44 poemas
(Leça
da Palmeira, Venade e Torre da Medronheira, 2012-2015)
Quetzal,
Lisboa, 2016, esgotado
capa e desenho de Rui Cartaxo Rodrigues
direcção
literária de Francisco José Viegas
Prémio
Nacional de Poesia António Ramos Rosa 2017
Semifinalista
do Prémio Oceanos 2017
§
ANTÓNIO
LOBO ANTUNES,
Expresso, 6.1.18
«É
um poeta do excelente.»
PRÉMIO
NACIONAL DE POESIA ANTÓNIO RAMOS ROSA,
Faro, 26.7.17
(Acta
do júri José Tolentino Mendonça, Nuno Júdice, Adriana
Nogueira)
«(...)
pela sua coerência temática, ligada ao tema da viagem, pela originalidade de um
universo que não se limita à discrição, mas capta, em cada apontamento, o
pormenor essencial em que a História e a cultura europeias se projectam.
Este é um livro onde o Sul aparece representado em tudo o que o Mediterrâneo
significa na nossa cultura, no qual a antiguidade greco-latina é
transportada para o presente, cruzada com a matriz judaico-cristã, um livro que
nos apresenta uma poesia que reflecte as nossas raízes culturais como
elementos vivos do nosso quotidiano. Porque o Mediterrâneo, berço da cultura
ocidental, é uma fronteira (íntima, não só geográfica) onde a poesia europeia
sempre habitou e cuja revisitação a expande.
Este
livro marcante de João Luís Barreto Guimarães celebra o
encontro da sua poética com este mundo de memórias, de correspondências e de
vozes, e vem na sequência de uma obra que se tem vindo a impor, ao longo dos
anos, em lugar de destaque na nossa poesia contemporânea (...).»
CARLOS VAZ MARQUES, O Livro do Dia, TSF, 8.4.16
JOSÉ MÁRIO SILVA, Expresso, 19.3.16
ONDE
A OLIVEIRA SE DETÉM
«No
livro anterior de João Luís Barreto Guimarães, “Você Está Aqui” (o primeiro a
surgir depois da “Poesia Reunida”, publicada em 2011), a estrutura
assentava numa dupla epígrafe de Miroslav Holub. Agora
estabelece-se igualmente um percurso entre duas epígrafes, desta vez de Predrag
Matvejevitch, autor do “Breviário Mediterrânico”. Diz a
primeira: “Não sabemos ao certo até onde vai o Mediterrâneo.” E
a segunda: “Os sábios da Antiguidade ensinavam que os confins do
Mediterrâneo se situam onde a oliveira se detém.”
As duas frases parecem contraditórias, mas não são. Porque o Mediterrâneo de que fala Matvejevitch, e que é a matéria deste livro, vai muito além da geografia. É um estado civilizacional e uma arte de viver, sem fronteiras definidas. É uma paisagem afectiva, um modo de inscrição no mundo. A cada pessoa, o seu Mediterrâneo. E JLBG mostra-nos o dele, depois de muitas viagens, derivas e observações, transfiguradas por uma arte poética de elegância elíptica.
As duas frases parecem contraditórias, mas não são. Porque o Mediterrâneo de que fala Matvejevitch, e que é a matéria deste livro, vai muito além da geografia. É um estado civilizacional e uma arte de viver, sem fronteiras definidas. É uma paisagem afectiva, um modo de inscrição no mundo. A cada pessoa, o seu Mediterrâneo. E JLBG mostra-nos o dele, depois de muitas viagens, derivas e observações, transfiguradas por uma arte poética de elegância elíptica.
O
principal instrumento do poeta é a atenção extrema ao que o rodeia. Pode ser a
múmia de um gato num museu de antiguidades egípcias em Turim, a “cúpula celeste” em Rodes, ou
o “silêncio dentro do silêncio”. Mas também podem ser coisas mais
subtis, em que pouca gente repara: nomes de amantes escritos nas folhas de um
cacto; a “dança” de um barco à vela nas vagas de Míconos; o
rasto deixado por um gesto; a pose de um imperador romano que desenhou os
confins do império mas soçobra no anverso de um denário, “afagado pela
merca”. Coisas inefáveis como a última luz na praia (“se eu não guardar
num poema esta hora atravessada / nem ela nem esta tarde alguma / vez
existirão”) ou a epifania de que é preciso estar à espera, “esse
instante indivisível (insondável / fotográfico) que / dissolve carne e tempo
numa / alegria química”.
Sobre
este canto de amor à cultura mediterrânica não paira o espectro da solenidade,
e menos ainda quaisquer sombras de grandiloquência, porque o poeta nunca se põe
em bicos de pés nem alardeia erudição. Muito ao seu jeito, desmonta essa ameaça
com o recurso ao humor, à ironia, e a um espírito lúdico, um gosto pela
brincadeira e pela experimentação. Quando se fala da presença paleolítica no
vale do Côa, por exemplo, o discurso interrompe-se porque o poeta está a beber
vinho ao mesmo tempo – um Douro (“Reserva
2009 14% vol.”) – e o torpor etílico intromete-se. Há um poema sobre uma
viagem de TGV, entre Málaga e Córdoba, apresentado como um problema de Física.
Outro, sobre Malta, está alinhado à direita em vez de à esquerda, porque por lá
se conduz à esquerda em vez de à direita (questão de simetria). Tão depressa se
fala de estátuas “a que faltam bocados”, ou de uma “ruína
em ruínas”, como de objectos banais e quotidianos: as perucas das senhoras
em quimioterapia, com direito a ida ao cabeleireiro para “se sentirem
refeitas”; ou a chávena por onde passa tanto café durante um dia que “logo
mais (tenho a certeza) não / vai conseguir adormecer”.
O
Mediterrâneo de JLBG é um território mental, que vai de
Jerusalém a Marraquexe, do deslumbramento dos “turistas pagãos” diante
da “beleza agnóstica da pedra” à consciência de que as coisas
essenciais, de alguma maneira, permanecem sempre: “Este é o mar de
Ulisses (o / que Xerxes vergastou) um mar que / não é passado / (porque o
passado é presente) onde o / tempo passa lento porque avança parado”.»
BERNARDO PINTO
DE ALMEIDA, Revista Colóquio
Letras, n.º 193, Setembro 2016
O
POEMA DAS PEQUENAS FORMAS
«Aludir
ao Mediterrâneo — como desassombradamente o fazem tanto o título quanto muitos
dos belos poemas que se juntam no último livro de João Luís Barreto
Guimarães — é, muito mais, e também muito menos, do que
simplesmente referir um conceito e um espaço, seja este geográfico,
estratégico, cultural ou económico.
Muito
mais porque, no fundo, este termo recobre todo um significado histórico e civilizacional
antiquíssimos, e muito ricos de significações e de memórias, a que os demais se
ajustam, e que se desenrolaram em torno desse mar que banha, ao mesmo tempo, o
sul da velha Europa e o norte de África. Um mar que une e desune, fere, opõe ou
concilia vários modelos de vida e pensamento, diversas religiões e formas de
agir e, bem assim, economias e modelos de organização humana e social que se
desenvolveram por mais de três milhares de anos.
Pois
o Mediterrâneo — talvez o único dos grandes mares cuja dimensão não chegou para
ser chamado oceano, e cada um tratou como um lago, mas todavia foi fonte e
elemento fundador de civilizações — tanto foi o mar de Aquiles, Hércules, Vénus ou Neptuno,
como o de Augusto e Adriano; dos Filipes como dos
Persas, do desembarque Aliado contra o império do mal Nazi, como dos trágicos
migrantes que diariamente ali se sujeitam ao naufrágio inglório, para fugir a
destinos ainda mais cruéis, que a loucura humana lhes traçou, contra toda a
decência e contra toda a bondade. Que tanto serviu a mitologia grega e romana,
como banhou cenas bíblicas, encenando muito do seu lastro histórico.
Muito
menos, porque hoje ele serve também, na confusão babélica do mundo global, de
argumento histérico à promoção turística de sentido cultural menor; ao nome de
uma dieta que ninguém realmente identifica ou, pior ainda, de pretexto vão para
umas quantas canções românticas, a bordo de frágeis barcos do amor que o tempo
imediatamente afundará no mais turvo esquecimento.
E
de tudo isso este livro (se) dá subtilmente conta, mas sem jamais pretender à
erudição, que nos permite nas entrelinhas avistar, mas que não o tolhe, sem
querer descrever lições de história, mas profundamente as acolhendo, até como
parte do seu corpo mais íntimo e secreto, e seu lastro de memória densa.
Breviário
do Mediterrâneo chamara Predrag
Matvejevitch a um belo, complexo livro,
que alude a toda esta riqueza — de que tão pouco o nosso poeta desdenha, e que jamais esquece — o que não surpreende vindo de um bósnio e que,
não por acaso, aqui aparece chamado em epígrafe, e depois de novo no final,
já a encerrar o livro, para lembrar que os
sábios antigos ensinavam “que
os confins do Mediterrâneo se situam onde a
oliveira se detém”. Abrindo, pois, os limites geográficos dessa região
mítica, à contingência leve, fortuita diria Lautréamont, da
presença incerta de uma árvore milenar que, também por isso, pode encontrar
terreno fértil em quase todo o lado, já que vem desde a orla do deserto e
depois se estende para longe, até às portas dos mares do norte, muito afastada
já de toda essa paisagem que uma luz doirada parece separar do restante mundo.
Qual
nome mágico, Mediterrâneo opera
pois, aqui, como metáfora alargada, expandida, da própria poesia, ou do espaço
de criação poética e poemática. Já que, também esse, é um espaço de confins
difusos, abrindo-se, e como já o mostrou Pound, tanto à grande
tradição das vozes do passado — dos cantos de Orpheu às litanias berberes,
da Odisseia de Homero ao cante jondo
que Lorca melhor que ninguém celebrou — quanto às formas mais
inovadoras que ainda hoje procuram aprofundar esse acto transformativo
que Julia Kristeva designou, em tempo já distante, como
da “revolução da linguagem poética”, e que inscreve todavia as
funções simbólicas que se esperam do poema desde a modernidade.
Trata-se
pois de definir o que é propriamente da ordem da invenção de um espaço
geopoético — e lembremos, muito de passagem, a insistência de Gilles
Deleuze em fazer corresponder o espaço literário mais à geografia do
que à história — e que se constitui como esse, apenas adivinhado, ou sugerido,
que se estende no tempo (histórico, cultural, civilizacional), mas também no
espaço e comporta muitas e variadas tradições, crenças, falas e
vozes actuais e arcaicas.
É
assim que se pode ler, num poema como o que ficou chamado “Ainda ontem no Pocinho”, uma alusão,
inesperada mas coerente, a essa vasta geografia que, para o Poeta, parece
chegar a estender o ‘seu’ Mediterrâneo até ao nordeste
interior, mais celta. E onde, numa toada que evoca a de uma velha canção
de Brian Eno, escreve: “E/aqui estamos (tu e eu)
nómadas/neste rio sagrado onde um primo nosso afastado/(alguns 30/mil anos)
deixou picotado em pedra/num mágico altar de xisto este/casal/de cervídeos (se
não em/pose ousada para o que deve um santuário/pelo menos dando a ideia de
estarem ali naquilo/já desde o/Paleolítico)”. Uma dupla alusão ao tempo — o
de chronos e o de kairós (aqui figurados como
o de ontem e o de há trinta mil anos) — e às suas teias múltiplas, no interior
das quais se assiste ao que descreve uma banal troca erótica, em feliz sucessão
de imagens que associam as duas instâncias, temporal e física, numa lógica do
efémero (e no entanto eterno) abraço amoroso, seja este humano ou animal. Mas
que, por produzirem esse sentido de movimento, espacio-temporal, abrem para uma
espécie de forma cinemática, que a poesia vem requerendo desde o início do
século passado com crescente urgência.
Funda-se
então nisso outro sentido do tempo, visto do lado da continuidade, e mesmo da
ancestralidade, do mundo como das espécies, que nos é mais verdadeiro e
profundo, em si mesmo, do que todo o entendimento racional. E como se,
poeticamente ao menos — e mesmo se este é, como muitos do autor, um poema filosófico — o sentido do
mundo fosse muito mais esse, afinal, do que qualquer outro. Nega-se também
assim, nele, qualquer metafísica do amor, já que tudo nos aparece reduzido,
agora, ao simples jogo antiquíssimo de um tu e de um eu,
que espelha o dos dois pobres cervídeos gravados na pedra por um primo,
antepassado, remoto. Uma imagem que descreve o mundo numa acepção de modéstia
de uma escala humaníssima, em que se rejeita de vez todo o ímpeto declamatório
de grandeza, ligado à forma clássica, e mesmo à modernista. Para que, através
desse sentido deceptivo, capaz de aeeitar a banalidade do mundo, se possa
chegar a encontrar espaço para o que é próprio do contemporâneo, essa medida
rasa do mundo que vamos aprendendo a aqui se professa.
Mas
estas “navegações” —
e o termo, que evoca uma longa tradição da poesia portuguesa, e mesmo europeia,
que vai de Camões a Pessoa, de Sophia a Sena,
ou também de Eliot a Kavafis, é também um dos
sentidos mais fortes que toma aqui essa alusão ao mar — podem ver-se como a
forma de procura de um limite geográfico que se pode deslocar até ao lugar em
que vamos visitar, pela mão do experimentado viajante, feito Ulisses,
uma improvável múmia egípcia. E que repousa, entre outras, ao menos desde Schiaparelli,
nos acervos riquíssimos do belo Museu das Antiguidades de Torino. Que nos
mostra como, “Envolta em metros de linho numa urna/de madeira/(dentro
de um sarcófago de pedra dentro/de uma tumba cerrada) uma/múmia/não torna fácil
o regresso ao corpo/da alma.”. Trata-se, na verdade, de uma subtil meditação
sobre a vida e a morte, disfarçada embora na simplicidade daquilo que o título
designa como A vida quotidiana da alma. Um poema em que, com a
ironia e distância próprias desta poética, Barreto Guimarães mostra
como, mesmo sem se atar na teia ecfrástica, o poema se pode reconstruir como
forma cinematográfica, que dialoga com essa outra fonte — bastaria recordar, em
socorro desta ideia, a comovente Viagem a Itália de Rossellini,
e a cena passada no Museu Arqueológico de Nápoles, para o evidenciar — já que
toda a imagem poética actual exige tal correspondência.
Mas
quando, em “O
esquema das coisas”, o Poeta diz: “navegamos o dia inteiro pelo
estreito/de Messina (longe de guerras antigas onde/as pedras voavam)” ou
quando adiante refere, numa breve canção mediterrânica, que “Já/tudo
vimos, tudo provámos, tudo escutámos/(odes à vitória por Píndaro/vinho e azeite
extraordinários) nas/encostas onde Zéfiro traz às velas desde oeste/um cheiro
húmido e/gelado. (…) Agora é a vez de deixar/que seja o mar a tocar-nos (o/mar
interior primitivo/o caldo primacial)/ontem rasgado por remos da Fenícia
até/Cartago…”, é de facto ao desfazer da matriz clássica, e mesmo
modernista, para sempre perdidas, que ele alude. Todos os seus poemas nos falam
afinal dessa dimensão ruinosa, em que se demonstra como o tempo actual, e mais
em geral o contemporâneo, quando abriu os olhos, foi para contemplar um mundo
em que toda a forma fora já devastada para sempre pelos ventos da ruína.
Esta “meditação sobre ruínas” — para
retomar um belo e recente título de Nuno Júdice, poeta que antecede
de uma geração a de Barreto Guimarães mas que inevitavelmente
a marcou — faz-se em torno do mais arruinado dos mares, mas também daquele que
melhor sintetiza uma imagem da grandeza passada da Europa e das suas
vicissitudes, desde a ascensão e queda dos seus impérios até á forma desfeita
dos seus sonhos e quimeras. E como poética, então, não só contém como sobretudo
exprime, no seu forro mais recôndito, uma dimensão de funda meditação política
e mesmo antropológica.
Política,
desde logo, porque nela se esboça o sentido e a procura de uma nova forma de
relação entre os homens neste mundo (que o homem ainda pode habitar como poeta,
mesmo que sem grandeza, e para evocar Holderlin), isto é neste
mundo que herdámos, e que dia após dia enfrentamos. E antropológica, porque
essas novas formas de relação e de hábito são, justamente, aquelas que servem
para acolher a identidade, doravante sempre provisória e sem grandeza, desta
qualqueridade que é própria do homem contemporâneo e a que nos vamos
rapidamente habituando. Do refugiado ao migrante, daquele que chega dos
subúrbios à senhora num coma hospitalar que, ainda assim, um qualquer sistema
de saúde há-de socorrer se não restar qualquer outra forma, mais alta, de
humanismo. Um mundo, portanto, de que desapareceu de vez o traço do heroicismo
humanista que a matriz clássica e modernista ainda autenticavam.
Nos
sucessivos poemas, o Poeta alude a um tempo que foi, e que desapareceu para sempre.
E, quando se centra sob o seu próprio tempo, ainda presente, fá-lo sempre a
partir da consciência da sua edificação sobre um tempo anterior que já não é,
que está reduzido a ruínas. Essa consciência ou sentimento montaleano do tempo, porém, é
matricial a toda a sua poética em que, como se sobre um tabuleiro de espectros
vemos surgir, a par, figuras que emergiram de sucessivos incêndios, formas que
ruíram e de que já só restam sombras, ou fantasmagóricas aparições. Essa é,
porventura, a dimensão maior desta poesia que, sem pretender fugir à memória da
sua própria tradição, brande corajosamente uma capacidade notável para lidar
com as formas desse mundo em ruínas.
Como
quando, no poema chamado “Êxtase
de Santa Teresa”, em alusão despudorada à escultura do Bernini que
se guarda em Santa Maria della Vittoria, em Roma, se permite, em desabafo quase
demasiado humano — diria Nietzsche — invejar “o tempo
que ela já leva naquilo” numa meditação desdenhosa. Ou como também, no
breve poema “Judeus errantes”, se apercebe de haver uma
continuidade, que é ao mesmo tempo paradoxalmente trágica e histórica, no
destino daqueles, e que os transporta afinal semelhantes em destino desde o
antigo Egipto, conduzidos por Moisés através do Mar Vermelho,
até à viagem para Auschwitz, agora sob o jugo do holocausto e da barbárie
moderna.
Na
sua economia irónica, estes poemas assinalam pois a emergência de uma forma
típica da contemporaneidade, que é a nossa verdadeira condição, numa visão do
mundo que se apreende erguido sobre as ruínas. Em que se acolhem tão
serenamente quanto é possível as diferenças e as descontinuidades que a
história foi gerando, e de que Auschwitz justamente se constituiu como a mais
poderosa e cruel metáfora. Sem o julgar demasiado, nem lhe procurar perdão.
E
uma vez que esse acontecimento trágico parece justamente ter destruído — graças
à violência da sua funda inumanidade — o que era a bondosa e doce herança
mediterrânica do humanismo europeu, civilizada até nos hábitos do mais humilde
povo, e diluída nos seus ancestrais costumes, e que estes poemas ainda procuram
salvar numa arqueologia afectuosa, para dar antes lugar à crispação
contemporânea, baseada no medo e na urgência.
Aquela
que para tudo encontra equivalência na linguagem exausta, prosaica, neurótica,
da finança, do poder e da usura. Um mundo no qual se desvaneceu todo o
prestígio da lírica e da épica antigas, para dar lugar a outros, porventura
mais ruidosos, menos exemplares, diante dos quais apenas podem emergir as
pequenas formas. E os poemas de pequenas formas que as dizem e repercutem. Mas,
também, um mundo onde a poesia ainda se pode reinventar sob o sal, ou sob as
areias, mesmo no meio do deserto.»
SOUSA DIAS, texto de apresentação de
"Mediterrâneo", Porto, 15.04.16
CHAMAM-LHE
EPIFANIA MAS É MUITO MAIS DO QUE ISSO
«Mediterrâneo é o nono livro de
poesia de João Luís Barreto Guimarães, depois dos sete primeiros
reeditados em Poesia Reunida (2011) e do recente Você
Está Aqui (2013). E diga-se de imediato. Não se trata apenas de mais um
livro – o que mesmo assim não seria pouco – de um dos poetas maiores da actual
literatura portuguesa. Trata-se da melhor obra do autor, culminância da sua
forma sempre mais depurada ou abreviada de expressão poética e sistemática
afirmação de uma tendência já legível no livro anterior mas que aqui transparece,
e não por acaso, logo no título. Da tendência desta poesia de instantes, de
súbitos momentos de revelação do inefável no mais irrelevante do vivido, a
extrair agora esses instantes de «alegria química» (poema «Linhas
sobre a duração») não tanto da melancólica rotina dos dias, ou de «uma
réstia de tarde por resolver» (poema «História de uma tarde»),
mas de impressões soltas de viagens, de vivências espalhadas por múltiplos
lugares de passagem, de toda uma geografia, sobretudo europeia, agora interior
a esta poesia.
Desde
o sexto livro, Rés-do-chão (2003)
que JLBG parece ter encontrado a sua forma, o seu estilo, o
seu tom original: poemas breves em que a centelha poética se acende, por magia
das palavras, de uma discursividade dir-se-ia não poética, rente à prosa,
centelha essa que transforma uma linguagem noutra linguagem, uma realidade
(prosaica) noutra realidade (poética). Cada um desses breves poemas
propõe-se como uma espécie de captura, nas palavras, da contraface inefável de
vulgares situações quotidianas, como fixação, num dizer, do indizível de um
instante «insondável / fotográfico», de um instante poético
intuído «à revelia do dia», como se diz num poema atrás citado
deste novo livro («Linhas sobre a duração»). O que se explicita com toda
a clareza num verso do outro poema já citado: «procuro o inefável na
espessura da tarde» («História de uma tarde»). Retenhamos
entretanto o adjectivo «fotográfico». Porque tal é a característica
mais manifesta, mais evidente, desta poesia: flashes poéticos homeofotográficos,
poemas escritos por analogia com os instantâneos da fotografia, e que são o
traço literário singular, a assinatura única, de JLBG. O que
significa que esta poesia, avessa a formalismos poéticos auto-suficientes, a
exuberâncias pirotécnicas da linguagem e à confusão da alquimia poética da
língua com essa pirotecnia, exibe uma pulsão realista, uma vocação congénita
para o real e, mais ainda, para o real mais comum, mais prosaico, para o raso
real quotidiano. É, repita-se, uma poesia de instantes, da brusca
transcendência poética intuitiva, só visível ou sensível para o poeta, de uma
realidade concreta ou de uma circunstância vivida banais, da parte inexplicável
ou de «mistério» (cf. poema «O telhado do
mundo») de tudo, até das coisas mais simples, da sua parte sensível mas
ininteligível. Uma poesia, em suma, como fotografia por palavras de um excesso
a si mesmo do real, como restituição pela linguagem de um suplemento enigmático
do real irrestituível, infotografável, pela fotografia propriamente
dita. Essa característica «fotográfica» insiste, poema a
poema, e até por vezes auto-enunciada, auto-reflectida, nos poemas deste livro.
Até
aqui o lado de continuidade do livro com a obra precedente do autor. Mas, por
outro lado, em Mediterrâneo os
poemas, sempre breves, sempre cristalizações de instantes na câmara escura,
necessariamente inobjectiva (intransparência do sentido), da poesia,
apresentam-se como photomatons poéticos de um poeta «turista», de
um poeta viajante, viajando por locais históricos mediterrânicos numa viagem
que o é tanto no espaço como no tempo. Os locais aqui nomeados, ruínas,
templos, igrejas, museus, peças de arte, etc., não remetem para óbvias
referências turísticas circum-mediterrâneas sem remeterem também para folhas ou
estratos do tempo. Não de um tempo qualquer, mas do tempo geneticamente e
heterogeneamente folhado, estratificado, da nossa espiritualidade europeia, do
espírito colectivo europeu. De facto o mar mediterrâneo invocado no título, e
horizonte do itinerário poético do livro, não é tão-só o mar geográfico mas o
espaço civilizacional euro-asiático e norte-africano envolvente do qual
decorre, como determinidade espiritual, aquilo a que chamamos Europa. A Europa
não como mera geografia, ou como comunidade económica e monetária, mas,
precisamente, como espírito, como a «linfa comum» dos rios
europeus, na feliz expressão do poema «As ruas estão acesas». Mediterrâneo organiza-se
aliás de uma forma menos geográfica do que geológica, estratigráfica. Há o
estrato mediterrânico pagão, mas também hebraico e islâmico, da antiguidade
clássica (partes I e II), o estrato cristão da Europa medieval e científico da
Europa moderna (parte III), o estrato contemporâneo do extravio da Europa do
seu espírito, extravio simbolizado nos campos de concentração da Alemanha nazi
(poema «Judeus errantes») e, em termos actuais, pelo Deutsche
Bank (poema «As ruas estão acesas») e pela transformação do
Mediterrâneo num cemitério de refugiados (poema «Pode ser Pepsi?»)
(parte IV). Mas não estamos a falar de um livro de história, ou de teoria, mas
de um livro de poesia. E é este o lado inovador, a original sobredeterminação
destes poemas «fotográficos»: trata-se ainda e sempre, em cada um
deles, de reter a «densidade» ou o «lume», como
aqui se diz, de certos instantes, só que agora a maioria desses instantes
epifânicos não se destaca apenas do fluxo do tempo quotidiano mas
simultaneamente do fundo de um outro tempo para lá desse tempo líquido, de um
tempo de pedra, petrificado, preservado quer nos testemunhos arquitectónicos,
artísticos, museológicos, etc., visitados pelo poeta, quer na matriz
mediterrânica, na mediterranidade abstracta, da alma europeia. É o peso da
História, da sua presença, dos seus vestígios gloriosos sobreviventes do
seu «lodo» de esquecimento (poema «O lodo da
História»), sobre o qual vem agora pousar o peso próprio do instante
presente arrancado por condensação poética da liquidez do tempo. Condensação
essa que um poema formula em versos esplêndidos: «(…) é necessário um
peso de / mágoa acumulada para / que uma gota de chuva se disponha / a ser
lágrima (…)» («Segunda parte da vida»).
Não
obstante a arrumação geológica da maioria dos poemas do livro, outros há, em
cada uma das partes, exteriores a essa geologia, à lógica dos estratos. São
ainda fotopoemas de instantes desprendidos da irrelevância dos momentos mais
quotidianos, da dissipação sem rasto desses momentos, pequenas histórias sem
História algumas das quais ao nível das melhores poesias do livro. Caso, por
exemplo, de «Em
segunda mão», do comovente poema à memória de Paulo Cunha e Silva «Aquilo
que é infinito» e, talvez o mais belo de todos, de «O gato não
quer movimento», que lembra, até pela excelência, os poemas de Manuel
António Pina sobre gatos: «Longas tardes passa o gato
espojado / a meditar (de quem é o gato o espectro / cabe ao gato / revelar). A
manhã inteira ocupado a / anular movimentos / (uma folhinha pelo chão / a
teimosia do vento) coisas / que façam barulhos ou se movam insistentes: / no seu
território / não. / Ruínas a toda a volta. Silêncio / dentro do silêncio. O /
próprio tempo parado para / dar o exemplo».
Por
outro lado, transversal à generalidade dos poemas do livro, e traço desde
sempre essencial desta poética, o humor. O sentido de humor mas, mais ainda, o
humor como sentido, produção de sentidos poéticos paradoxais. E já esta
expressão é equívoca, um verdadeiro truísmo, porquanto o sentido, em qualquer
ordem discursiva, é necessariamente paradoxo, sentido produzido contra a doxa,
contra o «sentido» aparente
das coisas ou senso comum, e a fortiori na poesia, em que se
trata de aceder a sentidos não prosaicos das coisas prosaicas, a uma «poeticidade» das
coisas como sua dimensão ontológica obscura, inexplicável, irreconhecível pela
sensibilidade profana. Formidável humor recorrente destes poemas de JLBG,
o humor, também ele, como paradoxo, revelação de um extra-sentido propriamente
poético das coisas e do vivido para lá do seu sentido banal. Mas uma revelação
que há que produzir, que condensar como atrás se afirmou, que só se revela, só
se «oferece», na medida em que a linguagem a revela, que só existe
nessa exacta medida das palavras reveladoras, ou «entre» elas
(pois que a genuína poesia consiste sempre em dizer algo que por natureza excede
o dizível, todo o poder da linguagem, e que apenas se deixa dizer nos
interstícios das palavras, como um silêncio aberto nelas ou um além delas). Não
há revelação poética sem essa prova linguística do impossível, da
impossibilidade de dizer o que todavia há que dizer e que sem esse dizer não
chegará a existir: «se eu não guardar num poema esta hora atravessada
/ nem ela nem esta tarde alguma / vez existirão» («História de uma
tarde»).
Ou
seja, não há poesia sem a consciência do conflito absolutamente aporético entre
a sensação a exprimir pela linguagem e a sua indizibilidade, entre a língua e
ela mesmo, sem o poeta, palavra a palavra, «lutar contra o poema» («Segunda
parte da vida»). Poesia, ofício de paciência na imagem de Eugénio de
Andrade, criação operária, tudo menos inspiração. «(…) chamam-lhe
epifania mas / é muito mais do que isso», nos termos do próprio JLBG num
dos poemas deste livro («Linhas sobre a duração»). Certo que, conforme o
mesmo poema, o instante da sensação poética é «uma oferta da tarde».
Mas uma oferta que acontece nas palavras, que é sobretudo o instante em que a
sensação se faz palavra, e esse fazer requer uma sensibilidade excepcional,
tanto à realidade como à linguagem, uma atenção ou expectativa «para o
caso / de» (ibidem) (desse acontecimento), uma espera mas não
passiva, uma espera activa: «é / preciso estar à espera para o poder
perceber / (esse instante provisório não se faz anunciar) / (…) / É preciso
estar à espera para o poder intuir» (ibidem). Dessa intuição, e
da sua restituição numas poucas palavras «fotográficas», da
experiência do inefável escavada na linguagem, são tecidos os mais belos textos
deste Mediterrâneo.
Um
grande poeta é, entre nós como lá fora, um ser muito mais raro do que se
pensa. JLBG mostra aqui, se dúvidas ainda houvesse, que é um
grande poeta.»
JOSÉ
DO CARMO FRANCISCO, Gazeta
das Caldas, 17.3.2017
«Desde
«Há violinos na tribo» (1989)
que João Luís Barreto Guimarães (n. 1967) tem afirmado uma
poesia com voz própria e autónoma mesmo quando intercala outras vozes no
discurso do poema. A citação de abertura (Pedrag Matvejevitch) envolve
um plural em contradição com o singular que o assina: «Não sabemos ao certo
até onde vai o Mediterrâneo». O poema «Os argonautas em Óia» parece
ser o ponto de partida deste conjunto: «Para alguns o /fim da terra é
decerto /o fim do mundo. Para outros o/ fim do mundo é/o princípio da viagem».
Mas a viagem não é o simples registo de partidas e chegadas; é a inscrição do
labor oficinal: «Chegou ao fim / a recarga da caneta que em deste / depois
de um dia de chuva a/ lutar conta o poema.»
Entre
a Natureza e a Cultura, a voz do poeta interpela Deus. Pode ser em Jerusalém («Logo à entrada da praça / do templo de
Salomão / um soldado israelita buscara em nossa posse / a arma de onde
pudéssemos extrair a / Morte ou o Mal». Ou então em Marraquexe: «do alto
do minarete do souk de Marraquexe / o chamar do muezin faz questão de relembrar
/ que Maomé é o profeta / (o Deus único é Alá) / nessa canção que o estrangeiro
não resiste / a imitar /(ignorante e feliz) num tom / «mais ou menos» / árabe».
Outras vezes o poema oscila entre a Geografia e a História. Por exemplo: «Agora
é a vez de deixar / que seja o mar a tocar-nos / (o mar interior primitivo o
caldo primacial) / ontem rasgado por remos da Fenícia até Cartago». Ou
então: «Dobram os sinos católicos para celebrar a vida – onde se ergue esta
igreja já foi / um templo pagão (usada como celeiro teatro prisão e paiol). Os
muros foram somando / lições de arquitectura (Gótico sobre Românico Barroco
sobre Renascentista) dando vida/ à língua morta com que estas paredes rezavam.»
O
quotidiano está presente; seja individual seja colectivo. Primeiro caso: «As perucas das senhoras em quimioterapia
uma / vez por semana fogem para o cabeleireiro». Segundo caso: «Na
viagem para Auschwitz a lenha alimenta o vapor. Por fim respiramos fundo. /Que
mais pode acontecer?» E afirma o poeta – «Não gosto do Mediterrâneo /
transformado em cemitério.» Por sua vez o autor da citação inicial avança no
final com uma ideia oposta: «Os sábios da Antiguidade ensinavam que os confins
do Mediterrâneo se situam onde a oliveira se detém.» Talvez porque nada
existe de mais parecido com um poema do que o azeite em repouso nas tarefas dum
lagar.»
