27 poemas
(Leça
da Palmeira, 2005-2009)
1ª
edição, Quasi Edições, V. N.
Famalicão, 2009, fora de mercado
capa
de [K] fábrica mutante, a partir de estudo para «A Ilha dos
Mortos» de Arnold Böcklin
direcção
literária de Jorge Reis-Sá
2ªedição, in «Poesia Reunida», Quetzal, Lisboa, 2011, esgotada
§
MANUEL ANTÓNIO PINA, apresentação na Feira do Livro
do Porto, 06.06.09
«Quem
me conhece sabe que não gosto de "apresentar"
livros e que penso que os livros não precisam de "apresentação"
e se apresentam a si mesmos. Pior, no meu caso, é que os livros apresentam
sobretudo o apresentador. Por isso, muito raramente tenho a dizer o que quer
que seja sobre um livro, e o meu embaraço (que é quase sempre uma forma de
impaciência) quando tenho que falar acerca de um livro refugia-se regularmente
numa distância o mais amável possível. Mas hoje é um dia especial para mim,
porque este, o livro que aqui me cabe, digamos assim, "apresentar",
é algo sobre que sinto que poderia falar – sobretudo comigo mesmo e com ele,
livro – durante horas seguidas. Fui literariamente educado na suspeita dos
adjectivos. Hoje julgo que é insensato menosprezá-los, e quem leu, por
exemplo, Borges há-de decerto ser da mesma opinião.
Permita-se-me, pois, que me comprometa desde já – eu que, por pudor, tanto
procuro evitar comprometer-me – com um adjectivo: o livro que venho aqui "apresentar"
é, na minha opinião, um livro admirável. [Nesta altura, um desses
gestores ou académicos – que nem sempre são coisa diferente – que participam em
congressos diria: "Passo a explicar porquê". Não irei explicar
coisa alguma, nem saberia como fazê-lo. Sou apenas um leitor de livros de
poesia, e um leitor de poesia ambiciona permanentemente encontrar livros
admiráveis e, quando os encontra, reconhece-os, ou julga reconhecê-los. O que é
o mesmo que dizer que se reconhece a si mesmo neles, sem precisar de saber
porquê]. Eu sou um leitor feliz de poesia. Ao longo da vida, muitas
vezes por acaso, encontrei muitos livros admiráveis de poesia, ou
encontraram-me eles a mim, ou – desculpe-se-me se insisto na minha relação
especular com a poesia – encontrou-se o meu rosto diante de si mesmo neles.
Foram, como disse, quase sempre encontros inesperados. Aconteceu-me com Emily
Dickinson, Anna Akhmátova, Marina Tsvétaieva, Wislawa
Szymborska, Sylvia Plath, Daniel Faria, até com um
poeta marroquino praticamente desconhecido chamado Abdullah Zrika,
com cuja poesia esbarrei um dia de repente numa pequena biblioteca de
Périgueux. Foi com esses e com outros que eu constituí a minha própria família
poética, usando a expressão no mesmo sentido em que se diz que um filho se
autonomiza da família paterna em cujo seio foi gerado – no meu caso a de Cesário, Pessanha, Pessoa, Ruy
Belo, Rilke, Eliot, tantos que, como Dante,
"nunca pensei que a morte tivesse levado tantos" – e gera os
seus próprios filhos. "A parte pelo todo", de João
Luís Barreto Guimarães – cuja poesia, no entanto, há muito conhecia e
estimava – apanhou-me também como uma espécie de "coup de foudre".
E talvez depois desta deambulação sobre a minha família poética se perceba, e
possa percebê-lo eu próprio, do que falo quando falo de um livro admirável.
Porque se trata de um livro que, simultaneamente, me confronta e onde me
reconheço, o que quer dizer nele me reconheço como outro e como mesmo. Não
acredito (não é uma questão de fé, é uma verificação da experiência) na
sinceridade em poesia, acredito na memória. A má poesia, diz cinicamente Óscar
Wilde, é normalmente sincera; o que não quer dizer que toda a poesia
sincera seja necessariamente má, e constitui apenas uma verificação
estatística. A literatura é, como diz Blanchot, ilusão. Eu diria o
mesmo de outro modo: é memória, construção, fingimento. A poesia não exprime,
como ensina Valéry, os estados ou sentimentos poéticos de quem escreve,
mas – pelo menos a melhor – gera, provoca, estados poéticos em quem lê,
independentemente do que terá ou não sentido o poeta. "Sentir, sinta
quem lê", proclama Pessoa. Para os românticos (e
românticos, ou seus herdeiros, todos nós somos, ou ainda menos) a dor é a mãe
de toda a verdadeira poesia. Mas a dor e o sofrimento sinceros, são a mãe, o
pai e a família toda da maior parte da má poesia que se escreve. Muita da
grande poesia pode ter nascido da dor, mas o que a autonomiza da dor e a
diferencia do mero espasmo doloroso é o fingimento, a capacidade de o poeta
fingir "a dor que deveras sente" tornando-a poeticamente
verdadeira. A poesia é forma, e essa é a sua verdade. Se a dor do poeta que
eventualmente terá gerado o poema é "verdadeira" ou "falsa",
a sua verdade por assim dizer "vivida", é assunto do foro
íntimo dele, com interesse apenas para a sua biografia, ou, como diz Jacobson,
para a Medicina Legal. Algo semelhante se passa com os sonhos. Temos medo e, à
maneira de Borges, sonhamos com a Esfinge. A verdade primeira,
inicial, biologicamente e psicologicamente vivida, é o nosso medo. A Esfinge é
a forma que, no sonho, o nosso medo toma. Também ela é assustadora, mas de
diferente e incoincidente modo, de um modo, digamos assim, segundo. O poema é
que tem que ser "verdadeiro", não o que o poeta sente. "Je
poetischer je whãrer", diz Novalis; ou seja, "quanto
mais poético mais verdadeiro". Não decerto "quanto mais
verdadeiro mais poético"… Por tudo isso, abri desconfiado este "A
Parte pelo Todo", um livro assumidamente "sobre"
(poesia "sobre", raio de palavra!; mas não me ocorre outra
agora) a morte do pai, por mais vastas que sejam as conotações simbólicas em
torno de conceitos como este. Um livro assim afrontava (melhor: afronta) uma
das raras convicções que tenho acerca da poesia e, em geral, da literatura.
Como é então possível que, nele, como acho que já antes disse, tenha
reconhecido o meu próprio rosto poético? E porque é que há por aí tantos livros
que se oferecem inteiramente àquela minha imprecisa convicção e não tenho, nem
quero ter, nada com eles? Ninguém gostaria de saber isso mais do que eu. Talvez,
mas como posso sabê-lo?, porque este seja um livro que, ao mesmo tempo, se me
oferece e se me furta; talvez porque seja tão sofrido nas palavras e na sua
construção poética como nos vividos sentimentos que sobre ele, como uma sombra,
permanentemente pairam; talvez porque, como nos grandes e desrazoáveis amores,
eu pressinta que há nele algo, como explicar-me?, uma forma, uma "maneira
de dizer", uma música interior, onde não posso alcançar. Estou certo de
que muita gente lerá este "A parte pelo todo" e não escutará
essa música, essa forma. Julgo saber que houve até um editor de poesia de quem
se esperaria que fosse um pouco menos duro de ouvido (e tenho que felicitar
o Jorge Reis-Sá por patentemente o não ser; que diabo!, ouvido
é o mínimo que é suposto que um editor de poesia tenha!). Referi-me há pouco
a Akhmátova a propósito de coisa nenhuma, e de certeza que não
a propósito de João Luís Barreto Guimarães ou de "A
parte pelo todo". Mas, de repente, ocorre-me a dor de Akhmátova urrando
pelo filho sob as muralhas do Kremlin. O poema de Akhmátova não
nos diz que sofre; a sua dor é terrível de mais para ser dita, é coisa
impartilhável. Não é a sua dor o que escutamos, é a dor das suas palavras, e só
quem não sabe nada de palavras julga que as palavras não sofrem. Ocorre-me,
dizia, a dor das palavras de Akhmátova. A dor das palavras de João
Luís Barreto Guimarães é de outro tipo, mais recolhida, mais interior,
quase silenciosa, ressentidamente, como dizer?, mansa, respirada, às vezes
impenetravelmente lúcida, feita de palavras de memória mais do que de revolta,
e forçando por isso mais por dentro do que por fora a boa ordem da linguagem
poética hoje dominante. Esse ressentimento vê-se na ironia culpada de poemas
como "Introdução ao niilismo", em que o poeta tenta ligar –
expressão por assim dizer telefónica, mas que invoca a própria ideia literal de
religião, de re-ligação – a um Deus "sempre ocupado", em
títulos como "Vasilhame" ou o equívoco "D.N.A.",
ou em versos como "quando descia aos arrumos era o que acontecia",
"Deus e o / meu pai morreram no mesmo dia", ou ainda "enquanto
a Mãe aturdida à pergunta das gavetas / por uma que vá camisa com a gravata /
que entretanto", dos mais magoados versos da poesia portuguesa nossa
contemporânea e não vou explicar porquê, basta ler os poemas em causa. Embora
estruturando o livro de acordo com os passos ("passos da Cruz",
ou da sua Cruz, diria eu, servindo-me ainda de expressões religiosas) da
igualmente terrível epígrafe de Emily Dickinson que abre o volume:
"Chill", "Stupor", "The letting go",
o poeta omitiu, provavelmente por pudor, o óbvio, presente em todo o livro e na
sua própria existência poética e não visível em parte nenhuma dele (a não ser
aqui e ali, numa súbita rima, numa aliteração, na construção de um verso
inesperadamente deixada à vista e, sobretudo, na preocupação – poética por
excelência – de fugir como o Diabo da Cruz de palavras "poéticas"):
que "depois de uma grande dor, vem um sentimento de forma", o
segundo verso do poema de Emily Dickinson, como se, à segunda
estrofe, como no poema de Ted Hughes, a própria morte se tivesse
tornado já uma questão de estilo. Quem – a não ser alguns editores de poesia –
não sente um arrepio ao abrir um livro de poemas e deparar de chofre com poemas
como "Calafrio"? Quem pode evitar suspender a respiração lendo
poemas como "Pascoa baixa"? (eu li os dois últimos versos e
estremeci por dentro, fechando por um momento a página, dolorosamente feliz).
E, depois, quem não regressa também, como o poeta, à vida de todos os dias, à
indiferença do trabalho no hospital (o poeta é médico), aos doentes, aos
colegas, aos vizinhos, ao conforto da própria poesia, às epígrafes de Szymborska, Camilo
Pessanha, Valéry, até de Boris Vian, mesmo que a
morte e a sua vivida memória, que é como quem diz o coração, não deixe de
irromper entre as palavras e o sentido que as palavras fazem? "A Parte
pelo Todo" é uma das obras poeticamente mais fortes (gosto da
expressão, que o idiolecto do xadrez) de poesia portuguesa que li dos últimos
anos. E receio bem que também dos próximos, porque nenhuma poesia saberia como
resistir a muitos livros destes. É, por isso, preciso que continuem a
publicar-se livros de poesia como a maior parte dos que por aí se publicam e os
jornais festejam, para podermos respirar fundo de livros como "A Parte
pelo Todo". De outro modo, nós, leitores de poesia, entraríamos em
hiper-ventilação e sufocaríamos.»
FRANCISCO JOSÉ VIEGAS, Correio da Manhã, 28.04.09
«João
Luís Barreto Guimarães é um dos nossos grandes poetas – o novo livro,
"A Parte pelo
Todo" (Quasi): "Um dia / depois de tombar
plantámo-lo / num metro de terra talhado à terra dura / da terra onde nasceu.
Ainda não cresceu nada."»
Jornal
de Letras,
20.05.09
«Vinte
anos após se estrear com "Há
Violinos na Tribo", João Luís Barreto Guimarães, [41] anos,
publica a sua [oitava] recolha. Os seus 27 poemas, confirmam uma das "vozes"
reveladas no final da década de 80, desde o início assinalada nestas colunas,
onde aliás o autor já manteve uma crónica regular. Leia-se este poema, "Botox",
onde se pode adivinhar o médico que o autor também é: "Procura as
minhas mãos uma mulher / nos quarenta / pedindo que lhe atrase o outono dos
olhos / cansados: «Só queria [perder] dez anos». E / tento o que de
amargo possa ter acontecido / para a ter a desejar punir / um [decénio] da
idade – / dou comigo a lamentar não saber delir / memórias somente / rugas e
rídulas (ruínas / pouco marcadas). Na armadilha do tempo / ninguém tomba por
engano: / não se expurga a pele por décadas quanto muito / dano a /
dano".»
JOSÉ MÁRIO SILVA, LER – Livros & Leitores,
Junho 2009 e no blogue Bibliotecário de
Babel
«"First – Chill – then Stupor – then the
letting go" ("Primeiro – Calafrio – depois Torpor –
depois o deixar ir"). A partir deste verso de Emily Dickinson,
escrito "após uma grande dor", João Luís Barreto
Guimarães (n. 1967) construiu o seu mais recente livro de poemas, o
primeiro editado com a chancela das Quasi Edições. No caso de JLBG,
a "grande dor" foi a perda do pai, morte que instaurou um
vazio que é antes do mais uma cesura (termo clínico particularmente adequado,
já que o poeta também pratica medicina e traz amiúde a sua experiência
profissional para dentro dos poemas). Estamos então no território da mais
extrema vulnerabilidade, seguindo a voz de quem começa por se revoltar contra a
evidência dos factos mas, aos poucos, vai aceitando uma ausência que será para
sempre. "Calafrio", "torpor", "deixar
ir", escreveu Dickinson. Choque, indiferença e aceitação,
explicam os manuais. São as fases do luto, as etapas necessárias para admitir o
inadmissível. O principal mérito de JLBG, na arriscada deambulação
por uma paisagem emocional instável, é não ceder um milímetro que seja ao
sentimentalismo. Em vez de pathos, um desalento que nos chega
através de elipses bem trabalhadas e da sintaxe precária, sempre à beira de
esboroar-se. A atenção concentra-se nos pormenores: o fato "para levar
no esquife" pousado sobre a cama; a barba que continuou a crescer
depois da morte; recordações felizes da intimidade (o filho, de joelhos,
cortando as unhas dos pés ao pai); a SMS enviada para um telemóvel agora sem
préstimo (porque nem sequer vale a pena ligar para Deus); o antidepressivo que
se toma como uma "hóstia alegre", uma "unidose de
euforia". A lenta saída do labirinto passa também por um reencontro com
o lado luminoso da vida. Ter coragem de pedir a uma paciente polaca que
recite Wisława Szymborska, em voz alta, no hospital. Molhar o pão
no azeite da Grécia. Reencontrar o sabor "perene" de uma maçã
assada. Explicar ao leitor, como se explica a um amigo, o caminho para a casa
do poeta, em Leça da Palmeira. A morte, como tudo o resto, é uma coisa que se
ultrapassa, que é preciso ultrapassar ("tens que o fazer pelos
vivos"), às vezes até literalmente, como quando o carro funerário de
súbito barra o caminho e só o "pedal a fundo desperta da
letargia".»
FERNANDO SOBRAL, Jornal de Negócios, 05.06.09
«Costuma
dizer-se que Portugal é um país de poetas mas, muitas vezes, esquecemo-nos de
os ler. É por isso que devemos dar toda a atenção a este livro de João
Luís Barreto Guimarães. Desde há duas décadas que ele nos propõe ambientes
envolventes com as suas palavras, onde a figura do pai ausente acaba por moldar
algumas das imagens fortes que nos transmite. É o tempo que guia as palavras e
os actos: "Na
armadilha do tempo / ninguém tomba por engano: / não se expurga a pele por
décadas quanto muito / dano a / dano". É este o universo que percorre a
poesia de João Luís Barreto Guimarães, que apetece ler ao fim da
tarde, quando os últimos raios de sol dizem adeus no horizonte. A preparar-nos
para um novo ciclo da vida.»
MANUEL A.
DOMINGOS, blogue Meia-Noite Todo
O Dia, 15.06.09
«A
Morte sempre foi um dos temas mais recorrentes em literatura. Na poesia
portuguesa mais recente ele é recorrente. João Luís Barreto Guimarães (1967)
não consegui[u] escapar-lhe. Se em "Luz Última" (Cotovia, 2006) o tema povoou
grande parte dos poemas, em "A Parte pelo Todo" (Quasi, 2009)
o tema encontra-se em quase todos os poemas – de uma ou outra maneira, mas
sempre associado à ideia de perda. Assim,
entende-se o verso de Emily Dick[in]son que abre o livro:
"First – Chill – then Stupor – then the letting go". E é este o verso que dita a divisão do
livro: três partes com nove poemas cada, dando a ideia de que a Morte está
sempre presente, qualquer que seja a distância a que estamos do acontecimento
(neste caso a morte do Pai). Mas como escrever sobre a Morte sem cair nos
costumeiros clichés, lugares-comuns? Se tivermos em conta que a Morte é, por
excelência, o supremo lugar-comum, a tarefa torna-se mais fácil e genuína.
Contudo, isso não significa facilidade em falar na/sobre a Morte; não significa
uma poesia não-rebuscada. João Luís Barreto Guimarães está
consciente desta questão. E tenta contorná-la. Um bom exemplo disso é o poema
"Introdução ao Niilismo",
onde a Morte coabita com a ironia (ou será cinismo?): "A noite passada
enviei um SMS [a] meu Pai / mas ele não respondeu. Já kontava kom issu."
(p.19). É claro que o resultado nem sempre é o mais conseguido. No mesmo poema,
uns versos mais à frente, o autor remata: "Já tenho ligado para Deus /
parece dar sempre ocupado." (p.19). Tal como de Deus, da Morte, esse
segredo que se leva para a sepultura (Wislawa Szymbroska), nunca se
obtém resposta, nada dela advém: "Um dia / depois de tombar
plantámo-lo / num metro de terra talhado à terra dura / da terra onde nasceu.
/Ainda não cresceu nada." (p.25). Novamente, é a ironia/cinismo
que tenta salvar o poema. Todavia, o tema mais presente, na poesia de João
Luís Barreto Guimarães, não é a Morte: é o quotidiano: o quotidiano real e
não transfigurado (é claro que est[a] afirmação é arriscada), isto é, o
dia-a-dia mais comum possível: "Quando Barbara entrou na Pequena
Cirurgia / para resolver a lesão da hemiface esquerda / ninguém contava que eu
lhe pedisse para dizer / Wislawa Szymborska. Era / uma mancha disforme de /
tantos por tantos centímetros / cuja exérese resultou / (graças a Deus?) /
completa." (p.27). É claro que a validade poética – se é que tal coisa
é ainda possível nos dias de hoje – pode ser aqui, como noutros poemas,
questionada. Mas não é isso que a poesia deve fazer? Questionar? Colocar o
homem frente a frente consigo mesmo? Haverá algo mais incerto e inquietante que
o quotidiano? Haverá maneira mais simples ou bela de dizer, jogando com as
palavras, aquilo que é evidente : "Na armadilha do tempo / ninguém
tomba por engano: / não se expurga a pele por décadas quanto muito / dano a
/dano." (p.42). Não sendo o livro mais conseguido de João Luís
Barreto Guimarães, "A Parte pelo Todo" vale pelo confronto
do Homem com o irrecuperável, pela denuncia (que nunca é suficiente) do absurdo
que é a Morte, pela validade da poética do quotidiano.»
FERNANDO GUIMARÃES, Jornal de Letras, 17.06.09
«(...)
o tema da morte ganha um relevo especial no livro de João Luís Barreto
Guimarães, até pela circunstância de na capa se reproduzir um estudo para o
emblemático quadro "A
Ilha da Morte", do pintor simbolista Arnold Bocklin. (...)
É esse poder da morte [o poder desintegrador de Thanatos] ou, melhor, o seu
conhecimento, que logo se revela no limiar do livro de João Luís
Barreto Guimarães atrás referido. Trata-se do poema intitulado "Calafrio":
"Foi ele quem me a apresentou. Pétrea / nívea / exangue. Meus lábios:
à face da morte. / Nunca a / tinha beijado antes.". Nos poemas
seguintes faz-se sentir um tom disfórico que, muitas vezes, deriva para uma
nota de humor ou sarcasmo. Barreto Guimarães afasta-se agora
um pouco do tom que era predominante na sua poesia anterior, muito marcada pelo
subjectivismo, dado que, neste livro, as referidas notas de sarcasmo ou humor o
põem em questão. Será esta uma forma de "ultrapassar a morte",
como se lê no título de um dos poemas? Ora tal poema principia assim: "Quando
menos estás à espera (ao / desfazer de uma curva) ela / surge-te pela frente
subitamente concreta".»
JOÃO MORALES, Os Meus Livros, Junho 2009
«Comecemos
por "A Parte pelo Todo"
(Quasi Edições), de João Luís Barreto Guimarães. Das palavras
destes poemas solta-se uma calma aparente que se adivinha um manto, uma espécie
de calor húmido, sufocante e pertinente. Não será alheio a tudo isso as
iniciais alusões ao desaparecimento do pai, na sua inevitabilidade ("enquanto
estiver vazio aquele / fato da morte / ninguém sequer admite que esteja morto /
de facto"). A sua evocação faz-se pela reflexão de cenas
intransmissíveis: "Durante a manhã inteira a barba / ainda cresceu. O
vórtice que me picava / ao fim de um dia de trabalho / já o posso adivinhar /
neste círculo de flores"). Também pelas imagens, naturalmente,
impregnadas de um pessimismo e um sentido de finitude que teima em demonstrar
aos humanos a sua dimensão, mais etérea do que se pensa, pois só na memória se
erguem os mais sólidos bustos, memória essa que, em círculo vicioso, depende de
quem a albergue: (e assim se nomeia "um cipreste esguio que / anuncia
um jardim / onde eles lançam os corpos - a tara perdida da alma"). Há
tempo para olhares em volta, com a paisagem habitual a demarcar o território
conhecido face a referências à emigração, cavaleiros de um certo desconhecido.
Ainda pode haver esperança, portanto, numa voz que recita poemas em polaco ou
na entrega do espólio automóvel. Mas não é por isso que os fantasmas, perante
nós ou em nós, desaparecem: "procuro alguém frente ao espelho / sei /
que alguém está / sempre lá".»
«Assumida
desde o título como processo estruturante do seu mais recente livro, a
metonímia não é, na obra de João Luís Barreto Guimarães, uma
novidade. De certo modo, o café que atraía o sujeito poético de Lugares Comuns (Mariposa Azual,
2000) condensava já o mundo inteiro, tal como em Luz Última (Cotovia,
2006) se podia ler: «O nome que tu transportas é o nome / onde és tudo»
(p. 23). Em A Parte pelo Todo, volume acabado de publicar pela
Quasi, o título foi herdado do quarto poema da primeira secção, que é um poema
em branco. Não se entenda este gesto como uma ruptura vanguardista; ele é antes
a concretização de uma hipótese que o experimentalismo abriu, mas que surge
agora com a serenidade própria dos processos que já foram assimilados. O
silêncio da página 14 é a estupefacção perante a evidência da morte, é a
constatação de que, como escreveu Jorge de Sena, é «uma
injustiça a morte». Assim, todos os poemas da primeira parte, que têm na
página em branco o seu vórtice, se organizam à volta desse estado de
perplexidade que o autor nomeou a partir de um verso de Emily Dickinson.
Nesta obra, o luto compreende chill, depois stupor e,
finalmente, the letting go (não traduzo por respeito pela
opção do poeta e porque a vibração destas palavras em inglês se torna
naturalmente diferente da de qualquer uma das escolhas que poderiam ser
assumidas na língua portuguesa). Ora, com um elemento nuclear, a que se poderá
atribuir mesmo uma força gravitacional, situado quase no início da primeira de
três partes, João Luís Barreto Guimarães organizou a sua obra
segundo um princípio de descentramento que parece devedor da estrutura barroca.
Falo aqui de barroco no sentido tipológico, aliás reiterado nas antíteses que
sustentam, por exemplo, um poema como «Torpor», com os seixos colhidos
na praia pelo sujeito poético e por uma figura feminina a distinguirem‑se
nitidamente, com os «dela (vermelhos sépia brancos / ocre) de cores claras»
a tecerem um acentuado contraste com os dele, «cinzentos (mais / pequenos)
/ nunca claros»: «tenho os seus como tijolos para começar castelos / os
meus (quase que) nem pedra / ossos / pó de cremação» (p. 23). Esta poesia
incita o leitor a percorrer um caminho de relativo apaziguamento, quase de
aceitação. A carrinha funerária nomeada na página 36 torna‑se também numa
metonímia do que incumbe superar, e ultrapassá‑la fisicamente (no espaço)
significa criar distância em relação à própria morte (no tempo), o que tem de
ser feito «pelos vivos». Não se pense, porém, que esta aparente
superação representa um esquecimento ou a anulação da dor; ela é antes outra
forma de compor uma ligação com a figura ausente, de preservar um lugar
distante do ruído mundano onde a relação se possa prolongar. Por isso, é
precisamente «Poema» o título da composição que fecha o livro, dado que,
em registo atravessado por uma subtil melancolia, se afirma aí, de um modo
discreto, que a poesia pode muito bem ser o lugar onde o diálogo com um ser
amado não cessa com a morte: «Toca no sexto direito. Estou / sempre por
aqui. Ou senão / não venhas hoje. / Faz como te apetecer» (p. 43).
PAULA CRISTINA COSTA, Colóquio Letras,
Setembro/Dezembro 2009
"O
novo livro de João Luís Barreto Guimarães, A Parte pelo Todo, divide-se em
três partes – Chill, Stupor, The letting go -, estruturando-se
a partir da languidez do ritmo proposto pela epigrafe de Emily
Dickinson com que se inicia o livro: First – Chill – then
Stupor – then the letting go. No primeiro movimento deste andamento, Chill,
predomina a pulsão da morte, a do pai e, consequentemente, a de Deus: «Deus
/ e o meu Pai morreram no mesmo dia». Ao longo destes poemas, a errância
pela memória de momentos íntimos passados na cumplicidade do pai, a dificuldade
em aceitar a sua ausência, o questionar-se, por vezes com uma enorme ironia e
um sublime humor negro, sobre a inutilidade de Deus perante esta perda e sobre
a incapacidade de estabelecer comunicação com os dois – o pai está morto, não responde
aos SMS enviados, Deus tem sempre o telemóvel ocupado -, são registos
discursivos que se justapõem sem esforço, à medida que a tristeza, a melancolia
e a ironia coexistem no poema. Stupor agrupa textos que mantêm
viva a memória da ausência do pai e de Deus; mas, e mais uma vez, este tom
triste e melancólico, convive com a ironia e a intenção predominantemente
lúdica de outros poemas, como «Bom dia, a Barbara Marzec», «As
cadeiras», «O sr. Pio» ou «Quase», que, num tom prosaico, com
marcas de uma pretensa coloquialidade, narram pequenas histórias, captam
fragmentos de uma cómica tragicidade do nosso quotidiano; ou mesmo da miragem
de uma luz vista, algures, num país perdido –
que já Pessanha inscreveu – e que agora Barreto
Guimarães reincide e parodia, interseccionando os planos do sagrado (o
da poesia) com os do profano, nomeadamente o jogo de futebol onde Figo falha
também (como o país, como o poeta) o golo que o levaria à vitória, o golpe
de asa que lhe permitiria alcançar o além, como Sá-Carneiro,
outro poeta também aqui convocado para este diálogo intertextual, através do
título do poema «Quase». Na última sequência de poemas, the
letting go, apesar de o segundo texto, «Ultrapassar a Morte», não nos
deixar esquecer que thanatos é a pulsão dominante deste livro,
como aliás a reprodução na capa do quadro de Arnold Bocklin, A
Ilha dos Mortos, logo nos adverte, outros fios discursivos se sobrepõem,
outras viagens por Atenas, Estocolmo, Amesterdão se inscrevem em versos que,
apesar de não perderem quer o tom melancólico quer o irónico, ganham lugares de
sentido diversificados e atingem o cume da sensibilidade e do talento de manejo
do verso deste poeta. Falo de poemas como «Uma emergência de Outono» ou
«Botox®»; o primeiro, partindo duma sugestão ecfrástica de algumas
naturezas-mortas com frutos pintadas por Cézanne, justapõe ao plano
do real – a maçã assada com canela que chama o começo do Outono e convida a
recolher a casa – o plano visual (da pintura de Cézanne) e o plano
erótico – a pele da maçã assada («cor amarelo-pecado») desprendida do
corpo do fruto é metaforicamente comparada às vestes caídas ao chão de uma rapariga
desbragada. Neste jogo de sinestesias e de discursos fragmentários e
justapostos, o poema comunica, diz o real, mas para logo dele se desprender e o
silenciar ao abrir sulcos de sugestões, impressões, nuances de
cores, sabores, cheiros e tactos que fundam toda uma poética da beleza e da
indeterminação da emotividade desse real. Em «Botox®», a mesma
sensibilidade poética transparece agora das mãos de um eu-cirurgião plástico
que lamenta não conseguir atrasar dez anos o outono
dos olhos cansados de uma mulher de quarenta anos. Mais uma vez, na
poesia de Barreto Guimarães, parte-se desta aparente fútil e
tributável frivolidade do quotidiano para o uso de um real transfigurado, onde
o poema se transforma no espaço íntimo de uma reflexão; neste texto em
particular, sobre a impossibilidade de desfazer os danos causados pela vida,
as memórias, as rídulas e as rugas,
por décadas, do rosto dessa ou de qualquer mulher. O tempo, tal como a morte,
não se apaga: ultrapassa-se ou não. Este é talvez um dos topos mais
desenvolvido ao longo deste livro: como na poética de Pessanha, à
frágil irreversibilidade da passagem do tempo está associado o desejo de permanência
da fixação de imagens, de memórias que resistem à armadilha do tempo e
que, ao tomarem a parte pelo todo, se agarrem e fixem em centros de
sentido que perdurem muito para além de uma relação física com o real ou com o rés-do-chão da
vida.
Neste
último livro de Barreto Guimarães, A Parte pelo Todo, o poeta
retoma e intensifica alguns dos recursos formais e estilísticos a que os seus
livros anteriores já nos tinham habituado: a sobreposição de linhas discursivas
(que o uso recorrente de parêntesis ajuda a explorar); a utilização de enjambement,
que dá uma continuidade narrativa ao poema e lhe confere uma estrutura em
espiral; o verso sincopado, aforístico, muitas vezes com uma intenção meramente
lúdica, de desafio ao leitor a entrar no jogo e a tentar decifrar alguns
enigmas («Hóstia alegre», «D.N.A.»), ou ainda a experimentar e a
exercitar, com o poeta, alguns dos seus recursos gráficos para conseguir uma
poesia mais visual e mais interactiva com o seu leitor («É assim:»). Com
este livro, o autor reincide também na construção de uma poética que se tece de
um entrecruzamento de planos que abrem espaços sucessivos para um caminho
espiralado que o leitor é convidado a percorrer, numa permanente experimentação
em movimento, numa espécie de promenade architectural, como lhe
chamou Le Corbusier, descobrindo novos planos, novos espaços, que o
abrir e fechar permanente de parêntesis também ajuda a explorar. É de facto de
uma nova arquitectura poética que estamos a falar: com o plano do aparentemente
linear e narrativo do real, intersecciona-se a profundidade do plano metafórico
do poético; no entanto, os dois planos circulam livremente pelo open
space do poema, permitindo leituras em movimento, itinerários livres: «Quem
vai do Porto para Leça ao / longo da auto-estrada (divisando / os navios sobre
o porto de Leixões) / no fim da ponte à direita vira / para o centro hípico /
(serpenteando a avenida tendo / por bombordo o cais) / adiante vê o forte da
Senhora das Neves / alguns cem metros à frente começa / a marginal. Daí já se
vê o farol / para lá dos prédios broncos – / não é difícil achar lugar para
estacionar. / Toca no sexto direito. Estou / sempre por aqui. Ou senão / não
venhas hoje. / Faz como te apetecer.» Ao terminar o livro com este poema, o
projecto da epigrafe inicial de Emily Dickinson cumpre-se:
primeiro, arrefecer, relaxar (Chill), depois, deixar-se arrastar por um
entorpecimento (Stupor) e , finalmente, deixar andar (letting go)
a dor, a vida, tentando uma pretensa indiferença que nos anestesie da ideia
trágica da morte.
João Luís Barreto Guimarães é um dos poetas que se inscrevem numa «nova poesia», para utilizar a terminologia de Gastão Cruz, ao lado de autores como Luís Quintais, Rui Pires Cabral, José Ricardo Nunes, Rui Cóias, entre muitos outros que se estrearam na última década do século XX e que transitam para o inicio do século XXI. Uma das características gerais desta «nova poesia», já apontada, é a de escrever poesia a partir do real quotidiano, nos passos já longínquos de Cesário Verde, de algum Pessoa-Campos-Soares e, décadas depois, de Sophia de Mello Breyner Andersen, de Jorge de Sena, ou, mais recentemente, de Nuno Júdice, Rosa Alice Branco e muitos outros grandes poetas que o souberam fazer com engenho e arte. No entanto, falando agora especificamente de alguma da nossa poesia contemporânea a partir da década de 70, sabe-se que ela pode cair na tentação de ser demasiado prosaica, se desse real quotidiano não se emergir poeticamente, para o seu uso transfigurado. Na poesia de Barreto Guimarães, se por vezes essa pretensa narratividade parece conduzir ao abismo do circunstancial e do culto do fait divers quotidiano, a verdade é que a transfiguração metafórica trabalhada, especialmente, no final do poema, eleva e dimensiona esta poesia muito para além dessa experiência do real quotidiano, para uma construção textual que garante a sua função poética. Neste último livro em particular, A Parte pelo Todo, a passagem, ou a mudança de registo, de uma relação física com o real para uma relação mais distanciada, mais desfocada em imagens outras transfiguradas, define-se como uma das prioridades desta arte poética. Neste sentido, parece prosseguir no caminho de um equilíbrio desejado entre a necessidade (e talvez mesmo a prioridade) de comunicar com o leitor, numa enorme cumplicidade, numa espécie de conversa nunca acabada, e uma libertação de lugares de sentido outros que mantêm intacta e inacessível a voz intima deste eu, num permanente exercício de contenção, de sobriedade do não-dito, para que nunca se exponha em demasia, para que nunca a prosa atrapalhe o verso, como se recomenda a toda a verdadeira poesia.»
João Luís Barreto Guimarães é um dos poetas que se inscrevem numa «nova poesia», para utilizar a terminologia de Gastão Cruz, ao lado de autores como Luís Quintais, Rui Pires Cabral, José Ricardo Nunes, Rui Cóias, entre muitos outros que se estrearam na última década do século XX e que transitam para o inicio do século XXI. Uma das características gerais desta «nova poesia», já apontada, é a de escrever poesia a partir do real quotidiano, nos passos já longínquos de Cesário Verde, de algum Pessoa-Campos-Soares e, décadas depois, de Sophia de Mello Breyner Andersen, de Jorge de Sena, ou, mais recentemente, de Nuno Júdice, Rosa Alice Branco e muitos outros grandes poetas que o souberam fazer com engenho e arte. No entanto, falando agora especificamente de alguma da nossa poesia contemporânea a partir da década de 70, sabe-se que ela pode cair na tentação de ser demasiado prosaica, se desse real quotidiano não se emergir poeticamente, para o seu uso transfigurado. Na poesia de Barreto Guimarães, se por vezes essa pretensa narratividade parece conduzir ao abismo do circunstancial e do culto do fait divers quotidiano, a verdade é que a transfiguração metafórica trabalhada, especialmente, no final do poema, eleva e dimensiona esta poesia muito para além dessa experiência do real quotidiano, para uma construção textual que garante a sua função poética. Neste último livro em particular, A Parte pelo Todo, a passagem, ou a mudança de registo, de uma relação física com o real para uma relação mais distanciada, mais desfocada em imagens outras transfiguradas, define-se como uma das prioridades desta arte poética. Neste sentido, parece prosseguir no caminho de um equilíbrio desejado entre a necessidade (e talvez mesmo a prioridade) de comunicar com o leitor, numa enorme cumplicidade, numa espécie de conversa nunca acabada, e uma libertação de lugares de sentido outros que mantêm intacta e inacessível a voz intima deste eu, num permanente exercício de contenção, de sobriedade do não-dito, para que nunca se exponha em demasia, para que nunca a prosa atrapalhe o verso, como se recomenda a toda a verdadeira poesia.»
RUI LAGE, in Dissertação de
Doutoramento «A elegia portuguesa nos séculos XX e XXI - Perda, luto e
desengano», Porto, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2010
«Mas
talvez encontremos o exemplo acabado de uma arte de perder baseada numa
linguagem doméstica em A
parte pelo todo de João Luís Barreto Guimarães. À
semelhança das Elegias de Teixeira de Pascoaes ou
de Agora e na hora da nossa morte de José Agostinho
Baptista, trata-se de efectuar o trabalho do luto – em resposta à perda do
pai do autor – e de encontrar, na própria elegia, uma sepultura simbólica. A
diferença está desde logo na organização tripartida do luto – “Chill”, “Stupor”
e “The letting go” – que, embora reflectindo as três etapas do processo
despoletado pela perda de um ente querido estudadas no quadro da psiquiatria,
vai buscar as designações ao verso final de um poema de Emily Dickinson citado
em epígrafe na abertura do livro: “First – Chill – then Stupor – then the
letting go/ After Great pain, a formal feeling comes -”. Versos onde
ainda se conseguem captar os ecos da metamorfose da perda real em perda ideal
teorizada por Schiller. O livro passa, portanto, pelas três fases:
“chill”, o calafrio, sob efeito do choque da perda, da violenta ruptura
introduzida no quotidiano pela súbita ausência; “stupor”, o estado de
torpor em que mergulha a mente e o corpo ainda incapazes de superar a perda mas
assimilando-a progressivamente; e “the letting go”, o culminar numa
arrumação da pessoa perdida em novos esquemas de afecto formalizados –
cristalizados – na memória e, na elegia, numa arrumação em imagens
compensatórias e substitutos simbólicos. Porque a morte não é aqui um teatro,
um palco para a expressão da dor, mas um facto (sem deixar de ser, para o
sujeito tanto como para o pai que deve ser vestido pela derradeira vez, fato da
morte). Morte física em vez de morte metafísica. Ou, como sugere o título A
parte pelo todo, uma morte metonímica: o concreto da perda está pelo
abstracto a que ela também se poderia prestar, os efeitos da perda no
quotidiano dos vivos pela causa da morte. Pelo que o próprio livro, enquanto
parte pelo todo, está pela morte – e a elegia está pela pessoa morta.
Estratégia seguida em vários dos poemas: a face do pai falecido está pela face
da morte, o fato da morte está pelo facto da morte, a barba que ainda cresce
algumas horas depois do óbito está pela vida que ainda teimava no corpo (e
simboliza a resistência que os sobreviventes ainda oferecem à realidade da
morte), o telemóvel do pai ou o seu Honda vermelho, partes, estão pelo todo
constituído pelo pai enquanto pessoa viva falante e condutora. O sujeito que em
“Recordatório” lembra o ritual de cortar as unhas dos pés do pai
encontra-se sob o efeito do calafrio: está de rastos e não quer ainda
levantar-se mas insistir na presença da vida: “É onde me quero ter:/ eu no
chão rente aos pés dele cortando-lhe/ as unhas dos pés/ (insistindo insistindo/
podando os ramos mais duros)/ entre láudano e cicuta beijando-lhe/ as unhas dos
pés”. Recusa-se “falar” com Deus porque se o fizesse não poderia
calar a sua revolta e diria “uma morte nunca é justa” ou “foi
demasiado cedo”, e alarga então a imagem do telemóvel do pai sem cobertura
de rede (dentro do esquife da morte) a Deus, que “parece dar sempre ocupado”.
Em A parte pelo todo, no quadro de uma rigorosa e austera “arte
de perder”, procura-se manter a ferida aberta – ou reabri-la – antes de se
pensar em fechá-la. Sob o efeito do torpor essa ferida é mantida aberta pela
dissociação ou desfasamento entre o sujeito cativo do luto e o mundo que lhe é
exterior e se concretiza nos episódios da rotina quotidiana, no roteiro dos
lugares-comuns face aos quais ele é um lugar privado e único. Tal roteiro passa
por uma caminhada na praia no termo da qual surge a primeira imagem reparadora:
o que sobrou do pai, “pó de cremação”, servirá para “começar
castelos”, quer dizer, para perseguir a vida, para seguir na sua peugada;
passa pela venda do carro do pai, pelos anti-depressivos, pelo desmaio no
trabalho; passa pela observação dos outros (do Sr. Pio, emigrante de Leste que
aprendeu a urdir o seu próprio curativo, ao contrário do sujeito cuja dor não tem,
para já, cura); e passa pelo alheamento ou “ivresse” no restaurante, até
que, por fim, o ruído normalizador do desafio de futebol vem assinalar a
acomodação da existência à perda, mostrando uma luz ao fundo do túnel (do “país
perdido” de Pessanha, citado em epígrafe), ainda que o remate
de Figo atinja apenas o poste. Com “the letting go” vem
o desengano: reconhece-se como o mar e o vento, entidades inanimadas, não
acusam a passagem do tempo, e que mesmo as sementes contêm uma promessa de
ressurgimento ao passo que nós somos apenas o vazio entre as coisas,
restando-nos a saída de, em prol dos vivos, ultrapassar a morte – a dos outros,
na impossibilidade de ultrapassar a nossa. O luto conclui-se no poema final do
livro, cujos últimos versos têm por destinatário o pai perdido: "Toca
no sexto direito. Estou / sempre por aqui. Ou senão / não venhas hoje. / Faz
como te apetecer." Sabendo que apagá-lo de si seria impossível, o filho
identifica-se com o pai e incorpora-o. O substituto simbólico do pai morto é o
próprio filho. A ausência trocou-se por uma presença continuadora no afecto e
no pensamento daquele que sobreviveu, e aquele que partiu é como alguém que
tivesse partido de casa para nunca mais regressar, deixando aos vivos o
ocasional alarme de quem ouve tocar a campainha quando não está à espera de
visitas. A “Great pain” da perda real foi substituída pela perda ideal,
por um “formal feeling”. E a parte pelo todo.
«João Luís Barreto Guimarães is a poet who
claims for himself an ethnographer’s image. There is an idea of urbanity in his
poetry - both metropolitan and peripheral - and an idea of everyday life - his
daily life as a doctor peeks out of each line in the manner of William
Carlos Williams. His are ways that inflict on the ‘common places’
a disconcerting lyrical sabotage (which is also ironical) that has no parallel
in the most recent Portuguese poetry.»

