação do nome, na observação sentada dos outros, na doença da poesia, embora não a deseje a ninguém, na objectividade poética, nas coisas destapadas, e depois de muito observar a ponte móvel sobre o rio Leça, torna-a, como quase todas as coisas, numa ponte qualquer, porque a função distorcida da ponte não é a de permitir a travessia, mas a de exigir o alheamento e a morte dos tempos. Nem a globalização sentimental lhe escapa. Um Big Mac não difere muito de uma jóia ou de um poema, quando uma jovem rapariga se atreve a saboreá-lo rua fora. Médico de profissão, o autor de "Luz Última" estreou-se com o livro "Há Violinos na Tribo" (1989) e sempre demonstrou interesse na blogosfera, actualmente escrevendo no blog Poesia & Lda com as ilimitações próprias de quem ousa observar e absorver o quotidiano, nestes moldes. Neste espaço João Luís Barreto Guimarães divulga alguns dos autores que lhe são queridos e faz jus à frase que coloca no fim do livro, de Rui Chafes: "andamos a arrancar coisas ao mundo".»


JOSÉ DO CARMO FRANCISCO, Sporting, 18.07.06
«Neste sétimo livro de poemas de João luís Barreto Guimarães (Livros Cotovia) há o registo de uma oscilação entre "tempo" e "memória". De um lado o tempo quotidiano: "Os dias vão mais pequenos. As / árvores por vezes cantam é / a música das manhãs que se espraia / como um cheiro a fuel / vindo das docas. Porque / (sem querer) é / outro dia. Certo como fosse meu. A / mais simples distracção tomará / alma por / lama." De outro lado o tempo da posteridade: "Ano após ano em Dezembro a / árvore artificial / deixa o encerro da cave para ser / a luz no frio. É um pinheiro da China. Quem / se deitar a fazer contas ao ágio / dessoutro negócio / (vinte e quatro mil escudos / já lá vão nove invernos) a / coisa / está mais ou menos por / dois contos e tal / o natal. Mau grado à sua copa / (inerte e inodora) falte o / olor a caruma dos natais da minha infância / nela escuso a floresta que ficou por abater / todo um mundo aloplástico que me / sobreviverá."»


Jornal de Notícias, 20.08.06
«No seu novo livro de poesia, João Luís Barreto Guimarães não se furta à habitual devoção pelo quotidiano, mas acentua o lado oficinal e laborioso de uma escrita cada vez mais seduzida pela síntese. Em vez de explorarem a componente lúdica, como acontecia em vários dos livros anteriores, as observações do dia-a-dia servem agora de pretexto para uma reflexão irónica e amarga sobre o absurdo que rege a vida colectiva. Esta transformação não faz de "Luz Última" um livro necessariamente lúgubre, antes reforça a crença de que as supostas trivialidades ocultam essências desconhecidas.»


PEDRO SENA-LINO, Público, 06.10.09
«Em todas as gerações poéticas, sejam estas mais ou menos constantes na temática e em recursos expressivos, encontramos alguns nomes que permanecem laterais - precisamente por não constarem na sua voz as marcas mais representativas dessa geração ou época. Muitas vezes apenas o tempo se encarrega de encontrar nessas vozes laterais os elos de ligação que mantêm uma tradição, ou a antecipação de linhas expressivas futuras. Mas também muitas vezes essas vozes, apesar de se distanciarem de um grupo central, mantêm, menos visíveis e menos fazendo depender disso a sua expressão, algumas características da geração a que pertencem. Um desses casos é o da poesia de João Luís Barreto Guimarães (n. 1967). Iniciando a publicar em 1989, está de pleno pé na propalada geração de 80 mas também na de 90 (o dos revelados nessas décadas, segundo proposta das antologias geracionais que têm sido publicadas). Há marcas da poesia dos anos 80 e dos anos 90 na sua obra, desde um certo micro-realismo (os objectos, a leitura narrativa de pequenos momentos quotidianos), à auto-referencialidade do poema (o poema que fala do poema), a um certo tom entre a experiência gráfica e um coloquialismo de tipo amoroso, ou irónico monólogo. Em alguns dos seus melhores momentos esta poesia expande-se precisamente no diálogo amoroso, ou, ainda mais, em irrupções da memória. Momentos particularmente felizes, onde a contenção, a escolha de um ou dois motivos líricos (duas imagens que em geral se repetem ou interpenetram) e um imaginário citadino e quotidiano situam e descrevem, criando breves mas fulgurantes revisitações do que se perdeu mas ainda é vivo: "Deixo agora que o dia me torne / um pouco mais dele. / Saio / até à varanda e as chaminés dos telhados / devolvem de todas as vezes seu / pretérito fascínio. / Os dias vão mais pequenos. As / árvores por vezes cantam é / a música das manhãs que se espraia / como um cheiro a fuel / vindo das docas. Porque / (sem querer) é / outro dia. Certo como se fosse meu. A / mais simples distracção tomará / alma por / lama." Neste volume, "Luz Última", esses rápidos raspões de luz na memória estão sobretudo situados na primeira das três partes do livro ("A Pura Verdade"), onde também podemos ler outro poema que foge à menor força do resto do livro: "Cada dia / pela manhã cruzámos o pátio da escola já / as pétalas de camélia são / esboroadas / pelo chão. Toda a vez as transportamos / (cálidas e inocentes) / atrasadas sob um arco onde tudo é / já passado / (dedos levando-me a mão pela arte / do crescimento) / meus ossos a querer ficar efebos / daquele instante. Não tardará chegaremos / a tempo de as ver cair. Então / não serei eu / a seu lado.»


MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA, I Simposio Internacional Letras na Raia, Galiza 2007
«Passaria então agora a um poeta completamente diferente, muito menos espiritual, muito mais ligado às coisas terrenas e reais, muito mais facilmente associado às coisas do urbano (a casa é o seu território preferencial) do que às da natureza. Ao contrário de outros poetas da sua geração, tem a enorme vantagem de ser aquilo a que gostaria de chamar um "
poeta da melancolia positiva": muito dado à elipse e à ironia, é capaz de celebrar poeticamente o "acontecimento mínimo" – atender um telefone, pôr um disco, abrir uma porta, arrumar uma estante – e de transformar esses pequenos nadas efémeros em coisas memoráveis, dominando com mestria as relações entre o particular e o universal, o efémero e o eterno. Partindo sobretudo do quotidiano e do doméstico, tem a sabedoria de nunca cair na banalidade e um talento muito especial para fazer dos leitores "cúmplices perfeitos para a partilha". Estou a falar de João Luís Barreto Guimarães, que nasceu no Porto em 1967 e vive actualmente em Leça da Palmeira. É licenciado em Medicina pela Universidade do Porto e especialista em Cirurgia Plástica, Reconstrutiva e Estética. Publicou: "Há Violinos na Tribo" (1989); "Rua Trinta e Um de Fevereiro" (1991); "Este Lado para Cima" (1994); "Lugares Comuns" (2000); "3" – que engloba os primeiros três livros (2001) -, "Rés-do-Chão" (2003) e "Luz Última" (2006). Foi ainda responsável por uma antologia de poesia contemporânea sobre gatos intitulada "Assinar a Pele" (2001), traduz poesia e colabora em blogues. Quando publicou o seu primeiro livro, que enviou ao poeta Al Berto, este escreveu-lhe o seguinte: "Caro João Luís, fico sempre em pânico quando me chegam livros pelo correio – são geralmente duma banalidade execrável, duma mediocridade tal que não encontro lugar nas minhas estantes para os arrumar. E mais, do Porto, chegam com alguma frequência umas coisas sub-eugénio de andrade, cheias de doçuras, pastorinhos no meio dos salgueiros, sílabas diáfanas, sexos disfarçados – coisas de que o eugénio não tem culpa, claro – e não penses que é só do Porto que chegam essas coisas assim... Daqui de Lisboa a onda é barquinhos à vela, cavalinhos brancos à Ramos Rosa, etc. etc. – uma merdice completa! Por tudo o que disse atrás, foi uma grande alegria receber o teu livro. Li-o de fio a pavio, deliciado, e, como não sou de grandes discursos críticos – que detesto particularmente –, só posso dizer que gostei muitíssimo do teu livro. Vou tentar seguir o teu percurso, aliás, faço exactamente o mesmo com mais alguns (poucos) cuja escrita me interessa e entusiasma. Juntei o teu nome a essa reduzida lista". Mas sobre toda a sua obra se teceram inúmeros comentários laudatórios por críticos de todas as idades. Jorge Listopad chamou-lhe "um poeta feliz que se pode estimar, amar até" e Manuel de Freitas falou da sua "destreza poética em transfigurar as aparentes insignificâncias do quotidiano". Eduardo Pitta atribuiu-lhe uma "unidade orgânica assinalável" e Ana Marques Gastão disse que "os seus poemas são espaços de uma confidencialidade marcada pelos afectos". No jornal Primeiro de Janeiro escreveu-se que "o seu percurso tem sido pautado por um sentido de aguda observação da comunidade" e que o seu "monólogo íntimo" é, afinal, um "diálogo de fecundo realismo". Aparentemente simples sem o serem, os seus poemas são emotivos sem nunca descambarem para o sentimentalismo, e podem ser melancólicos sem nunca caírem numa tristeza fechada em si mesma. Como escreveu Pedro Mexia a propósito do seu livro "Rés-do-Chão", João Luís Barreto Guimarães tem "uma reiterada capacidade de escrever sobre matéria jubilosa", o que creio ser bastante raro nos poetas de hoje.»


RÉS-DO-CHÃO

27 poemas

1ª edição, Gótica, Lisboa, 2003
capa de Rogério Petinga a partir de óleo de Edward Hopper «Sunlight on Brownstones», 1956
direcção literária de Maria da Piedade Ferreira

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§



A MEIAS


Bebo o meu café enquanto bebes
do meu café. Intriga-me que faças isso.
Se te posso pedir um
(se podes tomar um igual)
porque hás-de querer do meu?
Que
não. Que não queres. Escuso
de pedir
que não queres. Então
começo um cigarro e tu fumas
do meu cigarro dizes
«tenho quase a certeza de
não acabar um sozinha» por isso
fumas do meu.
Dá-te gozo esse roubar de
leves goles furtivos
dá gozo participar
do prazer que eu possa ter
contigo
(e entre nós)
dá-se agora tudo
a meias.



§



AS EMPREGADAS FABRIS


Arregaçam a manhã (as empregadas fabris)
pernas como tesouras
recortando a calçada
ferem o lenho da mesa com
sortes
de boletim. Uma sirene as trouxe aqui
(às empregadas febris)
ancas de esboço perfeito sob
vestes de operária
tocam umas nas outras como se
inda fossem meninas mas
a delas que vai noivar já
traz o primeiro a caminho. E
quando o cigarro se apaga
(ou a
cerveja se escoa) o
que resta é a dor da tarde
que nem esta chuva afaga
o gasóleo dos rapazes que
lhes cantam a cantiga e
as tomam pela cintura.
Um foguete fecha a festa
(pelo lado de dentro da coxa)
há nelas a incerteza de
não saberem se são
incompletamente
infelizes.



§



O PUXADOR DA PORTA DA COZINHA


O puxador da porta da cozinha está estragado
faz um mês. Não passa dia sem que peças
que conserte o puxador
não concebes ser possível eu
sempre ter tido engenho para estas coisas da casa e
ainda não ter tido tempo para compor
o puxador. Mas
não se trata de nada disso. Eu
já o teria composto (se o
quisesse reparar)
teria arranjado tempo
não me ia custar mesmo nada. Mas
depois ia
haver que alfinete? (encravado na rotina)
Como não estranhar a absurda
ausência da avaria?
Deixa-o
ficar assim. Deixa-o andar assim
(ternamente avariado).
Cada dia pela manhã
quando passares à cozinha
(calculo que por
entre as sete
sete e um quarto sete e meia)
e ficares com o
puxador da porta da cozinha na mão
tua voz regressará ao
exaustivo pedido
(ao alívio confortante dessa ser
nossa alegria) e
eu sentir-me-ei feliz por
ainda te ter por perto
por me
fazeres companhia.



§



Jornal de Notícias, 02.03.03
«Confirmação de João Luís Barreto Guimarães como uma das mais interessantes vozes da novíssima poesia portuguesa, "Rés-do-chão" apresenta-nos uma escrita tensa e concisa, em que a ausência de grandes artifícios está longe de assumir um carácter empobrecedor. Pelo contrário, o autor é exímio na tarefa de identificar o caos do quotidiano.»


ANA MARQUES GASTÃO, Diário de Notícias, 16.03.03
«Escreveu Virgina Woolf no seu diário: "Gostamos de sentir. Seja o que for". Escandalosa, a frase, a verdade é que esta contradição ilumina e obscurece a vida. Por muito que se tenha já escrito sobre a poesia de João Luís Barreto Guimarães, sobre a sua obstinada deriva coloquial e procura discursiva, formalmente habilidosa e lúdica, sobre a sua interioridade captada em brevíssimos instantes, como em "Lugares Comuns", e corroboração prosódica, "Rés-do-Chão", o mais recente livro, traz um apaziguamento. Não o do esplendor ou o do substrato trágico, mas de memórias ou presenças, entre as quais a de uma maior continuidade na abordagem do amor: "Tornas à cama e abres / aquele romance de sempre / o descanso existe / noutro cansaço." ("Falsa Partida"). O principal efeito destes poemas reside na insistência tão mental como sentimental, sem derramamento, porém, entre o real do corpo (delicados os poemas eróticos, como "Dentro da Pedra" ou "Respeito", território escorregadio), do sentir, e o real do mundo. Ou seja, o poeta, assumindo que "a felicidade não tem história" (Egito Gonçalves), sabe da impossibilidade de uma tranquilidade beatífica, porque, enquanto seres humanos, desejamos estar simultaneamente satisfeitos e insatisfeitos, melancólicos e exuberantes, em calma ou em tensão. A rotina aborrece, a novidade assusta, a passagem do tempo perturba, a perfeição é imperfeita: "Quando / nada traz sentido / sempre / as ondas batem certo / há quanto tempo aqui estamos? Mesmo a / mais perfeita vaga sempre cai / espuma na areia / onde os fracos vão beber / o / champanhe dos derrotados". É o primado do amor no que respeita ao conhecimento que vai, sobretudo, fluindo nesta escrita aparentemente tranquila, mas irónica, elíptica, mas realista, consciente da unidade de um sentido interrompido. Talvez por isso o uso dos parêntesis seja mais enfático do que à primeira vista possa parecer: "(Ninguém escolhe nascer / nem / escolhe sua doença)". Se a melancolia se revelou até agora, de forma imprecisa, pálida, na "antecipação do inverno" ("Este Lado para Cima"), em "Rés-do-Chão", a aproximação mortífera das coisas torna-se mais evidente, não só na consciência de uma tão scheleriana gramática efémera dos sentimentos ("Se os braços devem morrer ao / longo da fadiga de um corpo / que / seja ao longo do teu"; "Os Lugares na Cama"), como da própria morte, ainda que numa perspectiva quase exterior, remetendo, no entanto, para uma intensa reflexividade: "Espreitei a rua para ver se / a / morte já ia longe (ainda / sentia o sino a / latejar na cabeça) dessa vez / (tive a certeza) / tentou ver se levava / alguma / coisa de mim." ("Cortejo Fúnebre"). O livro de João Luís Barreto Guimarães, na sua estrutura narrativa, transporta uma maior densificação de um leve discurso. O coração é humano na medida em que sente (tocante na sua singeleza "Aniversário") e se rebela: "Queria apear pelo chão as peças / do coração para / o poder reparar mas / há / uma dor que sopra fina / como um longo manto escuro / que bate contra a vidraça / e abana a persiana irado / de / não entrar". Nesse sentido, a linguagem poética é desvio, produz penumbras, introduzindo um equívoco entre claro-escuro. O poeta aproximou-se, em "Rés-do-Chão", não só de um suave júbilo, como de um universo de "ruídos da noite", consciente da impotência da poesia e da evocação pela palavra rigorosa, de uma forma não devastadora, dessa experiência. Ainda bem.»


FRANCISCO JOSÉ VIEGAS, Grande Reportagem, Abril 2003
«João Luís Barreto Guimarães é um dos novos poetas portugueses que vale a pena ler. Faz parte de uma geração que aceitou o regresso do lirismo e da melancolia, e criou uma obra singular e de grande qualidade, embora afastada dos grandes palcos - o que é muito bom.»


JOSÉ DO CARMO FRANCISCO, Notícias da Amadora, 17.04.03
«Há neste novo livro de João Luís Barreto Guimarães um ciclo, um mapa, um atlas pessoal, organizados cada um deles a partir da ideia de que cada poema é uma resposta (poética embora) a uma determinada situação quotidiana. (...) Mas não são apenas as situações quotidianas. O tempo, a passagem dos anos, a sua erosão no corpo (...). Entre tempo e memória, entre presente e passado, emergem hipóteses de futuro. (...) Desde 1989 que vemos este poeta singular partir do quotidiano para a vida e para a morte. Para a respectiva meditação. (...) À maneira de Cesário Verde ou de Guilherme de Azevedo o poeta fala de si (...) para falar dos outros (...)»


SÉRGIO ALMEIDA, Jornal de Notícias, 12.05.03
«Discorrer com profundidade sobre o(s) quotidiano(s) é tarefa que poucos poetas manejam com habilidade, tão notório é o perigo de incorrerem na banalidade, esse inimigo mortal da literatura. João Luís Barreto Guimarães é um dos autores que melhor tem sabido conferir uma dimensão poética a essas ambiências domésticas e quotidianas em que tantos, a pretexto da informalidade, acabam por se perder. Demonstra-o novamente em "Rés-do-Chão", o seu novo livro, como já o havia feito, por exemplo, em "Lugares Comuns", e que o confirma como um dos nomes mais interessantes da poesia portuguesa revelada na década de 90 (apesar de o seu primeiro livro, "Há Violinos na Tribo", edição de autor, datar já de 1989). Emotivos sem resvalarem para a sentimentalidade, melancólicos sem caírem numa tristeza fechada em si mesma, os poemas de Barreto Guimarães inscrevem-se numa peculiar concepção do Mundo exemplarmente plasmada por Egito Gonçalves quando considerou que a "felicidade não tem história". E é, de facto, sobre o doce lado do caos que os escritos do autor preferencialmente se detêm, através de alusões constantes à rotina e à passagem inexorável do tempo - "Hoje aconteceu-me mais um cabelo branco / (não sei se tinhas dado com este:) / fica / mesmo ao lado da risca entre os / vinte e nove e / os trinta" - ou da sublime inventariação da desordem: "Adormecemos juntos acordamos / apartados / disputámos o lençol como / quem puxa a razão para si / a / quantos beijos estamos hoje: de distância?". Papel fundamental na obra do poeta desempenha o conceito de lugar. A casa, antes de mais, território da disputa de afectos em que se movimentam as sombras que habitam o livro. Mais uma vez é o quotidiano em toda a sua extensão, do esplendor à decadência, que emerge em poemas cuja estrutura livre e despretensiosa - a lembrar quase "flashes" cinematográficos - reforça o despojamento pretendido. No itinerário de locais destaca-se a vizinhança (a "Ópera de Bairro", como lhe chama), onde se situam o café, a igreja e a praia. É aqui que o autor coloca sobretudo a ironia e o poder de observação ao serviço da poesia: "Quando o carro fúnebre passou a morrer / frente ao Café / enterrei a atenção no jornal receando conhecer / aquele nome ao comprido no / seu / último passeio pela vila". Num livro onde a leveza do discurso poético é apenas ilusória, sobressai o anonimato de vidas que se reconfortam nos apelos ao consumismo ("A / felicidade / entra em casa em sacos de hipermercado") e na perene repetição de hábitos, fórmula encontrada para enganar a morte.(...)»


RAMIRO TEIXEIRA, O Primeiro de Janeiro, 19.05.03
«Não por acaso, termina este livro de poemas com uma epígrafe de um verso, de Egito Gonçalves, que diz: "A felicidade não tem história". Será que não? A mim quer-me parecer que sim. Porque isso de felicidade, menos que um conceito, é uma predisposição de vida, uma crença ou uma disponibilidade para a construir, não digo dentro de uma rotina, mas ao alcance da consciência do ser vivo quotidiano, ao rés das coisas, ao rés-do-chão. Este livro é isso, um conjunto de poemas que sublimam a felicidade sem mais nada. Isto é, conjugam a felicidade em seu diarismo, sem metafísica nem retórica, mas com a sensibilidade suficiente para fomentar o encontro do ser na superfície das coisas do qual atinge a verdade fundamental dos mecanismos existenciais que fazem movê-las. Nesta perspectiva, estes poemas de João Luís Barreto Guimarães, menos do que uma busca de sentidos, são já a consagração de momentos sublimados, configurados a uma distribuição de felicidade de existir, a qual, por sua vez, para o ser de facto, é partilhada com o colectivo, ou, no caso de "Aniversário", agregado, ora com as raízes de que provém, ora com as raízes que por sua vez está a lançar no mundo. (...) Em certo sentido, esta é uma poesia de aspectos domésticos. Mas é só em "certo sentido". Porque o que verdadeiramente aqui está em causa é a expressão duma sinceridade poética, inimiga da retórica, pela consciência do auto conhecimento. E por isso muita desta poesia se revela através de uma espécie de monólogo íntimo, que acaba simultaneamente por ser um diálogo de fecundo realismo. A ver "Não" (...) ou, talvez, mais propriamente, [os] versos de "Os lugares da cama" (...). Os mecanismos da crítica, que sempre acompanham a existência biográfica, mesmo quando ao serviço da exaltação, da valorização das pequeninas fruições, convergem aqui em envolvente ironia, ainda que, sempre, sob um ponto de vista de efectiva simpatia, como em "Ópera de bairro", onde a intimidade dos seres, habitantes do mesmo espaço (prédio), repercute sobre os vizinhos, através de toda a sorte de ruídos, desde os mais íntimos aos mais mecânicos (...). Para quem, como eu, tem acompanhado a produção do poeta desde o seu livro de estreia, "Há Violinos na Tribo" (1989), é fácil verificar como o seu percurso tem sido pautado por um sentido de aguda observação sobre a comunidade, pela via de que a poesia, menos do que um sentido íntimo de encarar o mundo é, antes, a partilha desse mesmo mundo. Que a descoberta do mundo, grande ou pequeno, inicialmente tivesse sido determinada pelo desejo de "espantar" e agora tão somente procure fabular a placidez que ele comporta, não é uma atitude redutora - antes, direi, é o resultado do crescimento do próprio poeta. Porque só quem domina o mundo o pode relatar com esta simplicidade, avesso ao amaneiramento e ao artifício, tecer e exaltar um refúgio fraterno no cerco que nos reduz a coisas.»


EDUARDO PITTA, Ler - Livros & Leitores, Verão 2003
«Tendo publicado o primeiro livro em 1989, João Luís Barreto Guimarães (n. 1967) é, porém, um típico autor dos anos 1990. E acaba de publicar aquela que é, até ao momento, a sua melhor colectânea: "Rés-do-Chão". Dividido em três secções, o volume colige 27 poemas, dos quais 18 haviam sido anteriormente publicados em revistas e antologias. Tratando-se de um conjunto com data de factura entre 1995 e 2002, circunstância que poderia justificar oscilação de voz, é de justiça reconhecer que tal não acontece. A generalidade dos poemas aqui reunidos tem uma unidade orgânica assinalável, talvez porque o autor tenha desistido de piscar o olho ao experimentalismo (quando o fazia, a habilidosa desconstrução da fórmula do soneto terá sido dos momentos mais produtivos). Agora, e sempre com recurso a um muito peculiar uso do enjambement, o discurso é outro: "Arregaçam a manhã (as empregadas fabris) / pernas como tesouras / recortando a calçada / ferem o lenho da mesa com / sortes / de boletim (...) tocam umas nas outras como / se / inda fossem meninas mas a / delas que vai noivar já / traz o primeiro a caminho. E / quando o cigarro se apaga (...) o / que resta é a dor da tarde / que nem esta chuva afaga / o / gasóleo dos rapazes que / lhes cantam a cantiga e / as tomam pela cintura." (p. 32) Não é um exemplo isolado. Mais uma vez temos a sensação de que Barreto Guimarães escolhe o lugar daquele que vê "passar a noite inteira / uma / vida inteira" (p. 14), enquanto anota "desperdícios de voz" (p. 30) e sabe que lhe "toca / ser homem" (p. 49). Há nisto tudo uma toada que lembra os Seventies? Há. Mas também é verdade que a quota pessoal tem selo de garantia.»


ISABEL LUCAS, mAGAZINE artes, Novembro 2003
«"Rés-do-Chão" é o mais recente livro de poemas de João Luís Barreto Guimarães, uma poesia com o tom coloquial da vida que faz de todos os leitores cúmplices perfeitos para a partilha. Quando se estreou na poesia, em 1989, com o livro "Há Violinos na Tribo" (edição de autor), João Luís Barreto Guimarães teve uma óptima recepção por parte da crítica que o apontou como uma das promessas futuras da poesia portuguesa. "Há Violinos na Tribo" era um excelente livro revelação que a restante obra deste poeta, natural do Porto, não viria a hipotecar. "Rés-do-Chão" (Gótica) é a sua última incursão pela poesia e conta já com alguns - discretos - meses nas livrarias. A âncora da sua escrita é, uma vez mais, o quotidiano, captado com uma linguagem que guarda a coloquialidade inerente a esses momentos efémeros que a memória insiste em reter. João Luís Barreto Guimarães reconstrói-os na poesia, mantendo-se fiel ao seu encantamento simples, sem lhes retirar nada da sua essência. O poema "Ópera de Bairro" é disso um bom exemplo: "Os filhos dos do andar de cima correm / presos / pela casa. Não sabem como desgosto disso. / Havia o lavar de roupa da / do terceiro frente / a fúria do aspirador da do primeiro / - TRÁS! / vem / agora o produto do "método natural que usamos" / assinar o dia inteiro o soalho da madeira. / Estão sempre a fazer anos. Levam / o ano inteiro a / festejar aniversários. Só / à noite é o silêncio. "Os miúdos estão na tia". Mas esse quotidiano poético de João Luís Barreto Guimarães é feito de amor e de morte, de memória e de desejo, de tudo o que compõe a vida, invocada de uma forma que não a descontextualiza, dada ora na sua mais natural vulgaridade, ora com o seu carácter mais sublime, com a referência a nomes, lugares, gente com existência real, gente que sempre que sai da vida e nos espanta, como em "Cortejo Fúnebre": "Quando o carro fúnebre passou a morrer / frente ao Café / enterrei a atenção no jornal receando conhecer / aquele nome ao comprido no / seu / último passeio pela vila. Os mais velhos / no Café / ousaram até à vidraça comentando / circunstâncias sobre a vida / que / tinha o morto. O / sino da torre da igreja soava / tão alto lá fora / os / acordes pareciam flechas / alvejando o salão. Mas a / morte / não é tudo na vida pelo / que / no instante seguinte / todo o povo dispersou e os mais velhos / no Café / voltaram ao dominó / confrontando entre si a / última ida ao médico / o / mais recente sinal ou / sintoma de doença. / Espreitei a rua para ver se / a / morte já ia longe / (ainda / sentia o sino a / latejar na cabeça) / dessa vez / (tive a certeza) / tentou ver se levava / alguma / coisa de mim". O tom é o da confissão, como que a convocar cumplicidades, difíceis de negar a quem apela assim. "Hoje aconteceu-me mais um cabelo branco / (não sei se tinhas dado com este:) / fica / mesmo ao lado da risca entre os / vinte e nove e /os trinta"...»


JORGE LISTOPAD, Jornal de Letras, 12.11.03
«João Luís Barreto Guimarães é um poeta feliz. E se "a felicidade não tem história" (citado de Egito Gonçalves) sempre pode criar versos. A felicidade não se coaduna com experimentação? A ver vamos. Os poemas de amor "embaciado" mas cada vez mais objectivos a reter a alegria para chegar à melancolia, para deixar fluir o tempo que é o seu. "Rés-do-Chão", é o título da recolha que a Gótica publicou e os amigos da poesia vão estimar, gostar, amar até. O meu poema preferido? "Champanhe dos derrotados" da segunda parte - "Ópera de Bairro", aliás dedicada a Alexandre O'Neill. Mas também estamos com o autor em Leça, essa de António Nobre. Por sinal. Por sinal de parentesco triplo... (Gostava que J.L.B.G. lesse, se o já não tivesse feito, os poemas da brasileira Adélia Prado).»


PEDRO MEXIA, Diário de Notícias, 02.04.04
«João Luís Barreto Guimarães reuniu em "3 (Poesia 1987-1994)" os seus primeiros livros, e publicou além disso os poemas em prosa de "Lugares Comuns" (2000). "Rés-do-Chão" (2003) não é, de modo algum, uma obra de ruptura, a não ser numa reiterada capacidade de escrever sobre matéria jubilosa. Estes são, no essencial, poemas sobre o mais raro dos temas: a felicidade. E mais: a felicidade conjugal. Textos sobre o matrimónio isentos de acrimónia e preocupados com os esplendores e trivialidades do quotidiano familiar. Isso é evidente na primeira parte do livro, inteiramente dedicada à celebração da domesticidade. Uma proximidade ternurenta e erótica, com o sono, o corpo, a nudez tranquila mas ainda comovente, o novo corpo amoroso que é a filha, as noites em que o sexo não apetece. Por vezes tudo é simples: "Adormecemos juntos acordamos / apartados / disputámos o lençol como / quem puxa a razão para si / (...) Se / os braços devem morrer ao / longo da fadiga de um corpo / que / seja ao longo do teu / (...) por favor fica a meu lado. Quero / que sejas tu o / parente mais chegado" (pág. 19). Outras vezes a simplicidade é o próprio modo de evitar a monotonia: "Tira a aliança do dedo. O gozo / é redobrado se / nos assinto ilegais. Porque / esse / aro dourado concede-te / direito a mim / não há pecado assim: / o meu / nome em ti o / teu / nome em mim / e / essa data grafada em que assinamos / de Cruz / o arbítrio da união. / As / mãos procuram respostas como / quem ergue rosas pelo espinho: / tira a aliança do dedo. Se / essa lei é sagrada nós / somos apenas mortais precisamos / de pecado: / vamos / dormir ilegais" (pág. 27). Esse quotidiano também se faz de coisas triviais: os sapatos, o lugar na cama, o banho, a roupa que se veste e despe, as conversetas sobre se os respectivos pais e mães ainda farão amor. Porém, a paz doméstica é por vezes atravessada por pequenas sombras, sombras do passado e do futuro. Do passado surgem, num poema, as cartas de paixões antigos, às quais não se deve ser desleal, o que evidentemente não impede a fidelidade ao presente. Ou então, um isqueiro que lembra alguém e que, por isso, não deve ser usado. Ou, simplesmente, o passado na forma da passagem dos anos: um cabelo branco que aparece, mínima melancolia meditativa. As memórias, nestes poemas, lembram a hipótese da instabilidade, daquilo que nunca verdadeiramente se sabe, pelo menos nos afectos. E que não nos deixa certezas sobre o futuro. Formalmente, Barreto Guimarães usa o verso curto ou mesmo curtíssimo (uma palavra por verso), com uma translineação sui generis e por vezes duvidosa, o uso abundante do parêntesis como comentário e aparte, e sobretudo com uma discreta sabotagem do previsível, no que é uma das marcas mais interessantes desta poesia. Uma poesia que encontra soluções que parecem o ovo de Colombo para demonstrar, p. ex., a sanável contradição entre unidade e individualidade num casamento: "Bebo o meu café enquanto bebes / do meu café. Intriga-me que faças isso. / Se te posso pedir um / (se podes tomar um igual) / porque hás-de querer do meu? / Que / não. Que não queres. Escuso / de pedir / que não queres. Então / começo / um cigarro e tu fumas do / meu cigarro dizes / «tenho quase a certeza de / não acabar um sozinha» por isso / fumas do meu. Dá-te / gozo esse roubar / de / leves goles furtivos / dá gozo participar / do prazer que eu possa ter / contigo / ( e entre nós) / dá-se agora tudo / a meias» (pág. 13). Nestes poemas, a vida doméstica nunca é vista numa perspectiva ensimesmada, nem se esgota na realidade do casal. A domesticidade é gémea de comunidade e da vizinhança e por isso o poeta se preocupa com os vizinhos, com as crianças múltiplas e ruidosas sempre a fazer anos, com as raparigas que passam, com os conhecidos que morrem. Se existe alguma paródia à O'Neill, o tom é sobretudo reflexivo, com a variedade das experiências mas sobretudo com a sua fatal semelhança. Assim, se o casal passeia uma criança de uns amigos, sente logo que passeia a sua criança futura. E o mesmo se diga das furtivas tristezas e alegrias misturadas, que se observam no café, numa espécie de opereta tragicómica sobre a humanidade. Porque o que é importante é também banal: assim que passa a carrinha funerária, os velhos que a viam passar voltam ao dominó. Os poemas finais surgem tingidos de uma serena inquietação. Chove, e a chuva e o vento são ténue prenúncio de angústia, do futuro. Vendo os avós com os netos, tudo é semelhante, e o futuro desconhecido. A casa tem vestígios de uma vida: roupa espalhada, garrafas vazias, nódoas, cabelos, jornais, a cama por fazer. E os vestígios nada dizem sobre o que fica daquilo que passa. A realidade mais directa - uma lareira - desdobra-se em possibilidades metafóricas, que deixam sempre em aberto a "felicidade", indecisão maior no meio da celebração. "O puxador da porta da cozinha está estragado / faz um mês. Não passa dia sem que peças / que conserte o puxador / não concebes ser possível eu / sempre ter tido engenho para / estas coisas da casa e / ainda / não ter tido tempo para compor / o puxador. Mas / não se trata de nada disso. Eu / já o teria composto ( se o / quisesse reparar) / teria arranjado tempo / não me ia custar mesmo nada. Mas / depois ia / haver que alfinete? (encravado na rotina) / Como não estranhar a absurda / ausência da avaria?/ Deixa-o / ficar assim. Deixa-o andar assim / (ternamente avariado). / Cada dia pela manhã / quando passares à cozinha / (...) e ficares com o / puxador da porta da cozinha na mão / tua voz regressará ao / exaustivo pedido / (ao / alívio confortante dessa ser / nossa alegria) e / eu / sentir-me-ei feliz por / ainda te ter por perto / por me / fazeres companhia» (págs. 46-47). A felicidade não tem história? Tem. Mas a moral da história é viver essa história: "Nunca tanto como hoje reparei com atenção / na / luz do sol de Janeiro. Forte / mas delicada. Furtiva / mas / demorada. Não arde nem faz tremer. / Não é densa nem clara. A / luz / do sol em Janeiro: / assim é o nosso amor / oculto pela tinta dos dias apenas / espreita uma aberta / (uma distracção das nuvens) / para / luzir e irromper / (nunca antes como hoje precisei / tanto que o vento lhe / desse oportunidade). / O nosso amor / é Janeiro: / mesmo se o julgo esquecido / sei que / está sempre lá" (pág. 42).»


3 (POESIA 1987-1994)

89 poemas

1ªs edições, 1989, 1991 e 1994, esgotadas

2ª edição, Gótica, Lisboa, 2001
capa de Rogério Petinga a partir de óleo de Edward Hopper «House at Dusk», 1935
direcção literária de Maria da Piedade Ferreira

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§



15


apetece por vezes com os dias morrer por um pequeno
instante e deixar os fogos soltos na areia: acrescentar
água à face e perturbar os sentidos em busca da única
luz ou então sentar os movimentos e escrever a uma

amiga. dizer assim como quem fala: que espécie rara
de deus é o teu? a vida é ficar abraçado às dunas
apenas se há dois braços de areia por quem sonhar.

vir então aos poucos contando os mastros do verão
cumprindo o desejo das cartas de mar e assim mesmo
confundir todos os relógios da rota só para ter
mais tempo para ficar. o resto é saber todo o

alfabeto de cor até ao fim até que as palavras vão
nascendo devagar para ser: sonho no sono dos dias
ou ser sono dentro de mim


in "Há Violinos na Tribo" (1989)



§



12


vens
caindo
pela dor
acomodando

nuas palavras
à ferida de ter
perdido. a face é
pequena para sentir

o que em nós sobrevive
no instante em que a voz
desce as sombras desse dia

onde voltar já não se escreve
com medo das marés. podes agora
subir: é como estar (de novo) na luz


in "Rua Trinta e Um de Fevereiro" (1991)



§



passou um autocarro (não vi para onde
ia) dois miúdos disputavam o lugar à
janela os estrangeiros já chegaram

aos oásis da cidade andam a deitar
cimento no velho campo da avenida
onde pastavam cavalos sob um vento
jardineiro. o néon das lojas flutua

sob a chuva que ameaça (rodas
soluçam de fumo no calor das luzes
quentes) ficamos a ver os trabalhos
junto ao jipe abandonado (FT-1?-27)

quando dizes tens de ir (só ficas
mais três Renault) não meças o tempo
assim: três Renault é um instante


in "Este Lado para Cima" (1994)



§



Diário de Notícias
, 08.07.01
«Textos que viajam do quotidiano à "luz líquida" de um amor, da natureza ao estilhaço interior.»


MANUEL DE FREITAS, Expresso, 25.08.01
«João Luís Barreto Guimarães publicou há não muito tempo "Lugares Comuns", um excelente livro de "poemas em prosa". "3 (Poesia 1987-1994)", integrado na graficamente estimulante colecção de poesia da editora Gótica, vem agora reunir as anteriores obras do autor. Como vários críticos puderam já observar, João Guimarães destacou-se, entre outros aspectos, pela destreza quase obsessiva com que cultiva a arte do soneto (apenas dois dos poemas incluídos neste livro não têm os convencionais 14 versos). Não querendo incorrer numa leitura demasiado "formalista", haverá a sublinhar a visível sedução do autor pela materialidade do signo, mesmo no que isso possa ter de meramente lúdico (...). Outras preferências gráficas e sintácticas - passíveis, obviamente, de determinar, contaminar ou suspender o "sentido" - consistem no recurso a elipses, parêntesis e finais abruptos (...). Poder-se-ia dizer que estamos perante uma estética da imprecisão, à qual não será alheia a presença recorrente do vocábulo "algo" (...). Note-se, porém, que essa imprecisão assenta num núcleo lexical a que o poeta se tem mantido fiel e de que fazem parte "sol", "gato", "amigos", "riso". São essas, talvez, as palavras que nesta poesia melhor retêm ou reinventam "a sucessão dos dias" (...), assumindo-se como "pequenos refrões onde se constrói o efémero" (...). O autor tem, aliás, lucidez bastante para reconhecer que "não há oceanos a descobrir apenas: pequenas / águas" (...). A humildade, neste caso, traduz-se num misto de serenidade e de resignação, à imagem do que sucede em certos poemas de Larkin (autor por duas vezes citado): "há que aceitar as / coisas como são embora longe do sítio da razão" (...). Mas seria talvez apressado ou inoportuno falarmos de "felicidade" a propósito de alguém que reconhece que "há uma certa ingenuidade em tentar ser feliz" (...). Seja como for, a ignorância (ou um simulacro dela) pode revelar-se o melhor antídoto para a dor em poemas que se incumbem de dissipar "eventuais / porquês perante a real forma das coisas" (...). Daí resulta não uma tonalidade próxima da angústia ou da melancolia mas antes uma irónica compaixão pelo quotidiano, cuja poética talvez possa ser encontrada nos seguintes versos: "perder o lugar das coisas ganhar o / silêncio do sítio por elas desocupado" (...). Estamos, portanto, em presença de um "realismo" baço, desfocado, que resvala por vezes para lugares prosódicos e lexicais em tempos frequentados por António Franco Alexandre: "vens / caindo / pela dor / acomodando // nuas palavras / à ferida de ter / perdido. a face é / pequena para sentir // o que em nós sobrevive" (...). Falar de epigonismo seria, sem dúvida, excessivo. (...) Felizmente, são várias e predominantes as passagens em que esta escrita obstinadamente coloquial se consegue redimir dos seus frívolos pecados. Estou a pensar, sobretudo, na elegante concisão com que o humor do poeta se dá a ler: "a procura / é parte integrante do poema não pode ser / vendida separadamente" (...). Ou, ainda, na frequência com que se disseminam pelos textos imagens imprevistas do quotidiano, assentes no que à partida não passaria de um simples apontamento. Sirvam de exemplo a descrição "heraclitiana" de uma viagem de táxi ou a enternecida homenagem à Torre dos Clérigos (e à cidade do Porto) que encerra o livro (...). Haverá, ainda assim, momentos de insustentável leveza: "o terramoto de Lisboa foi em mil700 e / qualquer coisa e tu estás aí e não fazes nada (não / me abraças não me beijas não sorris:) então? espero" (...). Mas esta "leveza", em que alguns por certo verão um defeito, afirma-se quase paradoxalmente como a qualidade maior da escrita de João Luís Barreto Guimarães. De resto, não será a poesia portuguesa mais recente (com as habituais excepções) uma arte de atravessar leve, levemente, os dias e os livros?»


PEDRO MEXIA, Diário de Notícias, 29.09.01
«João Luís Barreto Guimarães (n. 1967) aparece com frequência, e com justiça, na lista dos poetas revelados na última década. (...) Convém desde já desfazer um certo equívoco que se pode gerar em torno dos poemas de Barreto Guimarães, o qual reside em tomar esta escrita como "light" (já lhe chamaram assim), uma espécie de poesia de circunstância, mais ou menos lúdica, mais ou menos "habilidosa" e esse ludismo, e apenas isso. Não que essa habilidade e esse ludismo não estejam presentes nos versos de JLBG; eles existem, mas apenas porque são os artifícios de que o poeta se socorre, como outros se valem da rima ou da mancha visual do poema na página. O trabalho principal de Barreto Guimarães anda à volta da forma soneto, mas de um soneto não rimado e que nem sempre se decide no 4x4x3x3 mais comum. O soneto é aqui um necessário vestígio formal numa poesia que pode parecer anárquica. Os poemas quase não têm pontuação, a não ser aquela que de certo modo modula ou transforma o discurso, como os parêntesis (utilizados para repetir, corrigir, ou exprimir apartes), e os dois pontos (menos uma demonstração do que a apresentação de um paradoxo). Desse modo, cada texto é um conjunto de afirmações simples sabotadas a cada passo por interrupções de sentido dentro do próprio poema. O que podia ser um discurso contínuo vê-se recortado de perguntas, enumerações, elipses, vozes, algarismos, mas também de preços, códigos, receitas, trocadilhos adivinhas, erratas, sinais gráficos e toda a espécie de jogos formais. Há um poema que é uma chamada telefónica (...) que, por falta de moedas, nem chega ao fim; outro é uma velha máquina de escrever à qual já falta uma letra e que por isso faz desaparecer essa letra do próprio poema (o que não desagradaria a Georges Perec). O tom dos poemas é o de uma semi-seriedade, uma reflexão sobre os "lugares comuns" da existência em que a inquietação é a cada momento temperada pelo humor ou por inesperadas imagens poéticas (estas nem sempre imunes a um lirismo por vezes demasiado simples). (...) Como acontece com grande parte da poesia cheia de artifícios formais - basta pensar em e. e. cummings - há alguma vontade do autor em não cair de cabeça no "pathos" e como que imprimir ao poema a entoação, a incompletude e a divagação próprias do discurso oral (o que também quer dizer que JLBG é um autor muito propício à leitura em voz alta). Se o núcleo temático principal destes textos é a amizade, é porque a amizade é o conceito relacional mais vasto, porque na amizade está a nossa biografia; os amigos são, no sentido mais lato, os outros, e os poemas são a cada momento relatórios minuciosos e lacunares das nossas relações com os outros. Mesmo o amor, que aparece quase sempre como uma promessa nestes versos, é uma forma (transitória?) de amizade, e partilha da visão global que o autor tem do mundo: a alegria dos pequenos nadas de que são feitas as vidas e uma quase desilusão: "é muito/ difícil Senhor todos os dias vestir a/ melhor roupa de domingo" (...). A segunda parte de "Há Violinos na Tribo" chama-se "As Pistas", e não há senão pistas ao longo de "3", quer dizer, sinais equívocos do passado e do caminho a seguir. A visão minimalista desses sinais é quase sempre mais lúcida e pertinente do que qualquer visão de conjunto, a qual, diga-se de passagem, raramente é tentada ao longo deste volume. Por isso um livro pode intitular-se "Rua Trinta e Um de Fevereiro", uma data que não existe mas que, tal como é próprio do poético, podia existir. Não procurar, mas encontrar, eis o mote destes poemas. Não será arriscado pressentir nestes versos algumas lições bem digeridas da música pop destes últimos vinte anos: uma espécie de educação sentimental em fragmentos, que já não parte de uma visão coerente do mundo mas que precede por avanços e recuos, sempre em torno de algumas "migalhas filosóficas" de cariz emocional. Não é por acaso que o primeiro livro é dividido em "faces" e "lados" como os LP's de boa memória. Nem é por acaso a referência a Lloyd Cole, um mestre na escrita de canções (e cujas "lyrics" Barreto Guimarães tem vindo a traduzir). A revisitação dessas canções é também, evidentemente, um acto de memória, mas a memória, tal como o futuro, não é um território sólido, e aparece apenas em lampejos (...). Música e memória aparecem como uma só entidade num poema em que o estado de um disco riscado pelo uso se transmite ao poema, cuja linguagem fica "riscada", aos saltos e repetida. Os poemas de JLBG são, em grande parte, poemas domésticos (sobretudo em "Este Lado Para Cima"), e conseguem apreender em cenas domésticas, com as arrumações, a pequena tristeza que carregamos (Larkin, citado em epígrafe: "Home is so sad") e a surpresa do que nos está (estará?) reservado. "3" tem alguns poemas nos quais a achado é a própria situação, como a nota de banco que nos volta às mãos, noutros o que prevalece é a felicidade verbal (...). A mistura entre o trivial e um lirismo carregado pode ser bem perigosa (...). Mas aqui o trivial não é apenas descritivo mas interrogativo, e o lirismo, mesmo quando é frustrado, é contido e não derramado. Apesar das habilidades formais de JLBG, esta não é uma poesia formalista, porque o mais conseguido "enjambement" está sempre lá para realçar uma poesia de emoções, e da grande partilha de emoções que é a amizade. (...) Entre o trivial e o poético há uma "fronteira fluida" que cabe à linguagem - aos jogos de linguagem - desvendar. É por isso que quando a certa altura se diz que a vida "tem o seu quê de técnica", o mesmo se pode dizer destes poemas, que resultam de grande trabalho para aparecerem assim simples e porventura acessíveis. Vale a pena terminar com a epígrafe final, tirada de um livro de João Miguel Fernandes Jorge: "O quotidiano/ é ainda um discurso (Rodrigues & Rodrigues Alfaiates)". Nem mais.»


FERNANDO PINTO DO AMARAL, Público, 02.02.02
«Aparecido em 1989 com "Há Violinos na Tribo", João Luís Barreto Guimarães (n. 1967) tem-se distinguido por uma poesia geralmente serena, mas por vezes capaz de subverter subtilmente o horizonte de expectativas do leitor, sobretudo graças a uma linguagem que (...) se abre a pequenas surpresas ou a súbitas revelações. Este volume - que reúne três livros publicados pelo autor entre 1989 e 1994 - vem agora permitir a releitura de uma obra, cujo maior mérito talvez consista na recuperação de um quotidiano disperso pelos habituais cenários urbanos nesta viragem de século (por exemplo os cafés do Porto), num tom tranquilo, denotando sempre uma certa ternura e um sentido de humor que relativiza as coisas e não leva muito a sério tudo o que nos rodeia. Assim, e apesar de reconhecer que "há uma certa ingenuidade em tentar ser feliz" (...), esta poesia não desiste de procurar algumas alegrias, que tanto podem disseminar-se ao nível dos pequenos acontecimentos de cada dia como, pelo contrário, concentrar-se na intensidade de emoções ocasionalmente mais fortes, desaguando então num lirismo voltado para a celebração do amor (...). Toda a escrita de J. Luís B. Guimarães pode considerar-se, nesse sentido, um percurso "dos olhos ao coração", embora o seu tom predominante seja o de uma suave ironia em face do mundo e das palavras que tentam dizê-lo - ironia aliás extensiva a certas realidades portuguesas contemporâneas, como se lê num poema escrito a respeito de uma nota de mil escudos, aliás muito actual, agora que se concretizou a chegada do euro (...).»


JOSÉ RICARDO NUNES, 9 Poetas Para o Século XXI, Angelus Novus, Coimbra, 2002
«Tal como a maioria dos mais recentes autores – e de acordo com o que Pedro Mexia refere num artigo cujo título é, precisamente, "Poetas Portugueses de Agora" - João Luís Barreto Guimarães não tem tido um "ritmo de publicação muito constante". (...) Começaria por notar, nesses três livros, a insistência no poema de catorze versos, a clara opção formal pelo soneto. Todos os poemas em causa respeitam essa forma (vinte e oito no primeiro livro, trinta e um no segundo e trinta no terceiro, números que apontam para mais uma regularidade). (...) Este constante recurso à forma fixa do soneto, que à partida poderia constituir um espartilho limitador, abre, contudo, inúmeras possibilidades inventivas à escrita de João Luís Barreto Guimarães; na verdade, a forma fixa é dinamitada na sua rigidez pelo Autor, apostado em sabotar a própria ideia de forma e, como iremos ver, empenhado em afastar todos os constrangimentos impostos a partir de fora e que condicionem criatividade e liberdade. (...) Esta tendência é mais geral e vai no sentido da (des)formalização da escrita poética. Encontra também expressão noutro tipo de manifestações, algumas ainda com um carácter marcadamente visual, como por exemplo a reprodução de um caderno diário, a simulação do espaço das assinaturas de um contrato, a apresentação de uma relação de bens e respectivos valores ou um maior espaçamento entre palavras ou segmentos discursivos. (...) Outros processos reforçam uma intenção lúdica que aproxima a poesia do domínio do jogo, tais como a apresentação e resolução de enigmas ou o recurso à introdução de códigos ou notas explicativas. Dos três em referência, o livro "Rua Trinta e Um de Fevereiro" é talvez aquele onde estes processos ocorrem em maior frequência (...). Não se trata de processos gratuitos. Excepção feita a uma talvez exagerada utilização dos parêntesis na composição de "palavras duplas", que pouco acrescenta, em regra tais processos não surgem desligados de um sentido que se visa a propor. Realçaria, por exemplo, num poema de "Este Lado Para Cima" (...), a desaparição da letra e da tecla "b", associada ao sentido de perda ou esvaziamento para que o poema me parece remeter, ou as repetições que ocorrem na secção final do primeiro poema desse livro, na sua relação com a passagem do tempo e os seus ciclos naturais a que correspondem as estações do ano (...). Outra das características destes versos de João Luís Barreto Guimarães consiste na multiplicação de linhas discursivas. Diversos fios discursivos coexistem no mesmo texto, o que é por vezes conseguido através do uso do parêntesis, o qual permite intercalar novas linhas discursivas na que é iniciada com o começo do poema. Essa coexistência é também atingida através da utilização de segmentos que se tornam comuns e funcionam como elos de ligação. Os textos são, então, resultado da justaposição ou articulação de pequenos blocos com carácter mais fragmentário. Uma apurada e constante utilização do enjambement permite, ainda, acentuar a indeterminação e ambiguidade resultante da interpenetração dos diversos planos discursivos. Ao Leitor cabe demarcar ou constituir os diversos fios discursivos que no poema se articulam. A predominante utilização de minúsculas e um uso arrítmico da pontuação, que muitas vezes não cumpre as expectativas do Leitor, contribuem também para a indeterminação e ambiguidade do discurso poético. (...) Revelando-se importante e merecendo o devido destaque, não é, todavia, esta componente formal aquilo que mais importa reter da poesia de João Luís Barreto Guimarães. Ela vale, sobretudo, pelo desafio, pelas experiências que convoca e com as quais se confrontam as nossas pequenas "certezas". Neste contexto, é possível detectar um percurso onde, tendencialmente, o plano de conjunto - abstracto, distanciado, expectante - vai aos poucos dando lugar de destaque ao grande-plano ou ao plano de pormenor que procura coisas concretas que estão próximas de nós e nos interpelam. A poesia de João Luís Barreto Guimarães desaloja-nos dos lugares seguros onde convivemos e retira-nos uma base de sustentação erigida a partir de aparências e de factos que se supõe evidentes. Há que ter presente, em primeiro lugar, a estrutura predominantemente narrativa dos poemas. (...) [É] visível que nos encontramos face a pequenas histórias, na sua maioria centradas em acontecimentos triviais e quotidianos a partir dos quais se desenrola uma existência. Trata-se de uma poesia dura e que deliberadamente se acerca do prosaico, tanto pelo seu objecto quanto pela sua delineação formal. As marcas evidentes de coloquialidade são ainda mais um apelo ao leitor. Em regra, o quotidiano dessas histórias é amargo e pesado, reconhecendo-se que "edificamos barreiras nos dias" (...), assim se inviabilizando as existências. O quotidiano normaliza, tende a destruir as marcas de uma diferença que a palavra poética proporciona ou da qual é expressão (...). Muitos destes versos assumem, aparentemente, uma derrota que se transforma em tristeza, em melancolia, face ao enorme peso do cenário, tão grande que não pode ser mudado. Perante tal constatação, que seria de molde a conduzir ao silêncio e ao vazio, vemos estes poemas levantando pequenos oásis, frágeis ilhas de existência que os "sentidos" sustentam, pois "este é o tempo dos / frutos tempo de se ser feliz nunca muito longe: do corpo" (...). A luta contra a inapelável passagem do tempo, que consuma o apagamento do sujeito e a sua entrega, faz-se precisamente através da revelação de acasos, como o do homem da portagem que pede "duzentos / escudos e uma flor" (...). Deles se desconhece as regras ("qual a regra do acaso?"), mas são - ainda que momentaneamente - os "pequenos refrões onde se constrói o efémero" (...), e permitem dar algum outro sentido à vida. Tal também é possível recorrendo à memória, indo buscar passadas experiências (...). Um dos pares de opostos mais visível nestes versos põe em confronto ilusão e verdade. As "certezas do mundo" (...) e "a manhã seguinte" (...) são vistas como a ilusão onde "habitamos" (...). Entre a certeza, sempre precária, e a ilusão, que impede de ver, estabelece-se uma luta sem tréguas na qual não há vencedores nem vencidos, mas apenas sobreviventes. As principais armas brandidas são o humor e a ironia, um riso imenso (...). Acrescente-se agora que os poemas de João Luís Barreto Guimarães são poemas com pessoas, com experiências de vida que podem e devem ser postas em comum. Nunca o poema, por mais que se auto-referencie ou os imperativos de ordem formal o façam centrar nele próprio, se afasta dessa intenção fundamental de comunicação e partilha onde também se vê à transparência um idealismo algo utópico que visa à "construção da terra" (...). A referência à "Tribo", no título do primeiro livro publicado, demonstra desde logo que a solução de continuidade não é desejada e que o poeta se encontra no seio de uma comunidade. Nessa linha se enquadra o frequente apelo aos amigos, que são dispostos "pelas paredes do quarto" (...) e "sempre voltam trazendo a pressa consigo" (...). Como o Autor reconhece, "por aqui não há já quem acredite em ilhas desertas. / um dia passa chega outro e depois outro e sempre temos / alguma coisa a saber uns dos outros: alguma coisa" (...). É por isso igualmente uma poesia quente, que aposta nos homens - pois "[...] como / as garrafas devem ser despidos por dentro" (...), que aposta na amizade e nos lances de risco do amor (...). Mas não é somente por esta última via que a poesia de João Luís Barreto Guimarães acaba por ter um fundo positivo e se afirma como hipótese de redenção. É a palavra poética – onde o sonho e a imaginação se corporizam no que têm de mais efémero e, simultaneamente, de mais verdadeiro – a âncora de um princípio de realidade que supera o asfixiante quotidiano e suas ilusões.»


LUGARES COMUNS

52 pequenos poemas em prosa

1ª edição, Mariposa Azual, Lisboa, 2000
capa de Olímpio Ferreira a partir de desenho de Jorge Colombo, «Café Corcel», 2000
direcção literária de Nuno Moura e Helena Vieira

> Encomendar este livro na Wook.pt, na Livraria Leitura ou directamente à Mariposa Azual



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26 DE OUTUBRO


Há muito tempo não me calha um café pela chávena esquinada. Por ela me apercebi de que a frequência de rotação das chávenas pelos clientes é, em média, de uma vez por mês.
Setembro inteiro passou sem que me tivesse calhado uma curta vez que fosse, a familiar chávena esquinada. Dia após dia rodei a pequena asa branca, na pressa de reconhecer no perímetro da cerâmica aquela ferida antiga. A última vez que a usara, uns lábios tinham-na beijado com tanto afago pela manhã que pelo final do dia trazia ainda indeléveis as marcas daquele afecto. Não é fácil lavar um beijo.
De quando em vez o acaso rasga o espaço do Café e chega-nos desde o balcão, a inconfundível voz de cacos espalhando-se em descuido contra o mosaico do chão.
Desconfio seriamente que a chávena tenha morrido.



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11 DE JANEIRO


São várias as possibilidades, ao tomares lugar numa mesa. Há quatro cadeiras por tampo e a tua escolha de entre elas, depende muito mais da atitude que queres ter para com o salão, do que de qualquer acaso, vazio ou impensado.
Ficas voltado para a porta se queres oferecer a manhã aos rostos de quem entra e sai. Escolhes um lugar contra o vidro se pouco te importa a avenida, ou olhas a parede de espelhos se te agrada espiar o que se passa pelas mesas.
É que logo depois de optar nunca te sentas sozinho. Senta-se contigo a ideia de como teria sido a manhã passada noutra cadeira, que oportunidades teria dado uma escolha paralela, deixando as horas passar sentado noutra decisão.



§



4 DE ABRIL


Um pingo de café desliza pela base da chávena e cai sobre o papel onde escrevo.
Acidente de trabalho.



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MANUEL ANTÓNIO PINA, apresentação de "Lugares Comuns" no Café Majestic, Porto, 01.07.00
«"Lugares Comuns" é o quarto livro de João Luís Barreto Guimarães, depois de "Há Violinos na Tribo", "Rua Trinta e Um de Fevereiro" e "Este Lado Para Cima"; e é, provavelmente, todos eles e, se calhar, todos os outros que João Luís Barreto Guimarães há-de ainda escrever. Porque é um livro de tal modo único e idêntico que é difícil deixar de pensar que essa identidade possa configurar, configure, também uma identidade literária, a identidade de um escritor. Principalmente sendo esse escritor um poeta, alguém habitando os lugares mais fundos e mais perplexos da identidade. Talvez este livro seja então, quem sabe?, uma breve, uma brevíssima, epifania do absoluto livre a venir que a poesia de João Luís Barreto Guimarães - como faz cada obra literária - melancolicamente persegue. São 52 pequenos textos ligados por um comum fio de sentido: o tempo e o lugar do Café. A vontade de verdade, ou vontade de crónica (digamos assim), de João Luís Barreto Guimarães vai ao ponto de os referir a um Café concreto, o Café Corcel, e de os datar de cada uma das quintas-feiras de 1994 e 1995, organizadas regularmente (13 em cada ciclo) segundo o ritmo natural (digamos também assim) da sucessão ascendente das estações: Outono, Inverno, Primavera, Verão. O processo revela, sabiamente, o que a natureza circunstancial dos textos oculta: que o tempo do Café é o tempo da vida, e o seu lugar a morada, o lugar-comum, do Mundo. A palavra, muito particularmente a palavra poética, é, aqui, o ponto fixo a partir do qual o poeta, da sua “mesa do canto”, preenche de Mundo o olhar. O Café é então uma espécie de aleph, público e repetido, onde o Mundo se repete. Um Mundo que se volta para dentro (ou para onde o dentro se volta), e em cuja superfície se abrem, subitamente, brevíssimos abismos sobre o ser e sobre a vida. Repetição do Mundo que é tempo, presente e passado, e passagem. Passagem de tempo e passagem de gente, que deixa sinais, destroços, vestígios, a que a palavra poética procura dar um rosto. E também, fértil e levíssima, passagem dos sentidos a sentimentos. No tempo do Café confluem os tempos inúmeros da vida, desde o da “mesa do casal de idosos [que] guarda agora apenas um”, ao tempo de um fósforo ou de um cigarro que se apaga, ou, mesmo, ao tempo anterior e exterior ao Café ou ao tempo suspenso da escrita. O corpo do Café é feito de pequenas e efémeras circunstâncias, de instantes, de olhares, de palavras partilhadas (e de beijos também, nem que seja apenas numa chávena mal lavada), de cumplicidades, de incomunicações, de presenças e ausências, e nesse corpo coincidem múltiplos e dispersos territórios (lugares) comuns, de fronteiras dificilmente discerníveis, num melancólico corpo-a-corpo como o do poeta com a sua tinta e o seu lápis (e as suas palavras). Todo esse fluxo de vida e de existência chega ao olhar e ao coração (e ao caderno) do poeta e, aí - no olhar, no coração e no caderno, que não são instâncias substancialmente distintas -, transformam-se, (querem transformar-se) em palavras. E o poeta oferece-nos o espectáculo desse obscuro querer sob a luminosa forma de rápidos apontamentos ou [instantes], e frequentemente enternecidas, considerações, também ele, como o dono do Café, “acredita[ndo] no conhecimento apenas através da experiência”. Poesia, pois, da experiência, o que quer que isto queira dizer (porque, provavelmente, toda a poesia de algum modo o é). Experiência das coisas e do Mundo, e da relação com o Mundo, e da relação com os outros, e da relação consigo mesmo através dos outros e do Mundo. O que João Luís Barreto Guimarães faz através da imagem surpreendente e fulgurante; da palavra inesperadamente exacta; do sábio sabor de um silêncio, uma luminosa fenda, entre uma frase e outra; da expressão que se suspende até à impressão; d[a] incisão de um adjectivo ou de um verbo, ou de uma construção subitamente insólita; ou, enfim, através da rapidíssima fanopeia, nas fronteiras do haiku. Quantas vezes, a meio da leitura, eu fechei lentamente este livro sobre os joelhos, com os dedos abandonados entre as páginas, tocado por uma palavra ou por um fio de palavras, e posto de repente perante mim mesmo, ou daquilo que, em mim mesmo é - que sei eu? - mais secretamente idêntico, e levado, também eu, à tonta do pulsante ritmo do seu (deste livro) coração?»


JOSÉ DO CARMO FRANCISCO, Notícias da Amadora, 27.07.00
«Um verdadeiro lugar comum a estes poemas (que nunca deslizam para o lugar-comum...) é o café, qualquer café capaz de servir de porto de abrigo à oficina do poeta. (...) Mas o café surge igualmente como espaço de transfiguração. A realidade ganha contornos e dimensões inesperadas. (...) Montra de loja ou porto de abrigo, o café é sobretudo um lugar de pessoas, uma paisagem povoada. (...) Metáfora do Mundo, o café pode igualmente surgir como uma sala de perguntas onde o poeta se interroga, interrogando o tempo através da palavras.»


FERNANDO SOBRAL, Diário Económico, 04.08.00
«Um café pode ser um local de encontro, o epicentro de tempestades sem fim, de sonhos com prazo, de paixões escorregadias. Nas mesas de um café pode construir-se um mundo. Ou, simplesmente, pode encontrar-se nelas o local propício a pequenas reflexões, fruto destes radares que são os nossos olhos, quando estão longe do stress e têm tempo para focar os pequenos gestos. João Luís Barreto Guimarães consegue trazer-nos retratos (ou seja, pequenas histórias) a partir de uma mesa de café, no Porto, é claro. São textos curtos, incisivos. (...) Há que descobr[i]r estas histórias. Tão simples, sobre a complicação dos nossos dias.»


FRANCISCO JOSÉ VIEGAS, Record, 09.08.00
«É um dos mais interessantes e comoventes poetas portugueses de hoje – praticamente desconhecida, a sua poesia é uma luminosa linha de água sobre as nossas vidas.»


Jornal de Letras, 20.09.00
«Desde o seu livro de estreia, "Há Violinos na Tribo", em 1989, que João Luís Barreto Guimarães se revelou (...) um dos mais originais e sensíveis poetas aparecidos nos últimos anos, fora dos cómodos modismos dominantes. Além disso, é também um interessante cronista, (...) é exactamente no JL que tem saído, embora de forma bastante irregular, a sua coluna "Humor Vítreo". Pois este seu quarto título – reunindo textos escritos no Café Corcel, no Porto, em 1994/95 – tem a ver com aquelas duas qualidade – a do poeta e do cronista. Juntos ou fundidos, com resultados à vista...»


RAMIRO TEIXEIRA, O Primeiro de Janeiro, 19.10.00
«Porto de abrigo propenso à deambulação e simultaneamente epicentro, centro do mundo, os cafés são por natureza centros fragmentários de existência, o que não invalida de que neles se gerem emoções resguardadas em tranquilidades aconchegantes. É sob este signo, desta opção do disperso para o global, sem ímpetos emocionais de grande intensidade, antes, mesmo, de pacificação quotidiana, que estes textos de João Luís Barreto Guimarães se articulam e, de alguma forma, em oposição ao real objectivo, adquirem, por esta via, um carácter surrealizante. Desta forma, o autor, porventura, mais poeta que cronista, qual ilusionista capaz de retirar da cartola o mais inesperado, nos surpreende com o sentido de uma persistente intranquilidade pessoal a coberto das coisas mais comezinhas que observa da mesa que ocupa num café! - mais justamente às quintas-feiras, provavelmente o seu dia de folga. Temos, assim, uma espécie de diário semanal descodificador duma estrutura-vivência social de lazer, enredada na irrealidade do real que transporta, justapondo a objectividade com o subjectivo, a consciência com o inconsciente, o tempo de uma intimidade pessoal com o tempo latente, colectivo e impessoal, que o circunda. Sobre esta duplicidade ou sobre este monólogo feito de vários reais gerados pelo espírito do lugar, faz o autor espírito desse espírito, transfigurando espaço, atitudes e posturas comuns, em invocações capazes de reinventar sentido [às] coisas aparentes e dir-se-ia importantes. E fá-lo não para alardear visões de realidade superior, mas tão-somente para mesurar epifanias comuns à condição humana. E daqui resulta um outro aspecto curioso que estes textos evidenciam: o do autor não necessitar de recriar símbolos de escrita, pois que o real que ela capta é já em si um símbolo. [Donde, ainda, serem estes textos mais mediação do que materialidade, mais elocução do que elucubração. Intensificando, talvez, mais a intenção de dizer do que propriamente o dizer em si], João Luís Barreto Guimarães soube esquivar-se ao charco comum dos lugares-comuns, orientando o desencadeamento do inesperado para o efeito de uma inovação do quotidiano, temperado por ironias e saberes só possível de realizar por quem, há muito, sedimenta uma estrutura verbal inequivocamente poética.»


FERNANDO GUIMARÃES, Jornal de Letras, 15.11.00
«Modernismo, Vanguarda, Decadência, Kitsch e Pós-Modernismo - Foi publicado entre nós, um já consagrado livro de Matei Calinescu cujo título é "As 5 Faces da Modernidade". (... ) M. Calinescu acaba por admitir uma existência dual e ambígua da modernidade. Assim, há a considerar nela um empenhamento na inovação, no modo como se assume o experimentalismo literário e, por outro lado, uma recusa da racionalidade que derivaria de certos paradigmas filosóficos cujas referências mais longínquas estariam na tradição iluminista da cultura europeia. [O] Pós-Modernismo sempre se mostrou interessado em recuperar eclecticamente a arte do passado desde que ela fosse assumida sob uma forma revivalista (...). (...) Seria um erro que tanto o Modernismo como o Vanguardismo tenham persistido inalteráveis. É certo que nos referimos a um anunciado esgotamento das Vanguardas... Mas a poética da modernidade não se esgotou e deflui, sob várias formas mediante transformações significativas, para a poesia que hoje se escreve. (...) Se falássemos nas cinco faces do Modernismo, seríamos talvez levados a dizer que tal poesia ["Lugares Comuns"] se aproxima mais da última, a do Pós-Modernismo. O autor confronta-nos com uma poesia cursiva, divagante. No entanto, ela encontra-se centrada num ponto de vista: o do olhar de alguém que, numa mesa de café, olha à sua volta e escreve, mesmo quando a própria escrita fica interrompida na palavra que não se acaba (...).»


PEDRO MEXIA, Diário de Notícias, 16.12.00
«A renovação da poesia portuguesa faz-se com algum vagar mas, ao contrário do que alguns pretendem, vai acontecendo. (...) Em geral, os poetas portugueses revelados nas décadas de 80 e 90 - e que, se virmos bem, formam apenas uma e não duas gerações - não têm tido um ritmo de publicação muito constante (...). Na verdade, até podemos atribuir parte da falta de nitidez geracional a essa publicação esporádica. João Luís Barreto Guimarães é um bom exemplo: estreado em 1989 com "Há Violinos na Tribo" (ed. autor), publicou apenas mais duas obras, ambas nas edições Limiar: "Rua Trinta e Um de Fevereiro" (1991) e "Este Lado Para Cima" (1994). Nestes livros, a voz de J. L. Barreto Guimarães distinguia-se sobretudo por usar livremente a forma do soneto para, com grande habilidade formal, fazer do soneto o ponto de encontro de todos os géneros poéticos e de todos os registos, mas sobretudo de um autobiografismo irónico atento à passagem do tempo e à melancolia. JLBG regressa agora, [seis] anos depois, com este "Lugares Comuns" (...), livro constituído apenas por poemas em prosa. O poema em prosa, ainda mais que o soneto, é o lugar comum do diário, do aforismo, do escrito íntimo. E se isso é assim interiormente, é porque exteriormente o lugar comum de que aqui se fala é o café, não apenas um café específico (o Corcel, no Porto), mas o Café enquanto lugar privilegiado da observação do mundo que leva à escrita. Verlaine, Kavafis, Pessoa, muitos foram os poetas que fizeram do café o seu local de trabalho, e não é por acaso que "Lugares Comuns" abre com uma citação do "Livro do Desassossego", esse magnífico híbrido pessoano (diário?, poema?, esboço de romance?) e fecha com outra de Jaime Gil de Biedma. O livro acompanha todas as quintas-feiras de um ano (1994-95) e as suas quatro estações. O poeta de café é, mesmo que não o queira, um voyeur. Voyeur desde logo das outras pessoas que frequentam o café, dessas mil e uma personagens: namorados, solitários, arrumadores, empregados, o primeiro cliente a entrar, e por aí adiante. Assim o eu dos poemas, na sua mesa de café (sempre o mesmo café) observa as conversas, as trivialidades, os dramas íntimos, todo o tecido verbal e não verbal de um sítio de convivência precária, gestos, hábitos, manias, silêncios. (...) Mas para além das pessoas também há o espaço físico, a própria geografia do café, a vida dos objectos, a mudança de lugar do copo, o acender do cigarro, o lápis que se acaba e acaba o poema a meio de uma palavra (...). O café pode ser uma montra, um esconderijo, ou apenas aquele “lugar limpo e bem iluminado” de um belíssimo conto de Hemingway. Enquanto escreve nestas manhãs ou tardes perdidas, o eu está a trabalhar nessa deliciosa mistura entre ócio e ofício de que os artistas por vezes desfrutam. O essencial é a consciência de jogo físico e de jogo de pensamento que implica a permanência atenta num café, pensamentos eróticos e paradoxais, compassivos e irónicos, mas sobretudo reveladores da mais evidente solidão. E por entre os sons e os silêncios, o movimento e a calma, o poeta tem intuições geniais como esta: a de que as gorjetas compram o silêncio.»


JOSÉ RICARDO NUNES, Ciberkiosk, Dezembro 2000
«Comecemos pelo título e suas ambiguidades. É que "Lugares Comuns" permite apontar para vários sentidos, ainda que eventualmente possam convergir. Um primeiro lugar comum pode ser a língua e o espaço do literário, marcados pelo desejo de partilha, o que é reforçado tanto pelo carácter confessional de alguns textos e pelas hipóteses de experiências de intersubjectividade que outros nos propõem, quanto pelo apelo dialogante que de várias maneiras é dirigido ao leitor. Registe-se igualmente que os pequenos poemas em prosa se centram no quotidiano e na revelação de pequeníssimas verdades ou óbvias evidências, ou ainda na formulação de possibilidades de explicação de factos ou situações triviais, mas sobre as quais se tem um insuficiente conhecimento; os textos preferem esses lugares-comuns e afastam-se de temas maiores e de grandes questões. Finalmente, releve-se o lugar comum chamado café, para onde a esmagadora maioria dos textos nos remete directamente – quer enquanto cenário, quer enquanto espaço que propicia vivências específicas – e onde os mesmos terão sido escritos: "Porto, Café Corcel, 1994-95". Um outro aspecto a ter em conta consiste na própria estrutura do livro. O volume é composto por quatro secções: "Outono, à Quinta-feira", "Inverno, à Quinta-feira", "Primavera, à Quinta-feira" e "Verão, à Quinta-feira". Todos os textos, aparentemente, são escritos às quintas-feiras (e teríamos aqui, ironicamente, uma versão semanária do diário) ou a este dia da semana se reportam, correspondendo o título de cada poema ao respectivo dia e mês, assinalado a vermelho no caso de dia feriado. Contamos, assim, entre 21 de Setembro (assinalando o começo do Outono) e 12 de Setembro (sinalizando o fim do Verão), 52 textos, os quais correspondem a todas as quintas-feiras do ano em causa. Estamos perante uma estrutura circular, potencialmente cíclica (o que é acentuado pelo facto de João Luís Barreto Guimarães ter optado pela sucessão das estações do ano, em detrimento do ano civil); todavia, o facto de o primeiro texto do livro se reportar ao Outono e à sua primeira quinta-feira não deixa de ser arbitrário, no contexto dessa estrutura (e um dos privilégios do leitor é, precisamente, não aceitar a ordem proposta pelo autor), podendo o ano em questão ser começado em qualquer outra quinta-feira; registe-se ainda o final inconclusivo do último texto, que deixa no ar a suspeita de que o livro não é continuado por falta de lápis e que o abre, assim, a uma possível continuação (...) ; por outro lado, a estrutura circular e cíclica faz coincidir o fim com o princípio, ou seja, após o termo do Verão há forçosamente um regresso ao começo do Outono, ao início de novo ciclo – o que, no limite, torna possível fazer tábua rasa do próprio livro, esvaziá-lo, pois afinal ele é constituído apenas por meros lugares comuns... Refira-se que a forte componente formal deste livro não me parece, em si, ser novidade na produção literária de João Luís Barreto Guimarães; efectivamente, nos seus três anteriores livros (...) é possível registar – com uma ou outra excepção que assumidamente confirmam a regra – uma clara obsessão pelo poema de catorze versos, pelo soneto, embora essa forma seja dinamitada das mais diversas maneiras; em "Lugares Comuns", podemos dizer que o imperativo formal se fixa mais na estrutura do próprio livro, com uma arquitectura muito marcante. Retomando as questões afloradas no parágrafo anterior, é de notar o apelo ao virtual, ao que se encontra em potência, ao possível, ao que poderia ter sido. Logo no texto de abertura, por exemplo, a ocupação do escritor é descrita como um infrutífero jogo em que se procura adivinhar ou, se quisermos, em que se tenta completar o cenário – mas sem a pretensão de apresentar visões totalitárias – a partir de dados parciais ou incompletos (...). A mesma ideia parece-me ser prosseguida noutros textos (...). E é uma ideia onde me parece pairar alguma da sombra de um Pessoa no formato Bernardo Soares, o qual é deliberadamente convocado por João Luís Barreto Guimarães, sendo relevante assinalar que esta citação do "Livro do Desassossego" antecede os textos de "Lugares Comuns" (...). João Luís Barreto Guimarães parece propor-nos uma autobiografia irónica, agora com alguns factos, aprendida que foi a lição de Pessoa/Soares, e resolvida à superfície, de forma inócua e inocente, como convém nesta recta final do século, a oposição entre a vida e a arte da escrita. A explícita presença de um sujeito, frequentemente configurado como sujeito-autor, deve ser registada. Para tanto contribuem não somente as informações relativas ao alegado espaço-tempo da escrita, mas igualmente dados biográficos, ficcionados ou não. A presença desse sujeito-autor, que é também, paradoxalmente, um sujeito-actor (...), é ainda consolidada pelas múltiplas alusões à própria escrita, no que muitas vezes é ainda uma encenação do acto da escrita (...). O non-sense, o fait-divers, as mínimas aventuras do quotidiano – eis as pequenas experiências de que este livro se alimenta e que neste livro se convocam (...). Existe um claro fascínio pelo texto curto, próximo do aforismo, da máxima, do dito sentencioso, ou pelo texto que surpreende o leitor – não raramente pelo fim de todo inesperado – ou lhe coloca dificuldades (...). É ainda de notar a forma como olhar, silêncio e escrita se articulam neste livro. O sujeito, no café, olha e é olhado, assiste como espectador, mas forçosamente participa, o que o transforma também num espectador de si próprio. O café surge como microcosmos, lugar que representa o mundo. (...). Por outro lado, o silêncio surge, em complemento desse olhar, como um oásis face ao incessante linguarejar equívoco que inunda o mundo e os seus múltiplos cafés (...). A poesia está então muito para lá das palavras, nesse silêncio interior onde o acontecimento pode ter lugar. E esse é o mundo virtual do silêncio, do que não pode ser retido, do que ficará para sempre por exprimir, embora tenha o maior merecimento (...). É um silêncio confiante e positivo. Não é o silêncio de quem já disse tudo, é o silêncio de quem se guarda para o que tem a dizer (...). Ainda que a escrita faça doer, não retire de cima qualquer peso, não permita descansar (...) .»


MANUEL DE FREITAS, Expresso, 19.05.01
«É bem conhecida (embora cada vez menos valorizada e praticável) a importância literária dos cafés, não apenas enquanto lugares de encontro e de celebração da palavra mas também como tema inspirador de certos grandes poetas. Pense-se, por exemplo, no caso dilacerante de Mário de Sá-Carneiro – “Nos Cafés espero a vida/ Que nunca vem ter comigo” - ou nesse livro admirável que é "Café de Subúrbio", de António Manuel Couto Viana. É óbvio que os cafés, esses lugares mágicos onde se podia desfrutar a felicidade triste de não ter pressa, são hoje quase inexistentes. No Porto, porém, sobrevivem ainda o Majestic, o Guarani, o Ceuta ou o Corcel, onde foi escrito ou imaginado o mais recente livro de João Luís Barreto Guimarães. Acrescente-se, em abono da verdade, que em Lisboa semelhante tentativa de listagem resultaria num obituário bem mais evidente. Começará por surpreender, num autor que tem vindo a demonstrar uma mestria invulgar e inovadora na arte do soneto, o facto de "Lugares Comuns" ser exclusivamente constituído por aquilo a que se convencionou chamar poemas em prosa. Desengane-se, no entanto, quem julgar que essa mudança formal resulta em apoucamento poético. De resto, estamos perante um daqueles livros em que a sedução visual (magnífica capa de Jorge Colombo) se vê exemplarmente prolongada pela inteligência e sensibilidade dos textos que o compõem. Também a epígrafe inicial, da autoria de Bernardo Soares, se revela de algum modo sintomática, na medida em que João Luís Barreto Guimarães comunga dessa virtude eminentemente criadora que é a atenção à importância (metafísica, diria Soares) das pequenas coisas, sejam elas uma moeda caída sob dois olhares (...), a rotação pelos vários clientes do café de uma chávena esquinada na qual “não é fácil lavar um beijo” (...), ou a mudez de um casal cuja quieta melancolia é descrita com a precisão e o fascínio de certos quadros de Hopper (...). Sem sombra de epigonismo, poderíamos ainda relacionar com o universo de Bernardo Soares outros dois aspectos fortemente acentuados em "Lugares Comuns". O primeiro teria a ver com o modo sábio como certos textos explanam - e placidamente lamentam - as infalíveis regras do acaso (...). O segundo aspecto, por sua vez, reportar-se-ia à encenação que a escrita faz de si mesma (...). No final do livro, este processo chega mesmo a ser levado até às últimas consequências, convertendo-se na exibição possível dos limites físicos (e materiais) do acto de escrever (...). Mas, se é verdade que a agudeza baça tão própria do semi-heterónimo pessoano parece por vezes pairar sobre o “incómodo interior” (...) destas páginas, não é menos verdade que semelhante convivência literária é habilmente singularizada pelo olhar inventivo de quem fala em "Lugares Comuns". Sem ambições excessivas (e, provavelmente, obsoletas), os poemas de João Luís Barreto Guimarães procuram fixar e transmitir “o idioma do Café”, “uma língua própria [TALVEZ] somente inteligível pelo empregado de mesa” (...), que é, nos limites do seu reino, uma espécie de deus. É notável, neste livro em forma de café, o misto de humor e de ternura com que são descritos aqueles que aí procuram “um espaço menos ferido, para pousar as feridas” (...) - ou ainda a melancolia da ausência, associada a um casal idoso que ficou reduzido a um (a quem é preciso “lembrar que é ele quem está atrasado” ). O humor, no entanto, tende a apresentar-se como a arma dominante, ao longo destes textos pretensamente diarísticos e capazes, por vezes, de um elevado grau de concisão (...). Noutros casos, e sem prejuízo lírico, a concisão parece antes avizinhar-se do aforismo, não raramente iluminado por uma cruel sabedoria (...). O café, neste diário fictício ou verdadeiro (pouco importa), revela-se afinal “uma enorme montra de rua” que “se renova a cada dia, a todo o instante” (...). A fugacidade, a renovação e a consciência (menos trágica do que em Sá-Carneiro ou Álvaro de Campos) da passagem das horas serão talvez motivos que concorreram para a organização deste livro em estações (quatro, como as de Vivaldi ou Charpentier e cada vez menos nossas). Apesar de todo o humor inerente à voz poética de João Luís Barreto Guimarães, há momentos em que a elegia irrompe de um modo iniludível (...). De resto, tendo em conta o contexto (muito dificilmente separável do texto que o veicula), nada mais legítimo do que esse pendor elegíaco, numa altura em que “os Cafés (...) parecem cada vez mais, mundos silenciosos” (...). "Lugares Comuns" pode, evidentemente, ser lido como uma demonstração literária de fidelidade a um espaço preciso e ameaçado (disso mesmo fala o belíssimo poema da pág. 13), mas é muito mais do que isso, uma vez que se apresenta como uma “lição de coisas”, um espaço de partilha em que a poesia da experiência (haverá outra?) se sobrepõe às falácias da mera experimentação poética: “A todo o instante acontecem coisas que era importante reter, e são essas coisas poesia no seu estado mais puro” (...). Tal como este livro.»


ROSA MARIA MARTELO, in Dicionário de Personalidades Portuenses do Século XX, Porto Editora, Porto 2001
«Nascido no Porto a 3 de Junho de 1967, cidade onde exerce a profissão de médico, é como poeta que tem vindo a desenvolver uma obra singular, na qual a cidade do Porto tem, aliás, algumas vezes, uma presença notória enquanto espaço vivencial. Assim acontece em "Lugares Comuns" (2000), livro que, sob uma aparência quase diarística, reúne um conjunto de meditações poéticas suscitadas pela frequência semanal do Café Corcel, entre o Outono de 94 e o Verão de 95. Embora apresentado como um lugar comum - no duplo sentido de constituir um mundo habitual, rotineiro até, e também no de ser um espaço partilhado e, logo, comum a uma grande diversidade de rostos -, o Café, sempre grafado com maiúscula, é também um lugar abstracto e uma condição de meditação generalizante. Daí que, neste livro, tal como nos anteriores (...), seja de salientar o valor poético conferido a uma espécie de fragmento narrativo, no qual um acontecimento mínimo adquire inesperado relevo, tornando-se estranha mas impressivamente significativo. Este olhar, que confere a circunstâncias ocasionais e mais ou menos fortuitas um súbito poder de revelação, combina-se frequentemente com uma desmontagem dos registos linguísticos quotidianos, à qual não será alheio o esforço de renovação do discurso poético que se observa, por exemplo, numa metódica desconstrução do soneto, desenvolvida nos primeiros livros através de inúmeras revisitações desta forma fixa.»


Minguante,
revista on-line de micronarrativas.
«"Lugares Comuns" ocupa um lugar incomum no corpo da obra que João Luís Barreto Guimarães (n. 1967) tem vindo a dar à estampa desde a estreia, em 1989, com a colectânea de sonetos intitulada "Há Violinos na Tribo". Neste caso, o que temos é um livro de pequenas histórias – há quem lhes chame, por insistência, poemas em prosa – todas elas escritas à quinta-feira, numa mesa do Café Corcel, no Porto, entre o Outono de 1994 e o Verão de 1995. Publicado em Junho de 2000, na saudosa Mariposa Azual, este livro não poderia ser mais desconcertante, sobretudo se nos atentarmos aos tomos que o precederam. Os textos, devidamente datados, captam instantes da vida quotidiana, retratam os espaços de convívio com um sentido poético inusitado, indagam, como que voyeuristicamente, e com um sentido de humor bastante depurado, as malhas com que se costura o dia-a-dia urbano. Três exemplos, dos mais mínimos: «29 DE FEVEREIRO // O meu copo de água tinha menos goles do que o teu.»; «23 DE MAIO // Este fósforo corre risco de vida.»; «22 DE AGOSTO // À porta da casa de banho dos homens senta-se ocasionalmente, uma ou outra mulher.»


ESTE LADO PARA CIMA

30 poemas

1ª edição, Limiar, Porto, 1994, esgotada
capa de Armando Alves
colecção «Os Olhos e a Memória» / 68
direcção literária de Egito Gonçalves

2ª edição, in «3 (Poesia 1987-1994)», Gótica, Lisboa, 2001

> encomendar este livro na Wook.pt ou na Livraria Leitura



§



põe um disco a correr. a chuva não demora
mais que o esvaziar das nuvens se te
confessasse as coisas que já atirei ao mar
(o revólver do crime palavras numa garrafa)

não darei nome ao poema seria como quem
coloca legendas aos dias e eu: sou como
água (tomando forma nos lugares que molha)

vou repetir (para quem só agora ligou
este poema:) no cesto de frutos da mãe
as estações do ano sucedem-se e o disco

era um disco tão antigo tão antigo que
a certa alturantigo tão antigo que a
certa alturantigo tão antigo que a certa
alturantigo tão antigo qu



§



estão a bater à porta. de cada lado da
fechadura algo acontece (e como apetece:
um olhar). é assim uma casa: começa

quando o dia se extingue (cedo se enche
de corpos que se esvaziam do dia) como
uma fonte nunca cessa de entornar seu
nascimento. escuta: estão a bater à porta

são esses os alicerces de uma casa (a
mão da mãe? o pé do pai?) uma casa não se
ergue pelo lugar da porta mas pelo que

em cada transpõe essa ferida (essa fácil
abertura). o fim de tarde escorre (os
pátios ardem de luz) ouves agora?: estão
a bater à porta. que se defenda



§



este poema foi escrito ontem hoje não
vou escrever (na face nego sorrisos como
quem fecha janelas) hoje só preciso de

mim (este poema é grátis: não está
incluído no preço do livro). hoje
não tocarei o corpo da Corona Four

uma azerty americana já com uma certa
idade (ainda é das que escreve poesia a
preto e ranco) faz um mês que se perdeu
a tecla da letra « » só por isso não

tenho escrito sobre o rilho dos teus
olhos. o meu copo está vazio (hoje
não é poedia) depois eu mando alguém
uscar as minhas palavras



§



JOSÉ EMÍLIO-NELSON, Jornal de Notícias, 30.12.94
«(...) o alargamento da constrição poética ao plano da urbanidade (...)»


O Comércio do Porto, 01.01.95
«[obra] que [marcou] indelevelmente o panorama do escrito poético no Portugal de 94.»


JORGE LISTOPAD, Jornal de Letras, 04.01.95
«(...) a poesia aberta, ao que é quotidiano e simultaneamente simbólico, equivalências e trocas, apaixonada e como que indiferente, os sonetos que não o querem ser.»


Jornal de Notícias, 10.01.95
«(...) Em "Este Lado Para Cima" a forma do soneto (forma sempre intranquila e instável em João Luís Barreto Guimarães) é de novo o lugar mutante a partir do qual se constrói uma poética cuja desenvolta coloquialidade e tom pretendidamente menor não oculta a sua funda vocação para o rigor e para a paixão extrema da palavra, e onde o humor, frequentemente lapidar, funciona como instrumento de distância e de pudor. [T]rata-se, esta poesia, de uma das raras vozes substantivamente diferentes no tantas vezes monocórdico panorama da poesia portuguesa mais recente.»


PAULO DA COSTA DOMINGOS, Expresso, 25.02.95
«(...) Dos quatro cantos de uma casa, o conhecimento gera toda uma geografia, com a sua efémera historicidade do pó sobre os móveis e dos factos quotidianos passados a notícia sobre papel de jornal. Sol a sol, é a banalização dos rituais humanos o que mais sentimos. Um poema que se escreve representa, para o autor, o seu quinhão de roubo à morte. Philip Larkin - explícita referência de Barreto Guimarães - quase não fez outra coisa senão dar forma estética a essa derrota dos homens ante o mundo, conformando-se. (...) A arquitectura dos versos de "Este Lado Para Cima" tenta surpreender o leitor incauto com os truques do colapso da fluidez sintáctica. Cascata pedregosa onde, por exemplo, a deliberada escassez de pontuação ou o profuso uso de apartes parentéticos solicita um percurso de perícia através dos versos, se queremos chegar à ternura, à melancolia e ao abandono vigiado dos sentidos. [E]ste exercício, por via de uma excelente intuição da música natural de certos núcleos frásicos, [resulta] muitas vezes feliz na agressão aos hábitos da língua.»


RAMIRO TEIXEIRA, O Dia, 12.03.95
«Este é o terceiro título de um poeta deveras singular. Porque, antes de mais, forçoso é que se diga ser difícil catalogá-lo. Na verdade, João Luís Barreto Guimarães escapa aos cânones pré-estabelecidos (...). A ver se nos entendemos: sempre a obra poética se debateu entre a interioridade e a exterioridade, a sonoridade e o silêncio, a entrega e o artifício, o sentimento e a inteligência, sendo muito raros os casos em que esta se assumiu com espectáculo. Diga-se, aliás, de passagem, que o espectáculo é de natureza exógena à poesia, cabendo mais aos "diseurs", aos declamadores, do que aos poetas. Em todo o caso podemos admitir excepções: por exemplo, a "Ode Marítima" (...). E aqui retornamos ao "espectáculo", não no que ele comporta de conteúdo circense, mas ao que de subjacente nele existe de deliberada inovação, de mestria em tirar efeitos inusitados, de confundir qualidades oníricas, sintácticas e até prosódicas, com um automatismo (in)consciente, de forma a estabelecer com tais ingredientes uma força vital capaz de alicerçar uma atitude poética (e porventura uma intervenção personalizada no "status" literário). (...) Abstraindo, porém, estes sinais "espectaculares" mais visíveis, outros subsistem de não menos interesse ou curiosidade. Tais são, em muitos dos poemas, a busca de transgressões nas intenções discursivas, através da inclusão de elementos exógenos, (...) num claro e obsidiante esforço qualitativo de imaginação, em circular "continuum"


ANA MARQUES GASTÃO, Diário de Notícias, 21.11.95
«A poesia de João Luís Barreto Guimarães desdobra-se num saber de atmosferas outonais. Crepuscular, abre caminho a uma vocação melancólica recheada de “desertos e tempestades”, que têm a sua correspondência na linguagem, essa “dança interior de palavras que conduz a um jogo dos sentidos”. [A] obra do poeta é toda feita de pequenas alegorias de um quotidiano coloquial, porque afinal a vida faz-se de ambiências, cheiros, ruídos, da passagem das estações. Há nesta poesia uma presença de tempos reais, próximos, que originam um olhar, por vezes, sombrio, por vezes, doce sobre um mundo descoberto na dialéctica interioridade/ exterioridade. (...) Mais do que uma acumulação de impressões, os poemas de João Luís Barreto Guimarães são espaços de uma confidencialidade marcada pelos afectos.»


Ler/ Livros & Leitores, Inverno 1995
«Duas vozes da nova poesia portuguesa a que é necessário estarmos atentos: João Luís Barreto Guimarães, com "Este Lado Para Cima" (Limiar), e Ana Luísa Amaral (...)»


FERNANDO GUIMARÃES, Revista Limiar, 1995
«"Este Lado Para Cima", porque essa é a posição do livro antes de se iniciar a leitura e, também, a que habitualmente se usa relativamente a objectos frágeis. Poderíamos dizer que o primeiro poema do livro começa aqui. E, de imediato, se aprende que há nele um sentido de secreto humor pelo qual se alcança uma espécie de jogo com as palavras e as situações que estas criam no poema através da coloquialidade, de mudanças de registo - por exemplo, através do uso de parênteses -, do recurso à interrogação, de um ocasional "nonsense". No fundo, um tom surrealizante? Aquele que é compatível com uma escrita vigiada, conscientemente conduzida e configurada por uma disposição que se identificaria à do soneto, mas que aqui é constantemente subvertida. Ao mesmo tempo, faz-se sentir a tendência para que haja uma espécie de desenvolvimento narrativo em cada poema, desenvolvimento esse que se equilibra com aqueles momentos que representam o que há de secreto e indizível na expressão poética (...).»


MARIA ALZIRA SEIXO, Jornal de Letras, 09.10.96
«(...) livro de poemas de João Luís Barreto Guimarães, "Este Lado Para Cima", que me fascinou pela mestria de composição e pela aliança simultaneamente nostálgica e resignada da convenção com a sua transgressão. Trata-se de um conjunto homogéneo de sonetos onde esta "casa" poética é abalada por variações estróficas e prosódicas, pela construção sintáctica e pelas relações lexicais, e onde a questão do "lugar" da poesia (patente desde o título) é colocada não apenas desta maneira formal mas também pela temática orgânica e coerente que os textos organizam, e que é a temática da casa. Quase todos os poemas se ocupam de aspectos do quotidiano, referentes ao interior de uma habitação: ouvir um disco, atender o telefone, arrumar estantes, olhar pela janela, abrir a porta da rua, ir à varanda, meter-se no ascensor, etc. E penso em como será possível interessar um jovem de hoje por uma literatura que se prende a gestos de insignificância comum, para os trabalhar na relação com uma perspectiva de entendimento particular, num trabalho que vem despoletar analogias inesperadas, paralelismos enriquecedores, conotações bizarras e, sobretudo, uma sintaxe que "cria" uma realidade insuspeitada, um mundo específico que é de facto o da criação poética. Iniciando-se com uma citação de Philip Larkin, (...) encena a articulação do interior da casa com o interior anímico e com o exterior da rua, da casa com a cidade, da casa com a viagem e com o regresso; integra o concreto no abstracto, um "tu" indefinido na subjectividade radical da visão descritiva, abusa, para essa integração, de parêntesis que são como que os cantos da casa, ou do pensamento, ou do soneto, numa espécie de fabricação de um reduto da linearidade que se evola nos inacabamentos lógicos ou na fragmentação da frase. Assim, destrói-se o ritmo convencional do verso e desequilibra-se a casa na cidade, desequilibrando-se também o sujeito no seu traçado de escrita. Curiosamente, é nos sentimentos que se refaz o lugar reencontrado onde o tempo se percebe como um enquadramento natural (...).»


ADRIANA A., blogue Trânsito Local, 03.04.09
«Quantas vezes poderá acontecer isto a um leitor? Estou numa casa que não é a minha, numa sala com livros até ao tecto, há um gira-discos, escolho um disco e ponho-o a rodar, uma cantora italiana dos anos 70, sento-me no cadeirão de baloiço (e tenho um tinto na mão), aponto com o olhar a estante mais próxima, a da poesia portuguesa. Pouso o copo, levanto-me, saco um livrinho sem escolher, volto ao cadeirão. Abro-o. Leio o primeiro poema, que não tem título: “
põe um disco a correr. a chuva não demora / mais que o esvaziar das nuvens se te / confessasse as coisas que já atirei ao mar / (o revólver do crime palavras numa garrafa)”. Aqui, começo a sorrir, dou um gole no tinto, continuo: “não darei nome ao poema seria como quem / coloca legendas aos dias e eu: sou como / água (tomando forma nos lugares que molha) // vou repetir (para quem só agora ligou / este poema:) no cesto de frutos da mãe / as estações do ano sucedem-se e o disco // era um disco tão antigo tão antigo que / a certa alturantigo tão antigo que a / certa alturantigo tão antigo que a certa / alturantigo tão antigo que”. O poema acaba assim, riscado, e nesse momento, o disco que eu tinha posto encalha também ele numa frase qualquer italiana. Levo o copo à boca e despejo pela goela a vertigem. "Este Lado Para Cima" (colecção "Os Olhos e a Memória", editora Limiar, 1994) é o terceiro livro de poemas de João Luís Barreto Guimarães (Porto, 1967), poeta estreado em 1989 com o volume "Há Violinos na Tribo", em edição de autor. É este livro um objecto curioso. E escolho dizer “objecto” não só por sugestão do título mas porque me parecem ser estes poemas matéria não só visual mas “coisa” palpável, talvez por neles abundarem variadíssimos referentes, materiais de uso diário (dinheiro, por exemplo), coisas e situações reconhecíveis, comuns; mas sobretudo por se ter optado por uma aparente rigidez formal, constante em todo o livro. São poemas de pulsão diarística, sem título, em geral com quatro estrofes, entre quadras e tercetos, onde em cada um deles se desenrola uma pequena narrativa, com uma lógica própria e de onde assoma sempre um pequeno achado. Esses achados resultam muitas vezes de pequenas subversões da lógica, ou subtis inversões da regra, que requerem por vezes alguma atenção na leitura: o disco riscado do primeiro poema; ou, no segundo, quando há alguém que bate a uma porta e segue-se uma sugestão absurda, a de que a porta se defenda; num outro poema a bela imagem de “um vento jardineiro” onde também se mede o tempo em Renaults: “três Renault é um instante”. Aposta-se aqui numa espécie de jogo precário (de escrita e de leitura) que cedo reconhecemos e aceitamos, e é nessa fragilidade e nesse risco, nunca escamoteados, que assistimos, de poema para poema, ao pequeno grande milagre da salvação (e acontece sempre) de um texto, nem que seja no último verso, no último instante. O elemento de jogo, de um jogo por vezes de duplos sentidos, e em que se apela depois a uma leitura lúdica, foi rigorosamente orquestrado no tempo da escrita. É óbvio. O que não é assim tão habitual é ser-nos dado “acompanhar” o processo, como se o autor não tivesse pudor em deixar à vista as costuras, ou tivesse mesmo gosto em as mostrar: “este poema tem virgulas,” ou, no único poema que tem cinco estrofes, dizer-se na passagem da quarta para a quinta: “(não sei o que se passou hoje / comigo nem sequer é meu costume // alongar-me tanto assim:) (…)”, ou ainda quando se declara a falta da letra “b” no teclado e isso impedir que se escreva “sobre o rilho dos teus olhos”. Em 1994, ano a que foi resgatado este pequeno volume, mexia-se noutro dinheiro. João Luís Barreto Guimarães não tinha ainda 30 anos, e, temendo que não soubéssemos lidar com o objecto que criara, e onde foi apontando as “coisas que não couberam no dia”, informava-nos ser "Este Lado Para Cima". Nós, esmerando nos cuidados, púnhamos então esse lado para cima e abríamos.»


RUA TRINTA E UM DE FEVEREIRO

31 poemas

1ª edição, Limiar, Porto, 1991, esgotada
capa de Armando Alves a partir de desenho de Albuquerque Mendes
colecção «Os Olhos e a Memória» / 56
direcção literária de Egito Gonçalves

2ª edição, in «3 (Poesia 1987-1994)», Gótica, Lisboa, 2001

> encomendar este livro na Wook.pt ou na Livraria Leitura



§



5


pousados à sombra trazemos histórias (Era uma vez
um rei maluco) Deus e tu têm muito em comum tu
sabes: as ruas interiores são recados um musgo de

frio no farol de um abrigo refúgio apetecido no
sol da imaginação (vê: é por vezes útil sentir o
instante da desilusão). esta é a taberna onde se
vive espigueiro onde guardamos os dias murmúrio

habitado montes de colmo proibidos dedos cheios
se primavera (sabias que a sangria desceu para cem
desde que o piano preto tem o ré bemol desafinado?)

tudo o que por dentro nos arde é a cegueira que
acende (uma fogueira nos olhos: silêncio no resto
do rosto) escuta: temos as raparigas. o que mais
nos interessa?


ao Tocas



§



7


um gato assim era quase um sítio perdido entre
o pêlo e o acordar pequena fábula sonhada por
entre as patas quem o enviou quis ensinar ao

mundo o sentimento da inveja. a mãe tirava da
boca para lhe dar assim mesmo o lorde mentia
na hora a que chegava das sete vidas paralelas.
um dia fugiu pela manhã o (in)g(r)ato mesmo

sem se despedir ou pagar o que levou:
a coleira nova e o guizo.......................... 150$00
duas latas de comida ............................. 395$00
um saco de areia higiénica .................... 200$00

dá notícias pedaço de deus se acordares desse
intrigante sono repousando de (qual?) cansaço
que pensas tu afinal de Ivan Petrovich Pavlov?



§



27


chegar até onde a luz se põe sem querer
saber porque se põe ser do céu uma das
cores e/ou pertencer ao quente ar do
crepúsculo sentindo que nenhum outro

exacto momento se repete assim. depois:
deixar sair os olhos em contínuos voos
espirais como aves de mar a cair na espera

ondulante das águas acreditar nas leis
do pensamento como quem mais não pode que
aceitar porque o homem é breve ainda para
se conseguir compreender. eis que tudo

quanto é sonho se torna real tudo quanto é
temporal ocorre agora dissipando eventuais
porquês perante a real forma das coisas



§



Jornal de Letras
, 09.07.91
«João Luís Barreto Guimarães é uma das mais interessantes revelações poéticas recentes. Publicou o livro de estreia em 1989, em edição de autor, e desde cedo foi notada pela crítica a qualidade e a novidade da sua escrita, dois aspectos que este livro confirma plenamente. (...) Pelo modo como reinventa a linguagem do quotidiano e pela forma como constrói e desconstrói os metros tradicionais merece uma leitura cada vez mais atenta e interessada. "Rua Trinta e Um de Fevereiro" é uma das surpresas poéticas deste ano, com a chancela de qualidade da Limiar.»


JOSÉ JORGE LETRIA, Jornal de Letras, 20.08.91
«Quando publicou em edição de autor, há uns dois anos, uma discreta colectânea poética intitulada "Há Violinos na Tribo", houve poetas e críticos que rapidamente se deram conta da "novidade" que havia naquela escrita: era o acasalamento do clássico com o moderno, a presença da ironia e o recurso à metrificação do soneto para dizer coisas diferentes e arejadas. Tinha-se logo, ao lê-lo, a noção de não se estar em presença de uma escrita epigonal e tutelada. Daí a surpresa e o relativo consenso. Agora acaba de publicar "Rua Trinta e Um de Fevereiro", com a chancela da Limiar, que confirma as qualidades e sobretudo a novidade que caracterizavam o livro de estreia.»


RAMIRO TEIXEIRA, O Primeiro de Janeiro, 26.08.91
«Não é esta a primeira vez que me ocupo da produção do autor. De facto, em Abril de 90, tive ocasião de referenciar o seu livro de estreia "Há Violinos na Tribo" o qual me suscitou impressões desencontradas, por via da exploração de cambiantes opostos, desde a coloquialidade ao enfeite hermeutico, do classicismo ao modernismo, da afirmativa à inquirição, da particularidade à universalidade, enfim, um conjunto anacrónico de modulações textuais, assim como o deambular sonoro de um instrumento musical. Todavia, desde logo, adquiri uma certeza: a de que João Luís Barreto Guimarães haverá de ser um grande poeta se, porventura encontrar o seu caminho. É que, quanto a mim, se debate ele entre dois percursos: o da intelectualidade e o do sentimento. Digo, intelectualidade, porque, visivelmente, se colhe na produção do autor o rasto de uma formação superior, que lhe advém não só da sua condição de finalista de medicina e de praticante musical, como do óbvio interesse e conhecimento que manifesta pela literatura em geral; digo, sentimento, porque entre o artefacto e a conceptualidade formal dos seus poemas de raiz moderna, nomeadamente de Pessoa, Sena e algum O'Neill, ainda que em modelações de (discutível) originalidade, se vislumbre para lá da fria estrutura mecanicista ditada por assomos intelectuais de afirmação pessoal, o temperado pulsar cadenciado do coração que os motiva. Quero dizer: o poeta é simultaneamente um "Sebastião rapaz", mito duplo, saudoso de si próprio, no sentido em que se lança à conquista de ser, do advir poético, quanto um acutilante crítico emocional do seu mundo, presente e futuro. Qualquer destes caminhos é nobre e promissor - e sublime será acaso sejam fundidos, plasmados harmonicamente. Entretanto, prossegue o autor nesta pesquisa, pelo que não existem diferenças de vulto relativamente ao título anterior, subvertendo a linearidade do discurso com efeitos de vanguarda, sejam os da quebra das unidades sintagmáticas ou os da composição hermenêutica (logo visível no título), por entre um ou outro achado formal de relativo interesse (...). Voltando atrás, quer-me parecer que a posição de João Luís Barreto Guimarães se filia, talvez inconscientemente, na investigação do fenómeno poético na esteira de Croce, dando à intuição o sentido de "unidade não diferenciada da percepção do real e da simples imagem do possível", o que equivale a dizer que busca a identidade da poesia no confronto com a prosa - porque se "a poesia é a linguagem do sentimento, assim como a prosa é a linguagem da inteligência", não menos certo é que, à inteligência, em sua concreção e realidade, cabe também o sentimento, donde resulta que toda a prosa tem como pressuposto um aspecto poético. Daqui, a alternância, por vezes agressiva, entre uma linguagem de estrutura poética, diversa da que dá expressão à prosa, e a intrusão de recursos que cabem à última, como os da coloquialidade entre parêntesis, modo peculiar de estabelecer um tom confessional com o leitor, e cuja raiz é a de estabelecer a sintonia não pela via da emotividade, mas pelo raciocínio, ironia e crítica. Assim se explica que os poemas deste título, tal como os do anterior, se revelem simultaneamente narrativos, especulativos e reflexivos, tanto quanto experimentais, lineares hermenêuticos, tudo em forcejada união de ritmos e massas sonoras - justamente os da poesia e os da prosa ou os do sentimento e da inteligência.»


MARIA ESTELA GUEDES, Diário de Notícias, 08.09.91
«(...) eu gostei do livro, mesmo bastante. Dá vontade de rir, tem achados engraçados, revi-me neles. Como já o título aliás, deixava perceber. A poesia de pessoas de outra idade, enfim, é mais idónea. Pois, geralmente, é uma grande maçadoria, quem acreditaria em mim se dissesse o contrário? Qualquer efeito de surpresa parece arrancado a ferros, do fundo do poço de um enorme calculismo. Falta-lhe o sal, a garotice, o espírito dos 24 anos. Volto ao soneto, já que o livro é uma colectânea de 31 (...): a forma, esta ou outra, é indispensável ao poeta como apólice de seguro, um texto precisa de uma arquitectura para não se desfazer em pó. Algo que agarre as palavras e não as deixe à deriva. Mas essa arquitectura, para ser de facto um seguro de vida, tem de ser interna, mais poderosa que um arranjo visual (no caso vertente, o que sobra do soneto é só isso). (...) O que me parece é que no soneto, o João Luís só procura um lugar seguro de onde possa falar, uma casa, e nada demais tranquilizador nesse aspecto do que a estabilidade de uma forma fixa. Mas isto é ilusório, visto que essa estabilidade é só aparência, casa de papel caiada por fora. Por isso, ele não consegue encostar-se às paredes sem as derrubar. (...) E de que falam os poemas? Por outras palavras, e naturalmente de outra maneira, [do] estado de luto do nosso tempo. É um livro de procura, o poeta ainda não sabe para onde vai, sabe é dos obstáculos que se levantam quando tenta encontrar pontos de referência que lhe permitam compreender o mundo, e estabelecer-se nele com segurança. Procura e não encontra, ou dá de caras com o vazio. Os valores, os novos pontos de referência, terão de ser criados ainda, os antigos andam com a cotação de rastos. Ele já o sabe, por isso ri-se. Ao menos, o riso é salutar e criador. A saída poética mais vulgar para a crise costuma ser a depressão. E como se ri ele? Dando atenção a minudências no meio de um discurso vagamente enlutado - "sabias que a sangria desceu para cem / desde que o piano preto tem o ré bemol desafinado?" E o que me faz rir a mim? Por exemplo, as dedicatórias - "ao Tocas", "à Noy" - sumidas ao fundo da página, já não é homenagem às sumidades mas sim a cúmplices da sua idade. Jogos privados, malfeitorias de adolescente - "prender / molas à cauda do gato tocar campainhas fugir / rua fora" -, as contas deitadas à despesa pelo gato que fugiu (...). Mas há mais, vejamos: as mensagens secretas, em código, com as vogais substituídas por números. (...) Sem esquecer os recadinhos, as pedrinhas atiradas à janela, as declarações de amor - "estava capaz de te dar um beijo em // hebraico" -, os jogos de linguagem - "eu calipto tu lipas ele fante" (...). Qualquer poeta razoável é capaz de "molhar de outubro / as temperaturas de dentro". Bela imagem de melancolia. Mas raros nos garantem, como o João Luís, que a depressão e a crise geram verduras, que a Primavera pode pintar por aí.»


JOSÉ DO CARMO FRANCISCO, Sol XXI, Junho 1992
«Ao escolher o título o poeta deu logo um sinal ao leitor: a rua é o livro onde moram 31 poemas mas não há nenhum calendário para "este" Fevereiro. Esta rua não existe a não ser na poesia. Não existe na verdade práctica, nos mapas da cidade, nos correios. Porque é de outro tipo a comunicação produzida pelo autor. Partindo da circunstância do lugar ("um momento: é este o único eléctrico para a Foz?") e da história ("sabemos das batalhas uns dos / outros") o livro funciona como um roteiro pessoal. Do tempo actual ("o fim de século está na ferrugem dos arados") ao valor da amizade ("ao segundo / sinal sempre serão as horas que tu quiseres"); do lugar da vida ("estivemos longos invernos / sem reparar o frio das nossas casas") à interrogação da morte ("onde a vantagem da morte?"). E, ligando todos os lados do livro, todos os 31 poemas, a força inventiva, o tom falsamente simples de quem sabe e pode garantir "a procura / é parte integrante do poema não pode ser / vendida separadamente". A confirmação plena do livro de estreia ("Há Violinos na Tribo") e a prova de que não erraram críticos tão diversos como Al Berto e Francisco José Viegas, Pedro Tamen e Albano Martins ao saudarem em João Luís Barreto Guimarães uma verdadeira revelação.»


FERNANDA BOTELHO, Colóquio/Letras, Abril-Setembro 1994
«Volto a escrever sobre um jovem poeta, João Luís Barreto Guimarães, de quem já apreciei uma outra obra, "Há Violinos na Tribo". Salientei então a convergência no poeta de uma ortodoxia formal e de uma inspiração libérrima, conjugadas, senão de uma maneira ideal, pelo menos com alguma hipótese de indiscutível aceitabilidade estética. No seu novo livro de poemas, "Rua Trinta e Um de Fevereiro", título a um tempo histórico e toponimicamente distorcido, João Luís Barreto Guimarães rea(con)firma-se na mesma ambiguidade (no melhor sentido da palavra), inovando (em catorze versos) a vários níveis, formal, sintáctico, ideológico, visual, a partir de um impressionismo reflexivo e de uma sensibilidade metafórica não muito comuns. Os catorze versos da convenção literária foram "revolucionados", "revisitados", como se Cristo (ou Marx) tivesse passado por eles. Já o soneto não é o que era, mesmo se continua a ser, disciplinadamente, constituído por duas quadras e dois tercetos (a ordem dos factores é arbitrária). É o soneto do nosso (des)contentamento, é isto "de usar / os dedos para brincar palavras com sábios cubos de / letras"... Será a poesia de João Luís Barreto Guimarães uma tentativa de reduzir a poesia a uma burocracia do quotidiano ou, pelo contrário, reconduzir o esquema dos dias iguais a uma possível lira do tempo vivido e a viver? Tentativa de reconverter a poesia, tanto quanto de a perverter? Mas é indiscutível que este poeta a "reperconverte". Leitura estimulante, esta: "eis que tudo // quanto é sonho se torna real tudo quanto é / temporal ocorre agora dissipando eventuais / porquês perante a real forma das coisas".»


HÁ VIOLINOS NA TRIBO

28 poemas

1ª edição, do autor, Porto, 1989, esgotada
posfácio de Arnaldo Saraiva
capa de Armanda Passos a partir do s/ óleo «Aprendizagem»
retrato do autor por Helena Abreu

2ª edição, in «3 (Poesia 1987-1994)», Gótica, Lisboa, 2001

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§



4


cheguei há pouco do amor (cidade de gaivotas loucas e
luzes cegas). não concordas? eu sei já sei: vês as coisas
como falésias altas e impossíveis como ameias. cheguei há
pouco do amor e trago comigo este discurso aprendiz:

o idealismo. desculpe: o que pensa destas palavras dos
começos desse caminho as dóceis letras da promessa?
perdão perdão: há que passar para o outro lado (um
parâmetro de cada vez). se bem me lembro em pequeno

as cigarras podiam ser domesticadas e cada adeus
era um veneno. obrigado obrigado: também me pareceu
ser essa a sua opinião. cheguei há pouco do amor e

vejo as certezas do mundo como uma ilusão. receio pelo
eterno procuro a fantasia mas: é sempre no ventre
dessas gaivotas que se dão os primeiros beijos



§



18


sempre temos alguma coisa a aprender uns dos outros:
posso começar? o vento está sempre ao serviço de Deus
e morrer hoje em dia já não é tão mau como isso. é
verão creio que está calor: gostamos de ficar assim

conversando à porta do número catorze acerca dos mil
(e um) truques das mulheres (muito haveria a dizer acerca
dos truques das mulheres) da velocidade das chuvas
da nomenclatura do amor os cheiros que o tabaco traz

as imagens as infidelidades as intenções etc.: tudo.
há quem diga: em agosto o canto dos lábios fica
mais solto (diz-se: perde-se em falas facilmente)

mas por aqui não há já quem acredite em ilhas desertas.
um dia passa chega outro depois outro e sempre temos
alguma coisa a saber uns dos outros: alguma coisa



§



27


sabes? minha amiga: esta vida é como um barco
a boiar (tem o seu quê de técnica). como? não
apanhaste a ideia? finges (penso) apenas finges.
e há quem diga: estas águas são o atlântico.

põe outra moeda por favor (temos que terminar
este assunto:) hoje a tua madrugada acordou sem
galos? parece-me: trazes a vida sem mistérios.

soube que tens dormido demais mas (cuidado:) não
descures opções pareceres diferenças disposições.
sabias que o homem da portagem me pediu duzentos
escudos e uma flor? bonitos estes momentos ou

âncoras de ternura: de querer ficar. quanto a mim
sou feliz algo sei da vida. um dia hei-de terminar
as coisas que fui deixando sem



§



ARNALDO SARAIVA
, posfácio a «Há Violinos na Tribo», Novembro 1989
«No livro do João Luís Barreto Guimarães agradou-me a atenção ao quotidiano e ao efémero, que convive com discretos apelos ao eterno; agradou-me a modulação coloquial e o fôlego versificatório, sabiamente pontuado, sobretudo por parênteses; agradou-me a permanência de uma estrutura poemática clássica, no entanto submetida a flutuações ou variações que sugerem a do curso dos dias; agradou-me a escrita alusiva, sintética, sincopada e elíptica (...); e agradou-me a atitude dominante do poeta na sua relação dialogante com as coisas, os homens (e as mulheres).»


JOSÉ F. GUIMARÃES, O Primeiro de Janeiro, 14.11.89
«(...) Este jovem poeta, que publicou recentemente "Há Violinos na Tribo", tinha-nos já surpreendido pela qualidade dos poemas publicados nos cadernos de poesia "Hífen" - e, tanto quanto nos lembramos, repescados para este livro. Quanto ao seu livro de estreia poética há aspectos a ter em linha de conta. Por exemplo: os poemas de Barreto Guimarães vivem de uma contraposição – instalada no corpo íntimo de cada texto – entre o lado, passe a expressão, mais depuradamente poético (o conjunto de imagens que de imediato associamos a arte poética) e um tom marcadamente coloquial com ancoragem no quotidiano (sejam lugares ou moradas, conhecidos ou desconhecidos, amigos ou amores, casas ou as suas memórias). (...) "Há Violinos na Tribo" é um livro a ler atentamente – uma boa estreia, afinal.»


O Comércio do Porto, 22.11.89
«"Há Violinos na Tribo", escrito por um jovem estudante de medicina, é um livro de poesia que se destaca do amontoado de vulgaridades que costuma ter frequente edição entre nós. O seu autor chama-se João Luís Barreto Guimarães, nome que, em breve, será presença na literatura portuguesa tal como o foram as revelações de Paulo Teixeira e Francisco [José] Viegas. (...) Trata-se de uma inesperada revelação poética (...).»


Diário de Lisboa
, 22.11.89
«Um tom confessional que facilmente entra em nós (...). São vinte e oito poemas, quase todos já com aquele saber que não se aprende em nenhuma escola – e que vem ao poeta de uma "experiência" que a Ciência não sabe determinar de maneira nenhuma. Estética, enfim. (...)»


Jornal de Letras, 19.12.89
«Construiu o seu livro de estreia como quem constrói um LP, com dois lados e várias pistas. (...) Logo numa primeira leitura se nos impõe a frescura e a originalidade desta escrita que encontra o ritmo e a respiração no falar quotidiano, na sedução do efémero, na coloquialidade das pequenas coisas ditas para não fazerem história. Há, numa página ou noutra, verdadeiros achados formais, sobretudo quando o registo da escrita poética se enlaça com o da prosa fluente, limpa, capaz de gerar a cumplicidade do leitor. (...) João Luís Barreto Guimarães sai desta estreia com nota alta e distinção. E promete voltar, com apuro e maturidade ainda mais vincados, para o "mestrado" que o ofício da escrita já começou a exigir-lhe.»


JOSÉ DO CARMO FRANCISCO, Tempo, 18.01.90
«Neste ofício de ler (por escrito e por extenso) os livros dos novos (e dos de sempre...) há (por vezes) a satisfação de encontrar uma voz poética que nos anuncia uma original e individual maneira de escrever. Todos sabemos que não há rupturas totais com o passado literário. Querer fazer uma poesia nova, começar tudo do princípio, é uma impossibilidade, não se pode fazer. Em "Há Violinos na Tribo" de João Luís Barreto Guimarães há referências e citações (João Miguel Fernandes Jorge, Francisco José Viegas) mas o ponto original é o fio do discurso, o tom da própria voz (...)»


RAMIRO TEIXEIRA, Jornal de Notícias, 10.04.90
«(...) visivelmente, se identifica uma atitude de "modernidade", que antes de ser de raiz estética é, ao invés, de postura afirmativa, ou seja, de afirmação de ser. Desta forma, se nos depara uma expressão poética que possui tanto de protocolar quanto de subversão. [N]a estrutura vocabular destes poemas, identifica[-se] uma espécie de código ritualista, que recusa os convencionalismos tradicionais, em benefício de uma espécie de existência concentracionária, de exploração em grupo. Aliás, neste contexto, é simbolicamente referente o vocábulo final do título escolhido (Tribo), o qual nos remete para esta dualidade do discurso. Ela se manifesta a vários níveis, ocorrendo tanto na subdivisão do conjunto dos poemas, que se apelida "Lado Um ou Manual do Engano" e "Face B ou As Pistas", como na própria estrutura vocabular, caracterizada pela modulação coloquial, por abundantes parênteses e pela inquirição. Ora, é justamente pela tipologia destas falas, que são por natureza dialogantes, que nos apercebemos da necessidade que o autor manifesta em comunicar com um destinatário, que pretende confidente, afirmando-se, simultaneamente, em posse, ou seja, conhecimento e disputa. Que posse é a sua? Presumivelmente, a que lhe advém da pesquisa em grupo – da Tribo? Desta forma, se vislumbra, neste livro de poemas, uma dualidade quanto ao destinatário, pois tanto é ele dirigido a um agente ledor de natureza particular, confidente privilegiado que domina o código da transmissão, quanto a um outro de maior universalidade. A extrema juventude do poeta, obstando embora à perfeita simbiose do discurso poético motivado por estes dois tipos de destinatários, não o ausenta, todavia, do sagaz conhecimento, da atitude dominante essencial sobre o que produz, enfim, de uma estrutura inquiridora clássica, ainda que a pretenda submetida a uma tentativa de subversão ditada pelo desejo de "modernidade" (...). Muitos são os caminhos para a perfeição, João Luís Barreto Guimarães persegue o seu, debatendo-se entre o particular e o universal, o efémero e o eterno.»


FRANCISCO JOSÉ VIEGAS, Ler/Livros & Leitores, Primavera 1990
«As coisas vêm de onde não sabíamos que podiam vir e é cada vez mais raro descobrir, de entre todas as vozes que iniciam a publicação, no domínio da poesia, um sinal que seja marcado por uma promessa. Neste caso, no caso de "Há Violinos na Tribo", esse sinal chega como o da sua respiração. Não custam a ler, estes poemas, nem custam a perceber, as suas referências, embora não existam respostas para as interrogações aqui colocadas (...). A prática do soneto (livre, chamemos-lhe assim) atinge neste livro um alto momento de procura de perfeição clássica, a que não é estranha a presença, quase permanente, de uma vontade pura de começos, de um paraíso que se visitou e se quer revisitar: um lugar onde a dança de deus e das palavras se associe. Poesia com a marca de uma religiosidade intensa e feliz. É raro, isto: a poesia portuguesa (dos seus "clássicos" contemporâneos) perdeu há alguns anos o gosto pela melancolia e tornou-se objecto de si mesma, das suas multiplicações e desmultiplicações; ou, se descobriu o rosto da melancolia, de tanto estar cega que o confundiu com o da tristeza sem regresso. João Luís Barreto Guimarães encontra nisso uma alegria que nos é comunicada em versos suaves, em palavras que não persegue nem teme - ninguém morre em nome das palavras ou em nome da literatura (...). Notável poesia esta que nos chega em silêncio, surpreendendo-nos.»


JORGE LISTOPAD, Diário de Lisboa, 17.05.90
«(...) assaz surpreendente livro de versos, "Há Violinos na Tribo", do jovem João Luís Barreto Guimarães, editado no Porto. Há muito que me apeteceu chamar a atenção para esse... "outsider" da comunicação (...).»


FERNANDA BOTELHO, Colóquio/Letras, Maio-Agosto 1990
«O jovem poeta do livro "Há Violinos na Tribo", João Luís Barreto Guimarães, confere-me uma certa insegurança crítica, que me advém, ao que suponho, da ambiguidade da sua poesia, entre o subjectivo aleatório, por vezes não imediatamente apreensível, e uma objectividade que logo nos transporta para um concreto bem perspectível; entre a construção elaborada do poema e uma (pretensa?) espontaneidade formal; entre uma autenticidade sensível e o artificioso recurso a uma reformulação do poema, de modo a que fique lavrada e consagrada a modernidade do poeta. (...) Estes "violinos na tribo" proporcionam-nos poemas, todos eles, de catorze versos, o que revela, no Autor, a uniformidade do fôlego inspiratório e a capacidade intelectual de reduzir a uma fórmula rigorosa e dominada, as configurações da sua dispersão íntima e do seu lirismo fugaz.»


FRANCISCO MARTINS, Letras & Letras, 02.01.91
«(...) Encontrar um desses autores é sempre um prazer para o leitor-apreciador ou o leitor-crítico. E foi o que me aconteceu quando me veio parar às mãos o livro "há violinos na tribo" (até agora o único) de João Luís Barreto Guimarães, publicado em 1989, no Porto. Naturalmente que estas breves linhas são condicionadas pelo efeito de uma primeira leitura, fomentadora de "ideias" impressivas. Todavia pelas invariantes formais, estilísticas, discursivas, lexicais, temáticas (...), pode-se desde já adiantar que estamos em contacto com uma feliz estreia – fundamentalmente pelo que há de moderno no processo desta escrita poética – e com um autor que muito pode vir a fazer no domínio da Poesia. (...) Fazer [d]o devir quotidiano o cenário temático por onde vão surgindo as mais variadas associações lexicais e semânticas; enunciar um discurso coloquizante dentro de um clima quase sempre metonímico e simbólico (mesmo dando-nos a sensação de o autor perder de vista o real empírico; interrogar os limites (?) do ser, da amizade, do amor, da percepção do tempo, da codificação dos saberes por entre o gesto humano mais simples e a sua sede de duração; enfim, conjugar vários planos da visão das coisas (onde, convenhamos, parecem emergir imagens algo barrocas), - fazer isto (e não é tudo) dentro de um modelo como o do soneto (embora o discurso se expanda em versos longos e brancos), creio ser a aposta deste livro. Se a originalidade e qualidade dos sons destes "violinos" são para ser aprofundados e cultivados, os tempos do tocador e o das leituras posteriores da "tribo" o dirão.»