RÉS-DO-CHÃO

(actualizado)27 poemas
(Leça da Palmeira, 1995-2002)

1ª edição, Gótica, Lisboa, 2003, fora de mercado
capa de Rogério Petinga a partir do óleo de Edward Hopper «Sunlight on Brownstones», 1956
direcção literária de Maria da Piedade Ferreira

2ª edição, in «Poesia Reunida», Quetzal, Lisboa, 2011, esgotada

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§


A meias

Bebo o meu café enquanto bebes
do meu café. Intriga-me que faças isso.
Se te posso pedir um
(se podes tomar um igual)
porque hás-de querer do meu?
Que
não. Que não queres. Escuso
de pedir
que não queres. Então
começo um cigarro e tu fumas
do meu cigarro dizes
«tenho quase a certeza de
não acabar um sozinha» por isso
fumas do meu.
Dá-te gozo esse roubar de
leves goles furtivos
dá gozo participar
do prazer que eu possa ter
contigo
(e entre nós)
dá-se agora tudo
a meias.


§


Tangerinas de Natal

«Será que eles ainda fazem?» É
domingo
para segunda. Resolves
a teu favor a
última tangerina e devolves a pergunta:
«Os meus ou
os teus?» E eu sorrio. Há quem os
queira exprovados quase
que imaculados
mesmo sabendo-nos prova de
que tiveram de fazer para
agora aqui estarmos
negociando imperfeições.
«Deixei-te ficar na dúvida.»
«Lembras-te de cada coisa…»
Atalhas-me com o
gomo perfeito mas
eu quero mais de ti
«Estás a ficar com sono.»
«Continua.»


§


Acerca do quintal da vizinha

A cerca do quintal da vizinha:
ali a dispuseram para que desperte vontade
em mim de
a transpor. O quintal
é pequeno. Nada guarda de importante. Mesmo
a cadeira de bunho onde
ela fica sentada
está estragada demais
(não desperta cobiça)
só a ela
poderá servir. O quintal é um baldio mas
(dentro)
guarda uma vida
a cerca que o circunda ostenta o pequeno aviso
que pede
para não transpor. A
cerca do quintal da vizinha é
o que lhe
dá valor.


§


As empregadas fabris

Arregaçam a manhã (as empregadas fabris)
pernas como tesouras
recortando a calçada
ferem o lenho da mesa com
sortes
de boletim. Uma sirene as trouxe aqui
(às empregadas febris)
ancas de esboço perfeito sob
vestes de operárias
tocam umas nas outras como se
ainda fossem meninas mas
a delas que vai noivar já
traz o primeiro a caminho. E
quando o cigarro se apaga
(ou a
cerveja se escoa) o
que resta é a dor da tarde que
nem esta chuva afaga
o gasóleo dos rapazes que
lhes cantam a cantiga e
as tomam pela cintura.
Um foguete fecha a festa
(pelo lado de dentro da coxa)
há nelas a incerteza de
não saberem se são
incompletamente
infelizes.


§


Champanhe dos derrotados

Há quanto tempo aqui estamos? Dez
marés e
cinco ondas
há uma idade perfeita para morrer
refém da areia
(ninguém escolhe nascer
nem
escolhe sua doença). Uma
ave nunca faz outra vez
o mesmo curso
há quanto tempo aqui estamos? A
língua do mar é quem lambe
a depressão das pegadas
num excesso de zelo.
Quando nada traz sentido
sempre
as ondas batem certo
há quanto tempo aqui estamos? Mesmo
a mais perfeita vaga sempre cai
(espuma na areia)
onde os fracos vão beber o
champanhe
dos derrotados.


§


Sol de janeiro

Nunca tanto como hoje reparei com atenção
na
luz do sol de janeiro. Forte
mas delicada. Furtiva
mas
demorada. Não arde nem faz tremer.
Não é densa nem clara. A
luz
do sol em janeiro:
assim é o nosso amor
oculto pela tinta dos dias apenas
espreita uma aberta
(uma distracção das nuvens)
para luzir e irromper
(nunca antes como hoje precisei
tanto que o vento lhe
desse oportunidade).
O nosso amor é janeiro:
mesmo se o julgo esquecido
sei que
vem sempre lá.


§


O puxador da porta da cozinha

O puxador da porta da cozinha está estragado
faz um mês. Não passa dia sem que peças
que conserte o puxador
não concebes ser possível eu
sempre ter tido engenho para estas coisas da casa e
ainda não ter tido tempo para compor
o puxador. Mas
não se trata de nada disso. Já
o teria composto (se o
quisesse reparar)
teria arranjado tempo
não me ia custar mesmo nada. Mas
depois ia haver que alfinete? (encravado na rotina)
Como não estranhar a absurda
ausência da avaria?
Deixa-o
ficar assim. Deixa-o andar assim
(ternamente avariado).
Cada dia pela manhã
quando passares à cozinha
(calculo que por
entre as sete
sete e um quarto sete e meia)
e ficares com o
puxador da porta da cozinha na mão
tua voz regressará ao
exaustivo pedido
(ao alívio confortante de essa ser
nossa alegria) e
eu sentir-me-ei feliz por
ainda te ter por perto
por me
fazeres companhia.


§


Jornal de Notícias, 02.03.03
«Confirmação de João Luís Barreto Guimarães como uma das mais interessantes vozes da novíssima poesia portuguesa, "Rés-do-chão" apresenta-nos uma escrita tensa e concisa, em que a ausência de grandes artifícios está longe de assumir um carácter empobrecedor. Pelo contrário, o autor é exímio na tarefa de identificar o caos do quotidiano.»


ANA MARQUES GASTÃO, Diário de Notícias, 16.03.03
«Escreveu Virgina Woolf no seu diário: "Gostamos de sentir. Seja o que for". Escandalosa, a frase, a verdade é que esta contradição ilumina e obscurece a vida. Por muito que se tenha já escrito sobre a poesia de João Luís Barreto Guimarães, sobre a sua obstinada deriva coloquial e procura discursiva, formalmente habilidosa e lúdica, sobre a sua interioridade captada em brevíssimos instantes, como em "Lugares Comuns", e corroboração prosódica, "Rés-do-Chão", o mais recente livro, traz um apaziguamento. Não o do esplendor ou o do substrato trágico, mas de memórias ou presenças, entre as quais a de uma maior continuidade na abordagem do amor: "Tornas à cama e abres / aquele romance de sempre / o descanso existe / noutro cansaço." ("Falsa Partida"). O principal efeito destes poemas reside na insistência tão mental como sentimental, sem derramamento, porém, entre o real do corpo (delicados os poemas eróticos, como "Dentro da Pedra" ou "Respeito", território escorregadio), do sentir, e o real do mundo. Ou seja, o poeta, assumindo que "a felicidade não tem história" (Egito Gonçalves), sabe da impossibilidade de uma tranquilidade beatífica, porque, enquanto seres humanos, desejamos estar simultaneamente satisfeitos e insatisfeitos, melancólicos e exuberantes, em calma ou em tensão. A rotina aborrece, a novidade assusta, a passagem do tempo perturba, a perfeição é imperfeita: "Quando / nada traz sentido / sempre / as ondas batem certo / há quanto tempo aqui estamos? Mesmo a / mais perfeita vaga sempre cai / espuma na areia / onde os fracos vão beber / o / champanhe dos derrotados". É o primado do amor no que respeita ao conhecimento que vai, sobretudo, fluindo nesta escrita aparentemente tranquila, mas irónica, elíptica, mas realista, consciente da unidade de um sentido interrompido. Talvez por isso o uso dos parêntesis seja mais enfático do que à primeira vista possa parecer: "(Ninguém escolhe nascer / nem / escolhe sua doença)". Se a melancolia se revelou até agora, de forma imprecisa, pálida, na "antecipação do inverno" ("Este Lado para Cima"), em "Rés-do-Chão", a aproximação mortífera das coisas torna-se mais evidente, não só na consciência de uma tão scheleriana gramática efémera dos sentimentos ("Se os braços devem morrer ao / longo da fadiga de um corpo / que / seja ao longo do teu"; "Os Lugares na Cama"), como da própria morte, ainda que numa perspectiva quase exterior, remetendo, no entanto, para uma intensa reflexividade: "Espreitei a rua para ver se / a / morte já ia longe (ainda / sentia o sino a / latejar na cabeça) dessa vez / (tive a certeza) / tentou ver se levava / alguma / coisa de mim." ("Cortejo Fúnebre"). O livro de João Luís Barreto Guimarães, na sua estrutura narrativa, transporta uma maior densificação de um leve discurso. O coração é humano na medida em que sente (tocante na sua singeleza "Aniversário") e se rebela: "Queria apear pelo chão as peças / do coração para / o poder reparar mas / há / uma dor que sopra fina / como um longo manto escuro / que bate contra a vidraça / e abana a persiana irado / de / não entrar". Nesse sentido, a linguagem poética é desvio, produz penumbras, introduzindo um equívoco entre claro-escuro. O poeta aproximou-se, em "Rés-do-Chão", não só de um suave júbilo, como de um universo de "ruídos da noite", consciente da impotência da poesia e da evocação pela palavra rigorosa, de uma forma não devastadora, dessa experiência. Ainda bem.»


FRANCISCO JOSÉ VIEGAS, Grande Reportagem, Abril 2003
«João Luís Barreto Guimarães é um dos novos poetas portugueses que vale a pena ler. Faz parte de uma geração que aceitou o regresso do lirismo e da melancolia, e criou uma obra singular e de grande qualidade, embora afastada dos grandes palcos - o que é muito bom.»


JOSÉ DO CARMO FRANCISCO, Notícias da Amadora, 17.04.03
«Há neste novo livro de João Luís Barreto Guimarães um ciclo, um mapa, um atlas pessoal, organizados cada um deles a partir da ideia de que cada poema é uma resposta (poética embora) a uma determinada situação quotidiana. (...) Mas não são apenas as situações quotidianas. O tempo, a passagem dos anos, a sua erosão no corpo (...). Entre tempo e memória, entre presente e passado, emergem hipóteses de futuro. (...) Desde 1989 que vemos este poeta singular partir do quotidiano para a vida e para a morte. Para a respectiva meditação. (...) À maneira de Cesário Verde ou de Guilherme de Azevedo o poeta fala de si (...) para falar dos outros (...)»


SÉRGIO ALMEIDA, Jornal de Notícias, 12.05.03
«Discorrer com profundidade sobre o(s) quotidiano(s) é tarefa que poucos poetas manejam com habilidade, tão notório é o perigo de incorrerem na banalidade, esse inimigo mortal da literatura. João Luís Barreto Guimarães é um dos autores que melhor tem sabido conferir uma dimensão poética a essas ambiências domésticas e quotidianas em que tantos, a pretexto da informalidade, acabam por se perder. Demonstra-o novamente em "Rés-do-Chão", o seu novo livro, como já o havia feito, por exemplo, em "Lugares Comuns", e que o confirma como um dos nomes mais interessantes da poesia portuguesa revelada na década de 90 (apesar de o seu primeiro livro, "Há Violinos na Tribo", edição de autor, datar já de 1989). Emotivos sem resvalarem para a sentimentalidade, melancólicos sem caírem numa tristeza fechada em si mesma, os poemas de Barreto Guimarães inscrevem-se numa peculiar concepção do Mundo exemplarmente plasmada por Egito Gonçalves quando considerou que a "felicidade não tem história". E é, de facto, sobre o doce lado do caos que os escritos do autor preferencialmente se detêm, através de alusões constantes à rotina e à passagem inexorável do tempo - "Hoje aconteceu-me mais um cabelo branco / (não sei se tinhas dado com este:) / fica / mesmo ao lado da risca entre os / vinte e nove e / os trinta" - ou da sublime inventariação da desordem: "Adormecemos juntos acordamos / apartados / disputámos o lençol como / quem puxa a razão para si / a / quantos beijos estamos hoje: de distância?". Papel fundamental na obra do poeta desempenha o conceito de lugar. A casa, antes de mais, território da disputa de afectos em que se movimentam as sombras que habitam o livro. Mais uma vez é o quotidiano em toda a sua extensão, do esplendor à decadência, que emerge em poemas cuja estrutura livre e despretensiosa - a lembrar quase "flashes" cinematográficos - reforça o despojamento pretendido. No itinerário de locais destaca-se a vizinhança (a "Ópera de Bairro", como lhe chama), onde se situam o café, a igreja e a praia. É aqui que o autor coloca sobretudo a ironia e o poder de observação ao serviço da poesia: "Quando o carro fúnebre passou a morrer / frente ao Café / enterrei a atenção no jornal receando conhecer / aquele nome ao comprido no / seu / último passeio pela vila". Num livro onde a leveza do discurso poético é apenas ilusória, sobressai o anonimato de vidas que se reconfortam nos apelos ao consumismo ("A / felicidade / entra em casa em sacos de hipermercado") e na perene repetição de hábitos, fórmula encontrada para enganar a morte.(...)»


RAMIRO TEIXEIRA, O Primeiro de Janeiro, 19.05.03
«Não por acaso, termina este livro de poemas com uma epígrafe de um verso, de Egito Gonçalves, que diz: "A felicidade não tem história". Será que não? A mim quer-me parecer que sim. Porque isso de felicidade, menos que um conceito, é uma predisposição de vida, uma crença ou uma disponibilidade para a construir, não digo dentro de uma rotina, mas ao alcance da consciência do ser vivo quotidiano, ao rés das coisas, ao rés-do-chão. Este livro é isso, um conjunto de poemas que sublimam a felicidade sem mais nada. Isto é, conjugam a felicidade em seu diarismo, sem metafísica nem retórica, mas com a sensibilidade suficiente para fomentar o encontro do ser na superfície das coisas do qual atinge a verdade fundamental dos mecanismos existenciais que fazem movê-las. Nesta perspectiva, estes poemas de João Luís Barreto Guimarães, menos do que uma busca de sentidos, são já a consagração de momentos sublimados, configurados a uma distribuição de felicidade de existir, a qual, por sua vez, para o ser de facto, é partilhada com o colectivo, ou, no caso de "Aniversário", agregado, ora com as raízes de que provém, ora com as raízes que por sua vez está a lançar no mundo. (...) Em certo sentido, esta é uma poesia de aspectos domésticos. Mas é só em "certo sentido". Porque o que verdadeiramente aqui está em causa é a expressão duma sinceridade poética, inimiga da retórica, pela consciência do auto conhecimento. E por isso muita desta poesia se revela através de uma espécie de monólogo íntimo, que acaba simultaneamente por ser um diálogo de fecundo realismo. A ver "Não" (...) ou, talvez, mais propriamente, [os] versos de "Os lugares da cama" (...). Os mecanismos da crítica, que sempre acompanham a existência biográfica, mesmo quando ao serviço da exaltação, da valorização das pequeninas fruições, convergem aqui em envolvente ironia, ainda que, sempre, sob um ponto de vista de efectiva simpatia, como em "Ópera de bairro", onde a intimidade dos seres, habitantes do mesmo espaço (prédio), repercute sobre os vizinhos, através de toda a sorte de ruídos, desde os mais íntimos aos mais mecânicos (...). Para quem, como eu, tem acompanhado a produção do poeta desde o seu livro de estreia, "Há Violinos na Tribo" (1989), é fácil verificar como o seu percurso tem sido pautado por um sentido de aguda observação sobre a comunidade, pela via de que a poesia, menos do que um sentido íntimo de encarar o mundo é, antes, a partilha desse mesmo mundo. Que a descoberta do mundo, grande ou pequeno, inicialmente tivesse sido determinada pelo desejo de "espantar" e agora tão somente procure fabular a placidez que ele comporta, não é uma atitude redutora - antes, direi, é o resultado do crescimento do próprio poeta. Porque só quem domina o mundo o pode relatar com esta simplicidade, avesso ao amaneiramento e ao artifício, tecer e exaltar um refúgio fraterno no cerco que nos reduz a coisas.»


EDUARDO PITTA, Ler - Livros & Leitores, Verão 2003
«Tendo publicado o primeiro livro em 1989, João Luís Barreto Guimarães (n. 1967) é, porém, um típico autor dos anos 1990. E acaba de publicar aquela que é, até ao momento, a sua melhor colectânea: "Rés-do-Chão". Dividido em três secções, o volume colige 27 poemas, dos quais 18 haviam sido anteriormente publicados em revistas e antologias. Tratando-se de um conjunto com data de factura entre 1995 e 2002, circunstância que poderia justificar oscilação de voz, é de justiça reconhecer que tal não acontece. A generalidade dos poemas aqui reunidos tem uma unidade orgânica assinalável, talvez porque o autor tenha desistido de piscar o olho ao experimentalismo (quando o fazia, a habilidosa desconstrução da fórmula do soneto terá sido dos momentos mais produtivos). Agora, e sempre com recurso a um muito peculiar uso do enjambement, o discurso é outro: "Arregaçam a manhã (as empregadas fabris) / pernas como tesouras / recortando a calçada / ferem o lenho da mesa com / sortes / de boletim (...) tocam umas nas outras como / se / inda fossem meninas mas a / delas que vai noivar já / traz o primeiro a caminho. E / quando o cigarro se apaga (...) o / que resta é a dor da tarde / que nem esta chuva afaga / o / gasóleo dos rapazes que / lhes cantam a cantiga e / as tomam pela cintura." (p. 32) Não é um exemplo isolado. Mais uma vez temos a sensação de que Barreto Guimarães escolhe o lugar daquele que vê "passar a noite inteira / uma / vida inteira" (p. 14), enquanto anota "desperdícios de voz" (p. 30) e sabe que lhe "toca / ser homem" (p. 49). Há nisto tudo uma toada que lembra os Seventies? Há. Mas também é verdade que a quota pessoal tem selo de garantia.»


ISABEL LUCAS, mAGAZINE artes, Novembro 2003
«"Rés-do-Chão" é o mais recente livro de poemas de João Luís Barreto Guimarães, uma poesia com o tom coloquial da vida que faz de todos os leitores cúmplices perfeitos para a partilha. Quando se estreou na poesia, em 1989, com o livro "Há Violinos na Tribo" (edição de autor), João Luís Barreto Guimarães teve uma óptima recepção por parte da crítica que o apontou como uma das promessas futuras da poesia portuguesa. "Há Violinos na Tribo" era um excelente livro revelação que a restante obra deste poeta, natural do Porto, não viria a hipotecar. "Rés-do-Chão" (Gótica) é a sua última incursão pela poesia e conta já com alguns - discretos - meses nas livrarias. A âncora da sua escrita é, uma vez mais, o quotidiano, captado com uma linguagem que guarda a coloquialidade inerente a esses momentos efémeros que a memória insiste em reter. João Luís Barreto Guimarães reconstrói-os na poesia, mantendo-se fiel ao seu encantamento simples, sem lhes retirar nada da sua essência. O poema "Ópera de Bairro" é disso um bom exemplo: "Os filhos dos do andar de cima correm / presos / pela casa. Não sabem como desgosto disso. / Havia o lavar de roupa da / do terceiro frente / a fúria do aspirador da do primeiro / - TRÁS! / vem / agora o produto do "método natural que usamos" / assinar o dia inteiro o soalho da madeira. / Estão sempre a fazer anos. Levam / o ano inteiro a / festejar aniversários. Só / à noite é o silêncio. "Os miúdos estão na tia". Mas esse quotidiano poético de João Luís Barreto Guimarães é feito de amor e de morte, de memória e de desejo, de tudo o que compõe a vida, invocada de uma forma que não a descontextualiza, dada ora na sua mais natural vulgaridade, ora com o seu carácter mais sublime, com a referência a nomes, lugares, gente com existência real, gente que sempre que sai da vida e nos espanta, como em "Cortejo Fúnebre": "Quando o carro fúnebre passou a morrer / frente ao Café / enterrei a atenção no jornal receando conhecer / aquele nome ao comprido no / seu / último passeio pela vila. Os mais velhos / no Café / ousaram até à vidraça comentando / circunstâncias sobre a vida / que / tinha o morto. O / sino da torre da igreja soava / tão alto lá fora / os / acordes pareciam flechas / alvejando o salão. Mas a / morte / não é tudo na vida pelo / que / no instante seguinte / todo o povo dispersou e os mais velhos / no Café / voltaram ao dominó / confrontando entre si a / última ida ao médico / o / mais recente sinal ou / sintoma de doença. / Espreitei a rua para ver se / a / morte já ia longe / (ainda / sentia o sino a / latejar na cabeça) / dessa vez / (tive a certeza) / tentou ver se levava / alguma / coisa de mim". O tom é o da confissão, como que a convocar cumplicidades, difíceis de negar a quem apela assim. "Hoje aconteceu-me mais um cabelo branco / (não sei se tinhas dado com este:) / fica / mesmo ao lado da risca entre os / vinte e nove e /os trinta"...»


JORGE LISTOPAD, Jornal de Letras, 12.11.03
«João Luís Barreto Guimarães é um poeta feliz. E se "a felicidade não tem história" (citado de Egito Gonçalves) sempre pode criar versos. A felicidade não se coaduna com experimentação? A ver vamos. Os poemas de amor "embaciado" mas cada vez mais objectivos a reter a alegria para chegar à melancolia, para deixar fluir o tempo que é o seu. "Rés-do-Chão", é o título da recolha que a Gótica publicou e os amigos da poesia vão estimar, gostar, amar até. O meu poema preferido? "Champanhe dos derrotados" da segunda parte - "Ópera de Bairro", aliás dedicada a Alexandre O'Neill. Mas também estamos com o autor em Leça, essa de António Nobre. Por sinal. Por sinal de parentesco triplo... (Gostava que J.L.B.G. lesse, se o já não tivesse feito, os poemas da brasileira Adélia Prado).»


PEDRO MEXIA, Diário de Notícias, 02.04.04
«João Luís Barreto Guimarães reuniu em "3 (Poesia 1987-1994)" os seus primeiros livros, e publicou além disso os poemas em prosa de "Lugares Comuns" (2000). "Rés-do-Chão" (2003) não é, de modo algum, uma obra de ruptura, a não ser numa reiterada capacidade de escrever sobre matéria jubilosa. Estes são, no essencial, poemas sobre o mais raro dos temas: a felicidade. E mais: a felicidade conjugal. Textos sobre o matrimónio isentos de acrimónia e preocupados com os esplendores e trivialidades do quotidiano familiar. Isso é evidente na primeira parte do livro, inteiramente dedicada à celebração da domesticidade. Uma proximidade ternurenta e erótica, com o sono, o corpo, a nudez tranquila mas ainda comovente, o novo corpo amoroso que é a filha, as noites em que o sexo não apetece. Por vezes tudo é simples: "Adormecemos juntos acordamos / apartados / disputámos o lençol como / quem puxa a razão para si / (...) Se / os braços devem morrer ao / longo da fadiga de um corpo / que / seja ao longo do teu / (...) por favor fica a meu lado. Quero / que sejas tu o / parente mais chegado" (pág. 19). Outras vezes a simplicidade é o próprio modo de evitar a monotonia: "Tira a aliança do dedo. O gozo / é redobrado se / nos assinto ilegais. Porque / esse / aro dourado concede-te / direito a mim / não há pecado assim: / o meu / nome em ti o / teu / nome em mim / e / essa data grafada em que assinamos / de Cruz / o arbítrio da união. / As / mãos procuram respostas como / quem ergue rosas pelo espinho: / tira a aliança do dedo. Se / essa lei é sagrada nós / somos apenas mortais precisamos / de pecado: / vamos / dormir ilegais" (pág. 27). Esse quotidiano também se faz de coisas triviais: os sapatos, o lugar na cama, o banho, a roupa que se veste e despe, as conversetas sobre se os respectivos pais e mães ainda farão amor. Porém, a paz doméstica é por vezes atravessada por pequenas sombras, sombras do passado e do futuro. Do passado surgem, num poema, as cartas de paixões antigos, às quais não se deve ser desleal, o que evidentemente não impede a fidelidade ao presente. Ou então, um isqueiro que lembra alguém e que, por isso, não deve ser usado. Ou, simplesmente, o passado na forma da passagem dos anos: um cabelo branco que aparece, mínima melancolia meditativa. As memórias, nestes poemas, lembram a hipótese da instabilidade, daquilo que nunca verdadeiramente se sabe, pelo menos nos afectos. E que não nos deixa certezas sobre o futuro. Formalmente, Barreto Guimarães usa o verso curto ou mesmo curtíssimo (uma palavra por verso), com uma translineação sui generis e por vezes duvidosa, o uso abundante do parêntesis como comentário e aparte, e sobretudo com uma discreta sabotagem do previsível, no que é uma das marcas mais interessantes desta poesia. Uma poesia que encontra soluções que parecem o ovo de Colombo para demonstrar, p. ex., a sanável contradição entre unidade e individualidade num casamento: "Bebo o meu café enquanto bebes / do meu café. Intriga-me que faças isso. / Se te posso pedir um / (se podes tomar um igual) / porque hás-de querer do meu? / Que / não. Que não queres. Escuso / de pedir / que não queres. Então / começo / um cigarro e tu fumas do / meu cigarro dizes / «tenho quase a certeza de / não acabar um sozinha» por isso / fumas do meu. Dá-te / gozo esse roubar / de / leves goles furtivos / dá gozo participar / do prazer que eu possa ter / contigo / ( e entre nós) / dá-se agora tudo / a meias» (pág. 13). Nestes poemas, a vida doméstica nunca é vista numa perspectiva ensimesmada, nem se esgota na realidade do casal. A domesticidade é gémea de comunidade e da vizinhança e por isso o poeta se preocupa com os vizinhos, com as crianças múltiplas e ruidosas sempre a fazer anos, com as raparigas que passam, com os conhecidos que morrem. Se existe alguma paródia à O'Neill, o tom é sobretudo reflexivo, com a variedade das experiências mas sobretudo com a sua fatal semelhança. Assim, se o casal passeia uma criança de uns amigos, sente logo que passeia a sua criança futura. E o mesmo se diga das furtivas tristezas e alegrias misturadas, que se observam no café, numa espécie de opereta tragicómica sobre a humanidade. Porque o que é importante é também banal: assim que passa a carrinha funerária, os velhos que a viam passar voltam ao dominó. Os poemas finais surgem tingidos de uma serena inquietação. Chove, e a chuva e o vento são ténue prenúncio de angústia, do futuro. Vendo os avós com os netos, tudo é semelhante, e o futuro desconhecido. A casa tem vestígios de uma vida: roupa espalhada, garrafas vazias, nódoas, cabelos, jornais, a cama por fazer. E os vestígios nada dizem sobre o que fica daquilo que passa. A realidade mais directa - uma lareira - desdobra-se em possibilidades metafóricas, que deixam sempre em aberto a "felicidade", indecisão maior no meio da celebração. "O puxador da porta da cozinha está estragado / faz um mês. Não passa dia sem que peças / que conserte o puxador / não concebes ser possível eu / sempre ter tido engenho para / estas coisas da casa e / ainda / não ter tido tempo para compor / o puxador. Mas / não se trata de nada disso. Eu / já o teria composto ( se o / quisesse reparar) / teria arranjado tempo / não me ia custar mesmo nada. Mas / depois ia / haver que alfinete? (encravado na rotina) / Como não estranhar a absurda / ausência da avaria?/ Deixa-o / ficar assim. Deixa-o andar assim / (ternamente avariado). / Cada dia pela manhã / quando passares à cozinha / (...) e ficares com o / puxador da porta da cozinha na mão / tua voz regressará ao / exaustivo pedido / (ao / alívio confortante dessa ser / nossa alegria) e / eu / sentir-me-ei feliz por / ainda te ter por perto / por me / fazeres companhia» (págs. 46-47). A felicidade não tem história? Tem. Mas a moral da história é viver essa história: "Nunca tanto como hoje reparei com atenção / na / luz do sol de Janeiro. Forte / mas delicada. Furtiva / mas / demorada. Não arde nem faz tremer. / Não é densa nem clara. A / luz / do sol em Janeiro: / assim é o nosso amor / oculto pela tinta dos dias apenas / espreita uma aberta / (uma distracção das nuvens) / para / luzir e irromper / (nunca antes como hoje precisei / tanto que o vento lhe / desse oportunidade). / O nosso amor / é Janeiro: / mesmo se o julgo esquecido / sei que / está sempre lá" (pág. 42).»