ESTE LADO PARA CIMA

(actualizado)30 poemas
(Porto, 1991 - 1994)

1ª edição, Limiar, Porto, 1994, esgotada
capa de Armando Alves
colecção «Os Olhos e a Memória» / 68
direcção literária de Egito Gonçalves

2ª edição, in «3 (poesia 1987-1994)», Gótica, Lisboa, 2001, fora de mercado

3ª edição, in «Poesia Reunida», Quetzal, Lisboa, 2011
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§


põe um disco a correr. a chuva não demora
mais do que o esvaziar das nuvens se te
confessasse as coisas que já atirei ao mar
(o revólver do crime palavras numa garrafa)

não darei nome ao poema seria como quem
coloca legendas aos dias e eu: sou como
água (tomando forma nos lugares que molha)

vou repetir (para quem só agora ligou
este poema:) no cesto de frutos da mãe
as estações do ano sucedem-se e o disco

era um disco tão antigo tão antigo que
a certa alturantigo tão antigo que a
certa alturantigo tão antigo que a certa
alturantigo tão antigo qu


§


estão a bater à porta. de cada lado da
fechadura algo acontece (e como apetece:
um olhar). é assim uma casa: começa

quando o dia se extingue (cedo se enche
de corpos que se esvaziam do dia) como
uma fonte nunca cessa de entornar seu
nascimento. escuta: estão a bater à porta

são esses os alicerces de uma casa (a
mão da mãe? o pé do pai?) uma casa não se
ergue pelo lugar da porta mas pelo que

em cada transpõe essa ferida (essa fácil
abertura). o fim de tarde escorre (os
pátios ardem de luz) ouves agora?: estão
a bater à porta. que se defenda


§


passou um autocarro (não vi para onde
ia) dois miúdos disputavam o lugar à
janela os estrangeiros já chegaram

aos oásis da cidade andam a deitar
cimento no velho campo da avenida
onde pastavam cavalos sob um vento
jardineiro. o néon das lojas flutua

sob a chuva que ameaça (rodas
soluçam de fumo no calor das luzes
quentes) ficamos a ver os trabalhos
junto ao jipe abandonado (FT-1?-27)

quando dizes tens de ir (só ficas
mais três Renault) não meças o tempo
assim: três Renault é um instante


§


os homens de hoje são engraçados dizem
«o vento é Deus a respirar» enquanto mudam
a fralda ao mais novo. meus amigos não
fogem à regra um a um pousam o jogo e

saem para a capela (despedem-se de mim
como sombras roubando luz à parede) quase
os consigo imaginar voltando atrás outra
vez para ver se ela realmente tinha fechado

o portão. sobre a mesa estão suas cartas
voltadas (longa pausa nesse jogo que nunca
chego a recolher) um a um regressarão

jurando fidelidade (aro doirado no dedo
cigarro nos lábios em brasa) olhos na voz
do relógio para não chegar tarde a casa


§


ao portão de casa conversamos as coisas
que não couberam no dia guardamos as
mãos ilimitadas no rascunho do adeus.

se as luzes estão acesas há mosquitos
no calor alguma coisa ficou mordendo a
pele das ruas (cicatrizes no cimento dos
passeios corações de árvore a canivete)

corri a ler o teu recado a giz no muro
da avenida mas a chuva chegou primeiro.
a nuvem dá-nos este tempo (vamos dar
um tempo à nuvem:) ao portão de casa

existe nos beijos aquela pressa de um
dia não nos ficarmos pelos lábios e
eu entrar


§


este poema foi escrito ontem hoje não
vou escrever (na face nego sorrisos como
quem fecha janelas) hoje só preciso de

mim (este poema é grátis: não está
incluído no preço do livro). hoje
não tocarei o corpo da Corona Four

uma azerty americana já com uma certa
idade (ainda é das que escreve poesia a
preto e   ranco) faz um mês que se perdeu
a tecla da letra «  » só por isso não

tenho escrito sobre o   rilho dos teus
olhos. o meu copo está vazio (hoje
não é poedia) depois eu mando alguém
  uscar as minhas palavras


§


a minha cama de solteiro é estreita
demais para os nossos dois orgulhos.
os vizinhos escuto: estão deitados sob
a noite (janela do quarto entreaberta)

espalham vozes até um dos dois se
esgotar (ou espremer os passos do dia)
ou até algum discordar do que o
outro falou e presumo: se voltar

adormecendo com a luz. na minha cama
de solteiro sou só eu e a preguiça
(um pijama mal dobrado) receio seja

estreita demais para os nossos dois
orgulhos. um dia que escolha alguém
hei-de aumentar a minha cama


§


rodo a torneira da esquerda num curto
gesto aprendido aguardo de dedo em
riste que o molhe: água vermelha.

o f(r)io jorra seu frémito com quanta
força a prendeu (vai fugindo pelo ralo
em liberdade condicionada) não consigo
imaginar quantos corpos já tocou o meu

pedaço de água. espalho espuma pela
face (descubro a face sob a espuma)
a lâmina deixa cair na cor da louça
de banho os meus dois últimos dias.

às vezes queria que a água lavasse a
culpa do rosto levasse de dentro
estilhaços (pensamentos:) impurezas


§


JOSÉ EMÍLIO-NELSON, Jornal de Notícias, 30.12.94
«(...) o alargamento da constrição poética ao plano da urbanidade (...)»


O Comércio do Porto, 01.01.95
«[obra] que [marcou] indelevelmente o panorama do escrito poético no Portugal de 94.»


JORGE LISTOPAD, Jornal de Letras, 04.01.95
«(...) a poesia aberta, ao que é quotidiano e simultaneamente simbólico, equivalências e trocas, apaixonada e como que indiferente, os sonetos que não o querem ser.»


MANUEL ANTÓNIO PINA, Jornal de Notícias, 10.01.95
«(...) Em "Este Lado Para Cima" a forma do soneto (forma sempre intranquila e instável em João Luís Barreto Guimarães) é de novo o lugar mutante a partir do qual se constrói uma poética cuja desenvolta coloquialidade e tom pretendidamente menor não oculta a sua funda vocação para o rigor e para a paixão extrema da palavra, e onde o humor, frequentemente lapidar, funciona como instrumento de distância e de pudor. [T]rata-se, esta poesia, de uma das raras vozes substantivamente diferentes no tantas vezes monocórdico panorama da poesia portuguesa mais recente.»


PAULO DA COSTA DOMINGOS, Expresso, 25.02.95
«(...) Dos quatro cantos de uma casa, o conhecimento gera toda uma geografia, com a sua efémera historicidade do pó sobre os móveis e dos factos quotidianos passados a notícia sobre papel de jornal. Sol a sol, é a banalização dos rituais humanos o que mais sentimos. Um poema que se escreve representa, para o autor, o seu quinhão de roubo à morte. Philip Larkin - explícita referência de Barreto Guimarães - quase não fez outra coisa senão dar forma estética a essa derrota dos homens ante o mundo, conformando-se. (...) A arquitectura dos versos de "Este Lado Para Cima" tenta surpreender o leitor incauto com os truques do colapso da fluidez sintáctica. Cascata pedregosa onde, por exemplo, a deliberada escassez de pontuação ou o profuso uso de apartes parentéticos solicita um percurso de perícia através dos versos, se queremos chegar à ternura, à melancolia e ao abandono vigiado dos sentidos. [E]ste exercício, por via de uma excelente intuição da música natural de certos núcleos frásicos, [resulta] muitas vezes feliz na agressão aos hábitos da língua.»


RAMIRO TEIXEIRA, O Dia, 12.03.95
«Este é o terceiro título de um poeta deveras singular. Porque, antes de mais, forçoso é que se diga ser difícil catalogá-lo. Na verdade, João Luís Barreto Guimarães escapa aos cânones pré-estabelecidos (...). A ver se nos entendemos: sempre a obra poética se debateu entre a interioridade e a exterioridade, a sonoridade e o silêncio, a entrega e o artifício, o sentimento e a inteligência, sendo muito raros os casos em que esta se assumiu com espectáculo. Diga-se, aliás, de passagem, que o espectáculo é de natureza exógena à poesia, cabendo mais aos "diseurs", aos declamadores, do que aos poetas. Em todo o caso podemos admitir excepções: por exemplo, a "Ode Marítima" (...). E aqui retornamos ao "espectáculo", não no que ele comporta de conteúdo circense, mas ao que de subjacente nele existe de deliberada inovação, de mestria em tirar efeitos inusitados, de confundir qualidades oníricas, sintácticas e até prosódicas, com um automatismo (in)consciente, de forma a estabelecer com tais ingredientes uma força vital capaz de alicerçar uma atitude poética (e porventura uma intervenção personalizada no "status" literário). (...) Abstraindo, porém, estes sinais "espectaculares" mais visíveis, outros subsistem de não menos interesse ou curiosidade. Tais são, em muitos dos poemas, a busca de transgressões nas intenções discursivas, através da inclusão de elementos exógenos, (...) num claro e obsidiante esforço qualitativo de imaginação, em circular "continuum"


ANA MARQUES GASTÃO, Diário de Notícias, 21.11.95
«A poesia de João Luís Barreto Guimarães desdobra-se num saber de atmosferas outonais. Crepuscular, abre caminho a uma vocação melancólica recheada de “desertos e tempestades”, que têm a sua correspondência na linguagem, essa “dança interior de palavras que conduz a um jogo dos sentidos”. [A] obra do poeta é toda feita de pequenas alegorias de um quotidiano coloquial, porque afinal a vida faz-se de ambiências, cheiros, ruídos, da passagem das estações. Há nesta poesia uma presença de tempos reais, próximos, que originam um olhar, por vezes, sombrio, por vezes, doce sobre um mundo descoberto na dialéctica interioridade/ exterioridade. (...) Mais do que uma acumulação de impressões, os poemas de João Luís Barreto Guimarães são espaços de uma confidencialidade marcada pelos afectos.»


Ler/ Livros & Leitores, Inverno 1995
«Duas vozes da nova poesia portuguesa a que é necessário estarmos atentos: João Luís Barreto Guimarães, com "Este Lado Para Cima" (Limiar), e Ana Luísa Amaral (...)»


FERNANDO GUIMARÃES, Revista Limiar, 1995
«"Este Lado Para Cima", porque essa é a posição do livro antes de se iniciar a leitura e, também, a que habitualmente se usa relativamente a objectos frágeis. Poderíamos dizer que o primeiro poema do livro começa aqui. E, de imediato, se aprende que há nele um sentido de secreto humor pelo qual se alcança uma espécie de jogo com as palavras e as situações que estas criam no poema através da coloquialidade, de mudanças de registo - por exemplo, através do uso de parênteses -, do recurso à interrogação, de um ocasional "nonsense". No fundo, um tom surrealizante? Aquele que é compatível com uma escrita vigiada, conscientemente conduzida e configurada por uma disposição que se identificaria à do soneto, mas que aqui é constantemente subvertida. Ao mesmo tempo, faz-se sentir a tendência para que haja uma espécie de desenvolvimento narrativo em cada poema, desenvolvimento esse que se equilibra com aqueles momentos que representam o que há de secreto e indizível na expressão poética (...).»


MARIA ALZIRA SEIXO, Jornal de Letras, 09.10.96
«(...) livro de poemas de João Luís Barreto Guimarães, "Este Lado Para Cima", que me fascinou pela mestria de composição e pela aliança simultaneamente nostálgica e resignada da convenção com a sua transgressão. Trata-se de um conjunto homogéneo de sonetos onde esta "casa" poética é abalada por variações estróficas e prosódicas, pela construção sintáctica e pelas relações lexicais, e onde a questão do "lugar" da poesia (patente desde o título) é colocada não apenas desta maneira formal mas também pela temática orgânica e coerente que os textos organizam, e que é a temática da casa. Quase todos os poemas se ocupam de aspectos do quotidiano, referentes ao interior de uma habitação: ouvir um disco, atender o telefone, arrumar estantes, olhar pela janela, abrir a porta da rua, ir à varanda, meter-se no ascensor, etc. E penso em como será possível interessar um jovem de hoje por uma literatura que se prende a gestos de insignificância comum, para os trabalhar na relação com uma perspectiva de entendimento particular, num trabalho que vem despoletar analogias inesperadas, paralelismos enriquecedores, conotações bizarras e, sobretudo, uma sintaxe que "cria" uma realidade insuspeitada, um mundo específico que é de facto o da criação poética. Iniciando-se com uma citação de Philip Larkin, (...) encena a articulação do interior da casa com o interior anímico e com o exterior da rua, da casa com a cidade, da casa com a viagem e com o regresso; integra o concreto no abstracto, um "tu" indefinido na subjectividade radical da visão descritiva, abusa, para essa integração, de parêntesis que são como que os cantos da casa, ou do pensamento, ou do soneto, numa espécie de fabricação de um reduto da linearidade que se evola nos inacabamentos lógicos ou na fragmentação da frase. Assim, destrói-se o ritmo convencional do verso e desequilibra-se a casa na cidade, desequilibrando-se também o sujeito no seu traçado de escrita. Curiosamente, é nos sentimentos que se refaz o lugar reencontrado onde o tempo se percebe como um enquadramento natural (...).»


ADRIANA A., blogue Trânsito Local, 03.04.09
«Quantas vezes poderá acontecer isto a um leitor? Estou numa casa que não é a minha, numa sala com livros até ao tecto, há um gira-discos, escolho um disco e ponho-o a rodar, uma cantora italiana dos anos 70, sento-me no cadeirão de baloiço (e tenho um tinto na mão), aponto com o olhar a estante mais próxima, a da poesia portuguesa. Pouso o copo, levanto-me, saco um livrinho sem escolher, volto ao cadeirão. Abro-o. Leio o primeiro poema, que não tem título: “
põe um disco a correr. a chuva não demora / mais que o esvaziar das nuvens se te / confessasse as coisas que já atirei ao mar / (o revólver do crime palavras numa garrafa)”. Aqui, começo a sorrir, dou um gole no tinto, continuo: “não darei nome ao poema seria como quem / coloca legendas aos dias e eu: sou como / água (tomando forma nos lugares que molha) // vou repetir (para quem só agora ligou / este poema:) no cesto de frutos da mãe / as estações do ano sucedem-se e o disco // era um disco tão antigo tão antigo que / a certa alturantigo tão antigo que a / certa alturantigo tão antigo que a certa / alturantigo tão antigo que”. O poema acaba assim, riscado, e nesse momento, o disco que eu tinha posto encalha também ele numa frase qualquer italiana. Levo o copo à boca e despejo pela goela a vertigem. "Este Lado Para Cima" (colecção "Os Olhos e a Memória", editora Limiar, 1994) é o terceiro livro de poemas de João Luís Barreto Guimarães (Porto, 1967), poeta estreado em 1989 com o volume "Há Violinos na Tribo", em edição de autor. É este livro um objecto curioso. E escolho dizer “objecto” não só por sugestão do título mas porque me parecem ser estes poemas matéria não só visual mas “coisa” palpável, talvez por neles abundarem variadíssimos referentes, materiais de uso diário (dinheiro, por exemplo), coisas e situações reconhecíveis, comuns; mas sobretudo por se ter optado por uma aparente rigidez formal, constante em todo o livro. São poemas de pulsão diarística, sem título, em geral com quatro estrofes, entre quadras e tercetos, onde em cada um deles se desenrola uma pequena narrativa, com uma lógica própria e de onde assoma sempre um pequeno achado. Esses achados resultam muitas vezes de pequenas subversões da lógica, ou subtis inversões da regra, que requerem por vezes alguma atenção na leitura: o disco riscado do primeiro poema; ou, no segundo, quando há alguém que bate a uma porta e segue-se uma sugestão absurda, a de que a porta se defenda; num outro poema a bela imagem de “um vento jardineiro” onde também se mede o tempo em Renaults: “três Renault é um instante”. Aposta-se aqui numa espécie de jogo precário (de escrita e de leitura) que cedo reconhecemos e aceitamos, e é nessa fragilidade e nesse risco, nunca escamoteados, que assistimos, de poema para poema, ao pequeno grande milagre da salvação (e acontece sempre) de um texto, nem que seja no último verso, no último instante. O elemento de jogo, de um jogo por vezes de duplos sentidos, e em que se apela depois a uma leitura lúdica, foi rigorosamente orquestrado no tempo da escrita. É óbvio. O que não é assim tão habitual é ser-nos dado “acompanhar” o processo, como se o autor não tivesse pudor em deixar à vista as costuras, ou tivesse mesmo gosto em as mostrar: “este poema tem virgulas,” ou, no único poema que tem cinco estrofes, dizer-se na passagem da quarta para a quinta: “(não sei o que se passou hoje / comigo nem sequer é meu costume // alongar-me tanto assim:) (…)”, ou ainda quando se declara a falta da letra “b” no teclado e isso impedir que se escreva “sobre o rilho dos teus olhos”. Em 1994, ano a que foi resgatado este pequeno volume, mexia-se noutro dinheiro. João Luís Barreto Guimarães não tinha ainda 30 anos, e, temendo que não soubéssemos lidar com o objecto que criara, e onde foi apontando as “coisas que não couberam no dia”, informava-nos ser "Este Lado Para Cima". Nós, esmerando nos cuidados, púnhamos então esse lado para cima e abríamos.»