42 poemas
(Leça da
Palmeira, Venade e Torre da Medronheira, 2015-2018)
Quetzal,
Lisboa, 2018
capa e
fotografia de Rui Cartaxo Rodrigues
direcção
literária de Francisco José Viegas
Finalista do Prémio Livro de Poesia do Ano Bertrand 2018
Finalista do Prémio Literário Glória de Sant'Anna 2019
poema "Nómadas" - finalista do Prémio aRi[t]mar mellor poema portugés 2018
> encomendar o livro aqui.
Finalista do Prémio Livro de Poesia do Ano Bertrand 2018
Finalista do Prémio Literário Glória de Sant'Anna 2019
poema "Nómadas" - finalista do Prémio aRi[t]mar mellor poema portugés 2018
> encomendar o livro aqui.
>
encomendar e-book aqui.
§
DANIEL RODRIGUES, Colóquio/Letras, nº 200, Janeiro-Abril 2019
NÓMADA
«Composto por seis
partes de sete poemas cada, Nómada é o [décimo] título da obra do poeta João Luís Barreto Guimarães, sucedendo a Poesia
Reunida, de 2011 e Mediterrâneo (2016), vencedor do prémio António Ramos Rosa.
A cartografia traçada
em Nómada é submetida
à ação do tempo e da memória, criando uma geografia pessoal, evocada no poema
que empresta o título à recolha: «É
preciso conhecer os mapas / mais ao acaso / (jamais evitar fronteiras / nunca
ficar pra trás)». Este espaço-tempo configura
a poética do portuense, como já assinalou a crítica sobre os livros anteriores.
Apesar de cidades estrangeiras atravessarem a obra, de Paris a «lugares com
nomes / imprønünciåveis», passando pelo
campo de concentração de Birkenau, o nomadismo que se desenha ao longo dos
poemas não é somente composto por deslocamentos territoriais. O sujeito nómada também
atravessa o tempo, criando, como na lição de Deleuze e Guattari, «uma
outra justiça, um outro movimento, um outro espaço-tempo». Este outro espaço-tempo ora desliza prosaicamente com o sujeito poético, «Transporto
comigo este dia como / a sola do sapato transporta uma pastilha elástica», ora se congela no contato do ser amado – «O
que encerras num abraço quando / abraças alguém não é / um corpo: é tempo. [...]»ou como em «Nómada»: «Só o amor pára o tempo». Aliás,
o amor parece ser a única força capaz de extrair-se da dimensão temporal.
Força maior, ele
reaparece também como memória poética em «Epithalámion», «o que será o amor senão / dor de um
fogo posto?», onde reconhece-se
facilmente a subversão do tópico camoniano. Contudo, a memória sublinha sempre
o ato da enunciação poética que diz o hoje: «O amor não é mais / que o presente
(um presente absoluto)». No sexto poema
da primeira parte, «Dedos Manchados de Tinta», o amor chega mesmo a erguer-se como possibilidade única de eternidade:
«só porque está em ruínas o templo de / Afrodite não quer dizer que não /
haja amor». A relação entre o efeito
devastador do tempo e a força do amor é novamente evocado no último poema da
recolha, intitulado «Moral da história»,
onde os dois antagonistas se reúnem num só espaço, «a mesma exacta laje» do altar: «Há decerto / uma moral
oculta na sugestão de que Eros / e Thanatos / frequentam os mesmos círculos mas
/ qualquer que seja – / a vida / não melhora do que isso». O tempo de habitação no mundo, «a vida», corre assim em outra dimensão, alimentando-se simbolicamente da
mitologia evocada nos poemas, transformando-a também, isto é, dando-lhe a
medida humana, o espaço-tempo da viagem do sujeito nómada.
Se uma certa
tonalidade disfórica atravessa a obra, denunciando promessas que o tempo não
realizou, há também sobrevivências de prazeres que emergem como «um resto de champanhe que fica / para o dia seguinte /
(se lhe falta alguma força / ainda conserva o sabor)», como lemos no poema já citado «Dedos
manchados de tinta».
Assim, Nómada constrói-se em torno da transformação do
tempo em substância poética e podemos notar três estratos temporais que se
confrontam: o quotidiano, o tempo biográfico e a história. A tensão entre os
três dá corpo a pequenas narrativas, traço que também já foi assinalado pela
crítica como característica da obra do poeta. Desde o início, em «Prelúdio», o tempo cristaliza-se como matéria-prima,
em escrita negra sobre o papel, para logo após encarnar na forma de sensações
que sublinham as «coisas comuns».
O quotidiano é, assim,
evocado através das diversas formas do sentir, e é pela sensação que este passa
a ser abertura, questionamento do mundo. A poesia do tempo presente é sempre acionada
por sensações que surgem enquanto surpresa do não saber, «Fazer poemas é como ir / roubar / maçãs selvagens – /
vais à espera de doçura mas / surpreende-te a acidez.», ou enquanto um real prosaico estranhamente familiar, como no poema inicial
onde o odor revela a verdade do mundo: «E a que cheira o novo dia? / Por
ora a batata frita».
Como se trata de
captar o tempo presente, muitas vezes a fotografia é evocada. Em «Autorretrato (aos cinquenta)» o sujeito poético parte da sua experiência corpórea, «Esta dor que
hoje sinto / ontem não estava ainda»,
para projetar-se no coletivo, «Os meus amigos telefonam para / queixar-se
da doença (com o entibiar dos dias / todos vão / perdendo peças)». O poema retoma o autorretrato poético, já
trabalhado em Você está aqui (2013) com
o «Autorretrato (aos quarenta e cinco)».
Cinco anos depois, os parênteses utilizados no título permitem que o poema
escape ao subjetivismo, fazendo da experiência do eu o testemunho de uma
geração. Notemos, porém, que estes símbolos gráficos surgem como técnica em
todos os poemas, como turbilhões que inserem o sujeito nos poemas-narrativas.
Eles sugerem assim um território de errâncias e de acasos; são como fronteiras
traçadas, para logo em seguida serem atravessadas, como em «Os corvos em
Birkenau»: «O madeiro dos barracos /
(onde os mantinham à espera) / não resistiu às estações.». Os parênteses criam também diálogos com o leitor, abolindo a
distância entre as instâncias comunicativas, como em «Movimento do mundo»: «Eu errava pelo mundo e / (escuta: /
era engraçado) quanto mais errava mais / estava certo (a / própria vida parecia
que me queria / preso a si).». Muitas
vezes, podem também ser espaços onde os ritmos e a sonoridade do poema se
enriquecem, como em «O cheiro do corredor», texto em que o odor do hospital lembra a experiência de médico do
poeta, sublimando-a através do ritmo criado pela repetição da consoante
explosiva: «As cadeiras de plástico (polidas e / pacientes) aceitam
familiares», ou através de elipses que
reconstroem versos inteiros: «O medo bebe um cigarro / (fuma o terceiro
café)».
No segundo poema em
que a imagem fotográfica é convidada, «Nas photografias de outros», a técnica do retrato liga-se ao acaso,
multiplicando o eu ao infinito: «Estou presente no passado de vidas que
desconheço (homens que rumam a norte / mulheres que descem a sul) em / photos / que me prenderam a cidades
estrangeiras / [...] / Noutras / estou invisível mas sou eu por todo o lado –». Já em «A solidão dos homens cansados», a sensação de cansaço do eu dialoga com o
autorretrato para, mais uma vez, escapar ao subjetivismo, agora pela despersonalização
do sujeito: «A / cada dia que passa me sinto mais fatigado. Um / homem
procura ternura / no seu regresso a casa (um / homem não vê o instante em que
despe / o ultraje) quando / sai de pés descalços pelo soalho da tarde em /
busca de um copo de olvido».
Por conseguinte, a
posição do nómada, que insiste em habitar o presente, faz com que este se torne
testemunha de um tempo pobre. Vale notar que muitos dos poemas têm como
primeiro verso uma só vogal, figurando iluminuras empobrecidas, esvaziadas de
adornos. Este testemunho leva o leitor a posicionar-se, ele também, criticamente
face ao presente. Como em «A hipótese do cinzento», quando a radicalização da situação
política e social da atualidade faz com que, ironicamente, o poeta comente a
conformidade de uma sociedade que desistiu de afrontar os seus problemas: «Num
país a preto e branco / recomendaram-me o cinzento / [...] / [...] Com a paleta
dos cinzentos poderia / aprimorar a arte da sobrevivência que / (como os mansos
bem sabem) é / não estar vivo / nem morto».
Esta posição de resistência constrói, junto a força do amor já citada, um lugar
onde pode habitar o poeta, como em «A título de exemplo»: «Nada contra / os que quebraram / fui
alguém que resistiu – / quando julgarem-me morto / vou-lhes tomar o país».
A obra também põe em
relevo a relação do sujeito com o passado. Materializada em ruínas, esta
relação surge como uma montagem de tempos heterogêneos que se confrontam e
revelam, uma vez mais, o desconcerto do mundo. Em «As paredes em falta»,
a destruição traz à tona a perversidade dos interesses financeiros, mas é
justamente a ruína que oferece ao sujeito uma rota de viagem para criar outro
espaço-tempo: «Nos / prédios bombardeados (por exemplo nos Balcãs) / é
fácil de figurar as celas / em que vivemos. Blocos altos sem fachada / (desde
os dias da guerra) / tornam-no mais evidente: quartos cúbicos / exíguos / aos
quais falta uma parede – / essa que dá para a fuga / que mostra a liberdade. [...]». As cidades atravessadas pelo sujeito
nómada, que se opõe à estratégia capitalista, são também atravessadas pela
memória que guardam o suicídio de Paul
Celan no rio Sena, as torres gêmeas em Nova Iorque, os jogos olímpicos nas
ruínas gregas. E a posição crítica do sujeito não se manifesta apenas pela
denúncia, podendo ser revalada pelo humor, como em «O nome dos batoteiros», quando a visão da «ala dos batoteiros» na Archaia Olympia o faz dialogar com o
leitor: «a quem não apraz a ironia com que o tempo / fez justiça / (essa má
eternidade com que ficam na memória) / o elogio ao contrário com o qual /
entram na história?».
Este nomadismo
temporal traça, ao longo de cada uma das seis partes, um tratado sobre o
presente, com a consciência de que o passado ainda se manifesta nos estímulos
que tocam o sujeito nómada, a tal ponto que
este último se torna o suporte onde se inscreve os fluxos temporais, «[...] O tempo é implacável: crava / esses riscos na pele
apenas / para castigar / eu ter desleixado o gesto que lhe dava existência», sem que a cartografia destes fluxos, o
mapa desta viagem, ultrapasse o espaço da vida quotidiana, posto que, como
lemos nos últimos versos já citados do poema final: «a vida / não melhora mais do que isto».»
JOSÉ DO CARMO FRANCISCO, Gazeta das Caldas, 16.11.2018
"Nómada"
«João Luís Barreto Guimarães (n. 1967) assina nos seus livros de poemas desde 1989 ("Há Violinos na Tribo") uma muito própria espécie de cartografia poética do "eu" e do Mundo. O seu ponto de partida é o "eu" como no poema "Auto-retrato (aos cinquenta)": " A doença anda aí (rondando os da minha idade) / não sei o que tem esta idade que / tanto apraz à doença / (mesmo aqueles que a vencem ficam / com o corpo avariado)". À volta do "eu" prospera o Mundo e a sua "A hipótese do cinzento": "Num país a preto e branco / recomendaram-me o cinzento. Um recurso / extraordinário. Com a hipótese do cinzento poderia ensaiar soluções inusitadas - / experimentar o morno (...) explorar o lusco-fusco (...) praticar a omissão (...)". Este é o Mundo (por exemplo) do "Sr. Lopes" e do "filho do Sr. Lopes" (...) no qual ambos dizem o mesmo por outras palavras: "poetas é gente que só pensa / gente que não faz mais nada". Tal como a empregada doméstica da Quinta de Vale de Lobos falando do senhor Alexandre Herculano: "o senhor passava o dia a ler e a escrever, era um mandrião."
Um belo livro que oscila sempre entre o coloquial ("Pelas duas da manhã o gato leva-me à cozinha para me dar de comer") e a filosofia, entre a canção e a reflexão, entre a superfície e o fundo: "Só o amor pára o tempo só nele perdura o enigma (lançar pedras sem forma e o lago devolver círculos)".
ANTÓNIO CARLOS CORTEZ, Jornal de Letras, 24.10.2018
«João Luís Barreto Guimarães (n. 1967) assina nos seus livros de poemas desde 1989 ("Há Violinos na Tribo") uma muito própria espécie de cartografia poética do "eu" e do Mundo. O seu ponto de partida é o "eu" como no poema "Auto-retrato (aos cinquenta)": " A doença anda aí (rondando os da minha idade) / não sei o que tem esta idade que / tanto apraz à doença / (mesmo aqueles que a vencem ficam / com o corpo avariado)". À volta do "eu" prospera o Mundo e a sua "A hipótese do cinzento": "Num país a preto e branco / recomendaram-me o cinzento. Um recurso / extraordinário. Com a hipótese do cinzento poderia ensaiar soluções inusitadas - / experimentar o morno (...) explorar o lusco-fusco (...) praticar a omissão (...)". Este é o Mundo (por exemplo) do "Sr. Lopes" e do "filho do Sr. Lopes" (...) no qual ambos dizem o mesmo por outras palavras: "poetas é gente que só pensa / gente que não faz mais nada". Tal como a empregada doméstica da Quinta de Vale de Lobos falando do senhor Alexandre Herculano: "o senhor passava o dia a ler e a escrever, era um mandrião."
Um belo livro que oscila sempre entre o coloquial ("Pelas duas da manhã o gato leva-me à cozinha para me dar de comer") e a filosofia, entre a canção e a reflexão, entre a superfície e o fundo: "Só o amor pára o tempo só nele perdura o enigma (lançar pedras sem forma e o lago devolver círculos)".
ANTÓNIO CARLOS CORTEZ, Jornal de Letras, 24.10.2018
Sem mácula, com mágoas
«Quando se diz que determinado livro é o melhor livro dum autor,
o que se pretende, de facto, sublinhar? A diferença de estilo relativamente a
outros anteriores? A visão de mundo, agora mais densa e aprofundada? A
capacidade de construir uma linguagem – uma sintaxe, uma semântica – que
desafia o leitor a descobrir nesse autor uma voz outra, uma diferença de
temperatura (a metáfora de Ruy
Belo é sempre instigante) se
comparado com outros autores da mesma geração ou outros momentos da própria
obra? No caso de João Luís
Barreto Guimarães este novo
livro, Nómada,
corresponde ao momento mais alto desta poesia, não exactamente porque haja uma
evolução da temática – um alargamento dos temas que configuram um universo de
obsessões, de reiterações, de ideias (Jacinto do Prado Coelho é quem melhor esclarece a noção de
tema e motivo a partir das definições iniciais de Ernest Robert Curtius) – mas porque, a partir de uma visão do
mundo marcada pela ironia amarga ou pela nostalgia complacente, os temas de
sempre desenvolvem-se com uma sageza e uma tensão inesperadas.
O título é, de resto, sintomático: “nómada”
é a poesia que aqui se grava; nómada na sua rima interna (magistral lição de
ritmo e rima no belíssimo poema “Autorretrato (aos cinquenta)”; nómada
na métrica escolhida, isolando artigos definidos que são curiosos ou
excêntricos incipit;
nómada porque os poemas são as fotografias onde o leitor poderá ver cenas da
História (“Os corvos em Birkenau”: Os / vagões que aqui chegavam / partiram
para outros lugares. O madeiro dos barracos / (onde os mantinham à espera) /
não resistiu às estações. […] / As próprias câmaras de gás (hoje / um monte de
ruínas) podiam passar a ideia de / que nada se passou. Mas eles / já vestem de
negro para não deixar esquecer. […]”), para além do sábio uso de orações
parentéticas que funcionam como apartes a uma voz central que comanda o
discurso. Alguns momentos de intimidade entre a voz que escreve e o olhar que
vê, há nesta poética certos saltos de sentido que agudizam a interpretação dos
factos, fazendo do texto o lugar de uma coloquialidade distanciada, atento à
minúcia da construção poética como arquitectura, coisa a engendrar-se.
O poeta sabe equilibrar a descrição realista com a inquirição de
estados de alma sem que o poema corra o risco de cair em solipsismos ou em
exposições comprometedoras. A estratégia que reclama é a da citação, ou a da
paráfrase, num universo de referências onde a poesia continua a ser fiel a uma
elegíaca expressão de si mesma: “Hoje
seria / um mau dia para Celan se suicidar. / Demasiados turistas. Meia Paris
veio ver as / águas altas do Sena e há muita agitação / (escassa privacidade)
difícil / pensar a questão como a colocou / Camus se / cada vida humana merece
/ (ou não) ser vivida. / A resposta está à vista. A resposta está / no rio.
Hoje é / o próprio Sena que tenta a vida cá fora e / quer experimentar as
praças” […]. O que ressalta
desta dicção ora irónica, ora merencórica, é o trabalho exercido ao nível do
verbo, elipticamente tratado. A sustentar a personificação dum espaço (Paris),
a hipotipose (“veio ver”), e um parêntese onde o comentário sobre a “escassa
privacidade” logo se precipita para um arrazoado – uma cadeia lógica em que
os elementos de ligação se eliminam – sobre a questão de Camus e do problema central da vida humana,
tal qual anunciado no célebre O
Mito de Sísifo, o suicídio.
Barreto Guimarães tem – dissemo-lo já – um alto
momento de poesia nos textos onde a inquirição sobre si própria se tece de um
rigoroso fabrico versificatório. O sujeito como que pondera as armas a usar
para se retratar; e “retratar” no duplo sentido – fazer o seu retrato, desenhar
a sua figura e procurar, em clave irónica ou não, a redenção: “A / doença anda aí
(rondando os da minha idade) / não sei o que tem esta idade que / tanto apraz à
doença / (mesmo esses que a vencem ficam / com o corpo / avariado). Esta dor
que hoje sinto / ontem não estava ainda / (vai procurando um lugar como / quem
desafia a paciência) / qual figura de xadrez passando daqui / para / aqui. Os
meus amigos telefonam para / se queixar da doença (com o entibiar dos dias /
todos vão / perdendo peças) / quem de nós nunca morreu que atire / a primeira
terra.”
Tal como exige a gravidade do tema, para além da sugestão e ecos
da tradição (quem nunca fez determinada coisa, que atire a primeira pedra), é o
próprio texto que, verso a verso, saltando dum “aqui”
para um “ali”, ou vice-versa, vai também, como corpo verbal, “perdendo
peças”. Palavras, sintagmas, nós que articulam o pensamento (conjunções,
locuções), perdem-se, evolam-se. A escassez de cada uma das partes participa
dessa estética da perda, desse modo de um texto, como máquina partida ou
disfuncional, se apresentar como animal ferido, cheio de zonas laterais, de
comentários avulsos.
Não é esta uma poesia delicodoce, ainda que seja delicada na
extrema engenharia dos seus versos, no modo como, entre Montmartre e uma
arranha-céus, entre Altamira e os derrotados da poesia (os que ficam em segundo
lugar no suposto panteão das rimas e das estrofes), o sujeito ora se faz
narrador distanciado e cheio de bonomia para com a Cidade e o Mundo, ora
agónico sujeito em processo de deflação do engenho. Num dos momentos finais
deste livro a reler, a questão do eu perdido em si mesmo revela-se. Trata-se de
um poema que poderia figurar como legenda num quadro de Rembrandt, num dos seus
autorretratos. Com isso é já um programa de linguagem que Barreto Guimarães propõe aos seus contemporâneos – de
linguagem e de visão de mundo. “Nas photografias de outros”, eis a legenda: “Estou
presente no passado de vidas que / desconheço (homens que rumam a norte /
mulheres que descem a sul) em / photos / que me prenderam a cidades
estrangeiras / onde o meu rosto ficou retido” […]. Nessa confrontação com o
passado, aí reside a poesia do autor de Luz
Última (2006), sem
nunca apagar a força que vem da aliança entre narratividade e construção
rigorosa dos ritmos e dos sons.»
ÂNGELA SARMENTO, in A Europa face à Europa: poetas escrevem a
Europa. ILCML, Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa, Faculdade de
Letras da Universidade do Porto, 2018.
João Luís Barreto Guimarães
«(…) João Luís
Barreto Guimarães escreve “de
dentro da vida”; a Europa que descreve parte de uma realidade física e política,
concreta e referenciável, mas ultrapassa-a. É uma Europa de habitante,
percorrida, sentida, vivida, logo, rememorada, pensada, construída por um
sujeito, ele próprio em formação, numa espécie de Bildungspoesie que alia a injunção identitária do
oráculo de Delfos – conhece-te
a ti mesmo – à herança
da Odisseia inaugural, no encalço da
literatura e da cultura europeias, com especial enfoque para Portugal.
Do primeiro ao quarto andamentos [da sua obra], seguimos os
“rituais serenos” de um enunciador que, em busca de si, (se) vai encontrando
(n)a sua “tribo”, reconhecendo-se herdeiro de um património, ao mesmo tempo que
se assume livre e responsável pela sua construção. Começa por se fundir com a
cidade (poderia ser o Porto), numa cosmovisão quase mítica. Experimenta ruas e
sonetos (dialogando com Camões, Álvaro de Campos, Concretismo);
frequenta poemas em prosa, que melhor se ajustam aos “jogos de decifração” e
multímodo desassossego (Bernardo Soares, Baudelaire) do canto da uma
mesa de Café (“Café Corcel, Porto, 1994-1995”). Habitante de um
rés-do-chão, relata, em verso livre, histórias de felicidade conjugal (Egito
Gonçalves, Alexandre
O’Neill, Cesário Verde);
torna-se pai, não deixando de ser filho; contudo, será perante a perda do pai
(e de Deus?), num “país perdido” (citando Camilo
Pessanha), que alcança o auge da maturidade, e se assume a parte pelo todo. “[T]hen the
letting go” dickinsoniano, numa espécie de escatologia íntima (e social), o
deixar-se ir em viagem por cidades estrangeiras, muitas das quais europeias. A
um adensamento anímico segue-se um condensar de referências: históricas,
políticas, culturais, artísticas.
É nesta inscrição no espírito humanista europeu que se encontra
a convocação explícita e polissémica da Europa.
Logo no início da obra, em referência a Saramago,
a uma jangada, ao Tratado de Tordesilhas, a um “país / em vias de extinção”
perante a vinda de um “outro dinheiro”, reconhecemos, depois da entrada de
Portugal na CEE (1986), alusões ao projeto de construção da União Europeia
(1992) e às consequências geo-políticas e económico-sociais decorrentes, como a
circulação da moeda única (2002). Adiante, torna-se explícito o distanciamento
de Portugal face a determinados países que sinedoquicamente constituem uma
Europa descrita em oscilação, com conotações quer positivas (lugar central,
promotor de crescimento), quer negativas (centro financeiramente superior, mas
distante, dos usurários ricos da Europa do Norte). Em contraste, Portugal é
considerado “Europa / de ouropel”, aparentemente incluído no grupo, mas, na
verdade, preterido pela sua aparência ilusória, enganosa, de país encarnado por
uma figura atávica, o “sr. Lopes”, que atravessa os livros desde Luz Última, e se repete n’ “O
filho do sr. Lopes”. É ainda convocado o fenómeno das contra migrações, tão
europeu desde quinhentos, e de novo tão atual: estrangeiros, turistas; o avô
emigrante, imigrantes de leste; refugiados. O enunciador simpatiza com os
oprimidos; por isso, nas suas travessias (físicas e mentais), não encontramos
nomes dos vencedores ou dos “batoteiros”; prefere “os heróis sem nome ao / nome
dos grandes heróis”. A par destas referências à atualidade, deparamos com “a
própria miséria humana” n’“[o] lodo da História”: seja na figura dos “Judeus
errantes”, como no poema que cruza o êxodo dos israelitas do Egito com a
deportação mais recente dos judeus para Auschwitz; seja “[n]os / prédios bombardeados
(por exemplo: nos Balcãs)”; seja ainda no terrorismo que originou “a última
viagem / de Ícaro”, do “alto / das torres gémeas”. Em 2013, Barreto Guimarães cita os cinco axiomas que compõem a
“ideia de Europa” apresentada em 2004 por George
Steiner: “Cafés. Nomes de ruas (de historiadores, filósofos, políticos,
heróis). Deambular (curtas distâncias). Tradição judaico-cristã e tradição
grega. Escatologia da Europa (guerras mundiais e dos Balcãs)”. Com desvios
pessoais, o poeta complementa esta síntese em vários livros, até
antecipadamente - Lugares
Comuns, de 2000, é “todo passado à mesa do café”. Conclui o próprio Steiner: “por fim, a apreensão
de um capítulo derradeiro, daquele famoso ocaso hegeliano que ensombra a ideia
e a substância da Europa mesmo nas suas horas mais luminosas. // E a seguir?”.
Numa mensagem política à situação do país
“a preto e branco”, o enunciador considera a partida: “[s]e ao fim do dia
perguntas para / onde foi o dia inteiro / é a hora de partir (não ficar preso
ao naufrágio / esperando um milagre na praia / […])”. Contudo,“[a] título de
exemplo”, a opção do sujeito poético é a dos que ficam: “[n]ada os que partiram
eu / fui alguém que ficou”. Perante opiniões tão lucidamente críticas, não se
consideraria falar em “sebastianismo” na poesia de Barreto Guimarães; todavia
recorde-se que, no início, o enunciador confessa (não sem ironia): “(estou para
revelar isto há já muitos / poemas) um dia el-rei voltará: Sebastião rapaz /
por onde tens andado?”. E, aproveitando a metáfora marítima, acrescenta, com
ecos pessoanos: “da varanda vê-se o rio mas um rio: será tudo? não / há outros
oceanos a descobrir apenas: pequenas / águas dias perturbados cumprindo um
canto”. Não surpreende, portanto, que no quarto andamento, acreditando na “arte
do recomeço”, o sujeito poético exiba ainda uma ardência, dir-se-ia,
revolucionária (“ao lado de / Jean Valjean”: “fui alguém que resistiu – /
quando me julgarem morto / vou-lhes tomar o país”. De novo, a confluência das
“duas Europas" que têm condicionado o imaginário português: “a ibérica,
castiça, mística e lírica” e “a central e nórdica, do mercado, da modernidade e
da ciência”.
Esta mesma posição conciliadora encontra-se em Mediterrâneo, livro (e
lugar) que remete para as origens. Inicialmente motivado por uma crítica “à
atitude de alguns países do Norte da Europa em relação aos países do Sul” e,
assim, considerando Mediterrâneo e Europa quase disjuntivamente – “desde o
sítio onde a oliveira começa até ao sítio onde a oliveira já não cresce mais.
Onde deixa de ser o vinho a bebida preferencial e passa a ser a cerveja. Onde
deixa de ser o catolicismo a religião principal e passa a ser o protestantismo”
– Barreto Guimarães assume, afinal, uma atitude
contemporizadora: “[p]ortanto, o livro move-se nessa geografia e tem um espetro
temporal de mais de dois mil anos. E mostra […] que, afinal, vimos todos de um
caldo comum, desta História”. No regresso das viagens pela Europa surgem pois,
também, “epifanias” encontradas “no bolso do casaco”: bilhetes ou rememorações
de visitas a museus; a admiração por obras de arte, e mesmo a sua transposição
intersemiótica para poemas de índole metafísica ou política (intertextualidade
com Metamorfoses de Jorge de Sena ou Movimentos
no Escuro de José Miguel Silva), ou ainda a
sua transferência para seres ou situações reais transportados para o poema: por
exemplo, “Modigliani”. Das obras de arte como dos museus, não são o título nem
o reconhecimento institucional que interessam, mas a incipiência dos artefactos e das
coleções, a curiosidade,
as maravilhas singulares e singularizantes que suscitam e de que resultam; “o
dom [subjetivo] da imaginação / que permite figurar tudo quanto desfigura”.
(Lembre-se que os cabinets de
curiosités ou cabinets of wonder, foram os
precursores dos museus - cf. “Cabinet de curiosités”). Nas suas
errâncias, interessa ao sujeito poético surpreender o real, em “Sicília” (nome
de ilha, que facilmente evoca um nome feminino), com ressonâncias de Cesário Verde e Eugénio
de Andrade, e de uma densa carga erótica (que perpassa os poemas desde o
início da obra), ou em Veneza, por exemplo, “onde o belo é simetria / e o
tempo: / duração”, na presença natural (ou literária – cf. Manuel António Pina; ou talvez natural e literária) do gato: “este felino
/ que me incendiou a alma / […] / […] e / me devolveu a certeza de que a /
perecível beleza por uma vez / foi palpável”.
Como sobrevivência “à nossa própria desumanidade suicida”, Steiner) defende que a
dignidade humana se encontra precisamente na “percepção da sabedoria”, na
“demanda do conhecimento desinteressado”, na “criação de beleza”, e acrescenta
que “[é] porventura apenas na Europa que as fundações necessárias de literacia
e o sentido da vulnerabilidade trágica da condition
humaine poderiam
constituir-se como base”. Com uma visão laica, o pensador franco-americano
sugere que a Europa ocidental ponha em prática um humanismo secular, pois “[é]
entre os filhos frequentemente cansados, divididos e confundidos de Atenas e
Jerusalém que poderíamos regressar à convicção de que ‘a vida não reflectida’
não é efectivamente digna de ser vivida”. Encontramos uma alternativa ecuménica
(em sentido lato) em “Igrejas da Europa”, onde se lê a celebração da vida nos
sinos de uma igreja católica que “já foi / um templo pagão (usada / como
celeiro / teatro / prisão e paiol)”, e cujos “muros foram somando / lições de
arquitectura (Gótico / sobre Românico / Barroco sobre Renascentista) dando vida
/ à língua morta com que estas paredes / rezavam”. Talvez possamos estender
esta prece a toda a poesia de Barreto
Guimarães, e ver nestes muros a presença edificada da Europa, (re)visitada
e (re)unificada no espaço e no tempo por um sujeito poético nómada.
A Europa da poesia de João
Luís Barreto Guimarães resulta
de uma articulação muito própria (exemplar; já consagrada) de todas as
pluralidades que convergem aqui, neste último poema como na obra. Servindo-nos
de um jogo recorrente nas composições do início, poderíamos dizer que se trata
de uma Europa do sul, do sol e do sal. Europa do
sul, nesse sentido
metafórico, de origem mediterrânica, não necessariamente excludente da Europa
setentrional. Europa do sol,
da celebração solar da vida, apesar da densidade escatológica e metafísica
final. Europa do sal, “o
sal da língua”, tão ao gosto de Eugénio
de Andrade, “cum grano salis”, a ironia, o humor, ingredientes de tantos
poemas. E o amor. Talvez a solução aqui proposta para a Europa e para a vida
esteja, afinal, na re-ligação amorosa. Sem totalitarismos, com liberdades –
também poéticas –, todas as derivas e errâncias do sujeito podem encontrar
refúgio na comunicabilidade de uma poesia plena de confluências e articulações:
retóricas, literárias, físicas, históricas, económicas, sociais, políticas,
culturais, religiosas, míticas, afetivas. Talvez o abraço amigo, o abrigo mais
necessário, seja a aceitação na diferença demonstrada por uma poesia oximórica, onde a “ ‘metáfora / resiste
à metonímia’ ”. Nela, não é a lógica da identidade que impera, mas a
experiência do mundo através da diferença. Será isso o amor, que o sujeito
poético busca nas suas variadas formas, desde as origens. O amor filial, o amor
à sua tribo, o amor conjugal, o amor paterno, o amor fraternal e solidário. Omnia vincit amor. O amor
supera tudo. Continua a ser verdade. “Só o amor pára o tempo (só / ele detém a
voragem)”. Nem que seja por uns instantes: “o amor inventa uma maneira
diferente de durar na vida. […] Porque, todos o sabemos, o amor é uma
reinvenção da vida” (Badiou). “[O] amor não escolhe entre dois / não
anula: o / amor duplica”. “É preciso reinventar o amor” (Rimbaud). É
preciso reinventar a Europa. “Eurôpé” – ‘aquela que tem grandes olhos’ (Martins).
O enunciador, em busca de si, da sua identidade, entra em relação com o
movimento do(s) mundo(s) que o circunda(m), atento ao pormenor, à falha e às
possibilidades de desvio, de re-ligação. “Assim ele vai”, não “corre” (como o pintor da vida moderna baudelairiano), mas
“re-para”. É preciso “re-parar”. Talvez seja este o repto de João Luís Barreto Guimarães:
não o rapto da Europa, mas a Europa do(s) amor(es) con/sentido(s).»
LUÍSA OLIVEIRA, Visão, 9.08.2018
Nómada
«Quem não precisa de um manifesto a favor da "verdade
que existe nas coisas comuns"? Uma bela ideia que podemos encontrar no
último livro de poesia lançado pelo autor de Mediterrâneo (2016).
Com uma linguagem sempre próxima de quem o lê, investida pelas paisagens
quotidianas, João Luís Barreto Guimarães dá conta da passagem
do tempo e das transformações que este traz.»
FERNANDO GUIMARÃES, Jornal de Letras,
18.07.2018
CAMINHOS PARA A IRONIA
«No limiar do mais recente livro de João Luís Barreto
Guimarães (JLBG) há uma epígrafe de Jaroslav Seifert:
"A realidade é totalmente diferente e muito pior ainda".
Desce aqui a sombra que parece criar em relação aos poemas deste livro um
envolvimento disfórico, pessimista. Mas algo mais acompanha esta sombra. É o
imprevisível. O imprevisível aqui cria um envolvimento ou, melhor, uma
figura cujo sentido é o da ironia.
SÉRGIO ALMEIDA, Jornal de Notícias,
29.6.2018
TUDO QUANTO CABE NUM SÓ POEMA
Novo livro de João Luís Barreto Guimarães confirma a excelência
da sua obra poética
«A realidade como matéria-prima. Ponto de partida e de chegada.
Meio, princípio e fim de tudo. Eis o que move cada vez mais João Luís
Barreto Guimarães, autor que parece ter apreendido a lição do conhecido
poema "Não há vagas", de Ferreira Gullar,
ainda que virando-o do avesso: "O preço do feijão não cabe no
poema / não cabem no poema o gás / a luz / o telefone / a sonegação do leite /
da carne / do açúcar / do pão".
FERNANDO SOBRAL, Jornal de Negócios,
16.6.2018
OLHARES ATENTOS SOBRE O MUNDO COMUM
«João Luís Barreto Guimarães tem, ao longo dos anos,
construído um território muito próprio dentro da poesia portuguesa. São
acontecimentos do dia-a-dia que espoletam o seu olhar acutilante sobre os
labirintos das vidas comuns. Há aqui uma simplicidade complexa sobre o nosso mundo
de dúvidas e de sonhos. "Porque/se uma chave em
concreto consegue abrir/a memória/acaso consegue uma ideia (tac!) abrir
uma porta em concreto?" Um mundo nómada a descobrir.»
JOÃO CÉU E SILVA, Diário de
Notícias, 2.6.2018
«Nómada veio confirmar João Luís Barreto
Guimarães como um dos principais poetas da língua portuguesa.»
JOSÉ MÁRIO SILVA, Expresso,
26.5.2018
O REAL ENTRE PARÊNTESIS
«Na primeira das seis partes que compõem "Nómada", João
Luís Barreto Guimarães ensaia uma poética: "Fazer poemas
é como ir / roubar / maças selvagens - / vais à espera de doçura mas /
surpreende-te a acidez." O conhecimento das coisas nasce de uma
disponibilidade para ver, explicitamente assumida: "Escolho o /
mundo / com as pálpebras (abrindo e fechando os olhos) / escolher é excluir /
excluir é entender. " Antes de ser um mecanismo de palavras, uma
tentativa de construir sentido, o poema persegue "o que ainda não
existe" e decide "se enfeita (ou não) o real."
PEDRO ABRUNHOSA, Festival Literário
Literatura em Viagem, Matosinhos, 12.5.2018
Excerto da apresentação de "Nómada"
«(...) Em primeiro lugar, o fascínio que fica da leitura deste
livro, o fascínio que fica da sensação que provoca a leitura desta poesia. A
poesia é um fluir, é um sucedâneo de emoções, e é um sucedâneo de emoções que
decorre do usufruto das sensações que o autor vai colocando no papel, como o
encadear, digamos assim, da desrealização da realidade, que é o que faz um
autor. O João Luís Barreto Guimarães que é um imenso poeta – e
quando eu digo poeta digo-o no sentido adjectivo, não num sentido subjectivo –,
é alguém que certamente já marcou a poesia contemporânea portuguesa e,
portanto, constrói um universo muito cedo, uma identidade, uma impressão
digital fortíssima que decorre de uma postura humana e uma postura artística
que, de resto, se não houver essa coincidência entre ambas, nem sequer existe;
o artista é aquele que tem uma visão e que a partilha. E este poeta do
quotidiano, se me permite o João Luís - não sei se o posso
chamar assim porque é poesia do quotidiano mas é um quotidiano profundo, é uma
observação que vai, como poderão ver neste livro, que vai desde a cidade que
juntos, muitos de nós comungamos, o Porto, e muitas outras pelas quais o João
Luís passou, também por isso o livro se chama “Nómada”
-, mas é uma observação do quotidiano, do gesto quotidiano, da presença da
banalidade na nossa vida que pode até ser a banalidade do trágico; há aqui uma
poesia que a mim me marcou muito “Os corvos em Birkenau” (...), a
realidade, digamos assim, que a arte, que a suprema arte tem no contraditório
do Mal.
