30 poemas
(Porto,
1991 - 1994)
1ª
edição, Limiar, Porto,
1994, esgotada
capa
de Armando Alves
colecção
«Os Olhos e a Memória» / 68
direcção
literária de Egito Gonçalves
2ª
edição, in «3 (poesia 1987-1994)», Gótica, Lisboa, 2001, fora
de mercado
3ª edição, in «Poesia Reunida», Quetzal, Lisboa, 2011, esgotada
§
JOSÉ EMÍLIO-NELSON, Jornal de Notícias,
30.12.94
«(...)
o alargamento da constrição poética ao plano da urbanidade (...)»
O
Comércio do Porto,
01.01.95
«[obra]
que [marcou] indelevelmente o panorama do escrito poético no Portugal de 94.»
JORGE LISTOPAD, Jornal de Letras, 04.01.95
«(...)
a poesia aberta, ao que é quotidiano e simultaneamente simbólico, equivalências
e trocas, apaixonada e como que indiferente, os sonetos que não o querem ser.»
MANUEL ANTÓNIO PINA, Jornal de Notícias, 10.01.95
«(...)
Em "Este Lado Para Cima"
a forma do soneto (forma sempre intranquila e instável em João Luís
Barreto Guimarães) é de novo o lugar mutante a partir do qual se constrói
uma poética cuja desenvolta coloquialidade e tom pretendidamente menor não
oculta a sua funda vocação para o rigor e para a paixão extrema da palavra, e
onde o humor, frequentemente lapidar, funciona como instrumento de distância e
de pudor. [T]rata-se, esta poesia, de uma das raras vozes
substantivamente diferentes no tantas vezes monocórdico
panorama da poesia portuguesa mais recente.»
PAULO
DA COSTA DOMINGOS, Expresso,
25.02.95
«(...)
Dos quatro cantos de uma casa, o conhecimento gera toda uma geografia, com a
sua efémera historicidade do pó sobre os móveis e dos factos quotidianos
passados a notícia sobre papel de jornal. Sol a sol, é a banalização dos
rituais humanos o que mais sentimos. Um poema que se escreve representa, para o
autor, o seu quinhão de roubo à morte. Philip Larkin -
explícita referência de Barreto Guimarães - quase não fez
outra coisa senão dar forma estética a essa derrota dos homens ante o mundo,
conformando-se. (...) A arquitectura dos versos de "Este Lado Para Cima" tenta
surpreender o leitor incauto com os truques do colapso da fluidez sintáctica.
Cascata pedregosa onde, por exemplo, a deliberada escassez de pontuação ou o
profuso uso de apartes parentéticos solicita um percurso de perícia através dos
versos, se queremos chegar à ternura, à melancolia e ao abandono vigiado dos
sentidos. [E]ste exercício, por via de uma excelente intuição da música natural
de certos núcleos frásicos, [resulta] muitas vezes feliz na agressão aos
hábitos da língua.»
RAMIRO TEIXEIRA, O Dia, 12.03.95
«Este
é o terceiro título de um poeta deveras singular. Porque, antes de mais,
forçoso é que se diga ser difícil catalogá-lo. Na verdade, João Luís
Barreto Guimarães escapa aos cânones pré-estabelecidos (...). A ver se
nos entendemos: sempre a obra poética se debateu entre a interioridade e a
exterioridade, a sonoridade e o silêncio, a entrega e o artifício, o sentimento
e a inteligência, sendo muito raros os casos em que esta se assumiu com
espectáculo. Diga-se, aliás, de passagem, que o espectáculo é de natureza
exógena à poesia, cabendo mais aos "diseurs",
aos declamadores, do que aos poetas. Em todo o caso podemos admitir excepções:
por exemplo, a "Ode Marítima" (...). E aqui retornamos ao
"espectáculo", não no que ele comporta de conteúdo circense,
mas ao que de subjacente nele existe de deliberada inovação, de mestria em
tirar efeitos inusitados, de confundir qualidades oníricas, sintácticas e até
prosódicas, com um automatismo (in)consciente, de forma a estabelecer com tais
ingredientes uma força vital capaz de alicerçar uma atitude poética (e
porventura uma intervenção personalizada no "status" literário).
(...) Abstraindo, porém, estes sinais" espectaculares" mais
visíveis, outros subsistem de não menos interesse ou curiosidade. Tais são, em
muitos dos poemas, a busca de transgressões nas intenções discursivas, através
da inclusão de elementos exógenos, (...) num claro e obsidiante esforço
qualitativo de imaginação, em circular "continuum".»
ANA MARQUES GASTÃO, Diário de Notícias,
21.11.95
«A
poesia de João Luís Barreto Guimarães desdobra-se num saber de
atmosferas outonais. Crepuscular, abre caminho a uma vocação melancólica
recheada de “desertos
e tempestades”, que têm a sua correspondência na linguagem, essa “dança
interior de palavras que conduz a um jogo dos sentidos”. [A] obra do poeta é
toda feita de pequenas alegorias de um quotidiano coloquial, porque afinal a
vida faz-se de ambiências, cheiros, ruídos, da passagem das estações. Há nesta
poesia uma presença de tempos reais, próximos, que originam um olhar, por
vezes, sombrio, por vezes, doce sobre um mundo descoberto na dialéctica
interioridade/ exterioridade. (...) Mais do que uma acumulação de impressões,
os poemas de João Luís Barreto Guimarães são espaços de uma
confidencialidade marcada pelos afectos.»
Ler/
Livros & Leitores,
Inverno 1995
«Duas
vozes da nova poesia portuguesa a que é necessário estarmos atentos: João
Luís Barreto Guimarães, com "Este
Lado Para Cima" (Limiar), e Ana Luísa Amaral (...)»
FERNANDO GUIMARÃES, Revista Limiar, 1995
«"Este Lado Para Cima", porque
essa é a posição do livro antes de se iniciar a leitura e, também, a que
habitualmente se usa relativamente a objectos frágeis. Poderíamos dizer que o
primeiro poema do livro começa aqui. E, de imediato, se aprende que há nele um
sentido de secreto humor pelo qual se alcança uma espécie de jogo com as
palavras e as situações que estas criam no poema através da coloquialidade, de
mudanças de registo - por exemplo, através do uso de parênteses -, do recurso à
interrogação, de um ocasional "nonsense". No fundo, um tom
surrealizante? Aquele que é compatível com uma escrita vigiada, conscientemente
conduzida e configurada por uma disposição que se identificaria à do soneto,
mas que aqui é constantemente subvertida. Ao mesmo tempo, faz-se sentir a
tendência para que haja uma espécie de desenvolvimento narrativo em cada poema,
desenvolvimento esse que se equilibra com aqueles momentos que representam o
que há de secreto e indizível na expressão poética (...).»
MARIA ALZIRA SEIXO, Jornal de Letras,
09.10.96
«(...)
livro de poemas de João Luís Barreto Guimarães, "Este Lado Para Cima", que me
fascinou pela mestria de composição e pela aliança simultaneamente nostálgica e
resignada da convenção com a sua transgressão. Trata-se de um conjunto
homogéneo de sonetos onde esta "casa" poética é abalada por
variações estróficas e prosódicas, pela construção sintáctica e pelas relações
lexicais, e onde a questão do "lugar" da poesia (patente
desde o título) é colocada não apenas desta maneira formal mas também pela
temática orgânica e coerente que os textos organizam, e que é a temática da
casa. Quase todos os poemas se ocupam de aspectos do quotidiano, referentes ao
interior de uma habitação: ouvir um disco, atender o telefone, arrumar
estantes, olhar pela janela, abrir a porta da rua, ir à varanda, meter-se no
ascensor, etc. E penso em como será possível interessar um jovem de hoje por
uma literatura que se prende a gestos de insignificância comum, para os
trabalhar na relação com uma perspectiva de entendimento particular, num
trabalho que vem despoletar analogias inesperadas, paralelismos enriquecedores,
conotações bizarras e, sobretudo, uma sintaxe que "cria" uma
realidade insuspeitada, um mundo específico que é de facto o da criação
poética. Iniciando-se com uma citação de Philip Larkin, (...)
encena a articulação do interior da casa com o interior anímico e com o
exterior da rua, da casa com a cidade, da casa com a viagem e com o regresso;
integra o concreto no abstracto, um "tu" indefinido na
subjectividade radical da visão descritiva, abusa, para essa integração, de
parêntesis que são como que os cantos da casa, ou do pensamento, ou do soneto,
numa espécie de fabricação de um reduto da linearidade que se evola nos
inacabamentos lógicos ou na fragmentação da frase. Assim, destrói-se o ritmo
convencional do verso e desequilibra-se a casa na cidade, desequilibrando-se
também o sujeito no seu traçado de escrita. Curiosamente, é nos sentimentos que
se refaz o lugar reencontrado onde o tempo se percebe como um enquadramento
natural (...).»
«Quantas
vezes poderá acontecer isto a um leitor? Estou numa casa que não é a minha,
numa sala com livros até ao tecto, há um gira-discos, escolho um disco e
ponho-o a rodar, uma cantora italiana dos anos 70, sento-me no cadeirão de
baloiço (e tenho um tinto na mão), aponto com o olhar a estante mais próxima, a
da poesia portuguesa. Pouso o copo, levanto-me, saco um livrinho sem escolher,
volto ao cadeirão. Abro-o. Leio o primeiro poema, que não tem título: “põe um disco a correr. a chuva não
demora / mais que o esvaziar das nuvens se te / confessasse as coisas que já
atirei ao mar / (o revólver do crime palavras numa garrafa)”. Aqui, começo a
sorrir, dou um gole no tinto, continuo: “não darei nome ao poema seria como
quem / coloca legendas aos dias e eu: sou como / água (tomando forma nos
lugares que molha) // vou repetir (para quem só agora ligou / este poema:) no
cesto de frutos da mãe / as estações do ano sucedem-se e o disco // era um
disco tão antigo tão antigo que / a certa alturantigo tão antigo que a / certa
alturantigo tão antigo que a certa / alturantigo tão antigo que”. O poema
acaba assim, riscado, e nesse momento, o disco que eu tinha posto encalha
também ele numa frase qualquer italiana. Levo o copo à boca e despejo pela
goela a vertigem. "Este Lado Para Cima" (colecção "Os
Olhos e a Memória", editora Limiar, 1994) é o terceiro livro de poemas
de João Luís Barreto Guimarães (Porto, 1967), poeta estreado
em 1989 com o volume "Há Violinos na Tribo", em edição de
autor. É este livro um objecto curioso. E escolho dizer “objecto” não só
por sugestão do título mas porque me parecem ser estes poemas matéria não só
visual mas “coisa” palpável, talvez por neles abundarem variadíssimos
referentes, materiais de uso diário (dinheiro, por exemplo), coisas e situações
reconhecíveis, comuns; mas sobretudo por se ter optado por uma aparente rigidez
formal, constante em todo o livro. São poemas de pulsão diarística, sem título,
em geral com quatro estrofes, entre quadras e tercetos, onde em cada um deles
se desenrola uma pequena narrativa, com uma lógica própria e de onde assoma
sempre um pequeno achado. Esses achados resultam muitas vezes de pequenas
subversões da lógica, ou subtis inversões da regra, que requerem por vezes
alguma atenção na leitura: o disco riscado do primeiro poema; ou, no segundo,
quando há alguém que bate a uma porta e segue-se uma sugestão absurda, a de que
a porta se defenda; num outro poema a bela imagem de “um vento jardineiro”
onde também se mede o tempo em Renaults: “três Renault é um
instante”. Aposta-se aqui numa espécie de jogo precário (de escrita e de
leitura) que cedo reconhecemos e aceitamos, e é nessa fragilidade e nesse
risco, nunca escamoteados, que assistimos, de poema para poema, ao pequeno
grande milagre da salvação (e acontece sempre) de um texto, nem que seja no
último verso, no último instante. O elemento de jogo, de um jogo por vezes de
duplos sentidos, e em que se apela depois a uma leitura lúdica, foi
rigorosamente orquestrado no tempo da escrita. É óbvio. O que não é assim tão
habitual é ser-nos dado “acompanhar” o processo, como se o autor não
tivesse pudor em deixar à vista as costuras, ou tivesse mesmo gosto em as
mostrar: “este poema tem virgulas,” ou, no único poema que tem cinco
estrofes, dizer-se na passagem da quarta para a quinta: “(não sei o que se
passou hoje / comigo nem sequer é meu costume // alongar-me tanto assim:) (…)”,
ou ainda quando se declara a falta da letra “b” no teclado e isso
impedir que se escreva “sobre o rilho dos teus olhos”. Em 1994, ano a
que foi resgatado este pequeno volume, mexia-se noutro dinheiro. João
Luís Barreto Guimarães não tinha ainda 30 anos, e, temendo que não
soubéssemos lidar com o objecto que criara, e onde foi apontando as “coisas
que não couberam no dia”, informava-nos ser "Este Lado Para Cima".
Nós, esmerando nos cuidados, púnhamos então esse lado para cima e abríamos.»
