NÓMADA


42 poemas
(Leça da Palmeira, Venade e Torre da Medronheira, 2015-2018)

Quetzal, Lisboa, 2018

capa e fotografia de Rui Cartaxo Rodrigues
direcção literária de Francisco José Viegas

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LUÍSA OLIVEIRAVisão, 9.08.2018
Nómada
«Quem não precisa de um manifesto a favor da "verdade que existe nas coisas comuns"? Uma bela ideia que podemos encontrar no último livro de poesia lançado pelo autor de  Mediterrâneo (2016). Com uma linguagem sempre próxima de quem o lê, investida pelas paisagens quotidianas, João Luís Barreto Guimarães dá conta da passagem do tempo e das transformações que este traz.»


FERNANDO GUIMARÃESJornal de Letras, 18.07.2018
CAMINHOS PARA A IRONIA
«No limiar do mais recente livro de João Luís Barreto Guimarães (JLBG) há uma epígrafe de Jaroslav Seifert: "A realidade é totalmente diferente e muito pior ainda". Desce aqui a sombra que parece criar em relação aos poemas deste livro um envolvimento disfórico, pessimista. Mas algo mais acompanha esta sombra. É o imprevisível. O imprevisível aqui cria um envolvimento ou, melhor, uma figura cujo sentido é o da ironia.
O papel da figuração irónica é muito importante na obra deste autor. Ele proporciona o aparecimento de um outro texto, isto é, um sentido que é virtual. Por vezes este segundo texto passa por um outro que é o que decorre do reiterado uso de parêntesis que proporcionam não raro uma certa deriva de sentidos. Isto pode ver-se através da leitura do seguinte poema: "Só o amor para o tempo (só / ele detém a voragem) rasgámos cidades a meio (cruzámos rios e lagos) [...] É preciso conhecer os mapas / mais ao acaso (jamais evitar fronteiras / nunca ficar para trás) / tudo nos deve assombrar como / neve / em Abril. Só o amor para o tempo só / nele perdura o enigma / (lançar pedras sem forma e o lado / devolver círculos)."
Num outro poema - onde os parêntesis também ocorrem, até no seu título que é "Auto-retrato (aos cinquenta)" - a referida deriva de sentidos fica mais evidenciada: alude-se à doença "que anda por aí rondando os da minha idade)", a esta "dor que hoje sinto" para, ao terminar o poema, dirigir esta exprobração: "quem de nós nunca morreu que atire / a primeira terra" (o que nos conduz à narrativa bíblica em que "morrer" é pecar e "terra" é pedra). Fala-se daqueles que estão sujeitos à dor, à doença como se precisamente ocorresse - e há aqui uma outra fuga textual, embora implícita - o contrário do tão conhecido poema de Fernando Pessoa em que o poeta é o "fingidor" que "chega a fingir que é dor / a dor que deveras sente". Abre-se então uma fenda, estabelece-se uma diferença. Será a de uma poética que algo tem a ver com a modernidade de que o surrealismo parece ser a última vanguarda ou, em alternativa, a que seria a do pós-modernismo?
É bem sabido como a pós-modernidade aposta numa subjectivação do discurso literário. Esse subjectivismo está presente na poesia de JLBG? Está. E basta reparar na instância da primeira pessoa nos seus poemas. Mas o poeta sabe dar-lhe uma outra orientação expressiva. Como? Recorrendo precisamente à figuração irónica.
A ironia nestes poemas torna-se lúdica. São um jogo com o improvável, o insólito, mas também nunca deriva para o nonsense de um imaginário que seria a dos sentidos impossíveis a que se entregou o surrealismo. A título de exemplo leia-se este exemplo que até se intitula "A título de exemplo": "Nada contra os que partiram eu / fui alguém que ficou. Apontaram-me o dedo / (dei o meu corpo à mira) / vieram pelo meu posto / esvaziei-lhes o lugar. Nada contra / quem calou / eu fui um dos que falaram - / ataram-me os pés com corda / (com as pontas fiz um laço) / destinaram-me a um canto / redecorei-o de flores. Nada contra / os que quebraram / fui alguém que resistiu - / quando me julgarem morto / vou-lhes tomar o país".
Passa por este poema, embora esteja na primeira pessoa, um sentido que desde logo se afasta do que seria uma expressão afectivamente agitada, de um desacordo emocionado quanto aos outros e que tão característico é de uma subjectividade que tanto poderia ser romântica como pós-moderna. Poderíamos dizer que no poema em questão o subjectivo objectiva-se.
Este sentido de objectividade, que assenta no espaço verbal dos poemas, vai ao encontro de uma coloquialidade que neles tantas vezes ocorre. Ela não é aquela que vem de uma tradição que seria a do "mal-dizer" dos Cancioneiros medievais e que há de chegar à ironia sarcástica e sentimental de Alexandre O'Neill. Pelo contrário, neste livro como em outros anteriores, cada poema é uma pequena narrativa. Há uma diegese que progressivamente se desenvolve ou circula, criando uma deriva de sentidos, recorrendo-se por vezes ao já referido uso dos parêntesis que podem mesmo abrir-se para acolher de um modo mais ou menos explícito tal deriva: "cada parede uma teia / (cada teia uma prisão)".
A poesia de JLBG afasta-se de uma expansão subjectiva ou confessionalmente emotiva tão característica da sensibilidade pós-moderna. Mesmo aquela deriva de sentidos que foi há pouco apontada nunca conduz a um discurso dispersivo, marcado (para que seja utilizada uma famosa expressão de G. Vattimo acerca do pós-modernismo) por uma "debilidade" em que as tensões ou dispersões humorais tantas vezes vêm à superfície. Alguns críticos, considerando as obras publicadas de João Luís Barreto Guimarães, referem-se mesmo, e muito justamente, ao trabalho oficinal que nelas se faz sentir. Mais, um certo comprazimento irónico que ganha corpo na sua poesia pode encontrar o seu reverso.
É o que acontece quando se atinge uma tonalidade que vai revelar uma maior interiorização, a qual, como se pode ver no poema que se segue, acaba por se revelar quase dolorosamente sem que comprometa o próprio desenvolvimento verbal do poema, sempre contido em si mesmo: "Junto à praia / éramos quatro percorrendo a marginal (eu / escutando meu pai / a minha sombra atenta escutando a / sombra dele). Conversava com o meu braço com / lenta / dificuldade e dava os primeiros passos / desde o lúgubre hospital / com o tímido receio de estar a incomodar. / Um passo de cada vez. Não era / de dizer tudo mas / o que dizia era nítido - / ainda guardo a memória (uma imagem (fotográfica) de me ensinar a andar esperando com um abraço do / lado direito da alma. 'Um passo de cada vez'. / Hoje avanço sozinho / pelo muro da mesma praia a sombra que a meu lado parece / saber o caminho / lembra muito a sombra dele). Só tenho de / ir aonde me leva". Esta linguagem sóbria, medida na sua simplicidade que é a do essencial, representa agora o reverso da figuração irónica que tantas vezes aparece neste livro. Livro que se intitula Nómada. Não será por acaso. Cada poema é também um caminho por onde os leitores, que nómadas são também no ato de leitura, passam sabendo que há "uma história maior por trás / da que conhecemos".»


SÉRGIO ALMEIDAJornal de Notícias, 29.6.2018
TUDO QUANTO CABE NUM SÓ POEMA
Novo livro de João Luís Barreto Guimarães confirma a excelência da sua obra poética
«A realidade como matéria-prima. Ponto de partida e de chegada. Meio, princípio e fim de tudo. Eis o que move cada vez mais João Luís Barreto Guimarães, autor que parece ter apreendido a lição do conhecido poema "Não há vagas", de Ferreira Gullar, ainda que virando-o do avesso: "O preço do feijão não cabe no poema / não cabem no poema o gás / a luz / o telefone / a sonegação do leite / da carne / do açúcar / do pão".
Em "Nómada", o poeta que "divide o seu tempo entre Leça da Palmeira e Venade" afirma-se pelo contrário. Os 42 poemas que integram o seu novo livro abarcam tudo quanto lhes é dado ver, num plano mais imediato e sensitivo, mas também a dúvida, a reflexão e o silêncio.
Neles, cabem, afinal "a pastilha elástica colada à sola do sapato", o odor inconfundível da "batata frita""as águas altas do Sena" e "os corvos em Birkenau". Mas, acima de tudo, sobeja a convicção de que "o conhecimento de tudo (quando bem acomodado) cabe no espaço [exíguo] de uma caixa craniana".
Nesta busca pela "verdade que existe nas coisas comuns"Barreto Guimarães enceta uma demanda que, embora pareça fixar-se na realidade circundante, é sobretudo interior. E se a tentativa de compreensão da vida através dos poemas encerra, à primeira vista, doses maciças de presunção ou de ingenuidade, os escritos do autor de "Mediterrâneo" reforçam a crença da importância iniludível da poesia no ato da interrogação, primeiro passo rumo ao conhecimento.
"Se ao fim do dia perguntas para / onde foi o dia inteiro / é a hora de partir (não ficar preso ao naufrágio / esperando um milagre na praia / chorando os barcos / pelo nome) ", escreve em "Falsa vida".
Não é meramente individual esse esforço. O leitor é cúmplice desse diálogo imaginário em que o poeta se debruça com um olhar inaugural perante a realidade: "Escolho o / mundo / com as pálpebras (abrindo e fechando os olhos) / escolher é excluir / excluir é entender [/ entender é conservar] ".
O tom confidente com que Barreto Guimarães explana o seu devir poético, reforçado pelo uso hábil dos parêntesis, acentua essa relação. Todavia, é na dimensão de experiência individual com leitura universal que tal cumplicidade é criada. Porque "fazer poemas é como ir / roubar / maçãs selvagens / vais à espera de doçura mas / surpreende-te a acidez".


FERNANDO SOBRAL, Jornal de Negócios, 16.6.2018
OLHARES ATENTOS SOBRE O MUNDO COMUM
«João Luís Barreto Guimarães tem, ao longo dos anos, construído um território muito próprio dentro da poesia portuguesa. São acontecimentos do dia-a-dia que espoletam o seu olhar acutilante sobre os labirintos das vidas comuns. Há aqui uma simplicidade complexa sobre o nosso mundo de dúvidas e de sonhos. "Porque/se uma chave em concreto consegue abrir/a memória/acaso consegue uma ideia (tac!) abrir uma porta em concreto?" Um mundo nómada a descobrir.»


JOÃO CÉU E SILVADiário de Notícias, 2.6.2018
«Nómada veio confirmar João Luís Barreto Guimarães como um dos principais poetas da língua portuguesa.»


JOSÉ MÁRIO SILVA, Expresso, 26.5.2018
O REAL ENTRE PARÊNTESIS
«Na primeira das seis partes que compõem "Nómada"João Luís Barreto Guimarães ensaia uma poética: "Fazer poemas é como ir / roubar / maças selvagens - / vais à espera de doçura mas / surpreende-te a acidez." O conhecimento das coisas nasce de uma disponibilidade para ver, explicitamente assumida: "Escolho o / mundo / com as pálpebras (abrindo e fechando os olhos) / escolher é excluir / excluir é entender. " Antes de ser um mecanismo de palavras, uma tentativa de construir sentido, o poema persegue "o que ainda não existe" e decide "se enfeita (ou não) o real."
Na verdade, cada poema funciona como um parêntesis dentro do qual a realidade se desdobra, sinalizando uma interrupção no fluxo do tempo. Graficamente, os parêntesis (omnipresentes, diga-se, na restante obra deste poeta) sublinham a fragmentação no discurso e assumem-se como a principal matriz estilística deste livro: não há um único poema onde não os encontremos. Eles são como nódulos essenciais: "Dentro do poema; / sons / (em redor: espaço branco) / silêncio a trabalhar." O autor não distingue a "verdade que existe / nas coisas comuns", como a pastilha elástica colada à sola do sapato ou o cheiro a batata frita, das reflexões cultas sobre a ignorância de Hamlet quanto ao seu destino (já escrito), sobre os estádios da Grécia antiga, onde muitas estátuas dos vencedores têm os nomes apagados, mas a ala onde se afixava a identidade dos batoteiros "resiste à erosão do olvido", ou o pintor das grutas de Altamira (consciente de que as sombras na parede são literais e não ideias platónicas).
"Sala de espera" é um poema que resume bem esta tensão. Num consultório médico, o sujeito poético reflecte sobre tudo o que pode caber "no espaço exíguo de uma / caixa / craniana", para concluir que o cérebro humano, capaz de explicar o universo e a mecânica quântica, também se pode entregar a desígnios menos imperativos, como o de saber quem traiu quem, e com quem, numa revista cor-de-rosa. E porquê? O hipérbato final é lapidar:  "estava atrasada - / a consulta."
Da melancolia (vendo os corvos de Birkenau que "velam a morte", sentinelas de uma memória que o tempo foi dissipando) à ironia ácida (quando compara a poesia portuguesa contemporânea a um museu nocturno, vazio, onde as meninas nas molduras se entretêm no exercício da crueldade, sempre a "acirrar-se entre si", esta escrita vagueia pelos tópicos habituais de JLBG, sempre capaz de achados verbais (uma "voz desabotoada") e imagens fortes ("Os amigos que andam perdidos / deviam voltar de vez / como esses galhos partidos que se atiram a um cão / não como um seixo de praia que se lança / e fica lá").»


PEDRO ABRUNHOSAFestival Literário Literatura em Viagem, Matosinhos, 12.5.2018
Excerto da apresentação de "Nómada"
“(...) Em primeiro lugar, o fascínio que fica da leitura deste livro, o fascínio que fica da sensação que provoca a leitura desta poesia. A poesia é um fluir, é um sucedâneo de emoções, e é um sucedâneo de emoções que decorre do usufruto das sensações que o autor vai colocando no papel, como o encadear, digamos assim, da desrealização da realidade, que é o que faz um autor. O João Luís Barreto Guimarães que é um imenso poeta – e quando eu digo poeta digo-o no sentido adjectivo, não num sentido subjectivo –, é alguém que certamente já marcou a poesia contemporânea portuguesa e, portanto, constrói um universo muito cedo, uma identidade, uma impressão digital fortíssima que decorre de uma postura humana e uma postura artística que, de resto, se não houver essa coincidência entre ambas, nem sequer existe; o artista é aquele que tem uma visão e que a partilha. E este poeta do quotidiano, se me permite o João Luís - não sei se o posso chamar assim porque é poesia do quotidiano mas é um quotidiano profundo, é uma observação que vai, como poderão ver neste livro, que vai desde a cidade que juntos, muitos de nós comungamos, o Porto, e muitas outras pelas quais o João Luís passou, também por isso o livro se chama “Nómada” -, mas é uma observação do quotidiano, do gesto quotidiano, da presença da banalidade na nossa vida que pode até ser a banalidade do trágico; há aqui uma poesia que a mim me marcou muito “Os corvos em Birkenau” (...), a realidade, digamos assim, que a arte, que a suprema arte tem no contraditório do Mal.
Que papel tem a arte neste universo, agora mais do que nunca, neste universo no século XX e XXI, em que o Mal volta a nascer, o que o João Luís Barreto Guimarães uma mais vez aqui recorda, essas camisas pretas que se voltam a envergar, esse sentido da opressão, da maldade sobre a humanidade? Uma poesia como “Os corvos em Birkeneu” é uma forma maior de exorcizarmos a nossa própria culpa perante a inépcia com que nos deixamos avassalar por linguagens homofóbicas, racistas, plenipotenciárias, prepotentes e, portanto, aí compete a todos nós – e isto não é proselitista em relação à arte enquanto factor político - mas se a arte não é política, eu não sei então o que é politico. E sobretudo politico neste sentido muito mais amplo do termo, um político que abarca os Valores, que uma vez mais se utiliza a si próprio como contraditório desse Mal universal.
De alguma forma a poesia é uma espécie de redenção, é uma espécie de salvação, é uma espécie de comunhão com o mundo, na dor. E, portanto, quando o poeta interpreta a realidade, a desmaterializa, e depois a realiza e a volta a colocar no papel com as suas palavras, porque é a sua própria realidade, compete-nos depois a nós essa interpretação que é sempre subjectiva, que é sempre pessoal, e é aí que a poesia do João Luís se assemelha, como dizia o Óscar Lopes em relação à poesia do Eugénio de Andrade, se assemelha à música.
Ou seja, há uma imensa musicalidade nesta poesia. E a musicalidade não é necessariamente, a substantiva musicalidade na qual a música assenta, o ritmo, a métrica, não é isso. Ainda por cima, a poesia livre, aquilo que pratica o João Luís, é uma poesia que é aparentemente desprovida de métrica. A métrica é um pulsar interior que está na poesia do João Luís. Há um pulsar, há um ritmo interior que já não obedece às regras da poesia clássica, mas que obedece às regras do pensamento contemporâneo, que obedece às regras do próprio pensamento interior. Nós não pensamos com métrica. Nós pensamos com a coerência do encadear dos pensamentos e o resultado da coerência desse encadeado neuronal. Quando essa coerência é, também ela, sublinhada por uma coerência emocional, quando a ambiguidade intelectual, se quiserem, no sentido artístico, é depois sublinhada por uma certa ambiguidade da escrita, também no sentido artístico – porque aquilo que é para o poeta uma frase é para cada um de nós uma realidade diferente, a entidade ampla que significa tudo e não significa nada, que significa sobretudo uma impressão que fica no final da leitura da poesia, como se a poesia fosse uma nuvem, como se fosse o perfume que fica – isso é, realmente, o grande toque mágico, é o toque, se quiserem, divino, que os poetas têm, que é deixar um perfume no ar muito depois de nós termos lido aquela poesia.
E aquilo que fica da leitura das poesias do João Luís Barreto Guimarães, de quem me confesso um imenso admirador - porque é muito inspirador para mim, é instigador de estados sensórios, é instigador de emocionalidades e, no fundo, no fundo, a arte é isso que faz, a arte é uma provocação aos sentidos -, é uma provocação à sensação, e por isso, este perfume que fica, este odor, esta latência da qual dificilmente nos libertamos, que fica, uma vez mais, para usar a palavra, da bondade genuína da escrita do João Luís Barreto Guimarães, é para mim o mais importante, é para mim, se calhar, o mais difícil.
E quando eu dizia que a poesia do João Luís Barreto se aproxima muito da música (...) ao lerem o livro vão perceber da fluência – cada leitor lê com a sua voz própria, obviamente, mas também lê com o seu ritmo próprio e obviamente que na poesia clássica, a métrica impõe-se ao leitor (...) e portanto, não há uma libertação do leitor do universo métrico e, se calhar, porventura também do universo sensorial (...) –, novas sensações produzem novas métricas sendo que a métrica que aqui está, enfim, esta decorrência do verso livre, é uma métrica por vezes assente na aliteração, na repetição, aquilo que o Jorge de Sena chamava a rima, “a rima é o eco que fica nos nervos auditivos depois da repetição de uns certos fonemas”, e o que decorre da leitura do João Luís é que não havendo uma rima também no sentido clássico do termo, há um eco interior, há uma repetição da fonética que produz um efeito melódico (...), é uma diáfana melodia que passa, e que traz atrás de si uma série de sensações, que vão sendo diferentes ao longo da poesia, e quando chega ao fim, o somatório das sensações é uma plenitude, é a isso que eu chamo o perfume da poesia do João Luís Barreto Guimarães, ou a sua imanência ou a sua latência no final da leitura (...).
E quanto tudo é poesia, nada é poesia, é por isso que é preciso sabermos distinguir a poesia. A Poesia. A poesia que é o profundo eco do pensamento, aquilo que o George Steiner dizia, com muita argúcia, a poesia do pensamento, sendo que ele definia a poesia do pensamento como a capacidade que alguns de nós têm de produzir através do pensamento coisas que estão ao dispor de todos, porque as palavras são de todos (...), é preciso ter a poesia do pensamento, a capacidade de ver para lá da realidade que todos nós vemos. Uma vez mais, nós somos donos dos verbos, dos adjectivos, dos substantivos, dos hífens, dos tiles, das vírgulas, mas os poetas conseguem dar-lhes a consistência da teoria da relatividade (...).»