
38 poemas
(Leça da Palmeira, Torre da Medronheira e
Venade, 2009-2012)
Quetzal, Lisboa, 2013
direcção literária de Lúcia Pinho e
Melo e Francisco José Viegas
§
LUIS MAFFEI, Novos Livros, Fevereiro de 2014
«Você está aqui», mais recente livro de João
Luís Barreto Guimarães, confirma o nome do autor entre os poetas a não se
contornar na literatura portuguesa contemporânea. Nesses poemas, o jogo entre
movimento e imobilidade, viagens e centripetação se joga a partir do
enfrentamento de dicotomias aparentemente irresolvíveis – e talvez o ressalto
movente desses pares mais privilegie o fato de eles se moverem que creia numa
solução, dialética ou de qualquer outra natureza. Além de tudo, João Luís é um
poeta de aguda consciência do verso, e não raro obtém sentidos surpreendentes
através do humor.
JOSÉ RICARDO NUNES, Colóquio Letras,
Setembro/Dezembro 2013
«Você Está Aqui,
o mais recente livro de João Luís Barreto Guimarães, é o seu
primeiro conjunto de originais após a publicação, em 2011, de Poesia Reunida, volume em que
junta as sete recolhas anteriormente publicadas, num percurso iniciado em 1989
com Há Violinos na Tribo.
Começaria por me deter no título e na
fotografia da capa: um canal, pontes, uma bicicleta. O leitor vê-se
transformado numa espécie de detective e é convidado a procurar-se no interior
do livro, a deambular pelo livro como se fosse o mundo, com a garantia de que
se encontra lá dentro, que está
aqui. Os poemas configuram-se, assim, como linguagem e experiência comuns,
partilhadas, frutos não só do engenho e do labor do sujeito poético, mas também
das respostas, do esforço construtivo que desencadeiam no leitor, cuja
participação e envolvimento, em acto de leitura produtivo, se tornam decisivos
para a fixação do sentido dos textos. Claro que os poemas, uma vez escritos,
passam apenas a pertencer aos seus leitores. Quem lê poemas tem sempre a
expectativa de um encontro com palavras que passam a ser suas. Mas não deixa de
ser significativo que o título do livro e a imagem da capa façam desta evidência
uma espécie de programa.
Você Está Aqui divide-se em dois
conjuntos, cada um com dezanove poemas. O primeiro, “Partidas”, integra
textos que têm por principais referentes viagens e estadas em diversos lugares
no estrangeiro. O segundo, “Chegadas”, incorpora os regressos existentes
nas vivências do quotidiano. Os dois conjuntos articulam-se numa lógica de
reversibilidade. Na verdade, os poemas jamais deixam de constituir, em
simultâneo, lugares de partida e lugares de chegada. É de uma relação entre literatura
e vida que se trata e as palavras do poeta Miroslav Holub,
escolhidas como epígrafes de cada um dos conjuntos, acentuam a interdependência
entre ambos os planos: “There’s nothing in the mind that hasn’t been in
life”; “There’s nothing in life that hasn’t been in the mind”.
Encontramos neste livro algumas das linhas de
força que têm marcado a poesia do Autor: a atenção ao real e ao quotidiano, a ‘des-formalização’, a dimensão lúdica, o
humor, a afectividade, a ironia. Há sempre mais do que uma voz nestes poemas,
minados pelo comentário, pelo parêntesis que vai entrelaçando diversas linhas
discursivas e ritmos em contraponto, o que, conjugado com a quebra dos versos,
contribui para uma musicalidade encantatória, como sucede, por exemplo, com a
composição dos fragmentos discursivos no poema “Vasos Gregos (Fragmentos)”:
“… o delírio dionisíaco entre ébrias / Ménades. Ao invés deles nós somos
tão / cheios de movimento (fitando-os / nesta vitrina que nos devolve / tão
frágeis)… elidindo que / perenes é neles que a história vive… / … recuperados
do solo para glória / dos arqueólogos a quem cederam / (zombando) / a vida
eterna no Hades.” (p. 16). Fragmentos de cerâmica, fragmentos discursivos,
pequenos fragmentos de tempo.
Numa compilação em que o espaço, como já vimos,
se afigura tão relevante, o tempo acaba, de facto, por ser um dos
protagonistas. A deslocação é geográfica, o sujeito viaja para lugares
distantes mas, simultaneamente, o espaço percorrido adquire um significativo
fôlego temporal, transforma-se em tempo: “o espaço é algo abstracto / é um assunto de tempo é” (p. 22). No
poema de abertura identifica-se o tempo como o inimigo; aparentemente, o tempo
torna-se num adversário que não é possível derrotar na totalidade: “Não se
vence por inteiro quando o / tempo é o inimigo.” (p. 15). Mas o tempo, no
seu pulsar, no seu movimento cíclico, deixa-se por vezes trair: “desautorizando
as agendas. É o / tempo surpreendido pelo seu / próprio movimento – / pressinto
a duração se convido as serpentinas / para render no pinheiro os / enfeites de
Natal.” (p. 49). Note-se que o poema em causa tem por título “Da Rapidez
de Janeiro” e é antecedido pela seguinte citação: “time is the very
fabric of reality” (Jan Kyrre Berg Friis).
Existe uma tensão entre eterno e efémero,
transitório e permanente. Para além dos versos que convocámos em primeiro
lugar, onde se assiste ao confronto entre a brevidade da vida e a eternidade,
outros textos podem ser chamados à colação, como por exemplo o poema “Um Quarto de Hotel em Madrid” (p. 25). Os
aposentos jamais se entregam verdadeiramente aos seus ocupantes, não pertencem
a quem neles pernoita transitoriamente. O encontro com um clérigo franciscano no
aeroporto de Frankfurt expressa também esta oposição entre eternidade e
efemeridade. Ambos passageiros, viajam para destinos (para tempos) muito
distintos: “Estamos ambos de passagem. Ele / para a eternidade. Eu para / a
vida efémera.” (p. 33).
As viagens e o confronto com outras realidades
são igualmente de molde a avivar o tempo e a consciência da sua passagem. Tudo
se pode perder. Conservar ou resgatar tem um preço. Em Veneza, por exemplo, um
gato “devolveu a certeza de que a /
perecível beleza por uma vez / foi palpável.” (p. 18). Em Praga, numa loja
de venda de manuscritos e livros antigos, “o tempo não / era de graça” e
“A mulher do alfarrabista era cínica / mas prática não / querermos pagar as
feridas de um papiro ferido / era faltar ao respeito à província da memória /
cometer heresia contra o / preço do passado.” (p. 17).
A poesia de João Luís Barreto Guimarães alicerça-se
no quotidiano e suas vivências. A seguinte passagem do primeiro poema do volume
parece-me elucidativa: “Os dias:
deposito-os na pele.” (p. 15). E parece ter continuidade no poema de
abertura do segundo conjunto, no qual se alude ao “carrossel dos dias”
(p. 39). No entanto, a poesia é escrita numa necessária epifania que ocorre à
distância, no espaço e no tempo de um regresso a casa, revisitando os lugares e
o tempo passado que, por via da escrita, se tornam de novo actuais: “E /
quando encontras no bolso do casaco das viagens / pequenos papéis esquecidos
pelo gesto de / os reteres? Não o fazes por acaso. Investes / na epifania de
veres regressar à mão / uma entrada nos Uffizi” (p. 39). É uma poesia que se
alimenta do confronto com a vida e a realidade e que surge como produto das
circunstâncias, sempre de modo imprevisto. Na verdade, os papéis e as suas
anotações “Chegam-te / vindos do nada quando já nada esperavas” (p. 39).
Questão de tempo, uma vez mais, pois a poesia surge depois do acontecimento, é
um eco que o torna presente e lhe atribui sentido.
O poeta, configurado como predador, deambula
pelo seu território em busca de pretexto, alimento, inspiração. As viagens e as
cidades fornecem a matéria-prima necessárias para a activação de sentido que
adiante se transformará em verso. Relevante, a este propósito é “Dublin Não me Deu um Poema”, cujo texto se
resume ao título e a uma nota de rodapé, em prosa, ao fundo da página em
branco, despida de versos: “Há cidades que resistem à predação dos poetas.
Onde não se entra tão bem, que não se deixam entrar. Dublin foi, por uma vez,
uma urbe sem poesia.” (p. 32). O poema “Bicicleta para o Infinito”
(p. 57), que encerra o volume, põe mais uma vez em equação a vida e a escrita.
Se há o risco de falhar “a experiência real”, o poeta insiste em
contemplar de longe e do alto os que cedem aos equívocos da realidade e
confessa: “pedalando à janela sobre a marginal de Leça / gosto de os ver
errar atrás de logros distintos”. E a verdade é que todos pedalam: os que
conduzem a sua bicicleta pela marginal e o que, à janela, pedala “atrás
deste manuscrito”.»
RUI LAGE, Público, 12.07.13
O Estar à procura do ser - João Luís Barreto
Guimarães guia-nos num “grand
tour” de massas pelos corredores do museu da Europa, com uma coda elegíaca
(e política) no regresso à pátria.
«O tempo já foi absoluto (sempre o mesmo para
todos em toda a parte). Depois de Einstein tornou-se relativo,
passa de forma diferente consoante estamos em repouso ou em
movimento. Dividido em duas partes, o último livro de João
Luís Barreto Guimarães (o seu oitavo de poesia e primeiro após o
volume Poesia Reunida em 2011),
articula na primeira, “Partidas”, o movimento (um “grand tour”
pela Europa), e, na segunda, “Chegadas”, o repouso (em terra pátria).
Mas há movimento interior tal como há repouso exterior, e as epígrafes de Miroslav
Holub escolhidas para cada uma das partes dizem-nos dessa continuidade
entre o interior e o exterior, entre a mente e a vida: “There’s nothing in
the mind that/ hasn’t been in life”; e, na segunda parte: “There’s
nothing in life that/ hasn’t been in the mind” (promiscuidade traduzida, por
exemplo, na metamorfose das montras da prostituição flamenga nos interiores
de Vermeer).
Apesar do título “Você está aqui”, não é o espaço a categoria dominante nestes
textos (ou a geografia), mas o tempo: “O espaço é algo abstracto/ é um
assunto de tempo” (p.22). Sem que esteja em causa um sentido metafísico do
tempo pois este é, aqui, o inimigo; um inimigo invencível, porque está dentro
das nossas casas e nas nossas ruas, porque dorme connosco, vai connosco para o
trabalho e pedala uma bicicleta estática num ginásio de onde se vê a vida a
treinar na marginal de Leça, mas também se vê a poesia: coisa que se move sem
sair do mesmo sítio (p. 57). O tempo cutâneo do hegeliano “domingo da vida”,
um tempo de tal forma expurgado do sentimento do sagrado que o sujeito se encontra
em trânsito não para a eternidade mas para a “vida efémera” (p. 33),
como se só esta, na sua insignificância, pudesse ainda significar alguma coisa
e esgueirar um frágil sucedâneo de transcendência por entre as muralhas
seculares. Um tempo com “a fadiga de/ ser eterno” (p. 47), o tempo, já
se vê, da história ocidental, que chegado ao seu “fim” aparece parado e,
sem sequencialidade (sem “narrativa”), coincide com o aqui, com o espaço. Uma
história próxima, eurocêntrica, crepuscular, de velhas capitais, de grandezas
derrubadas e de má-consciência como a do poema “A preto e branco”,
movido por uma ética pós-Auschwitz e com o final a evocar subtilmente a “Fuga
da morte” de Celan.
Não surpreende, portanto, a poética das
ruínas, nem surpreende a predominância do modo cognitivo e perceptivo da
meditação (até nos títulos – “Meditação em Váci
Utca”) que os filósofos medievais diziam “pôr a alma em tensão”. Esse ethos romântico,
antes desconhecido na poesia do autor, faz-se também evidente nas alusões ao “Grand Tour”, espécie de rito de passagem para os jovens da
aristocracia e burguesia endinheirada dos séculos XVII a XIX que servia para
acederem à idade estética – iam ver de perto as glórias da civilização, os seus
emblemas, fruir do carácter “global” do romantismo. Hoje, na época do “low
cost”, o “Grand Tour” (que começou a democratizar-se com o Inter-rail)
é mais modesto, já não visa a contemplação do sublime e a educação das elites,
mas o lazer, a escapada, as viagens de finalistas; e o turista é uma caricatura
de si mesmo que deambula melancolicamente por esse colossal museu em que a
Europa se transformou. Donde a impossibilidade do europeu se reconhecer nos
lugares da história: ele reconhece-se em todo o lado o mesmo, estranha-se no
familiar. O espírito do lugar é o cadáver de um genius loci cultural,
e nos quartos de hotéis indiferenciados há o calafrio de nos sabermos mera
repetição uns dos outros, mudados apenas os rostos (“Um quarto de hotel em
Madrid”, p. 25).
Se a museologia (única epistemologia possível
num mundo revelho) ainda pressupõe a deambulação do visitante, pese que
espectral, já na segunda parte do livro, “Chegadas”,
estamos no reino da inércia. Portugal aparece como um país incumprido, do qual
pouco ou nada se espera; serve-lhe de alegoria o tapete rolante onde cada
passageiro procura – em vão – avistar a sua bagagem na encruzilhada do
aeroporto, ele próprio bagagem de mão, extraviado de si mesmo. Medita-se agora,
entre ironias e sarcasmos, sobre ruínas interiores, permeáveis à dimensão política. Uma poesia inconformada com a “mediocracia”. Retrato de uma geração cujo hedonismo e
voluntarismo se esbate lá fora, na vida: “uma coisa não mudou o/afã com que
ansiamos pelo toque de saída/ (não percebendo que a vida lá fora/ nunca cumpriu”
(p. 41). Uma geração que não esteve na revolução, sem mitos fundadores, que
chegou já o ditador tinha caído e cuja batalha restante é “levantar cada
manhã o/ peso imenso das pálpebras” (p. 23).
E no entanto a moral da história não é a
desolação, mas “essa tua saia breve/ o incêndio de
estar vivo)/ coisas para lá do uso vil/ do pequeno poder” (p. 48); a batalha
é afinal reganhar a vida, ou dela “extrair vida ainda” (p. 51),
conjurando, se preciso for, essa heresia pós-moderna, a beleza, como em “Nude
woman reclining”, entre Li Bai e Pessanha (p.
55). Tudo servido com os ingredientes característicos da poesia do autor:
observação e notação dos acasos do quotidiano, significação do insignificante,
redução da grande escala à pequena escala com o propósito de tornar o poema
próximo e reconhecível, sobriedade dos versos, exiguidade adjectival, trabalho
de oficina, humor parentético e o império da metonímia que, tendo significado
no anterior A parte pelo todo (2009) o livro pela morte (do
pai do autor), significa, em “Você está aqui”, o espaço pelo tempo: por
um presente que parece interminável, um presente eterno, um “estar aqui sem
fim”, uma “still life” (p. 51) que, apesar de parada, ainda
é vida – porventura vida suficiente para servir de fundamento à procura de algo
que transcenda o mero estar.»
JOSÉ ÁNGEL CILLERUELO, Presentación de la lectura de JLBG en
el ciclo «A cielo abierto», organizado por el Dickinson
College y el Centro Cultural Generación del 27, Málaga,
16.05.13; e blogue El Balcón de Enfrente, 18.05.13
Visiones de João Luís Barreto Guimarães
«João Luís Barreto Guimarães nació
en la ciudad de Oporto, en 1967. Su primer libro, con el premonitorio título de Hay violines en la tribu fue publicado en 1989. El poeta
tenía veintidós años. Estas dos fechas, 1967 y 1989, como suele ser costumbre
tanto en Portugal como en España, señalan el epígrafe de entrada en la historia
literaria de un poeta.
Antes de realizar esta primera ubicación acaso
sea necesario advertir que las ideas que tenemos sobre la historia de la poesía
en España no se pueden aplicar de manera automática a la poesía portuguesa. Es
conveniente señalarlo porque la terminología con la que nos referimos a estas
ideas es la misma en ambos países, pero tanto su importancia como su dimensión
y repercusión rara vez coindicen. De hecho, aunque se pueda afirmar que durante
el siglo XX tanto la poesía española como la portuguesa han vivido un verdadero
siglo de oro, puestas las dos en paralelo se vería que han avanzado siempre a
paso cambiado. Pondré un ejemplo. Las ideas de la primera vanguardia se
divulgaron entre nosotros a partir de un grupito de poetas, los Ultraístas, a
los que siempre tratamos con mucho cariño crítico, pero que se deshacen entre
las manos. En Portugal, idénticas ideas provocaron la aparición de dos poetas
de dimensión universal, como son Mário de Sá Carneiro y Fernando
Pessoa. La segunda vanguardia favoreció entre nosotros una Generación
reconocida dentro y fuera de España, nuestro 27, y en Portugal un movimiento,
el que se reunió en torno a la revista Presença, que no supo trascender las
claves nacionales de su poética. Las ideas pueden ser las mismas, pero sus
dimensiones con frecuencia son opuestas.
Nacido en los 60, se inserta en la historia
literaria en los 80. Tampoco coincide el signo de las décadas en los dos
países. Los poetas nacidos en los 60, que empezaron a publicar en los 80, en
Portugal forman un espacio de transición entre dos grandes décadas de poesía,
la de los 70 y la de los 90. Los poetas de los 60, a diferencia de lo ocurrido
en España, desde el principio buscaron caminos literarios singulares y
disímiles, fueron reacios a las poéticas de grupo y alérgicos a los manifiestos
generacionales. Es decir, exactamente lo opuesto a lo ocurrido en los años 80
en España. Aunque nuestro poeta, por edad, se encuentra muy próximo a los
poetas de la década siguiente, creo que en él pesa más el espíritu solitario de
los 80 portugueses que el de bandería, polémica y manifiesto que le sucedió.
Su primer libro, en el 89, se abre con una
cita que deja poco lugar a dudas sobre las intenciones del joven poeta: «Lo cotidiano es todavía un discurso» [João Miguel
Fernandes Jorge]. Ahora bien, tras esta cita tan marcada, el primer poema
dibuja en la página las manchas tipográficas de un soneto, cuyos versos —muy
lejos del endecasílabo ritual— se alargan a la métrica extensión de las 20
sílabas. Ninguno de los rasgos de aquel primer libro, ni los temáticos ni los
formales, encaja entre sí, ninguno se corresponde con un paradigma conocido.
Parece que esté lanzando la piedra de lo cotidiano e inmediatamente la esconda
tras las sombras de una forma de la tradición tratada con espíritu
experimental. De esta manera empieza João
Luís Barreto Guimarães su obra, no poniéndoselo fácil a los críticos
literarios.
Hasta el momento presente, Barreto
Guimarães ha publicado ocho libros, que han aparecido reunidos en dos
ocasiones (en 2001 y en 2011). En su evolución aparecen con claridad dos
grandes periodos —el primero agrupa sus tres primeros libros; el segundo, los
cuatro últimos— y en medio, un volumen que ejerce de perfecto punto de
inflexión entre uno y otro período. El paso de un época a otra aparece marcado
por el cambio de las tensiones dominantes en el poema: en una primera época
predominan las tensiones formales (la del soneto como ámbito de experimentación
poética, pero también la fragmentación y despersonalización sintácticas, la
hiperdiversidad tonal, la puntuación imprecisa, la composición yuxtapuesta y un
cierto aire minimalista), mientras que en una segunda época el marco formal se
relaja notablemente y las tensiones que dominan el poema son ya esencialmente
temáticas.
Vayamos por partes. De los tres primeros
libros de Barreto Guimarães —los que constituyen su primer
período, integrado por los títulos Hay violines en
la tribu (1989), Calle Treinta y Uno de Febrero (1991)
y Siempre hacia arriba (1994)— la crítica ha subrayado, desde
el principio, su condición dialogante [Arnaldo Saraiva, 1989], de poesía
para ser comunicada y compartida [José Ricardo Nunes, 2002] y su
búsqueda más que de lectores, de confidentes [Ramiro Teixeira, 1990].
Pero, a partir de esta afirmación, lo que la crítica reconoció inmediatamente,
incluso de manera explícita [Fernanda Botelho, 1990], fue su
desconcierto. Sorprendieron las contradicciones entre una expresión estilizada
y un tono coloquial [José F. Guimarães, 1989], la dualidad de un
discurso al mismo tiempo protocolario y subversivo [Ramiro Teixeira,
1990], la ambigüedad entre su subjetividad y espontaneidad, por una parte, y su
objetividad y artificiosidad por otra, [Fernanda Botelho, 1990], o las
impresiones discordantes de intelectualización y de sentimiento [Ramiro
Teixeira, 1991]. Lo dicho, los críticos tenían que ponerse las pilas. Y se
las pusieron.
Especial atención despertó la forma elegida en
los tres libros iniciales, el soneto. Los «14 versos»,
como algún crítico precisa, de cada uno de los poemas son un nuevo motivo de
oxímoron compositivo, entre la convención y la experimentación [Fernanda
Botelho, 1994]. Son sonetos libres, que no quieren serlo [Jorge Listopad,
1995], forma que se impone a la percepción [Fernando Guimarães, 2012],
lugares mutantes [Manuel António Pina, 1995], formas dinamitadas [José
Ricardo Nunes, 2000 y 2002], seducción de la materialidad del signo [Manuel
de Freitas, 2001], vestigios formales de lo anárquico [Pedro Mexia,
2001] e incluso manifestaciones visuales [José Ricardo Nunes, 2002], es
decir, cuatro manchas tipográficas sobre la página. Lo que queda claro en este
esfuerzo de comprensión crítica de la forma elegida por el poeta es que concibe
el soneto como la unión de dos paradigmas que jamás habían caminado juntos: su
arquitectura tradicional como campo de experimentación poética, o incluso se
puede afirmar que utiliza la imagen de los catorce versos como expresión, una
vez desechada cualquier tonalidad convencional, del poema en prosa [Vasco
Graça Moura, 2011].
Estos poemas iniciales presentan, cada uno de
ellos, una pequeña narración que encierra siempre un descubrimiento, una mínima
subversión de la lógica [Adriana A., 2009], una revelación de
casualidades [José Ricardo Nunes, 2002], con frecuencia resuelto a modo
de juego de palabras. Lo lúdico, lo efímero, lo impreciso —«realismo desenfocado» ha llegado a denominarse con acierto—
son también componentes de esta poesía [Manuel de Freitas, 2001; Vasco
Graça Moura, 2011; Luís Quintais, 2011 y 2012; Pedro
Eiras, 2012; Fernando Guimarães, 2012], así como la entonación,
la interrupción y la divagación propios del discurso oral [Pedro Mexia,
2001]. El objetivo de esta poética de los opuestos surge diáfana: desalojar al
lector de los lugares seguros con los que convive [José Ricardo Nunes,
2002]. Su tema agazapado en ese objetivo es establecer el mapa de las derrotas
del ser humanos ante el mundo [Paulo da Costa Domingos, 1995] y la
reconstrucción de la realidad [Vasco Graça Moura, 2011]. Su acierto
literario consiste en construir este objetivo y este tema desde una extremada
tensión estética, que otorga a lo formal un protagonismo también en el ámbito
temático [Luís Quintais, 2012].
El año 2000 un nuevo libro, titulado Lugares comunes, da un giro importante a la obra de Barreto
Guimarães. En él realiza un vuelco estético sorprendente. Libera al poema
de su coraza formal (el soneto experimental y su fragmentación casi
minimalista) y la traslada a la estructura del libro: una suerte de crónica
poética fechada durante todos los jueves durante las cuatro estaciones de un
año y situada en la sala de un viejo Café de Oporto, el Corcel [Manuel
António Pina, 2000]. Esta estructura circular, potencialmente cíclica [José
Ricardo Nunes, 2000], permite que las pulsiones tonales se remansen en un
poema en prosa que es, en sí mismo, un hipergénero que reúne marcas de otros
tantos géneros: el diario, el aforismo, el escrito íntimo… [Pedro Mexia,
2000], es decir, géneros literarios capaces de concentrar núcleos fragmentarios
de la existencia [Ramiro Teixeira, 2000], brevísimos abismos [Manuel
António Pina, 2000], transformaciones [José do Carmo Francisco,
2000], en suma, aspectos de la realidad captada que son en sí mismos símbolos [Ramiro
Teixeira, 2000].
Esta mudanza de la estructura formal
constructiva del poema libera y potencia también, por otra parte, los ejes
tonales de su poética: el humor, la ternura y la elegía [Manuel de Freitas,
2001]. Algo que el poeta resume con lucidez en uno de los textos de Lugares comunes: «En todo momento ocurren cosas que es
importante retener, y esas cosas son poesía en su estado más puro». Es
decir, retener es la función cardinal de la poesía. En esta cita así lo expresa
el poeta, pero todo el libro en su conjunto es la puesta en escena de esta
idea: el ejercicio de la poesía como retención y restitución de las pequeñas
esencias del mundo. Y es, también y más allá, este libro una escenificación que
la propia escritura realiza de sí misma, que conduce el acto de escribir hasta
sus límites físicos, mortales, con la palabra que queda inconclusa cuando la
longitud del lápiz no consigue caligrafiarla [Manuel de Freitas, 2001].
La distensión formal que se produce en la
segunda etapa creativa del poeta, después de la inflexión de los poemas en
prosa, provoca una tensión temática, que la crítica percibe, también en
términos paradójicos, como un incremento en la densidad de un discurso leve [Ana
Marques Gastão, 2003], o la capacidad de otorgar una dimensión poética a lo
doméstico y cotidiano [Sérgio Almeida, 2003; Maria do Rosário
Pedreira, 2007]. A partir de este momento, cada uno de los títulos presenta
un tema troncal, alrededor del cual giran una buena parte de los poemas, y una
serie de temas subsidiarios que lo complementan. Entre tema principal y
secundarios cada libro ofrece siempre un argumento unificado de lectura. Este
argumento afín, sin embargo, se construye —paradójicamente— con un cruce de
planos, entreverados siempre el narrativo y el metafórico en una incesante
espiral de significados [Paula Cristina Costa, 2009]. El lema sobre el
que se desarrolla este período de Barreto Guimarães aparece
esculpido en mármol en un verso del poeta: «Escribo
desde dentro de la vida».
Rés-do-Chão (Planta baja), en 2003, gira en
torno de la felicidad; más, la felicidad conyugal, la celebración de lo
doméstico [Pedro Mexia, 2004], la consagración de los momentos
sublimados [Ramiro Teixeira, 2003]. Este nuevo período acentúa en su
poesía tres características que antes había aparecido latentes. Por un parte,
se hace más aguda la observación sobre sí mismo y sobre la sociedad, en
coherencia con una visión del mundo compartida por el poeta y la comunidad [Ramiro
Teixeira, 2003]; por otra parte, se intensifica el sentido elegíaco, su
comprensión de lo que desaparece [Ana Marques Gastão, 2003], y el
significado simbólico de las situaciones aparentemente anodinas, cotidianas y
de vida doméstica que retrata [Vasco Graça Moura, 2011].
Los dos libros siguientes, Luz última (2006) y La parte por el todo (2009)
comparten la consecuencia poética de una cesura biográfica [José Mário Silva,
2009], la muerte del padre, que se convierte en motivo de reflexión. En la
lección única de la muerte, en esa luz última que nos impone, descubre el poeta
el inicio de una vida nueva, una vida otra, ahora sin el padre, que habrá de
empezar a vivir a partir de ese momento [Pedro Mexia, 2006]. Una muerte,
como apunta el segundo título, también metonímica: lo concreto de la pérdida
vale también como imagen de la constante desposesión en la cotidianidad de los
vivos [Rui Lage, 2010].
Recién publicado este mismo año aparece el
octavo título de Barreto Guimarães, Usted está aquí. Una vez más una expresión fosilizada por los
mapas turísticos recibe el ave fénix de la poesía, que la resucita para decir
lo que jamás hubiera soñado significar. Si es cierto que el poema dice lo que
no puede ser dicho de otra forma [Luís Januário, 2013], también lo es
que nuestro poeta lo aplica a cualquier hecho verbal, aún el más efímero,
porque esta es ya una de las cualidades de su escritura, el que cualquier
pensamiento acabe convirtiéndose en un poema [Alexandra Malheiro, 2013].
A los viajes está dedicado este volumen reciente, a sus dos caras, la partida y
el regreso [José Mário Silva, 2013; Maria Ramos Silva,
2013]. O formulado en términos temáticos, a encarar la contradicción, que
aparece expresado del modo menos presuntuoso que quepa imaginar, entre la
eternidad del arte y el carácter efímero de la vida [Henrique M.B. Fialho,
2013].
En el penúltimo poema del libro João
Luís Barreto Guimarães realizar un autorretrato a los cuarenta y cinco
años. Compara el cuerpo que observa frente al espejo con la desolación otoñal
de la naturaleza que se dibuja en la ventana contigua. Reflexiona: «Ahí afuera la / decadencia se recompone cada año» y aquí
dentro, frente al espejo, añadimos nosotros, los lectores, tus poemas, João
Luís, recomponen la precariedad de nuestra experiencia, sometida a las
leyes implacable de lo efímero, en cada libro que publicas. En cada poema que escribes la vida se
salva.»
ANTÓNIO CARLOS CORTEZ, Jornal de Letras, 6.03.13
Estar não é ser
«Nos textos de contracapa de Você Está Aqui, o mais recente livro de João Luís
Barreto Guimarães, podemos ler o desencanto, o desalento de uma bio-grafia,
isto é, de uma vida que se faz escrita; escrita: "A primeira coisa que
me parece de assinalar é o espírito de jogo e de ironia [...]. Depois, a densa
memória cultural que parece habitar esta poesia. Forma e conteúdo enlaçam-se e
recriam técnica e expressivamente a história da poesia ocidental, do seu
encantamento à sua perda, do seu lirismo à sua figuração visual."
São palavras de Luís Quintais e
delas será de reter o seguinte: a ideia de haver jogo e ironia na poesia do
autor de Rua Trinta e Um de Fevereiro, a
consabida memória cultural que se repercute quer em estratégias de enunciação,
quer em referências literárias mais ou menos oblíquas (nomes de poetas, lugares
frequentados por personalidades que reconhecemos como fundamentais à
historicidade do poético, de Dante a Eliot,
de Keats a Wittgenstein) e ainda o
entrelaçamento entre forma e conteúdo, ou melhor, o entrecruzamento entre as
formas escolhidas, hetero-estróficas, em que os versos, o ritmo e a rima (rara
ou tão-só sugerida em João Luís) obedecem a uma coloquialidade e os
temas que nessas formas se desenvolvem.
Pedro Eiras, por outro lado, fala do humor como "um sentido extra", por meio do qual se procura responder
ou compensar a sensação de "desconcerto do mundo". O humor,
diz Eiras, "supre a falta de sentido", mas é esse
ato de suprir que nos conduz a uma das marcas textuais deste livro, a qual,
aliás, não deixou de ser trabalhada em livros anteriores, a saber: a usual
suspensão da fala, por meio da quebra de versos abrupta, mas selectiva, dum eu
deceptivo que interrompe o que tem a dizer ao leitor (ou a si mesmo) como se as
palavras não fossem mais possíveis. E a ironia está precisamente nisso: a
poesia de Barreto Guimarães, ensaiando o sorriso, jamais ri; vem
falar-nos de uma felicidade mais técnica que real ou verdadeira ("somos
tecnicamente felizes"), escreve no poema de abertura) e comprova que é
o registo deceptivo o que nestas "partidas" e "chegadas"
anima a escrita e o registo dos acontecimentos.
Desconcerto, ironia, deceção, necessidade de
evasão, procura incessante por tecer um estilo que seja ao mesmo tempo uma
forma outra de resgatar uma voz, tudo isso encontramos neste breve volume,
intitulado Você Está Aqui, sendo que, por
detrás de certo tom propositadamente snob ou superficial da forma de tratamento
por você, encontramos já uma crítica ao "tempo detergente".
Procurando diluir a sensação de desconcerto
por meio de viagens, talvez fosse melhor dizer que o "eu" destes textos procura evadir-se de si e do tempo por
meio de derrotas: percurso de chegada depois da rota que se tenha feito e
"derrota", no sentido de se apresentar aqui um "eu"
que pergunta sobre o sentido da poesia. Leia-se, pois, este livro como "partida"
e "chegada" dum eu que, náufrago dum tempo, encara
ironicamente a desrazão,o absurdo e só à superfície parece querer falar-nos de
superficiais viagens. Desde logo, do que nestes textos se fala é dum sujeito
que se encontra derrotado: "Os dias: deposito-os na pele. Deus (ou /
qualquer coisa por Ele) está com certeza / por trás desta tarde de domingo (o /
verão chegando ao fim imenso / em seus labirintos) / acautelamos derrotas
milímetro a / milímetro. Por vezes / (mais distraídos) somos / tecnicamente
felizes [...]" (p.15).
O livro, portulano, mapa ou carta de marear
por lugares vazios, por cidades reconhecíveis ou não, como que nos apresenta
versos lapidares ("Não se vence por inteiro
quando o / tempo é o inimigo." (p.15); "Mas / foi sempre esta
cidade morada de / estrangeiros perdidos / que o diga o jovem Keats (1821)"
(p.19).
Nestes poemas os versos são lápide, inscrição
tumular, dando conta, parece-nos, do fundo ominoso que percorre os textos. Por
exemplo, ainda no poema "Grand Tour"
o fim é pergunta para a qual não há resposta: "Não tornaste ainda a
Roma (à / glória vã / desses dias) dizem / que lançar moedas à Fontana di Trevi
/ garante ao jogador o regresso / a essas ruas. Tão fácil é / subornar o
destino?" (p.19). Sendo poesia urbana, o seu realismo enfrenta as
perplexidades dum sujeito em trânsito pelos lugares vazios da História, também
da poesia: "«Quanto vale uma imagem / no mercado da poesia?»"
(p.21).
De facto, é este um livro sobre os
lugares-comuns, os cafés, coisas que se passam "ao rés-do-chão" da vida, mas apesar do olhar ser
sinónimo de anotação, há espaço para a ficção. A visão de soldados que irrompem
por um comboio, "ordenando a saída em alemão", enquanto outros
esperam em fila, reenvia ao nazismo, ao século das imagens (o século XX) que,
entre ficção e realidade, configuram o tempo a que o poeta pertence e que se
pretende esconjurar. A coloquialidade do discurso é simples e a reflexão,
apesar do tom relativista, também, reforçada, aliás, pelo uso do parêntesis,
espécie de fala em sotto voce, também em processo de pagamento e
estremecimento (como a mancha gráfica sugere, como se a escrita viesse ao texto
em convulsões cardíacas: "Não / foi difícil de dar com a campa de
Brodsky – / a pedra da sua lápide (silente / minimalista) sem a gordura da
prosa: / um / rectângulo de poesia." (p.22). Rasura da história que no
poema seguinte é a assunção desse olhar derradeiro, de que falava José
Ricardo Nunes relativamente
a Luz Última, "o olhar derradeiro - um que pudesse
anteceder a morte -, o olhar que se transforma em verso".
A poesia de João Luís B.
Guimarães, podendo ser urbana, sobre as banalidades do dia, não é só isso.
A ironia que nos seus versos é evidente é uma ironia que assume algo de
obsessivo: é o poema que se persegue, que se pedala, que se rasura e que se
repara. "Pedalo atrás deste manuscrito",
dado que, não é possível pedalar-se, em concreto, no campo da poesia, como na
vida, se não se tiver pedalada, isto é, consciência de que escrever, seja sobre
viagens reais, urbanas, pessoais ou inscritas na história do colectivo, é
sempre uma luta com esse "outro infinito" que o poeta adivinha
"ao assentir os 40". Importa, porém, ter presente um verso
de O'Neill: "a poesia é a vida? Pois claro! Embora custe
caro, muito caro / e a morte se meta de permeio."»
Palavras na escuridão
«Um livro de poesia para mil leitores. Alguns
irão conhecê-lo mais tarde, quando se vender a dois euros nos saldos de uma
estação. Quem lê poesia? Quem compra poesia? Apesar de tudo a poesia tem
prestígio. O meu amigo João, talonador numa equipa de rugby juvenil, chama
poetas aos colegas da segunda linha que estragam as jogadas com adornos
desnecessários. O livro de poesia está em branco. Este que tenho na mão tem
onze páginas em branco, oito repetindo o título, subtítulos e dedicatória,
cinco com citações e o índice, dez páginas de informações editoriais. Trinta e
quatro páginas quase em branco para trinta e oito poemas sobre cidades, menos
Dublin que não deu um poema. Estes ocupam por vezes metade das páginas. E os
versos podem não preencher meia linha. Parte do prestígio da poesia vem desta
liberdade de deixar espaços vazios, como se quisesse dizer ao leitor que também
ele pode escrever, desenhar, riscar, pintar, rasgar. Uma instalação recente
representou um livro como um conjunto de letras/ palavras derramadas a partir
de um eixo central. Só na poesia as palavras brilham, pesam, cintilam. Mas para
poderem brilhar precisam do espaço e da claridade da página, como as estrelas
precisam da escuridão dos céus. Atrás das palavras está uma voz singular
(quando acontece a poesia, como é tão raro e é o caso deste livro). E à frente
das palavras está a pessoa que lê, aquele a quem Baudelaire chamou
irmão (“meu semelhante”), e depois precisou: “hipócrita”.
Porque quem escreve tem na cabeça um leitor fantástico, feito de muita gente,
dos homens e mulheres que ama, dos que admira, dos que gostaria que o
admirassem. Partilha com estas pessoas gostos, referências e ilusões. Por elas
se julga compreendido. Quem escreve quer ser influente junto desse círculo
restrito de gente real ou imaginária a quem dedica os textos. Imagina-a
cúmplice. Por ela e para ela reconstrói a realidade.
A poesia é um estado de alma (lugar comum).
Uma maneira de estar. Um modo genial de ver, interpretar, tornar a realidade
inteligível, suportável. A poesia partilha com a paixão amorosa uma percepção
exaltada: subitamente tudo muito alto: a música. E o cheiro muito alto, muito
alto o tacto. Usando o léxico de outra situação: a poesia é uma idiotia sábia,
uma perplexidade, uma sagacidade dirigida.
João Luís Barreto Guimarães escreveu um livro de viagens em duas partes. Uma, a que
chama “Partidas” em que cada cidade se organiza em
torno de uma recordação, um pormenor. Outra em que remexe nos bolsos. Nesta, os
poemas mostram a sua oficina, outras vezes evocam a repetição, a rasura, a
revisão a que foram sujeitos. Como os atletas no ginásio imitando a natureza, repetindo
um exercício, pedalando sem progressão numa pedaleira a que faltassem as rodas.
Mas a poesia não é a oficina do autor nem o poema o seu produto. A oficina não
pode ser pressentida. Cada poema existe inteiro, enquanto é escrito, e assim se
refaz na cabeça do leitor. Vai acender os mesmos circuitos, preencher as mesmas
fendas sinápticas, ligar os mesmos neurotransmissores a idênticos receptores,
criar os mesmos mapas. Existe como um andamento, com o seu ritmo. Cada corte,
cada verso a mais, transforma-o em outra coisa.
O poema aproxima-se da realidade como a
ciência. O que muda é o ponto de vista. O poema diz o que não pode ser dito de
outra forma. E fá-lo com a sua exactidão. O poema pertence a uma zona do
cérebro que nem sempre está funcional. Embora algumas pessoas tenham o dom de
uma existência poética, e por vezes, a sua existência seja contagiante, e nos
comunique um conjunto de sentimentos que só podem ser transmitidos recorrendo à
linguagem da poesia e a conceitos contraditórios. Leveza. Mas também
solenidade. Alegria de viver. Angústia, mas reconciliação com a morte.
Velocidade, vertigem, cor. Mas tempo para os saborear. Tempo para poder parar o
tempo. Para repetir. Compreender melhor. Dizer melhor. Como se diz um poema.»
Você está aqui
«Reunidos os versos de três autores
portugueses relativamente firmados no nosso panorama poético, e não esquecendo
a publicação de Do Natural, livro de poemas
de W. G. Sebald, a Quetzal Editores parece estar apostada em
retomar o papel que outrora teve na publicação de poesia. Você está
aqui (Janeiro de 2013) reúne poemas de João Luís Barreto
Guimarães (n. 1967), poeta estreado em 1989 com uma colectânea de
sonetos intitulada Há Violinos na Tribo. Barreto Guimarães começou
por atrair a atenção dos leitores de poesia pela capacidade de subverter
composições poéticas clássicas, nomeadamente o soneto, com súbitas explosões
formais no interior de formatos fixos e uma especial atenção às minudências do
quotidiano. Lugares Comuns (2000), escrito em prosa e muito provavelmente
o melhor dos livros do autor, marcou uma inflexão no percurso iniciado em 89,
mas não libertou o poeta de uma tendência genética para o experimentalismo. Os
poemas do autor de Luz Última (2006) passaram a assumir
configurações modernas, destacando-se pela profusão de parêntesis que não só
marcam os ritmos da leitura como baralham, acentuam ou estilhaçam o(s)
sentido(s) do poema. O título desta mais recente colectânea envia-nos
directamente para contextos iconográficos muito específicos, nomeadamente as
plantas espalhadas pelas cidades, museus e lugares que localizam os indivíduos
no espaço. No entanto, o advérbio do título pode também indicar, além de um
lugar, uma ocasião ou um contexto. O título é feliz, na medida em que todos os
poemas deste livro dependem de um contexto específico que os suporta,
extravasando uns esse contexto, ficando outros cativos de uma vivência concreta
cujo interesse para os demais é sempre discutível. No primeiro conjunto, João
Luís Barreto Guimarães convida-nos para um “périplo” europeu de
tipo cultural. Não visitamos ou revisitamos propriamente as cidades, mas antes
elementos culturais presentes ou característicos nas e das mesmas. Pejados de
referências a obras de arte, museus, papiros, aquilo que vulgarmente apelidam
de focos de interesse turístico, estes poemas estabelecem uma oposição entre a
efemeridade da vida tal como a levamos e a perenidade entrevista nas
referências aludidas. É isso que inspiram, por exemplo, os "Vasos
gregos (fragmentos)" da página 16: «Ao invés deles nós somos
tão / cheios de movimento (fitando-os / nesta vitrina que nos devolve / tão
frágeis)… elidindo que / perenes é neles que a história vive…» Não é de
agora esta espécie de crise perante a fugacidade nos poemas de João
Luís Barreto Guimarães. Por vezes sinto-me tentado a chamar-lhe pânico do
efémero, o mesmo pânico há muito expresso nos clássicos que apenas o tempo
tornou clássicos sem que a eles algum homem tivesse resistido. Nos subterrâneos
deste pânico há sempre a urgência do nome, uma vontade de dizermos a nós
próprios que valemos mais do que esse valor residual atribuído pelo tempo,
grande escultor, grande ditador, à imensa maioria dos homens. Note-se, a título
de exemplo, na aflição explícita num dos poemas da segunda parte cujo título é
todo um programa: Morte anónima (p. 50). Pedala-se, desta
forma, contra o inevitável esquecimento. Terá direcção o infinito a caminho do
qual se pedala? Uns creem valer a pena o esforço, outros não parecem alimentar
ilusões quanto ao fim. Espaço, tempo, durabilidade, efémero, perene, fugaz,
destino, são marcas d’água facilmente detectáveis nestes poemas, mesmo quando
aceitam um tímido erotismo nas entrelinhas (Raparigas da Luz Vermelha, Um
quarto de hotel em Madrid, O pecado da idade, Passeig de Gràcia) ou
transformam uma mijadela num museu em cogitação existencial. O poema merece ser
citado na íntegra:
"Natureza-morta
com mosca (2011) // ao Albuquerque Mendes // Junto ao / ralo
do urinol na cave do Mauritshuis está / uma mosca pintada. Quem sabe terá escapado
/ de uma natureza-morta de / Balthasar van der Ast / exposta no piso 2. Numa
tela flamenga uma mosca / nunca pousa pelas melhores razões / (é efémera a
natureza / breve e / decadente é a vida) se / a tentasse enxotar dos frutos
representados / logo um guarda me diria / para recolher o dedo. Aqui / atinjo-a
com gosto (o jacto / ainda eficaz) enquanto imagino os guardas / um par de
pisos acima / perguntando pela morte a cada / tela da sala. Se eu lhe apontar
mesmo às asas / duvido que / volte a voar."
Talvez o mais arriscado dos poemas do livro,
por tão facilmente poder cair no ridículo, este poema é um dos melhores do
primeiro conjunto. É um dos melhores porque é, provavelmente, daqueles onde se
exprime de um modo menos presunçoso a contradição intrínseca ao discurso que
tantas vezes opõe a eternidade da arte à efemeridade da vida. E é essa “vida efémera” que o segundo conjunto do livro recupera, em
sintonia com outros livros do autor onde desenha o quotidiano não como quem
procura retratá-lo, mas como quem tenta resgatá-lo, precisamente, da
vulgaridade, da superficialidade, da banalidade. Os instantes redesenhados têm,
porém, o dom de inspirar pequenas reflexões, observações ligeiras, comentários
por vezes irónicos, outras vezes escarninhos, comentários descontraídos. São
poemas onde a comparação entre a experiência vivida e o passado estabelecem,
também, uma curiosa analogia com as contradições expressas na primeira parte,
podendo no final o leitor concluir que talvez o absurdo seja a melhor resposta
ao problema universal da morte, essa experiência que, afinal, determina tudo o
que pensamos sobre a vida:
"História clínica:
// As mamas da dona Ana eram um / sítio maravilhoso. Maduras (qual / par de
mangas) de entre elas saíam / coisas extraordinárias / (notas de 5 para os
netos / lenços bordados no Minho) uma ou / outra medalha do mau-génio / do
marido. Dessa vez veio à cidade e / o doutor ficou com uma – / ela deixou de
poder encravar no meio delas / tudo aquilo e os santinhos / (deste lado uma
colina alta e generosa desse / um prado dividido). Num ano / levou-lhe a outra
e outra levou-lhe / o marido (ainda há mulheres com sorte:) / está / enfim
livre de perigo.»
MARIA LEONOR NUNES, Jornal de Letras, 6.2.13
Poéticamente político
«Escreve cirúrgica e opera poeticamente, como
costuma dizer, mas terá por certo sido o olho poético que um dia reparou na
inscrição "Você está aqui" no mapa de
alguma cidade. E pode a poesia ser um mapa? Um sinal da inscrição no
mundo? Você está aqui é justamente o nome que João
Luís Barreto Guimarães, 45 anos, poeta e cirurgião plástico, deu ao
seu novo livro, o mais político que já escreveu. São cerca de 40 poemas, feitos
de 2009 a 2012 que entre "partidas" e "chegadas"
deambulam por cidades estrangeiras e lugares habituais da sua obra. E é a
Europa que poetizam e pensam, em contraponto com o país.
Quando antes revisitou os seus versos escritos
ao longo de mais de 20 anos para fazer a sua Poesia Reunida (1987-2009) - que recentemente teve uma
crítica no Times Literary Supplement, que o deixou muito "feliz"
-, o poeta talvez tenha tido a tentação de renegar alguns deles, mas sobretudo
sentiu vontade de reinventá-los. Você está aqui é nesse
sentido uma "síntese" e um "abrir de novos caminhos"
no mapa da sua poesia, um livro que, como diz ao JL, "também
quer cativar leitores da prosa".
JOSÉ MÁRIO SILVA, Revista Ler, fevereiro de 2013
O lugar no mapa
«No novo livro de João Luís Barreto
Guimarães (n. 1967), Você está aqui,
assistimos a um duplo movimento, sinalizado pelas epígrafes de Miroslav Holub: do que se vive
para o que se pensa e do que se pensa para o que se vive. A dicotomia é vincada
pela estrutura do livro, dividido entre "Partidas" (memórias
de viagens ao estrangeiro) e "Chegadas" (registos da vida
quotidiana). No final, dois poemas procuram fazer a síntese. Um oferece-nos o
"Auto-retrato (aos quarenta e cinco)" do autor, um "céptico
inconformado" que vê no próprio corpo as marcas do "outono":
"os ramos nuns e incertos da árvore sob a janela / são ossos que
reconheces sob a pele / cada manhã". O outro mostra-nos o poeta numa
daquelas bicicletas que não saem do mesmo sítio, pedalando atrás do manuscrito
com uma espécie de mote - "escrevo / rasuro / reparo" -
que inclui uma ambiguidade muito característica de JLBG: não
sabemos se o verbo "reparar" significa aqui consertar ou
observar (talvez as duas coisas).
Certo é que o sujeito poético está sempre
atento ao que o rodeia. É assim que se orienta, ponto vermelho a indicar o
local onde nos encontramos no mapa de uma cidade. Ao deambular pela Europa
(Veneza, Praga, Roma, Siena, etc.), deixa-se levar por uma espécie de
melancolia de contemplação e colecciona experiências, embates com a "perecível beleza", ou momentos "tecnicamente
felizes", por exemplo, "abrindo nozes ao meio (quais
cirurgiões das meninges)". Quando se depara com fragmentos de vasos
gregos, num museu, não ignora os reflexos da vitrina "que nos devolve
/ tão frágeis". Em Amsterdão, compara as raparigas do red
light district aos quadros de Vermeer: "o /
mesmo enredo nos gestos (no convite ao amor)", as montras onde se
expõem semelhantes a "telas de vidro", "molduras
deste museu ao ar livre". Há ainda a estranheza dos quartos de hotel,
onde amanhã outro rosto estará refletido ao espelho. Ou a ironia face aos
desmandos da História, com os seus abusos e usurpações.
Na segunda parte, assoma um certo desencanto
geracional de quem chegou tarde para fazer guerras e revoluções: "Para nós sobejou outra / sorte de batalhas (levantar cada manhã
o / peso imenso das pálpebras) / correr por um lugar na trincheira do balcão",
neste "país a fingir que não / te deixa crescer (Europa / de ouropel)
lesto / a nivelar por baixo". E sempre a noção da "fadiga do
tempo", arrastando-se, desfazando-se, como o relógio na torre de pedra
da muralha de Caminha, a chegar um minuto atrasado ao novo ano, ou a árvore
natalícia que sobrevive ao dia dos Reis e fica na sala até ao Carnaval.»
PEDRO MEXIA, Expresso, 2.2.13
Você está aqui
«Versos de Miroslav Holub demarcam
as duas partes da oitava colectânea de João Luís Barreto Guimarães.
Diz o checo que não há nada na mente que não exista na vida e que não há nada
na vida que não exista na mente. É uma poética adequada a estes textos, onde
tudo é cosa mental e após ser vivido e onde tudo aquilo
que se vive existe como projecção poética. O "você está aqui"
dos mapas indica, na primeira secção, "Partidas", umas quantas
viagens europeias, nas quais se procura a beleza tangível, o peso e preço do
passado. Fragmentos de vasos gregos lembram ensinamentos da nossa vida
fragmentada, prostitutas holandesas oferecem-se como mulheres em interiores
de Vermeer, o túmulo de Brodsky mostra que a poesia é coisa
mortal, umas estudantes num museu florentino são tão sublimes como o museu, há
tanto a dizer de Dublin que em vez de um poema temos uma nota de rodapé. E uma
mosca desenhada num urinol faz-se homenagem fisiológica a Duchamp.
Lirismo, humor e melancolia, bem como os parêntesis e a polissemia, regressam
na segunda parte, "Chegadas". E o "aqui"
assume a forma de observações, elegias, ocasiões domésticas, reuniões de pais.
Poeta amável, J.L.B.G. está desta vez atento a desagradáveis manobras,
inimizades, infâmias. Mas tudo empalidece face aos desastres inevitáveis, como
a doença e a morte, ou às pequenas alegrias, como o vulto de um corpo nu,
escrever na cama, pedalar alegoricamente numa bicicleta estática. Após a muito
recomendável "Poesia Reunida", de 2011, Barreto
Guimarães é agora um poeta maduro de quarenta e tantos anos, "céptico
inconformado" mas conformado com o tempo (inimigo que tudo vence) e
crente em que é possível "da vida quieta / extrair vida ainda".»
MARIA RAMOS SILVA, Jornal i, 2.2.13
Você está aqui
«No Passeig de Gràcia as raparigas são mais
verdadeiras ao final do dia. As da Luz Vermelha ocupam a ala dos Velhos
Mestres, trilhada por quem dedica atenção aos interiores de Vermeer. Se é para
descascar a montra do Belo, rume a Veneza. Continue a falar de mulheres,
assunto muito menos obsceno que o "carnaval do poder"
num "simpósio de insatisfeitos" que vestem calças. Em Dublin
prepare-se para o som do blackout. A Irlanda cerrou os dentes e não desperdiça
versos. "Você está aqui". Fez check-in nas "Partidas",
desaguou nas "Chegadas", um movimento natural que se aplica às
duas partes em que se organiza o volume. A porta de embarque para o jogo de
linguagem de João Luís Barreto Guimarães não se fecha depois do
regresso a casa. Feita uma pausa nesta viagem pelo mundo, depois de em 2011 a
Quetzal ter compilado a sua obra poética em "Poesia Reunida",
há que arrumar o quotidiano, entre livros, mortes, Janeiros velozes e
bicicletas para o infinito.»
CARLOS VAZ MARQUES, TSF, 1.2.13
A marca de João Luís Barreto Guimarães
«Depois de em 2011 ter publicado a sua Poesia Reunida, João Luís Barreto Guimarães volta
aos originais com a publicação de você está aqui, numa edição da
Quetzal. Um dos poemas que pode ser visto como peça central deste volume traz o
título “Bicicleta para o infinito”. Escolhido para destaque na abertura
do livro, o poema aparece, na sua forma completa, no final do volume. Neste
poema, pressente-se a ideia de que a viagem é um lugar imóvel: "pedalo
/ pedalo / não saio do mesmo sítio." que se faz na escrita "pedalo
atrás deste manuscrito" através da observação dos outros "gosto
de os ver errar atrás de logros distintos". Mas será você
está aqui um livro de viagens? As duas partes do volume apresentam
títulos que nos remetem para um espaço dos viajantes, o aeroporto, com “Partidas”
a incluir os primeiros dezanove poemas e “Chegadas” a abranger o segundo
núcleo. Em “Partidas”, cada poema aparece associado a uma cidade
diferente, embora nem sempre elas apareçam nomeadas. Um desses casos é,
curiosamente, um não-poema, intitulado “Dublin não me deu um poema”,
composto por uma nota de rodapé (embora não seja este o primeiro livro em que
notas de rodapé sejam, de fato, poemas). O último poema deste núcleo termina
com um encontro num aeroporto (lá está) e a transição faz-se nos versos finais
do texto: " Estamos ambos de passagem. Ele / para a eternidade.
Eu para / a vida efémera." Assim entramos na segunda parte do
livro, “Chegadas”. Neste núcleo de poemas, fala-se de papéis esquecidos
em bolsos, de trabalho, da própria casa, sobretudo de um território que pode
ser a vida do próprio poeta, como sublinhado em “Verdadeiros inimigos”:
"(…) Já erro / pela cidade há demasiado tempo." Assim
é deste lado do livro que mais surge a pergunta – quem é o você em você
está aqui? O poeta? O leitor? No fundo, João Luís Barreto Guimarães demarca
um território onde afirma a sua voz, o seu grupo (nas dedicatórias dos poemas
vão-se encontrando vários poetas), a sua estética. O primeiro passo após a
reunião da poesia é um passo, seguro, na direção da consolidação do seu caminho
pessoal. Daí que você está aqui é, para além de um livro de
poesia, um documento de uma geração, sem revolução, mas com marca distintiva,
orgulhosa, mas quiçá assombrada com o lugar onde caiu: "(…) É terrível
quando cai a cor do vinho tinto / no branco puro / da toalha.»
Um ponto no mapa (ou talvez um poema) - Pequeno pseudo-ensaio vagamente descritivo da obra de João
Luís Barreto Guimarães.
«Alain, comentando Válery,
diz-nos que "todo o pensamento começa por um
poema". Lembro-me disto sempre que leio João Luís Barreto
Guimarães, ainda que um pouco ao contrário, acreditando que nele os
pensamentos acabam tornando-se poemas. Poemas como pensamentos, como um
apontamento que tiramos ao andar pela rua, ao observar. Como se estivéssemos a
ler um livro e fizéssemos uma anotação na margem, um sublinhado, João
Luís faz o mesmo com o que observa, com as mais comezinhas ocorrências
quotidianas como o trilho de óleo que o carro deixa na garagem e faz depois
prendê-las ao seu próprio pensamento, com frequência uma divagação sobre uma
memória poética, alguma coisa que leu, um quadro de viu, uma cena de um filme.
Tem sido assim em todos os seus livros, um jogo metonímico e de linguagem que
começa nas cenas quotidianas mas que nos leva muitas vezes por uma via erudita,
às vezes de menor compreensão para os menos viajados. Quando falo em viagem
digo-o, também, de forma lata aproveitando a amplitude da palavra seja a viagem
física que fazemos a outros lugares seja a viagem que os livros, a arte, enfim,
a cultura nos proporciona.
João Luís Barreto Guimarães é um poeta viajado, erudito, não se coibindo de o mostrar
naquilo que escreve, porém a fundamental ironia que anima toda a sua poesia
passa precisamente por miscigenar essa erudição com os mais banais pormenores
da nossa existência, aqui e ali salpicada também com a sua experiência como
médico, cirurgião plástico – a doente polaca que talvez leia Wislawa
Szymborska, a que procura alijar uma década da sua vida ou a que se vê
amputada de metade da sua alma e com isso livre de perigo. É, enfim, a viagem
ao nosso imo, ao pequeno e ao interior. Assim foi “A parte pelo todo” o livro que antecedeu este que agora é
dado à estampa, um livro frágil como um cristal, assombrado pela morte (do Pai)
mas límpido na forma, exorcismo de uma dor singular, a sua, que é exorcismo
colectivo, de todos quantos de nós já sofremos a perda de alguém. Assim foi,
também, em toda a obra, antes coligida já pela Quetzal, num volume de Poesia
Reunida.
Você está aqui é o reencontro com a
luz, a luz da viagem, da partida e da chegada e, sempre, a contínua observação
do que nos rodeia, imersa numa finíssima ironia, o nosso eterno retorno ao “carrossel
dos dias” enquanto aguardamos que seja a nossa mala.»
FERNANDO SOBRAL, Jornal Económico, 16.1.13
«Ao longo dos anos, João Luís Barreto Guimarães tem vindo a afirmar-se como um dos mais consistentes poetas portugueses e o seu imaginário é uma referência incontornável para quem busca referências da nossa história e cultura. Ao mesmo tempo, há, nas suas palavras uma utilização discreta mas acutilante da ironia, o que torna a sua poesia ainda mais activa. Leia-se "Heterotopia, Berlim": "Depois da terceira Pilsner frente / ao museu Pergamon / (onde a Germânia exibe / uma soberba arqueológica) rio / da tua incerteza / se o serpenteante Spree / não será ele também / (desviado) / o próprio Nilo". Viagens por lugares, cais de olhares que ecoam a memória dos povos, este livro é um encontro com o encantamento das palavras.»
«Ao longo dos anos, João Luís Barreto Guimarães tem vindo a afirmar-se como um dos mais consistentes poetas portugueses e o seu imaginário é uma referência incontornável para quem busca referências da nossa história e cultura. Ao mesmo tempo, há, nas suas palavras uma utilização discreta mas acutilante da ironia, o que torna a sua poesia ainda mais activa. Leia-se "Heterotopia, Berlim": "Depois da terceira Pilsner frente / ao museu Pergamon / (onde a Germânia exibe / uma soberba arqueológica) rio / da tua incerteza / se o serpenteante Spree / não será ele também / (desviado) / o próprio Nilo". Viagens por lugares, cais de olhares que ecoam a memória dos povos, este livro é um encontro com o encantamento das palavras.»