LUZ ÚLTIMA

(actualizado)30 poemas
(Leça da Palmeira, 2002-2005)

1ª edição, Cotovia, Lisboa, 2006, esgotado
capa de João Botelho
direcção literária de André Fernandes Jorge

2ª edição, in «Poesia Reunida», Quetzal, Lisboa, 2011
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§


Outro dia

Deixo agora que o dia me torne
um pouco mais dele. Saio
até à varanda e as chaminés dos telhados
devolvem de todas as vezes seu
pretérito fascínio.
Os dias vão mais pequenos. As
árvores por vezes cantam é
a música das manhãs que se espraia
como um cheiro a fuel
vindo das docas. Porque
(sem querer) é
outro dia. Certo como fosse meu. A
mais simples distracção tomará
alma por
lama.


§


A viola de madeira

A viola de madeira no silêncio
do seu canto. Desafinou-a o olvido. Dias
há em que padece que a toque
como usei tocar mas
os dons daquela caixa são presente
de um passado (boémio
idealista) a que
não sei regressar. Côncava
(depois
conversa) quase cedo a pegar nela
não pelo rigor das cordas
mais
pelo cursar do madeiro.


§


Decepção à regra

Sentar-me e
ver os outros passar é o
meu exercício favorito. Entretém.
Não esgota.
É gratuito. Neste meu jogo-do-não
são os outros que passam
(é aos outros que reservo a tarefa
de passar). Lavo daí os pés.
Escrevo de dentro da vida.
Pode até parecer que assim não
chego a lugar algum mas também quem
é que quer ir
ao sítio dos outros?


§


Ponte móvel sobre o rio Leça

Imóvel na ponte aberta sobre este porto de mar
queria não ter de esperar que o petroleiro passasse
a vomitar ouro preto nos depósitos da Cepsa.
Olho as margens da tarde em informe ebulição:
o navio japonês veio dar à luz Toyotas
alinhados sobre o cais qual parada militar
(os turistas do cruzeiro aguardam pelo autocarro
que narrará em sueco memórias do Porto antigo).
Do cargueiro africano rolam troncos gigantescos
houve um que caiu à água e ninguém o foi salvar
(decerto não irá longe nestas águas estagnadas
nem poderá ir mais ao fundo).
Corre um vento de norte. Novembro
está dentro do outono. Alguém reuniu o manto
de folhas cerca da ponte mas pelo final do dia
já é outono outra vez. E
distraí-me do cais. Espera. Lá está a marinha.
A fragata da Defesa devolveu homens a terra
meio dia de licença na casa da luz vermelha
(este Natal as meninas vão-lhes dar a provar sonhos
e o porteiro: rabanadas). Se
faltavam desrazões para me obrigar a parar
aqui me têm parado (só re
parando se vê)
qualquer amurada é perfeita para resumir um país
qualquer ponte é ideal para se matar
os tempos.


§


Esposo serve vinho à mulher para almejar seus favores

Toma. Isso. Bebe tudo. É
um Porto de 85. Delidos pelo sofá deixemos
que deste vinho nos dê de beber
Dioniso. Escolher um sofá de sala
já devia precaver duas ou três características:
ser largo como o fastio
(profundo
como o quebranto) tão
longo como a preguiça. Isso. Mais?
Bebe tudo. Há
depois esses que adestram
(ébrios de vinho e poesia) o
tédio da burguesia.


§


O passeio dos mortos

The miniature gaiety of seasides
PHILIP L
ARKIN


À partida do inverno o domingo traz de volta
o passeio dos mortos. Pálidos
frios
esgotados avançam luva na luva e sobretudo
amortalhados. O muro da estrada ruiu
à entrada do estio são
os domingos do ano
(domingos de céu ímpio)
dia de irmos aos teus
familiares
ou aos meus. Nas tardes de à beira-mar
há rádios em desafio (ele há
sábados cheios daquilo que esvazia
os domingos).


§


Acto de contrição

Pela luz rara da garagem dois vultos
vão pôr o lixo. São velhos desconhecidos. Um
ao outro dão passagem (a
máscara de um cumprimento) esquivos na
escatológica arqueologia das misérias.
Homens de lixo na mão: exímios
a ocultar
versos da vida doméstica (quando
o gesto liso cabe ao avental abundante que
os devolve a casa). Há
em todo esse agravo uma redenção ferida
(um juízo resolvido) como
que
um indulto lento.


§


PEDRO MEXIA, Diário de Notícias, 10.03.06
«João Luís Barreto Guimarães escreveu muitos poemas lúdicos de tão formalistas. O volume "3 (Poesia 1987-1994)", publicado em 2001 na Gótica, inclui nomeadamente sonetos experimentais (mas acessíveis) com diversos jogos de palavras e de disposição em página. Nada disso escondia o cunho essencialmente emocional dos poemas (que evocavam os amigos, as despedidas, a idade adulta), que em livros posteriores se prolongou em anotações algo melancólicas sobre a domesticidade e o quotidiano. Talvez a inquietude formal de alguns desses poemas escondesse o seu pathos, sempre cuidadosamente sabotado. "Luz Última", construído em torno da morte do pai, deixa que esse pathos tenha maior preponderância, mas ainda assim não lhe confere nenhum monopólio. "Luz Última" é um lamento mas não é exactamente um requiem. Ou seja: não cultiva um tom lamentoso ou pungente centrado na memória e nas virtudes de quem morreu (como acontecia no "Requiem" de Jorge Gomes Miranda), mesmo porque muitos poemas são anteriores a esse facto. Existem no entanto muitos reflexos desse acontecimento e da fatal comparação entre passado e presente: objectos, gestos, ecos, uma continuidade que sobrevive com a consciência de que algo se quebrou. O que quase não existe (talvez por pudor) é o elogio ou a reconstituição demasiado precisa. Em vez disso, Barreto Guimarães considera o tempo actual (sem o pai) como de certa maneira um tempo novo, onde mais que a extinção da luz antiga se inaugura uma nova luz. A grande lição da morte é essa: vermos tudo à sua luz. E se a luz (luz última) é uma das circunstâncias destes poemas, o acto de ver é a sua ética. Logo nas epigrafes esse mandamento é mencionado: ver, anotar, deixar escrito o que acontece. O que acontece aqui não é tanto o momento escuro (a morte) mas a luz que essa morte deixou e com a qual o filho interpreta o mundo. É por isso que Barreto Guimarães regressa aos episódios insignificantes do quotidiano (uma conversa numa cantina, atravessar uma ponte, renovar o bilhete de identidade). Esses episódios têm mais sentido à luz última da morte porque é precisamente a morte que os despoja da sua trivialidade. As observações comezinhas ou domésticas, em tudo semelhantes às que encontrávamos em livros anteriores, são agora contextualizadas em termos de tom e significado. Um exemplo: "Sentar-me e / ver os outros passar é o / meu exercício favorito. Entretém. / Não esgota. / É gratuito. Neste meu jogo-do-não / são os outros que passam / (é aos outros que reservo a tarefa / de passar). Lavo daí os pés. / Escrevo de dentro da vida. / Pode até parecer que assim não / chego a lugar algum mas também quem / é que quer ir / ao sítio dos outros?" (pág. 24). Há aqui, naturalmente, uma tristeza mais funda e menos esporádica. E há, sobretudo, a noção de que a vidinha nunca é apenas vidinha por causa dos outros, a noção de que os poemas de circunstância são de certo modo os únicos possíveis, porque essa circunstância inclui a nossa vida mas também a presença (e depois ausência) das pessoas que amamos: "À partida do inverno o domingo traz de volta / o passeio dos mortos. Pálidos / frios / esgotados avançam luva na luva e sobretudo / amortalhados. O muro da estrada ruiu / à entrada do estio são / os domingos do ano / (domingos de céu ímpio) / dia de irmos aos teus familiares / ou aos meus. Nas tardes de à beira-mar / há rádios em desafio (ele há / sábados cheios daquilo que esvazia / os domingos)" (pág. 41). A isso acresce uma segurança formal renovada. Barreto Guimarães ainda se compraz em trocadilhos e outros jogos (como esse justo "vestido injusto"), mas já não é essa dimensão lúdica que mais o interessa. O trabalho de luto está aqui mais ligado a um trabalho oficinal, quase sempre minucioso, feito verso a verso, com parêntesis que comentam e modulam e com fórmulas inesperadas. E ainda com uma sucessão de nada ostentatórias artes poéticas, que aliás no final do volume se assumem como estudos e versões aprefeiçoadas. "Luz Última", sendo um livro biografista e subjectivista, é paradoxalmente um conjunto de poemas que não fecham o poeta em si mesmo mas que o deixam receptivo ao mundo. A luz (trágica) da nossa intimidade serve como chave definitiva para o mundo das coisas concretas e sem importância. Que afinal são também aquilo que mais importa: "Pela luz rara da garagem dois vultos / vão pôr o lixo. São velhos desconhecidos. Um / ao outro dão passagem (a / máscara de um cumprimento) esquivos na / escatológica arqueologia das misérias. / Homens de lixo na mão: exímios / a ocultar / versos da vida doméstica (quando / o gesto liso cabe ao avental abundante que os / devolve a casa). Há / em todo esse agravo uma redenção ferida / (um juízo resolvido) como que um / indulto lento" (pág. 49).»


FERNANDO GUIMARÃES, Jornal de Letras, 10.05.06
«João Luís Barreto Guimarães publicou agora "Luz Última", um livro de poesia; (...) Ora [este livro não anda] longe de uma sensibilidade e de uma poética que poderiam ser as de uma pós-modernidade. Recurso a um micro-realismo, a procura de um tom subjectivo, uma linguagem ocasionalmente diferida ironicamente, transgressiva, surrealizante. (...) A poesia de João Luís Barreto Guimarães prende-se geralmente ao quotidiano, ao dia-a-dia, às circunstâncias que quase não têm história. Por vezes há uma ironia que fica apenas insinuada: "É o último fim-de-semana para ir / aos dinossauros / (a cidade pôs-se em faixas para / os primos da Mongólia) os / ninhos de Oviraptor os / dentes do Tarbossauro. / A cultura vai deixar a urbe petrificada / prometemos às crianças levá-las a ver as ossadas / (ah, domingos citadinos de coprólitos e / pegadas). Todos os outros já foram ver por / ver os dinossáurios / (migrações imanadas de gerações adiadas) / na fila da bilheteira chegámos a atingir / trinta metros".»


CARLOS BESSA, Expresso, 20.05.06
«A poesia entendida como "o transbordar espontâneo de poderosos sentimentos" (Wordsworth) foi caminhando até à experimentação radical. Passado o furor desta, os modelos deram lugar aos múltiplos, com o sentido na dependência de tantas falhas, sejam as da fantasia, sejam as das aparas do quotidiano, ambas com a mesma ambição de sempre, a da partilha, a do brilho, a do mito, mas agora no terreno de uma instabilidade que deixou os polícias das letras assaz nervosos, senão mesmo à beira da mais malsã histeria. Assim, de cada vez que alguém publica livro que não projecta os ditames segundo os quais, dizem os doutos inquisidores, a poesia deve ser escrita, assistimos à verve ressentida deles e dos acólitos. Indiferentes ao ruído de fundo, uns quantos indivíduos continuam a escrever como querem, dando voz a emoções, anseios, memórias, pensamentos ou ficções particulares. Entre esses poetas têm-se distinguido os que fazem dos versos um reflexo político do que acontece à sua volta, escolham ou não o papel de protagonistas ou de personagens secundárias, o de cronistas da época ou o de "flâneurs". Mais do que uma épica do mínimo, optam quase sempre pela elegia ou por um lirismo desencantado. E à pirotecnia verbal dizem "passo". Nota-se, isso sim, um convívio mais ou menos assíduo com poéticas doutras latitudes, que por vezes adaptam para a nossa língua e de que incluem um ou outro exemplar nos seus livros, no que tem sido uma constante do melhor da nossa tradição (lembremo-nos de Camões ou de Pessoa). João Luís Barreto Guimarães, quiçá o mais barroco dos poetas que desdenham da novidade pela novidade e das babugens meta-qualquer-coisa, que reescreve, neste livro, um poema de William Carlos Williams, tem revelado um gosto particular pelo carácter lúdico dos versos e pela recriação das formas poéticas, sendo sobremaneira sensível aos jogos de palavras, às elisões, aos parêntesis e à focalização no detalhe, em situações e em objectos correntes. Processos que, juntamente com o modo breve, elíptico e metonímico com que o autor procede à enunciação de um quadro familiar, doméstico ou outro (de que "Moeda sobre o cacifo" é exemplo e que nos mostra o quão contaminada está a sua escrita pelas artes plásticas, pela fotografia, pelo cinema), contribuem para toda uma arquitectura de estranheza, mostrando que o mais insólito continua a porvir da trivialidade. De facto, o "Leitmotiv" de "Luz Última" parece ser a carência, senão mesmo a frieza e o absurdo que rege as relações e a existência humanas, algo tanto mais significativo quanto cada poema parece estar construído sob a apertada malha de uma vigilância que filtrou a impureza das emoções para fazer sobressair "a poesia que está nas coisas". Substantivação apurada aqui e ali sob os auspícios da ironia, como acontece em "Os Talentos do Sr. Lopes". "Luz Última", na sua condição de exercícios de estilo de naturezas mortas, mostra-nos que são muitos e distintos os caminhos que se trilham na poesia portuguesa mais recente, a qual é indiscutivelmente melhor quando aposta na "escatológica arqueologia das misérias" ou quando canta "qualquer coisa/ em carne viva", para grande tristeza dos inquisidores.»


HENRIQUE M. B. FIALHO, blogue INSÓNIA, 02.06.06
«"Há Violinos na Tribo", publicado em edição de autor decorria o ano de 1989, foi o primeiro livro de João Luís Barreto Guimarães (3 de Junho de 1967). Seguiram-se dois livros, todos posteriormente reeditados (e rasurados) em conjunto sob o título "3" (Gótica, Maio de 2001), onde se propunha, entre outras coisas, uma (des)construção lúdica do soneto. Essa inclinação para o jogo, marcada nos primeiros livros por uma componente formal mais precisa, nunca se perdeu na poesia de João Luís Barreto Guimarães. Ainda assim, desde o excelente "Lugares Comuns" (2000) que têm sido operadas algumas transformações (plásticas) nesta poesia. Eu diria que o essencial permanece, embora assumindo soluções formais diversas. O essencial, neste caso, resulta daquilo que quotidianamente se vai arrancando ao mundo e se pode constituir sob a forma de poesia: "a poesia está nas coisas / (pão quente) / destapa-a." (p. 27). É esse trabalho de ver, o que consubstancia o labor poético. Não de ver para além do que está, mas de conseguir ver no que está algo mais do que aquilo que nos permite um olhar distraído. Neste sentido, esta é uma poesia de olhos bem abertos. É uma poesia que busca no comezinho a luz que a insensibilidade apaga, a mesma insensibilidade que lança sobre as coisas de todos os dias uma indiferente banalidade. Epígrafes de Luís Quintais - "Diz o que vês." - e de Jorge Gomes Miranda - "Vê. Atenta. Anota." -, logo a abrir, indicam-nos o caminho. Outros autores aparecem citados (O’Neill, Luiza Neto Jorge, Philip Larkin, António Nobre), evocados (William Carlos Williams, Al-Mu’ tamid), brindados (Pedro Mexia, Adilia Lopes, João Miguel Fernandes Jorge). Há ainda Pollock, Gracinda Candeias, Dvorák, Marc Tardue, numa confluência amena de vivências culturais com outras mais domésticas. Esse tom culto e, por vezes, desnecessariamente adornado é, talvez, o aspecto menos interessante destes poemas. Mas tudo se salva por uma ironia bem condimentada e por uma invejável habilidade formal, onde o biográfico serve de contorno aos quadros do olhar. Note-se, a título de exemplo, como o poema que dá nome à primeira parte – "A pura verdade" -, subintitulado "óleo sobre cimento, 534 x 261 cm", pode ser entendido como uma autêntica lição acerca da grandiloquência do trivial: "O motor do automóvel anda a trabalhar / num óleo no / seu lugar de garagem. Expressionista abstracto. / Sobre bagos de óleo escuro (de / mais uma noite em claro) dobro / os pneus do carro ao sair pela manhã apondo / ao seu Pollock gestos de um / Gracinda Candeias. Nessa tela abstracta / (que é o concreto do chão) os / olhos teimam em crer um archote um / fuzil / unindo as manchas mais cruas. Também assim / esta poesia." (p. 17). Uma arte poética a lembrar-nos Agnès Varda, no magnífico "Os Respigadores e a Respigadora" (2000), vendo telas de Antoni Tàpies nas manchas de humidade das paredes da sua casa. "Luz Última", que o poeta dedica a seu pai falecido, não é mais um livro de lamentações marcadas pela perda. É, como bem notou Pedro Mexia, um livro sobre "a grande lição da morte". E essa lição é a lição do olhar, de passarmos a olhar as coisas de uma outra maneira, talvez mais simplificadora ou, como queria O’Neill, desinchada de importanticidade. Buscando em tudo estes "versos da vida doméstica" (p. 49). Mesmo que o tudo sejam cheiros a fuel, óleos de automóvel, moedas esquecidas sobre um cacifo, "um pneu descasado / um assento / meia matrícula", "no caule da torrente" (p. 43). Ser poeta é isto mesmo: estar atento às coisas do mundo, não nos deixarmos distrair. Já que a única lição que podemos esperar da morte (dos outros) se resume à constatação de quão doloroso pode ser sentirmos a perda dos gestos que nos escaparam.»


PEDRO DIAS DE ALMEIDA e SÍLVIA SOUTO CUNHA, Visão, 22.06.06
«Médico de profissão, este autor mantém a atenção e a pena coerente e permanentemente ligadas à vida, essa coisa que vai acontecendo a todos - até aos poetas. A melancolia e o quotidiano ganharam pontos à sua vitalidade inicial. Nada se perdeu com esse rito de passagem. Assim o comprova este livrinho, dedicado ao pai do poeta, que compila uma série de poemas dispersos por várias publicações, muitos com dedicatórias e endereço certo. Como "Outro Dia", da série "A Pura Verdade", que começa assim: "Deixo agora que o dia me torne / um pouco mais dele. /Saio / até à varanda e as chaminés dos telhados / devolvem de todas as vezes seu / pretérito fascínio".»


ANDRÉ DOMINGUES, site EDIT ON WEB, 12.07.06
«O poder do insólito no quotidiano, a valência e a ambivalência, a vida e a morte, estão presentes na última obra de João Luís Barreto Guimarães (Porto, 1967), "como um cheiro a fuel / vindo das docas", de uma forma leve e impregnada. O livro é dedicado à vida, obra e morte do pai, a maioria dos poemas foram escritos em Leça da Palmeira, a envolvência é fértil em idealismos, memórias irreversíveis, objectos e pulsões. "A pura verdade", primeiro dos três livros que compõem "Luz Última" e título de um dos poemas pode ser considerada uma arte poética. A pintura mecânica, com irradiações futuristas, "os pneus do carro ao sair pela manhã apondo / ao seu Pollock gestos de um / Gracinda Candeias", aproximam o leitor da sua expressão poética, suja por vezes, demasiadamente lúcida porque sincera, ora abstracta, ora concreta. O quotidiano, o regime das rotinas, a circularidade do tempo, a parcimónia do "Segundo café da manhã", as miniaturas das conversas, negócios e tarefas, tudo isso prejudica a "dieta" mas promove a poética. Exemplo máximo do homem pequeno e médio é o Sr. Lopes: homem profundamente social, ardiloso, vencedor e obsceno: o elogio irónico dos indigentes. João Luís Barreto Guimarães acredita na significação do nome, na observação sentada dos outros, na doença da poesia, embora não a deseje a ninguém, na objectividade poética, nas coisas destapadas, e depois de muito observar a ponte móvel sobre o rio Leça, torna-a, como quase todas as coisas, numa ponte qualquer, porque a função distorcida da ponte não é a de permitir a travessia, mas a de exigir o alheamento e a morte dos tempos. Nem a globalização sentimental lhe escapa. Um Big Mac não difere muito de uma jóia ou de um poema, quando uma jovem rapariga se atreve a saboreá-lo rua fora. Médico de profissão, o autor de "Luz Última" estreou-se com o livro "Há Violinos na Tribo" (1989) e sempre demonstrou interesse na blogosfera, actualmente escrevendo no blog Poesia & Lda com as ilimitações próprias de quem ousa observar e absorver o quotidiano, nestes moldes. Neste espaço João Luís Barreto Guimarães divulga alguns dos autores que lhe são queridos e faz jus à frase que coloca no fim do livro, de Rui Chafes: "andamos a arrancar coisas ao mundo".»


JOSÉ DO CARMO FRANCISCO, Sporting, 18.07.06
«Neste sétimo livro de poemas de João Luís Barreto Guimarães (Livros Cotovia) há o registo de uma oscilação entre "tempo" e "memória". De um lado o tempo quotidiano: "Os dias vão mais pequenos. As / árvores por vezes cantam é / a música das manhãs que se espraia / como um cheiro a fuel / vindo das docas. Porque / (sem querer) é / outro dia. Certo como fosse meu. A / mais simples distracção tomará / alma por / lama." De outro lado o tempo da posteridade: "Ano após ano em Dezembro a / árvore artificial / deixa o encerro da cave para ser / a luz no frio. É um pinheiro da China. Quem / se deitar a fazer contas ao ágio / dessoutro negócio / (vinte e quatro mil escudos / já lá vão nove invernos) a / coisa / está mais ou menos por / dois contos e tal / o natal. Mau grado à sua copa / (inerte e inodora) falte o / olor a caruma dos natais da minha infância / nela escuso a floresta que ficou por abater / todo um mundo aloplástico que me / sobreviverá."»


Jornal de Notícias, 20.08.06
«No seu novo livro de poesia, João Luís Barreto Guimarães não se furta à habitual devoção pelo quotidiano, mas acentua o lado oficinal e laborioso de uma escrita cada vez mais seduzida pela síntese. Em vez de explorarem a componente lúdica, como acontecia em vários dos livros anteriores, as observações do dia-a-dia servem agora de pretexto para uma reflexão irónica e amarga sobre o absurdo que rege a vida colectiva. Esta transformação não faz de "Luz Última" um livro necessariamente lúgubre, antes reforça a crença de que as supostas trivialidades ocultam essências desconhecidas.»


PEDRO SENA-LINO, Público, 06.10.09
«Em todas as gerações poéticas, sejam estas mais ou menos constantes na temática e em recursos expressivos, encontramos alguns nomes que permanecem laterais - precisamente por não constarem na sua voz as marcas mais representativas dessa geração ou época. Muitas vezes apenas o tempo se encarrega de encontrar nessas vozes laterais os elos de ligação que mantêm uma tradição, ou a antecipação de linhas expressivas futuras. Mas também muitas vezes essas vozes, apesar de se distanciarem de um grupo central, mantêm, menos visíveis e menos fazendo depender disso a sua expressão, algumas características da geração a que pertencem. Um desses casos é o da poesia de João Luís Barreto Guimarães (n. 1967). Iniciando a publicar em 1989, está de pleno pé na propalada geração de 80 mas também na de 90 (o dos revelados nessas décadas, segundo proposta das antologias geracionais que têm sido publicadas). Há marcas da poesia dos anos 80 e dos anos 90 na sua obra, desde um certo micro-realismo (os objectos, a leitura narrativa de pequenos momentos quotidianos), à auto-referencialidade do poema (o poema que fala do poema), a um certo tom entre a experiência gráfica e um coloquialismo de tipo amoroso, ou irónico monólogo. Em alguns dos seus melhores momentos esta poesia expande-se precisamente no diálogo amoroso, ou, ainda mais, em irrupções da memória. Momentos particularmente felizes, onde a contenção, a escolha de um ou dois motivos líricos (duas imagens que em geral se repetem ou interpenetram) e um imaginário citadino e quotidiano situam e descrevem, criando breves mas fulgurantes revisitações do que se perdeu mas ainda é vivo: "Deixo agora que o dia me torne / um pouco mais dele. / Saio / até à varanda e as chaminés dos telhados / devolvem de todas as vezes seu / pretérito fascínio. / Os dias vão mais pequenos. As / árvores por vezes cantam é / a música das manhãs que se espraia / como um cheiro a fuel / vindo das docas. Porque / (sem querer) é / outro dia. Certo como se fosse meu. A / mais simples distracção tomará / alma por / lama." Neste volume, "Luz Última", esses rápidos raspões de luz na memória estão sobretudo situados na primeira das três partes do livro ("A Pura Verdade"), onde também podemos ler outro poema que foge à menor força do resto do livro: "Cada dia / pela manhã cruzámos o pátio da escola já / as pétalas de camélia são / esboroadas / pelo chão. Toda a vez as transportamos / (cálidas e inocentes) / atrasadas sob um arco onde tudo é / já passado / (dedos levando-me a mão pela arte / do crescimento) / meus ossos a querer ficar efebos / daquele instante. Não tardará chegaremos / a tempo de as ver cair. Então / não serei eu / a seu lado.»


MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA, I Simposio Internacional Letras na Raia, Galiza 2007
«Passaria então agora a um poeta completamente diferente, muito menos espiritual, muito mais ligado às coisas terrenas e reais, muito mais facilmente associado às coisas do urbano (a casa é o seu território preferencial) do que às da natureza. Ao contrário de outros poetas da sua geração, tem a enorme vantagem de ser aquilo a que gostaria de chamar um "poeta da melancolia positiva": muito dado à elipse e à ironia, é capaz de celebrar poeticamente o "acontecimento mínimo" – atender um telefone, pôr um disco, abrir uma porta, arrumar uma estante – e de transformar esses pequenos nadas efémeros em coisas memoráveis, dominando com mestria as relações entre o particular e o universal, o efémero e o eterno. Partindo sobretudo do quotidiano e do doméstico, tem a sabedoria de nunca cair na banalidade e um talento muito especial para fazer dos leitores "cúmplices perfeitos para a partilha". Estou a falar de João Luís Barreto Guimarães, que nasceu no Porto em 1967 e vive actualmente em Leça da Palmeira. É licenciado em Medicina pela Universidade do Porto e especialista em Cirurgia Plástica, Reconstrutiva e Estética. Publicou: "Há Violinos na Tribo" (1989); "Rua Trinta e Um de Fevereiro" (1991); "Este Lado para Cima" (1994); "Lugares Comuns" (2000); "3" – que engloba os primeiros três livros (2001) -, "Rés-do-Chão" (2003) e "Luz Última" (2006). Foi ainda responsável por uma antologia de poesia contemporânea sobre gatos intitulada "Assinar a Pele" (2001), traduz poesia e colabora em blogues. Quando publicou o seu primeiro livro, que enviou ao poeta Al Berto, este escreveu-lhe o seguinte: "Caro João Luís, fico sempre em pânico quando me chegam livros pelo correio – são geralmente duma banalidade execrável, duma mediocridade tal que não encontro lugar nas minhas estantes para os arrumar. E mais, do Porto, chegam com alguma frequência umas coisas sub-eugénio de andrade, cheias de doçuras, pastorinhos no meio dos salgueiros, sílabas diáfanas, sexos disfarçados – coisas de que o eugénio não tem culpa, claro – e não penses que é só do Porto que chegam essas coisas assim... Daqui de Lisboa a onda é barquinhos à vela, cavalinhos brancos à Ramos Rosa, etc. etc. – uma merdice completa! Por tudo o que disse atrás, foi uma grande alegria receber o teu livro. Li-o de fio a pavio, deliciado, e, como não sou de grandes discursos críticos – que detesto particularmente –, só posso dizer que gostei muitíssimo do teu livro. Vou tentar seguir o teu percurso, aliás, faço exactamente o mesmo com mais alguns (poucos) cuja escrita me interessa e entusiasma. Juntei o teu nome a essa reduzida lista". Mas sobre toda a sua obra se teceram inúmeros comentários laudatórios por críticos de todas as idades. Jorge Listopad chamou-lhe "um poeta feliz que se pode estimar, amar até" e Manuel de Freitas falou da sua "destreza poética em transfigurar as aparentes insignificâncias do quotidiano". Eduardo Pitta atribuiu-lhe uma "unidade orgânica assinalável" e Ana Marques Gastão disse que "os seus poemas são espaços de uma confidencialidade marcada pelos afectos". No jornal Primeiro de Janeiro escreveu-se que "o seu percurso tem sido pautado por um sentido de aguda observação da comunidade" e que o seu "monólogo íntimo" é, afinal, um "diálogo de fecundo realismo". Aparentemente simples sem o serem, os seus poemas são emotivos sem nunca descambarem para o sentimentalismo, e podem ser melancólicos sem nunca caírem numa tristeza fechada em si mesma. Como escreveu Pedro Mexia a propósito do seu livro "Rés-do-Chão", João Luís Barreto Guimarães tem "uma reiterada capacidade de escrever sobre matéria jubilosa", o que creio ser bastante raro nos poetas de hoje.»