RUA TRINTA E UM DE FEVEREIRO


31 poemas
(Porto, 1989 - 1991)

1ª edição, Limiar, Porto, 1991, esgotada
capa de Armando Alves, a partir de desenho de Albuquerque Mendes
colecção «Os Olhos e a Memória» / 56
direcção literária de Egito Gonçalves

2ª edição, in «3 (poesia 1987-1994)», Gótica, Lisboa, 2001, fora de mercado

3ª edição, in «Poesia Reunida», Quetzal, Lisboa, 2011, esgotada


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Jornal de Letras, 09.07.91
«João Luís Barreto Guimarães é uma das mais interessantes revelações poéticas recentes. Publicou o livro de estreia em 1989, em edição de autor, e desde cedo foi notada pela crítica a qualidade e a novidade da sua escrita, dois aspectos que este livro confirma plenamente. (...) Pelo modo como reinventa a linguagem do quotidiano e pela forma como constrói e desconstrói os metros tradicionais merece uma leitura cada vez mais atenta e interessada. "Rua Trinta e Um de Fevereiro" é uma das surpresas poéticas deste ano, com a chancela de qualidade da Limiar.»


JOSÉ JORGE LETRIAJornal de Letras, 20.08.91
«Quando publicou em edição de autor, há uns dois anos, uma discreta colectânea poética intitulada "Há Violinos na Tribo", houve poetas e críticos que rapidamente se deram conta da "novidade" que havia naquela escrita: era o acasalamento do clássico com o moderno, a presença da ironia e o recurso à metrificação do soneto para dizer coisas diferentes e arejadas. Tinha-se logo, ao lê-lo, a noção de não se estar em presença de uma escrita epigonal e tutelada. Daí a surpresa e o relativo consenso. Agora acaba de publicar "Rua Trinta e Um de Fevereiro", com a chancela da Limiar, que confirma as qualidades e sobretudo a novidade que caracterizavam o livro de estreia.»


RAMIRO TEIXEIRAO Primeiro de Janeiro, 26.08.91
«Não é esta a primeira vez que me ocupo da produção do autor. De facto, em Abril de 90, tive ocasião de referenciar o seu livro de estreia "Há Violinos na Tribo" o qual me suscitou impressões desencontradas, por via da exploração de cambiantes opostos, desde a coloquialidade ao enfeite hermeutico, do classicismo ao modernismo, da afirmativa à inquirição, da particularidade à universalidade, enfim, um conjunto anacrónico de modulações textuais, assim como o deambular sonoro de um instrumento musical. Todavia, desde logo, adquiri uma certeza: a de que João Luís Barreto Guimarães haverá de ser um grande poeta se, porventura encontrar o seu caminho. É que, quanto a mim, se debate ele entre dois percursos: o da intelectualidade e o do sentimento. Digo, intelectualidade, porque, visivelmente, se colhe na produção do autor o rasto de uma formação superior, que lhe advém não só da sua condição de finalista de medicina e de praticante musical, como do óbvio interesse e conhecimento que manifesta pela literatura em geral; digo, sentimento, porque entre o artefacto e a conceptualidade formal dos seus poemas de raiz moderna, nomeadamente de PessoaSena e algum O'Neill, ainda que em modelações de (discutível) originalidade, se vislumbre para lá da fria estrutura mecanicista ditada por assomos intelectuais de afirmação pessoal, o temperado pulsar cadenciado do coração que os motiva. Quero dizer: o poeta é simultaneamente um "Sebastião rapaz", mito duplo, saudoso de si próprio, no sentido em que se lança à conquista de ser, do advir poético, quanto um acutilante crítico emocional do seu mundo, presente e futuro. Qualquer destes caminhos é nobre e promissor - e sublime será acaso sejam fundidos, plasmados harmonicamente. Entretanto, prossegue o autor nesta pesquisa, pelo que não existem diferenças de vulto relativamente ao título anterior, subvertendo a linearidade do discurso com efeitos de vanguarda, sejam os da quebra das unidades sintagmáticas ou os da composição hermenêutica (logo visível no título), por entre um ou outro achado formal de relativo interesse (...). Voltando atrás, quer-me parecer que a posição de João Luís Barreto Guimarães se filia, talvez inconscientemente, na investigação do fenómeno poético na esteira de Croce, dando à intuição o sentido de "unidade não diferenciada da percepção do real e da simples imagem do possível", o que equivale a dizer que busca a identidade da poesia no confronto com a prosa - porque se "a poesia é a linguagem do sentimento, assim como a prosa é a linguagem da inteligência", não menos certo é que, à inteligência, em sua concreção e realidade, cabe também o sentimento, donde resulta que toda a prosa tem como pressuposto um aspecto poético. Daqui, a alternância, por vezes agressiva, entre uma linguagem de estrutura poética, diversa da que dá expressão à prosa, e a intrusão de recursos que cabem à última, como os da coloquialidade entre parêntesis, modo peculiar de estabelecer um tom confessional com o leitor, e cuja raiz é a de estabelecer a sintonia não pela via da emotividade, mas pelo raciocínio, ironia e crítica. Assim se explica que os poemas deste título, tal como os do anterior, se revelem simultaneamente narrativos, especulativos e reflexivos, tanto quanto experimentais, lineares hermenêuticos, tudo em forcejada união de ritmos e massas sonoras - justamente os da poesia e os da prosa ou os do sentimento e da inteligência.»


MARIA ESTELA GUEDESDiário de Notícias, 08.09.91
«(...) eu gostei do livro, mesmo bastante. Dá vontade de rir, tem achados engraçados, revi-me neles. Como já o título aliás, deixava perceber. A poesia de pessoas de outra idade, enfim, é mais idónea. Pois, geralmente, é uma grande maçadoria, quem acreditaria em mim se dissesse o contrário? Qualquer efeito de surpresa parece arrancado a ferros, do fundo do poço de um enorme calculismo. Falta-lhe o sal, a garotice, o espírito dos 24 anos. Volto ao soneto, já que o livro é uma colectânea de 31 (...): a forma, esta ou outra, é indispensável ao poeta como apólice de seguro, um texto precisa de uma arquitectura para não se desfazer em pó. Algo que agarre as palavras e não as deixe à deriva. Mas essa arquitectura, para ser de facto um seguro de vida, tem de ser interna, mais poderosa que um arranjo visual (no caso vertente, o que sobra do soneto é só isso). (...) O que me parece é que no soneto, o João Luís só procura um lugar seguro de onde possa falar, uma casa, e nada demais tranquilizador nesse aspecto do que a estabilidade de uma forma fixa. Mas isto é ilusório, visto que essa estabilidade é só aparência, casa de papel caiada por fora. Por isso, ele não consegue encostar-se às paredes sem as derrubar. (...) E de que falam os poemas? Por outras palavras, e naturalmente de outra maneira, [do] estado de luto do nosso tempo. É um livro de procura, o poeta ainda não sabe para onde vai, sabe é dos obstáculos que se levantam quando tenta encontrar pontos de referência que lhe permitam compreender o mundo, e estabelecer-se nele com segurança. Procura e não encontra, ou dá de caras com o vazio. Os valores, os novos pontos de referência, terão de ser criados ainda, os antigos andam com a cotação de rastos. Ele já o sabe, por isso ri-se. Ao menos, o riso é salutar e criador. A saída poética mais vulgar para a crise costuma ser a depressão. E como se ri ele? Dando atenção a minudências no meio de um discurso vagamente enlutado - "sabias que a sangria desceu para cem / desde que o piano preto tem o ré bemol desafinado?" E o que me faz rir a mim? Por exemplo, as dedicatórias - "ao Tocas", "à Noy" - sumidas ao fundo da página, já não é homenagem às sumidades mas sim a cúmplices da sua idade. Jogos privados, malfeitorias de adolescente - "prender / molas à cauda do gato tocar campainhas fugir / rua fora" -, as contas deitadas à despesa pelo gato que fugiu (...). Mas há mais, vejamos: as mensagens secretas, em código, com as vogais substituídas por números. (...) Sem esquecer os recadinhos, as pedrinhas atiradas à janela, as declarações de amor - "estava capaz de te dar um beijo em // hebraico" -, os jogos de linguagem - "eu calipto tu lipas ele fante" (...). Qualquer poeta razoável é capaz de "molhar de outubro / as temperaturas de dentro". Bela imagem de melancolia. Mas raros nos garantem, como o João Luís, que a depressão e a crise geram verduras, que a Primavera pode pintar por aí.»


JOSÉ DO CARMO FRANCISCOSol XXI, Junho 1992
«Ao escolher o título o poeta deu logo um sinal ao leitor: a rua é o livro onde moram 31 poemas mas não há nenhum calendário para "este" Fevereiro. Esta rua não existe a não ser na poesia. Não existe na verdade práctica, nos mapas da cidade, nos correios. Porque é de outro tipo a comunicação produzida pelo autor. Partindo da circunstância do lugar ("um momento: é este o único eléctrico para a Foz?") e da história ("sabemos das batalhas uns dos / outros") o livro funciona como um roteiro pessoal. Do tempo actual ("o fim de século está na ferrugem dos arados") ao valor da amizade ("ao segundo / sinal sempre serão as horas que tu quiseres"); do lugar da vida ("estivemos longos invernos / sem reparar o frio das nossas casas") à interrogação da morte ("onde a vantagem da morte?"). E, ligando todos os lados do livro, todos os 31 poemas, a força inventiva, o tom falsamente simples de quem sabe e pode garantir "a procura / é parte integrante do poema não pode ser / vendida separadamente". A confirmação plena do livro de estreia ("Há Violinos na Tribo") e a prova de que não erraram críticos tão diversos como Al Berto e Francisco José ViegasPedro Tamen e Albano Martins ao saudarem em João Luís Barreto Guimarães uma verdadeira revelação.»


FERNANDA BOTELHOColóquio/Letras, Abril-Setembro 1994
«Volto a escrever sobre um jovem poeta, João Luís Barreto Guimarães, de quem já apreciei uma outra obra, "Há Violinos na Tribo". Salientei então a convergência no poeta de uma ortodoxia formal e de uma inspiração libérrima, conjugadas, senão de uma maneira ideal, pelo menos com alguma hipótese de indiscutível aceitabilidade estética. No seu novo livro de poemas, "Rua Trinta e Um de Fevereiro", título a um tempo histórico e toponimicamente distorcido, João Luís Barreto Guimarães rea(con)firma-se na mesma ambiguidade (no melhor sentido da palavra), inovando (em catorze versos) a vários níveis, formal, sintático, ideológico, visual, a partir de um impressionismo reflexivo e de uma sensibilidade metafórica não muito comuns. Os catorze versos da convenção literária foram "revolucionados", "revisitados", como se Cristo (ou Marx) tivesse passado por eles. Já o soneto não é o que era, mesmo se continua a ser, disciplinadamente, constituído por duas quadras e dois tercetos (a ordem dos factores é arbitrária). É o soneto do nosso (des)contentamento, é isto "de usar / os dedos para brincar palavras com sábios cubos de / letras"... Será a poesia de João Luís Barreto Guimarães uma tentativa de reduzir a poesia a uma burocracia do quotidiano ou, pelo contrário, reconduzir o esquema dos dias iguais a uma possível lira do tempo vivido e a viver? Tentativa de reconverter a poesia, tanto quanto de a perverter? Mas é indiscutível que este poeta a "reperconverte". Leitura estimulante, esta: "eis que tudo // quanto é sonho se torna real tudo quanto é / temporal ocorre agora dissipando eventuais / porquês perante a real forma das coisas".»