HÁ VIOLINOS NA TRIBO

(actualizado)
28 poemas
(Porto, 1987 - 1989)

1ª edição, do autor, Porto, 1989, esgotada
posfácio de Arnaldo Saraiva
capa de Armanda Passos a partir do s/ óleo «Aprendizagem»
retrato do autor por Helena Abreu

2ª edição, in «3 (poesia 1987-1994)», Gótica, Lisboa, 2001, fora de mercado

3ª edição, in «Poesia Reunida», Quetzal, Lisboa, 2011
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§


cheguei há pouco do amor (cidade de gaivotas loucas e
luzes cegas). não concordas? eu sei bem sei: vês as coisas
como falésias altas e impossíveis como ameias. cheguei há
pouco do amor e trago comigo esse discurso aprendiz:

o idealismo. desculpe: o que pensa destas palavras dos
começos desse caminho as dóceis letras da promessa?
perdão perdão: há que passar para o outro lado (um

parâmetro de cada vez). se bem me lembro em pequeno
as cigarras podiam ser domesticadas e cada adeus
era um veneno. obrigado obrigado: também me pareceu

ser essa a sua opinião. cheguei há pouco do amor e
vejo as certezas do mundo como uma ilusão. receio pelo
eterno procuro a fantasia mas: é sempre no ventre
dessas gaivotas que se dão os primeiros beijos



§


podia um dia ter escrito o poema da não existência
de uma fronteira fluida para lá da textura própria
das casas mas há marés mais altas passando perto do
tempo e escuta: eu nunca vi sequer um gato a nadar

não sei que idade tem Portugal não conheço ainda os
sítios geográficos da paixão não vi mais do que uma
exposição de Armanda Passos: muito desconheço portanto

(é natural que como eu ele recuse a partida: ontem
conheceu Sofia hoje experimentará
lasagna ao jantar
amanhã aprenderá a contar até dez em alemão)

esquece tu também um a um os atalhos da passagem para
o outro lado: o terramoto de Lisboa foi em 1700 e
qualquer coisa e tu estás aí e não me fazes nada não
me abraças não me beijas não sorris então? espero



§


Porto três de agosto etc.: telefonei-te hoje Francisco
Miguel. era para a magia e o amendoim (ganho bem
posso dar-me a esses luxos) não estavas. voltarás?
algo assim como o sol tinha-te levado para outra rua

aprendi figuras de estilo: melhorei a minha poesia.
mesmo esta outra força que trago agora comigo já não
é apenas minha (ela estuda latim e outros momentos
da vida cismou que não vai ler Saramago: imagina)

converteste-te ao budismo (conta-me agora Sofia)
meu caro: nasci ontem neste círculo de vidas ainda
não fez uma hora já aprendi a matar neste mundo

rimo-nos destes breves momentos de ilusão deste
azul suave deste verde brando mas vamos passando os
dias a sonhar (até ver) rimo-nos até ver até ver



§


apetece por vezes com os dias morrer por um pequeno
instante e deixar os fogos soltos na areia: acrescentar
água à face e perturbar os sentidos em busca da única
luz ou então sentar os movimentos e escrever a uma

amiga. dizer assim como quem fala: que espécie rara
de deus é o teu? a vida é ficar abraçado às dunas
apenas se há dois braços de areia por quem sonhar.

vir então aos poucos contando os mastros do verão
cumprindo o desejo das cartas de mar e assim
mesmo confundir todos os relógios da rota só
para ter mais tempo para ficar. o resto é saber o

alfabeto de cor até ao fim até que as palavras vão
nascendo devagar para ser: sonho no sono dos dias
ou ser sono dentro de mim



§


como começa este poema? algum agosto tem de ter
e rostos e verde mesmo um ou outro mistério
(um segredo). traz: magia ritual o cheiro das
pequenas descobertas vinho sorrisos coisas dessas

depois o tempo dos verbos: um rio de águas lestas

play rewind fast forward pause record stop eject
canaviais selvagens mulheres bonitas de quem

gostar dois ou três juncos junto à boca e os
amigos: sempre espalhados entre as plantas
silvestres e a poesia soltando risos muitos risos
gestos ou falas: coisas que o coração traz

mesmo os rapazes já trazem os olhos nas pernas das
raparigas que aprendem a dizer desejo com as letras
com que se escreve o amor: um
s um o e um l



§


sempre temos alguma coisa a aprender uns dos outros:
posso começar? o vento está sempre ao serviço de Deus
e morrer hoje em dia já não é tão mau como isso. é
verão creio que está calor: gostamos de ficar assim

conversando à porta do número catorze acerca dos mil
(e um) truques das mulheres (muito haveria a dizer acerca
dos truques das mulheres) da velocidade das chuvas
da nomenclatura do amor os cheiros que o tabaco traz

as imagens as infidelidades as intenções etc.: tudo.
há quem diga: em agosto o canto dos lábios fica
mais solto (diz-se: perde-se em falas facilmente)

mas por aqui já não há quem acredite em ilhas desertas.
um dia passa chega outro depois outro e sempre temos
alguma coisa a saber uns dos outros: alguma coisa



§


éramos animais em extinção corpos de muitas razões cada um:
sua liberdade (objectos vivos: objectivos) ficávamos a
inventar um deus nos químicos lamentos quotidianos

não te dizia eu: o que é o vento frio? sobre o que falam eles?
hoje não sei onde terminam meus olhos (se no fundo do
meu corpo se no horizonte atrás de ti). nunca ninguém nos

explicou direito o que foi a guerra e nesses momentos de
batalha na poeira da rua (quase quotidiano) conversas no
muro da auto-estrada (apenas ilusão) nunca entrei em linha
de conta com o sofrimento dos outros. éramos pouco agora

sabemos (das coisas): princípio da luz = experiência + saber.
de qualquer modo não recordo muito bem todas as coisas
que dissemos sei que jogávamos verdades & consequências
por turnos nas traseiras do prédio cinzento: éramos o mundo



§


sabes? minha amiga: esta vida é como um barco
a boiar (tem o seu quê de técnica). como? não
apanhaste a ideia? finges (penso) apenas finges.
e há quem diga: estas águas são o atlântico.

põe outra moeda por favor (temos de terminar
este assunto:) hoje a tua madrugada acordou sem
galos? parece-me: trazes a vida sem mistérios.

soube que tens dormido demais mas (cuidado:) não
descures opções pareceres diferenças disposições.
sabias que o homem da portagem me pediu duzentos
escudos e uma flor? bonitos esses momentos ou

âncoras de ternura: de querer ficar. quanto a mim
sou feliz algo sei da vida. um dia hei-de terminar
as coisas que fui deixando sem



§


ARNALDO SARAIVA, posfácio a «Há Violinos na Tribo», Novembro 1989
«No livro do João Luís Barreto Guimarães agradou-me a atenção ao quotidiano e ao efémero, que convive com discretos apelos ao eterno; agradou-me a modulação coloquial e o fôlego versificatório, sabiamente pontuado, sobretudo por parênteses; agradou-me a permanência de uma estrutura poemática clássica, no entanto submetida a flutuações ou variações que sugerem a do curso dos dias; agradou-me a escrita alusiva, sintética, sincopada e elíptica (...); e agradou-me a atitude dominante do poeta na sua relação dialogante com as coisas, os homens (e as mulheres).»


JOSÉ F. GUIMARÃES, O Primeiro de Janeiro, 14.11.89
«Este jovem poeta, que publicou recentemente "Há Violinos na Tribo", tinha-nos já surpreendido pela qualidade dos poemas publicados nos cadernos de poesia "Hífen" - e, tanto quanto nos lembramos, repescados para este livro. Quanto ao seu livro de estreia poética há aspectos a ter em linha de conta. Por exemplo: os poemas de Barreto Guimarães vivem de uma contraposição – instalada no corpo íntimo de cada texto – entre o lado, passe a expressão, mais depuradamente poético (o conjunto de imagens que de imediato associamos a arte poética) e um tom marcadamente coloquial com ancoragem no quotidiano (sejam lugares ou moradas, conhecidos ou desconhecidos, amigos ou amores, casas ou as suas memórias). (...) "Há Violinos na Tribo" é um livro a ler atentamente – uma boa estreia, afinal.»


O Comércio do Porto, 22.11.89
«"Há Violinos na Tribo
", escrito por um jovem estudante de medicina, é um livro de poesia que se destaca do amontoado de vulgaridades que costuma ter frequente edição entre nós. O seu autor chama-se João Luís Barreto Guimarães, nome que, em breve, será presença na literatura portuguesa tal como o foram as revelações de Paulo Teixeira e Francisco [José] Viegas. (...) Trata-se de uma inesperada revelação poética (...).»


Diário de Lisboa, 22.11.89
«Um tom confessional que facilmente entra em nós (...). São vinte e oito poemas, quase todos já com aquele saber que não se aprende em nenhuma escola – e que vem ao poeta de uma "experiência" que a Ciência não sabe determinar de maneira nenhuma. Estética, enfim. (...)»


Jornal de Letras, 19.12.89
«Construiu o seu livro de estreia como quem constrói um LP, com dois lados e várias pistas. (...) Logo numa primeira leitura se nos impõe a frescura e a originalidade desta escrita que encontra o ritmo e a respiração no falar quotidiano, na sedução do efémero, na coloquialidade das pequenas coisas ditas para não fazerem história. Há, numa página ou noutra, verdadeiros achados formais, sobretudo quando o registo da escrita poética se enlaça com o da prosa fluente, limpa, capaz de gerar a cumplicidade do leitor. (...) João Luís Barreto Guimarães sai desta estreia com nota alta e distinção. E promete voltar, com apuro e maturidade ainda mais vincados, para o "mestrado" que o ofício da escrita já começou a exigir-lhe.»


JOSÉ DO CARMO FRANCISCO, Tempo, 18.01.90
«Neste ofício de ler (por escrito e por extenso) os livros dos novos (e dos de sempre...) há (por vezes) a satisfação de encontrar uma voz poética que nos anuncia uma original e individual maneira de escrever. Todos sabemos que não há rupturas totais com o passado literário. Querer fazer uma poesia nova, começar tudo do princípio, é uma impossibilidade, não se pode fazer. Em "Há Violinos na Tribo" de João Luís Barreto Guimarães há referências e citações (João Miguel Fernandes Jorge, Francisco José Viegas) mas o ponto original é o fio do discurso, o tom da própria voz (...)»


RAMIRO TEIXEIRA, Jornal de Notícias, 10.04.90
«(...) visivelmente, se identifica uma atitude de "modernidade", que antes de ser de raiz estética é, ao invés, de postura afirmativa, ou seja, de afirmação de ser. Desta forma, se nos depara uma expressão poética que possui tanto de protocolar quanto de subversão. [N]a estrutura vocabular destes poemas, identifica[-se] uma espécie de código ritualista, que recusa os convencionalismos tradicionais, em benefício de uma espécie de existência concentracionária, de exploração em grupo. Aliás, neste contexto, é simbolicamente referente o vocábulo final do título escolhido (Tribo), o qual nos remete para esta dualidade do discurso. Ela se manifesta a vários níveis, ocorrendo tanto na subdivisão do conjunto dos poemas, que se apelida "Lado Um ou Manual do Engano" e "Face B ou As Pistas", como na própria estrutura vocabular, caracterizada pela modulação coloquial, por abundantes parênteses e pela inquirição. Ora, é justamente pela tipologia destas falas, que são por natureza dialogantes, que nos apercebemos da necessidade que o autor manifesta em comunicar com um destinatário, que pretende confidente, afirmando-se, simultaneamente, em posse, ou seja, conhecimento e disputa. Que posse é a sua? Presumivelmente, a que lhe advém da pesquisa em grupo – da Tribo? Desta forma, se vislumbra, neste livro de poemas, uma dualidade quanto ao destinatário, pois tanto é ele dirigido a um agente ledor de natureza particular, confidente privilegiado que domina o código da transmissão, quanto a um outro de maior universalidade. A extrema juventude do poeta, obstando embora à perfeita simbiose do discurso poético motivado por estes dois tipos de destinatários, não o ausenta, todavia, do sagaz conhecimento, da atitude dominante essencial sobre o que produz, enfim, de uma estrutura inquiridora clássica, ainda que a pretenda submetida a uma tentativa de subversão ditada pelo desejo de "modernidade
" (...). Muitos são os caminhos para a perfeição, João Luís Barreto Guimarães persegue o seu, debatendo-se entre o particular e o universal, o efémero e o eterno.»


FRANCISCO JOSÉ VIEGAS, Ler/Livros & Leitores, Primavera 1990
«As coisas vêm de onde não sabíamos que podiam vir e é cada vez mais raro descobrir, de entre todas as vozes que iniciam a publicação, no domínio da poesia, um sinal que seja marcado por uma promessa. Neste caso, no caso de "Há Violinos na Tribo", esse sinal chega como o da sua respiração. Não custam a ler, estes poemas, nem custam a perceber, as suas referências, embora não existam respostas para as interrogações aqui colocadas (...). A prática do soneto (livre, chamemos-lhe assim) atinge neste livro um alto momento de procura de perfeição clássica, a que não é estranha a presença, quase permanente, de uma vontade pura de começos, de um paraíso que se visitou e se quer revisitar: um lugar onde a dança de deus e das palavras se associe. Poesia com a marca de uma religiosidade intensa e feliz. É raro, isto: a poesia portuguesa (dos seus "clássicos" contemporâneos) perdeu há alguns anos o gosto pela melancolia e tornou-se objecto de si mesma, das suas multiplicações e desmultiplicações; ou, se descobriu o rosto da melancolia, de tanto estar cega que o confundiu com o da tristeza sem regresso. João Luís Barreto Guimarães encontra nisso uma alegria que nos é comunicada em versos suaves, em palavras que não persegue nem teme - ninguém morre em nome das palavras ou em nome da literatura (...). Notável poesia esta que nos chega em silêncio, surpreendendo-nos.»


JORGE LISTOPAD, Diário de Lisboa, 17.05.90
«(...) assaz surpreendente livro de versos, "Há Violinos na Tribo", do jovem João Luís Barreto Guimarães, editado no Porto. Há muito que me apeteceu chamar a atenção para esse... "outsider" da comunicação (...).»


FERNANDA BOTELHO, Colóquio/Letras, Maio-Agosto 1990
«O jovem poeta do livro "Há Violinos na Tribo", João Luís Barreto Guimarães, confere-me uma certa insegurança crítica, que me advém, ao que suponho, da ambiguidade da sua poesia, entre o subjectivo aleatório, por vezes não imediatamente apreensível, e uma objectividade que logo nos transporta para um concreto bem perspectível; entre a construção elaborada do poema e uma (pretensa?) espontaneidade formal; entre uma autenticidade sensível e o artificioso recurso a uma reformulação do poema, de modo a que fique lavrada e consagrada a modernidade do poeta. (...) Estes "violinos na tribo" proporcionam-nos poemas, todos eles, de catorze versos, o que revela, no Autor, a uniformidade do fôlego inspiratório e a capacidade intelectual de reduzir a uma fórmula rigorosa e dominada, as configurações da sua dispersão íntima e do seu lirismo fugaz.»


FRANCISCO MARTINS, Letras & Letras, 02.01.91
«Encontrar um desses autores é sempre um prazer para o leitor-apreciador ou o leitor-crítico. E foi o que me aconteceu quando me veio parar às mãos o livro "há violinos na tribo" (até agora o único) de João Luís Barreto Guimarães, publicado em 1989, no Porto. Naturalmente que estas breves linhas são condicionadas pelo efeito de uma primeira leitura, fomentadora de "ideias" impressivas. Todavia pelas invariantes formais, estilísticas, discursivas, lexicais, temáticas (...), pode-se desde já adiantar que estamos em contacto com uma feliz estreia – fundamentalmente pelo que há de moderno no processo desta escrita poética – e com um autor que muito pode vir a fazer no domínio da Poesia. (...) Fazer [d]o devir quotidiano o cenário temático por onde vão surgindo as mais variadas associações lexicais e semânticas; enunciar um discurso coloquizante dentro de um clima quase sempre metonímico e simbólico (mesmo dando-nos a sensação de o autor perder de vista o real empírico; interrogar os limites (?) do ser, da amizade, do amor, da percepção do tempo, da codificação dos saberes por entre o gesto humano mais simples e a sua sede de duração; enfim, conjugar vários planos da visão das coisas (onde, convenhamos, parecem emergir imagens algo barrocas), - fazer isto (e não é tudo) dentro de um modelo como o do soneto (embora o discurso se expanda em versos longos e brancos), creio ser a aposta deste livro. Se a originalidade e qualidade dos sons destes "violinos" são para ser aprofundados e cultivados, os tempos do tocador e o das leituras posteriores da "tribo" o dirão.»