30 poemas
(Leça da Palmeira, 2002-2005)
1ª edição, Cotovia, Lisboa, 2006, esgotado
capa de João
Botelho
direcção literária de André
Fernandes Jorge
2ª edição, in «Poesia Reunida», Quetzal,
Lisboa, 2011, esgotada
§
PEDRO MEXIA, Diário de
Notícias, 10.03.06
«João Luís Barreto Guimarães escreveu
muitos poemas lúdicos de tão formalistas. O volume "3 (Poesia 1987-1994)",
publicado em 2001 na Gótica, inclui nomeadamente sonetos experimentais (mas acessíveis)
com diversos jogos de palavras e de disposição em página. Nada disso escondia o
cunho essencialmente emocional dos poemas (que evocavam os amigos, as
despedidas, a idade adulta), que em livros posteriores se prolongou em
anotações algo melancólicas sobre a domesticidade e o quotidiano. Talvez a
inquietude formal de alguns desses poemas escondesse o seu pathos, sempre cuidadosamente sabotado. "Luz
Última", construído em
torno da morte do pai, deixa que esse pathos tenha maior preponderância, mas ainda
assim não lhe confere nenhum monopólio. "Luz Última" é um lamento mas não é exactamente
um requiem.
Ou seja: não cultiva um tom lamentoso ou pungente centrado na memória e nas
virtudes de quem morreu (como acontecia no "Requiem" de Jorge Gomes Miranda), mesmo porque muitos poemas são
anteriores a esse facto. Existem no entanto muitos reflexos desse acontecimento
e da fatal comparação entre passado e presente: objectos, gestos, ecos, uma
continuidade que sobrevive com a consciência de que algo se quebrou. O que
quase não existe (talvez por pudor) é o elogio ou a reconstituição demasiado
precisa. Em vez disso, Barreto
Guimarães considera
o tempo actual (sem o pai) como de certa maneira um tempo
novo, onde mais que a extinção
da luz antiga se inaugura uma nova luz. A grande lição da morte é essa: vermos
tudo à sua luz. E se a luz (luz última) é uma das circunstâncias destes poemas, o acto de ver é a sua ética. Logo nas epígrafes esse
mandamento é mencionado: ver, anotar, deixar escrito o que acontece. O que
acontece aqui não é tanto o momento escuro (a morte) mas a luz que essa morte
deixou e com a qual o filho interpreta o mundo. É por isso que Barreto Guimarães regressa aos episódios insignificantes do
quotidiano (uma conversa numa cantina, atravessar uma ponte, renovar o bilhete
de identidade). Esses episódios têm mais sentido à luz última da morte porque é
precisamente a morte que os despoja da sua trivialidade. As observações
comezinhas ou domésticas, em tudo semelhantes às que encontrávamos em livros anteriores,
são agora contextualizadas em termos de tom e significado. Um exemplo: "Sentar-me
e / ver os outros passar é o / meu exercício favorito. Entretém. / Não esgota.
/ É gratuito. Neste meu jogo-do-não / são os outros que passam / (é aos outros
que reservo a tarefa / de passar). Lavo daí os pés. / Escrevo de dentro da
vida. / Pode até parecer que assim não / chego a lugar algum mas também quem /
é que quer ir / ao sítio dos outros?"
(pág. 24). Há aqui, naturalmente, uma tristeza mais funda e menos esporádica. E
há, sobretudo, a noção de que a vidinha nunca é apenas vidinha por causa dos
outros, a noção de que os poemas de circunstância são de certo modo os únicos
possíveis, porque essa circunstância inclui a nossa vida mas também a presença
(e depois ausência) das pessoas que amamos: "À partida do
inverno o domingo traz de volta / o passeio dos mortos. Pálidos / frios /
esgotados avançam luva na luva e sobretudo / amortalhados. O muro da estrada
ruiu / à entrada do estio são / os domingos do ano / (domingos de céu ímpio) /
dia de irmos aos teus familiares / ou aos meus. Nas tardes de à beira-mar / há
rádios em desafio (ele há / sábados cheios daquilo que esvazia / os domingos)" (pág. 41). A isso acresce uma
segurança formal renovada. Barreto Guimarães ainda se compraz em trocadilhos e outros
jogos (como esse justo "vestido injusto"), mas já não é essa dimensão
lúdica que mais o interessa. O trabalho de luto está aqui mais ligado a um
trabalho oficinal, quase sempre minucioso, feito verso a verso, com parêntesis
que comentam e modulam e com fórmulas inesperadas. E ainda com uma sucessão de
nada ostentatórias artes poéticas, que aliás no final do volume se assumem como
estudos e versões aprefeiçoadas. "Luz Última", sendo um livro biografista e
subjectivista, é paradoxalmente um conjunto de poemas que não fecham o poeta em
si mesmo mas que o deixam receptivo ao mundo. A luz (trágica) da nossa
intimidade serve como chave definitiva para o mundo das coisas concretas e sem
importância. Que afinal são também aquilo que mais importa: "Pela
luz rara da garagem dois vultos / vão pôr o lixo. São velhos desconhecidos. Um
/ ao outro dão passagem (a / máscara de um cumprimento) esquivos na /
escatológica arqueologia das misérias. / Homens de lixo na mão: exímios / a
ocultar / versos da vida doméstica (quando / o gesto liso cabe ao avental
abundante que os / devolve a casa). Há / em todo esse agravo uma redenção
ferida / (um juízo resolvido) como que um / indulto lento" (pág. 49).»
FERNANDO GUIMARÃES, Jornal de
Letras, 10.05.06
«João Luís Barreto Guimarães publicou
agora "Luz Última", um livro de poesia; (...) Ora
[este livro não anda] longe de uma sensibilidade e de uma poética que poderiam
ser as de uma pós-modernidade. Recurso a um micro-realismo, a procura de um tom
subjectivo, uma linguagem ocasionalmente diferida ironicamente, transgressiva,
surrealizante. (...) A poesia de João Luís Barreto Guimarães prende-se geralmente ao quotidiano, ao
dia-a-dia, às circunstâncias que quase não têm história. Por vezes há uma ironia
que fica apenas insinuada: "É o último fim-de-semana para
ir / aos dinossauros / (a cidade pôs-se em faixas para / os primos da Mongólia)
os / ninhos de Oviraptor os / dentes do Tarbossauro. / A cultura vai deixar a
urbe petrificada / prometemos às crianças levá-las a ver as ossadas / (ah,
domingos citadinos de coprólitos e / pegadas). Todos os outros já foram ver por
/ ver os dinossáurios / (migrações imanadas de gerações adiadas) / na fila da
bilheteira chegámos a atingir / trinta metros".»
CARLOS BESSA, Expresso,
20.05.06
«A poesia entendida como "o
transbordar espontâneo de poderosos sentimentos" (Wordsworth) foi caminhando até à experimentação
radical. Passado o furor desta, os modelos deram lugar aos múltiplos, com o
sentido na dependência de tantas falhas, sejam as da fantasia, sejam as das
aparas do quotidiano, ambas com a mesma ambição de sempre, a da partilha, a do
brilho, a do mito, mas agora no terreno de uma instabilidade que deixou os
polícias das letras assaz nervosos, senão mesmo à beira da mais malsã histeria.
Assim, de cada vez que alguém publica livro que não projecta os ditames segundo
os quais, dizem os doutos inquisidores, a poesia deve ser escrita, assistimos à
verve ressentida deles e dos acólitos. Indiferentes ao ruído de fundo, uns
quantos indivíduos continuam a escrever como querem, dando voz a emoções,
anseios, memórias, pensamentos ou ficções particulares. Entre esses poetas
têm-se distinguido os que fazem dos versos um reflexo político do que acontece
à sua volta, escolham ou não o papel de protagonistas ou de personagens
secundárias, o de cronistas da época ou o de "flâneurs". Mais do que uma épica do mínimo,
optam quase sempre pela elegia ou por um lirismo desencantado. E à pirotecnia
verbal dizem "passo".
Nota-se, isso sim, um convívio mais ou menos assíduo com poéticas doutras
latitudes, que por vezes adaptam para a nossa língua e de que incluem um ou
outro exemplar nos seus livros, no que tem sido uma constante do melhor da
nossa tradição (lembremo-nos de Camões ou de Pessoa). João Luís Barreto Guimarães, quiçá o mais barroco dos poetas que
desdenham da novidade pela novidade e das babugens meta-qualquer-coisa, que
reescreve, neste livro, um poema de William Carlos Williams, tem revelado um gosto particular pelo
carácter lúdico dos versos e pela recriação das formas poéticas, sendo
sobremaneira sensível aos jogos de palavras, às elisões, aos parêntesis e à
focalização no detalhe, em situações e em objectos correntes. Processos que,
juntamente com o modo breve, elíptico e metonímico com que o autor procede à
enunciação de um quadro familiar, doméstico ou outro (de que "Moeda
sobre o cacifo" é
exemplo e que nos mostra o quão contaminada está a sua escrita pelas artes
plásticas, pela fotografia, pelo cinema), contribuem para toda uma arquitectura
de estranheza, mostrando que o mais insólito continua a porvir da trivialidade.
De facto, o "Leitmotiv"
de "Luz Última"
parece ser a carência, senão mesmo a frieza e o absurdo que rege as relações e
a existência humanas, algo tanto mais significativo quanto cada poema parece
estar construído sob a apertada malha de uma vigilância que filtrou a impureza
das emoções para fazer sobressair "a poesia que está nas
coisas". Substantivação
apurada aqui e ali sob os auspícios da ironia, como acontece em "Os
Talentos do Sr. Lopes".
"Luz Última",
na sua condição de exercícios de estilo de naturezas mortas, mostra-nos que são
muitos e distintos os caminhos que se trilham na poesia portuguesa mais
recente, a qual é indiscutivelmente melhor quando aposta na "escatológica
arqueologia das misérias" ou
quando canta "qualquer coisa/ em carne viva", para grande tristeza dos inquisidores.»
HENRIQUE M. B. FIALHO, blogue
INSÓNIA, 02.06.06
«"Há Violinos na Tribo", publicado em edição de autor decorria o
ano de 1989, foi o primeiro livro de João Luís Barreto Guimarães (3 de Junho de 1967). Seguiram-se dois
livros, todos posteriormente reeditados (e rasurados) em conjunto sob o título
"3" (Gótica, Maio de 2001), onde se propunha, entre
outras coisas, uma (des)construção lúdica do soneto. Essa inclinação para o
jogo, marcada nos primeiros livros por uma componente formal mais precisa,
nunca se perdeu na poesia de João Luís Barreto Guimarães. Ainda assim, desde o excelente "Lugares
Comuns" (2000) que têm
sido operadas algumas transformações (plásticas) nesta poesia. Eu diria que o
essencial permanece, embora assumindo soluções formais diversas. O essencial,
neste caso, resulta daquilo que quotidianamente se vai arrancando ao mundo e se
pode constituir sob a forma de poesia: "a poesia está nas
coisas / (pão quente) / destapa-a." (p. 27). É esse trabalho de ver, o que consubstancia o labor
poético. Não de ver para além do que está, mas de conseguir ver no que está
algo mais do que aquilo que nos permite um olhar distraído. Neste sentido, esta
é uma poesia de olhos bem abertos. É uma poesia que busca no comezinho a luz
que a insensibilidade apaga, a mesma insensibilidade que lança sobre as coisas
de todos os dias uma indiferente banalidade. Epígrafes de Luís Quintais - "Diz o que
vês." - e de Jorge Gomes Miranda - "Vê. Atenta. Anota." -, logo a abrir, indicam-nos o
caminho. Outros autores aparecem citados (O’Neill, Luiza Neto Jorge, Philip Larkin, António Nobre), evocados (William Carlos Williams, Al-Mu’tamid), brindados (Pedro Mexia, Adília Lopes, João Miguel Fernandes Jorge). Há ainda Pollock, Gracinda Candeias, Dvorák, Marc Tardue, numa confluência amena de vivências
culturais com outras mais domésticas. Esse tom culto e, por vezes,
desnecessariamente adornado é, talvez, o aspecto menos interessante destes
poemas. Mas tudo se salva por uma ironia bem condimentada e por uma invejável
habilidade formal, onde o biográfico serve de contorno aos quadros do olhar.
Note-se, a título de exemplo, como o poema que dá nome à primeira parte –
"A pura verdade"
-, subintitulado "óleo sobre cimento, 534 x 261 cm", pode ser entendido como uma
autêntica lição acerca da grandiloquência do trivial: "O motor
do automóvel anda a trabalhar / num óleo no / seu lugar de garagem.
Expressionista abstracto. / Sobre bagos de óleo escuro (de / mais uma noite em
claro) dobro / os pneus do carro ao sair pela manhã apondo / ao seu Pollock
gestos de um / Gracinda Candeias. Nessa tela abstracta / (que é o concreto do
chão) os / olhos teimam em crer um archote um / fuzil / unindo as manchas mais
cruas. Também assim / esta poesia." (p. 17). Uma arte poética a lembrar-nos Agnès Varda, no magnífico "Os
Respigadores e a Respigadora" (2000),
vendo telas de Antoni
Tàpies nas
manchas de humidade das paredes da sua casa. "Luz Última", que o poeta dedica a seu pai
falecido, não é mais um livro de lamentações marcadas pela perda. É, como bem
notou Pedro
Mexia, um livro
sobre "a grande lição da morte". E essa lição é a lição do olhar, de
passarmos a olhar as coisas de uma outra maneira, talvez mais simplificadora
ou, como queria O’Neill, desinchada de importanticidade.
Buscando em tudo estes "versos da vida doméstica" (p. 49). Mesmo que o tudo sejam cheiros a
fuel, óleos de automóvel, moedas esquecidas sobre um cacifo, "um
pneu descasado / um assento / meia matrícula", "no caule da
torrente" (p. 43).
Ser poeta é isto mesmo: estar atento às coisas do mundo, não nos deixarmos
distrair. Já que a única lição que podemos esperar da morte (dos outros) se
resume à constatação de quão doloroso pode ser sentirmos a perda dos gestos que
nos escaparam.»
PEDRO DIAS DE ALMEIDA e SÍLVIA SOUTO CUNHA, Visão, 22.06.06
«Médico de profissão, este autor mantém a atenção e a pena
coerente e permanentemente ligadas à vida, essa coisa que vai acontecendo a
todos - até aos poetas. A melancolia e o quotidiano ganharam pontos à sua
vitalidade inicial. Nada se perdeu com esse rito de passagem. Assim o comprova
este livrinho, dedicado ao pai do poeta, que compila uma série de poemas
dispersos por várias publicações, muitos com dedicatórias e endereço certo.
Como "Outro Dia", da série "A Pura Verdade", que começa assim: "Deixo
agora que o dia me torne / um pouco mais dele. /Saio / até à varanda e as
chaminés dos telhados / devolvem de todas as vezes seu / pretérito fascínio".»
«O poder do insólito no quotidiano, a valência e a ambivalência, a
vida e a morte, estão presentes na última obra de João
Luís Barreto Guimarães (Porto,
1967), "como um cheiro a fuel / vindo
das docas", de uma forma
leve e impregnada. O livro é dedicado à vida, obra e morte do pai, a maioria
dos poemas foram escritos em Leça da Palmeira, a envolvência é fértil em
idealismos, memórias irreversíveis, objectos e pulsões. "A
pura verdade", primeiro
dos três livros que compõem "Luz Última" e título de um dos poemas pode ser
considerada uma arte poética. A pintura mecânica, com irradiações futuristas,
"os pneus do carro ao sair pela manhã apondo / ao seu Pollock
gestos de um / Gracinda Candeias",
aproximam o leitor da sua expressão poética, suja por vezes, demasiadamente
lúcida porque sincera, ora abstracta, ora concreta. O quotidiano, o regime das
rotinas, a circularidade do tempo, a parcimónia do "Segundo
café da manhã", as
miniaturas das conversas, negócios e tarefas, tudo isso prejudica a "dieta" mas promove a poética. Exemplo
máximo do homem pequeno e médio é o Sr. Lopes: homem profundamente social,
ardiloso, vencedor e obsceno: o elogio irónico dos indigentes. João Luís Barreto Guimarães acredita na significação do nome, na
observação sentada dos outros, na doença da poesia, embora não a deseje a
ninguém, na objectividade poética, nas coisas destapadas, e depois de muito
observar a ponte móvel sobre o rio Leça, torna-a, como quase todas as coisas,
numa ponte qualquer, porque a função distorcida da ponte não é a de permitir a
travessia, mas a de exigir o alheamento e a morte dos tempos. Nem a
globalização sentimental lhe escapa. Um Big Mac não difere muito de uma jóia ou de um
poema, quando uma jovem rapariga se atreve a saboreá-lo rua fora. Médico de
profissão, o autor de "Luz Última" estreou-se com o livro "Há
Violinos na Tribo" (1989)
e sempre demonstrou interesse na blogosfera, actualmente escrevendo no blog Poesia
& Lda com
as ilimitações próprias de quem ousa observar e absorver o quotidiano, nestes
moldes. Neste espaço João
Luís Barreto Guimarães divulga
alguns dos autores que lhe são queridos e faz jus à frase que coloca no fim do
livro, de Rui
Chafes: "andamos
a arrancar coisas ao mundo".»
JOSÉ DO CARMO FRANCISCO, Sporting,
18.07.06
«Neste sétimo livro de poemas de João
Luís Barreto Guimarães (Livros Cotovia) há
o registo de uma oscilação entre "tempo" e "memória". De um lado o tempo quotidiano:
"Os dias vão mais pequenos. As / árvores por vezes cantam é /
a música das manhãs que se espraia / como um cheiro a fuel / vindo das docas.
Porque / (sem querer) é / outro dia. Certo como fosse meu. A / mais simples
distracção tomará / alma por / lama." De outro lado o tempo da posteridade: "Ano
após ano em Dezembro a / árvore artificial / deixa o encerro da cave para ser /
a luz no frio. É um pinheiro da China. Quem / se deitar a fazer contas ao ágio
/ dessoutro negócio / (vinte e quatro mil escudos / já lá vão nove invernos) a
/ coisa / está mais ou menos por / dois contos e tal / o natal. Mau grado à sua
copa / (inerte e inodora) falte o / olor a caruma dos natais da minha infância
/ nela escuso a floresta que ficou por abater / todo um mundo aloplástico que
me / sobreviverá."»
Jornal de Notícias, 20.08.06
«No seu novo livro de poesia, João
Luís Barreto Guimarães não
se furta à habitual devoção pelo quotidiano, mas acentua o lado oficinal e
laborioso de uma escrita cada vez mais seduzida pela síntese. Em vez de
explorarem a componente lúdica, como acontecia em vários dos livros anteriores,
as observações do dia-a-dia servem agora de pretexto para uma reflexão irónica
e amarga sobre o absurdo que rege a vida colectiva. Esta transformação não faz
de "Luz Última" um livro necessariamente lúgubre,
antes reforça a crença de que as supostas trivialidades ocultam essências
desconhecidas.»
PEDRO SENA-LINO, Público,
06.10.09
«Em todas as gerações poéticas, sejam estas mais ou menos
constantes na temática e em recursos expressivos, encontramos alguns nomes que
permanecem laterais - precisamente por não constarem na sua voz as marcas mais
representativas dessa geração ou época. Muitas vezes apenas o tempo se
encarrega de encontrar nessas vozes laterais os elos de ligação que mantêm uma
tradição, ou a antecipação de linhas expressivas futuras. Mas também muitas
vezes essas vozes, apesar de se distanciarem de um grupo central, mantêm, menos
visíveis e menos fazendo depender disso a sua expressão, algumas
características da geração a que pertencem. Um desses casos é o da poesia de João
Luís Barreto Guimarães (n.
1967). Iniciando a publicar em 1989, está de pleno pé na propalada geração de
80 mas também na de 90 (o dos revelados nessas décadas, segundo proposta das
antologias geracionais que têm sido publicadas). Há marcas da poesia dos anos
80 e dos anos 90 na sua obra, desde um certo micro-realismo (os objectos, a
leitura narrativa de pequenos momentos quotidianos), à auto-referencialidade do
poema (o poema que fala do poema), a um certo tom entre a experiência gráfica e
um coloquialismo de tipo amoroso, ou irónico monólogo. Em alguns dos seus
melhores momentos esta poesia expande-se precisamente no diálogo amoroso, ou,
ainda mais, em irrupções da memória. Momentos particularmente felizes, onde a
contenção, a escolha de um ou dois motivos líricos (duas imagens que em geral
se repetem ou interpenetram) e um imaginário citadino e quotidiano situam e
descrevem, criando breves mas fulgurantes revisitações do que se perdeu mas
ainda é vivo: "Deixo agora que o
dia me torne / um pouco mais dele. / Saio / até à varanda e as chaminés dos telhados
/ devolvem de todas as vezes seu / pretérito fascínio. / Os dias vão mais
pequenos. As / árvores por vezes cantam é / a música das manhãs que se espraia
/ como um cheiro a fuel / vindo das docas. Porque / (sem querer) é / outro dia.
Certo como se fosse meu. A / mais simples distracção tomará / alma por / lama." Neste volume, "Luz
Última", esses rápidos
raspões de luz na memória estão sobretudo situados na primeira das três partes
do livro ("A Pura Verdade"),
onde também podemos ler outro poema que foge à menor força do resto do livro:
"Cada dia / pela manhã cruzámos o pátio da escola já / as
pétalas de camélia são / esboroadas / pelo chão. Toda a vez as transportamos /
(cálidas e inocentes) / atrasadas sob um arco onde tudo é / já passado / (dedos
levando-me a mão pela arte / do crescimento) / meus ossos a querer ficar efebos
/ daquele instante. Não tardará chegaremos / a tempo de as ver cair. Então /
não serei eu / a seu lado.»
MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA, I Simposio Internacional Letras na Raia, Galiza 2007
«Passaria então agora a um poeta completamente diferente, muito
menos espiritual, muito mais ligado às coisas terrenas e reais, muito mais
facilmente associado às coisas do urbano (a casa é o seu território
preferencial) do que às da natureza. Ao contrário de outros poetas da sua
geração, tem a enorme vantagem de ser aquilo a que gostaria de chamar um "poeta da melancolia positiva": muito dado à elipse e à ironia, é capaz de celebrar
poeticamente o "acontecimento mínimo" – atender um telefone, pôr um disco,
abrir uma porta, arrumar uma estante – e de transformar esses pequenos nadas
efémeros em coisas memoráveis, dominando com mestria as relações entre o
particular e o universal, o efémero e o eterno. Partindo sobretudo do
quotidiano e do doméstico, tem a sabedoria de nunca cair na banalidade e um
talento muito especial para fazer dos leitores "cúmplices
perfeitos para a partilha".
Estou a falar de João
Luís Barreto Guimarães,
que nasceu no Porto em 1967 e vive actualmente em Leça da Palmeira. É
licenciado em Medicina pela Universidade do Porto e especialista em Cirurgia
Plástica, Reconstrutiva e Estética. Publicou: "Há Violinos
na Tribo" (1989); "Rua
Trinta e Um de Fevereiro"
(1991); "Este Lado para Cima"
(1994); "Lugares Comuns"
(2000); "3"
– que engloba os primeiros três livros (2001) -, "Rés-do-Chão" (2003) e "Luz
Última" (2006). Foi ainda
responsável por uma antologia de poesia contemporânea sobre gatos intitulada
"Assinar a Pele"
(2001), traduz poesia e colabora em blogues. Quando publicou o seu primeiro
livro, que enviou ao poeta Al Berto,
este escreveu-lhe o seguinte: "Caro João Luís, fico sempre
em pânico quando me chegam livros pelo correio – são geralmente duma banalidade
execrável, duma mediocridade tal que não encontro lugar nas minhas estantes
para os arrumar. E mais, do Porto, chegam com alguma frequência umas coisas
sub-eugénio de andrade, cheias de doçuras, pastorinhos no meio dos salgueiros,
sílabas diáfanas, sexos disfarçados – coisas de que o eugénio não tem culpa,
claro – e não penses que é só do Porto que chegam essas coisas assim... Daqui
de Lisboa a onda é barquinhos à vela, cavalinhos brancos à Ramos Rosa, etc.
etc. – uma merdice completa! Por tudo o que disse atrás, foi uma grande alegria
receber o teu livro. Li-o de fio a pavio, deliciado, e, como não sou de grandes
discursos críticos – que detesto particularmente –, só posso dizer que gostei
muitíssimo do teu livro. Vou tentar seguir o teu percurso, aliás, faço
exactamente o mesmo com mais alguns (poucos) cuja escrita me interessa e
entusiasma. Juntei o teu nome a essa reduzida lista". Mas sobre toda a sua obra se teceram inúmeros
comentários laudatórios por críticos de todas as idades. Jorge Listopad chamou-lhe "um poeta
feliz que se pode estimar, amar até"
e Manuel
de Freitas falou
da sua "destreza poética em transfigurar as aparentes
insignificâncias do quotidiano". Eduardo Pitta atribuiu-lhe uma "unidade
orgânica assinalável" e Ana Marques Gastão disse que "os seus
poemas são espaços de uma confidencialidade marcada pelos afectos". No jornal Primeiro
de Janeiro escreveu-se
que "o seu percurso tem sido pautado por um sentido de
aguda observação da comunidade"
e que o seu "monólogo íntimo"
é, afinal, um "diálogo de fecundo realismo". Aparentemente simples sem o
serem, os seus poemas são emotivos sem nunca descambarem para o
sentimentalismo, e podem ser melancólicos sem nunca caírem numa tristeza
fechada em si mesma. Como escreveu Pedro Mexia a propósito do seu livro "Rés-do-Chão", João Luís Barreto Guimarães tem "uma reiterada
capacidade de escrever sobre matéria jubilosa",
o que creio ser bastante raro nos poetas de hoje.»
